Coalho


Toda vila tem seus muitos filhos  naturais e um sem número de outros adotivos. Aqueles  não tiveram escolha, emitiram seus primeiros vagidos no lugar, por mero acaso ou por ditames obscuros da sorte e do destino. Os adotivos, por outro lado, usaram sua sensibilidade e sua empatia na escolha do lugar geográfico onde iriam depositar sua história. Difícil compreender que estranhas forças os impeliram para lugares distantes e muitas vezes inóspitos, sem nos ampararmos nas amarras do fatalismo ou da transcendência. O Crato viveu, durante todo seu percurso, prenhe de uma infinidade de filhos adotivos que aqui chegaram, por obra de estranhas forças e ajudaram a escrever e reescrever muitas linhas da história da Vila de Frei Carlos: Bárbara de Alencar, Martins Filho, os coronéis Antonio Luiz, Álvaro Bomílcar, Jéfferson de Albuquerque, Dr. Antonio Gesteira,  Padre David Moreira, José do Vale Feitosa, Manuel Vieira, Soriano de Albuquerque, João Brígido, isto apenas para citar alguns.                                
                                   Pois bem, hoje, falaremos de um desses importantes filhos adotivos do Crato e que fundiu sua alma ao doce espírito da nossa Vila. Chamava-se Teófilo Artur de Siqueira Cavalcante e nasceu em Palmares , no Pernambuco tão ligado umbilicalmente ao Cariri. Nascido em 1869, veio para o Crato ainda guri, com seu pai, juiz de direito e aqui permaneceu até sua partida definitiva em 1941.  Nas primeiras décadas do Século XX, Teófilo fundou a Pharmácia Siqueira, estabelecida ali na Rua do Fogo ( hoje Senador Pompeu), colada ao nosso primeiro Clube :  “ O Cariri”. O prédio foi demolido ,recentemente, como tem acontecido com todo o Centro Histórico da nossa cidade , numa deliberada e programada incineração do nosso passado glorioso. A Pharmácia Siqueira funcionava como uma espécie de Pronto Socorro da cidade, junto com outros estabelecimentos farmacêuticos da Vila : A Pharmácia Telles, a do Coronel Secundo Chaves, a Botica do Coronel Garrido  e a Central de José Alves de Figueiredo ( o Zuza  da Botica). Mais que isso, elas juntavam , em rodinhas de fim de tarde, toda a intelectualidade da vila, a comentar as últimas notícias, as derradeiras fofocas  e os debates acalorados das áreas:  literária, econômica  e política.
                                   Teófilo era esguio, usava óculos de lentes grossas e tinha um nariz proeminente que lhe imprimia feições parecidas com  a do poeta Manuel Bandeira. Nosso boticário era bem humorado e irreverente. Língua afiadíssima, comentava todas perversões da sociedade provinciana com uma fina argúcia , imersa num comburente molho de malagueta. As suas peripécias faziam parte da nossa doce mitologia cotidiana, cresci ouvindo meu pai , na Livraria Católica, narrar as suas histórias, alegremente, como se viessem de João Grilo,  Cancão de Fogo  ou Pedro Malasartes. Percebendo que se vão esmaecendo estas lembranças nas novas gerações, resolvi registrá-las no papel que tem uma perenidade bem maior que a saliva. Pois aí vão, vendo-as pelo mesmo preço que as comprei !
                                   Aí pelos anos 20, chegou ao Crato um oftalmologista e se estabeleceu na Rua Grande, numa sala agregada à Farmácia Telles , onde depois funcionou o consultório do Dr. Maurício Telles. A novidade espalhou-se rapidamente na região. Se médico naquele tempo era coisa rara, especialista, então, tornava-se artigo para ser tombado pelo IBAMA. A notícia chegou aos ouvidos de Teófilo que não engoliu bem a história. Imaginou, logo, que estabelecido nas  beiradas da farmácia rival, o especialista só iria prescrever remédios da farmácia mais próxima. Começou, imediatamente, a alfinetar o novo esculápio , sem ao menos o conhecer. Um dia, o oculista entrou na Pharmácia Siqueira . Desejava cumprimentar o boticário e apresentar-se , pensando na possibilidade de alimentar uma política de boa vizinhança e, claro, vislumbrando possíveis encaminhamentos de pacientes ao seu consultório. Siqueirinha, o filho do boticário e balconista,  conhecia já o novo profissional e percebendo a aproximação ainda à distância, resolveu pregar uma peça no pai. Abriu o assunto que sabia bastante melindroso:
                                   — Pai, sabia que chegou um novo oculista na cidade?
                                   Teófilo, meio exasperado, respondeu, enquanto o doutor já entrava na botica:
                                   — Soube meu filho ! Pois vá lá em Gonzaga de Melo—que era genro Siqueira– e diga para mandar aqui para farmácia uma carrada de vara !
                                   Siqueirinha, sem compreender, já com o médico junto do balcão, pergunta, ciente da bomba que vem de lá:
                                   — Carrada de vara, papai ? Aqui pra farmácia ? Não entendi !
                                   Teófilo, então, explode a dinamite:
                                   —- Vara, sim, menino ! Pelo qu´eu soube desse oculista novo, o que vai dar dinheiro agora, em farmácia, é vara de puxar cego !
                                   Siqueirinha, por sua vez, aproveita para completar a pegadinha . Virando-se para o oculista, diz:
                                   — Papai, eu quero lhe apresentar este rapaz! Ele é o novo oculista da cidade.
                                   Ao contrário do que esperava o filho, o boticário não perdeu a fleugma. Olho-o da cabeça aos pés, sem demonstrar surpresa e saiu-se com essa:
                                   — Oxente, tá besta menino ! Eu conheço o doutor já de muito tempo, já tava até brincando com ele !
                                   A década de vinte trouxe ao Crato uma das maiores pianistas brasileiras. Conhecida familiarmente por “Chaguinha”, tinha uma grande ligação com o Crato.  Consta que a artista tivera um affair ou um rolo com o nosso Pedro Maia, músico, fotógrafo e motorista, por fim, quando suas folhas começaram a tombar no outono da existência. Pois, bem,  a cidade engalanou-se  para  o show. Armou-se um grande palco na Praça da Sé, onde se instalou um piano de cauda e uma grande mesa que comandaria a importante solenidade. Teófilo fora escolhido como orador do evento. Possivelmente por indicação de Dr. Elysio Figueiredo(1892-1975) de quem era grande amigo. Dr. Elysio, médico,  talvez tenha sido o orador mais brilhante e inspirado que o Cariri  já teve  . Dono de uma memória prodigiosa, de porte atlético e com gestos teatrais tinha o poder de hipnotizar qualquer platéia com sua voz possante e sua erudição. Ele sabia perfeitamente que Teófilo possuía um discurso básico e único adaptável a qualquer ocasião e já o tinha decorado de cabo a rabo. Antes do início da solenidade, procurou o Dr. Irineu Pinheiro(1881-1954), um dos nossos maiores historiadores , o autor de “Éfemerides do Cariri “ e o informou que sabia qual seria a fala de Teófilo naquela noite. Sapecou-lhe o discurso que tinha decorado com sua memória fotográfica. Montada a mesa, antes do concerto, com todas as autoridades locais, inclusive Dr. Elysio e Dr. Irineu, a palavra foi cedida ao orador da noite : Teófilo Siqueira. Encetado o discurso, Dr. Irineu começou a não se agüentar e a rir descontroladamente: saía o pronunciamento igualzinho ao que Dr. Elysio havia há pouco recitado. Nosso historiador necessitou sair de mansinho , sob qualquer pretexto, sem conseguir sustentar a crise de riso. Terminada a solenidade e o concerto inspirado de Chaguinha, Teófilo comentou o descontrole do escritor:
                                   — Tu viu, Elysio a besteira de Irineu? Aquilo é burro, tapado, bocó que só uma porta velha . Também num é pra menos, né ? Ele nasceu no “bê-erre-obró” !
                                   Dr. Elysio sabia que Teófilo , como um ascendente do personagem  “Coxinha”, tinha sempre duas avaliações críticas. Uma na presença do avaliado e outro na sua ausência. Finalizado o concerto, nosso boticário se dirigiu para a pianista e dissolveu-se em elogios:
                                   — D. Chaguinha, eu nunca vi coisa tão linda. A senhora toca como um anjo !  Por um momento eu fechei os olhos e  tive o maior sobressalto, pensei que tinha era morrido e já tinha chegado  no céu ! Isso que a senhora carrega nas mãos não são dedos : são varinhas de condão !
                                   Terminada  a solenidade, voltando para casa, Dr. Elysio pediu, por fim a segunda avaliação da artista. Teófilo olhou para um lado e para o outro, certificando-se que não havia testemunhas outras e soltou o verbo:
                                   —- Elysio, como é que a pessoa não tem vergonha e vem para o Crato dizendo que sabe tocar piano ? A noite toda tengo-tendo-tengo ! Parecia um ferreiro cantando numa gaiola! Uma nota não batia com a outra, rapaz!  Era ver uma casa na chuva, cheia de goteira, as panelas espalhadas pelo chão e os pingos caindo aqui e ali: tém-tém-tém.  
                                   O cratense Vicente Leite ( 1900-1941) foi um artista plástico de fama internacional, considerado por alguns o maior paisagista brasileiro. Aluno da Academia Brasileira de Belas Artes, Vicente foi colega de Portinari e Orlando Teruz.  Muito premiado, Vicente Leite em 1935 recebeu como prêmio, uma viagem pelo Brasil , seu maior sonho. Aproveitou a oportunidade para expor seus trabalhos na sua terra natal , vindo em companhia ilustre do escritor cearense, membro da Academia Brasileira de Letras, Gustavo Barroso (1888-1959).  Sua Exposição foi aberta em Crato com muito estardalhaço e, na inauguração, estiveram presentes, na comitiva principal que acompanhava o pintor e Gustavo Barroso, Dr. Elysio e Teófilo. Antes Dr. Elysio já havia alertado o artista plástico e nosso importante literato sobre a variabilidade das avaliações estéticas do boticário, dependendo, claro, da presença ou ausência do avaliado. Cientes todos destas características, combinaram todos para apreciar a primeira opinião e , depois, se ausentarem Vicente e Gustavo, escondendo-se por perto, para , assim, terem , por fim, aquela outra visão menos pessoal de crítica estética. À medida que a comitiva ia, pouco a pouco, degustando as lindas paisagens do pintor cratense, Teófilo proporcionalmente parecia se extasiar com a beleza das telas e comentava :
                                   — Vicente, isso é uma coisa divina ! Sua arte, meu amigo, é de um realismo difícil de se conceber. Eu acho que você deve , embaixo de cada uma dessas paisagens, botar uma advertência informando que se trata de um quadro. Corre o risco, se não o fizer, de um menino querer trepar num pé de mangueira desse pensando que é de verdade. Eu mesmo, há pouco,  cheguei a pensar em ir buscar minha rede prá armar debaixo dessa braúna à beira do rio.
                                   Os elogios se sucediam até chegar o momento em que  o previamente combinado se realizou. Vicente Leite e Gustavo deram uma desculpa , pediram licença, dizendo que precisariam se ausentar um pouco a fim de resolver algumas pendências da Vernisage.  Sem que ninguém percebesse, esconderam-se por trás de um empanada próxima que fazia a divisória de partes da exposição. Dr. Elysio, então, mandou o mote :
                                   — Teófilo, agora que os homens já saíram, diga prá gente, rapaz, o que é que você tá achando mesmo dos quadros de Vicente Leite ?
                                   Teófilo cubou o ambiente certificando-se da ausência dos autores e não tardou em mandar a glosa:
                                   — Compadre Elysio, mas como é que pode ? A pessoa trazer de tão longe uma porcaria dessa dizendo que é arte ? O sobrenome dele já diz tudo : Leite ! E pode ter certeza, compadre, botaram água nesse leite. Eu não sei não, viu ? Prá fazer uma coisa labrocheira como essa eu acho que só tem um jeito : ele envia o pincel no cu e fica rodando prá lá e prá cá, como um pião doido.Nãããããooooooo!
                                   Por trás da empanada se ouviram gritos abafados e mal contidos. Parece que o leite de Vicente tinha acabado de talhar.  
J. Flávio Vieira

Deixe uma resposta