Arquivos mensais: fevereiro 2012

O Crepúsculo do Corno


E não há carga de fel que não traga juntinho sua xícara de mel, né mesmo ? As limitações que os anos nos vão impingindo nos carreiam alguma dose de experiência. O leitor pode até pensar : mas que o preço é muito alto ! No que preciso concordar, não sem antes inquirir : e tem outro jeito? A outra opção, infelizmente, mostra-se bem pior, assim: dêem-me a carga dos anos com sua infâmia e seus efeitos colaterais , ficarei brincando com o carrinho de rolimã da experiência. Ele não serve prá muita coisa, mas ao menos me engabelará um pouco e esquecerei o nervosismo inexorável dos ponteiros do relógio.

Fiquei esses dias a matutar quanto à mudança nos costumes, não tão diferente da que vemos na paisagem da nossa cidade. Há alguns anos, estudando alemão, perguntei ao meu professor sobre palavrões da língua germânica ( facílimos de um aluno decorar, pela curiosidade que despertam). Aos poucos os fui citando em português e o professor , oriundo de Berlim, me ia traduzindo. Em determinado ponto, gritei : Corno.! Ele não compreendeu e eu precisei explicar do que se tratava. Qual não foi minha surpresa quando, explicado o palavrão, o mestre simplesmente concluiu: — Não existe este palavrão na Alemanha, isso lá não é nome feio. Fiquei surpreso pois ,no Nordeste brasileiro, existia uma pena de Talião para os casos de infidelidade feminina, não tão diferente daquela aplicada ainda hoje em alguns países da África e Ásia. Firmei bem a infidelidade como feminina, porque a do gênero masculino sempre foi perfeitamente aceita como tolerável , normal e necessária. Nem mesmo existe o substantivo feminino de Corno. Em compensação , o peso que recaia sobre o homem em caso de cair nessa condição era simplesmente terrível: um cargo vitalício e quase impossível de transportar , tamanha a ignomínia que impingia ao agraciado.

As gerações anteriores à minha tinham uma perspectiva muito diferente de casamento. Geralmente não acontecia qualquer envolvimento romântico, muitas vezes havia acordos de famílias, não muito diferente dos enlaces matrimoniais da monarquia. O casal firmava-se no ideal de gerar e criar os filhos e manter o patrimônio familiar. O prazer o homem procurava nos bordéis e nas senzalas: era um absurdo fornicar com a mãe dos próprios filhos, uma verdadeira tara sexual. E à mulher não se permitia ser muito mais que uma fábrica de bruguelos. Mas as folhinhas do calendário foram pouco a pouco sendo desfolhadas. As autoridades familiar e religiosa terminaram com seus grilhões arrebentados. As gerações subseqüentes , principalmente após os libertários anos 60, vislumbraram horizontes até então invisíveis. Caíram por terra os mitos da virgindade, da gravidez indesejada, do casamento arranjado, do papel de ator coadjuvante da mulher, das galés perpétuas do matrimônio. O prazer deixou de ser um pecado execrável e tornou-se uma busca importante e necessária. E o Tesão terminou por ser aceito e cultivado. E o casamento alçou um outro patamar: são mais voláteis e mais verdadeiros, existem sobre as mais variadas formas ( chamegos, ficas, amizades coloridas, rolos, ajuntamentos ) e prescindem muitas vezes da bênção religiosa, civil e social.

Todo esse vendaval levou ao franco declínio do Corno. Deixou de ser palavrão como na Alemanha, tem até Associação que os congrega e também aliviou um pouco o peso sobre os maridos traídos e , principalmente, sobre as mulheres que já não são apedrejadas em praça pública como outrora. A avalanche dos meios de comunicação abriu infinitas possibilidades no ramo da infidelidade. Os tipos tradicionais do folclore popular se desvaneceram com as imensas variedades aparecidas : Corno Facebook, MSN, I Pod, I Pad, Virtual, Maria da Penha. E o corno já não mais faz sucesso, já não é mais apontado na rua , nem corre o risco de ser cadastrado pelo IBAMA. De tão freqüente , perdeu a graça e, também, os outros se eximem de criticar porque, no fundo, todos os homens sabem que como num consórcio, participando do jogo, um dia cada um pode ser contemplado.

Um querido amigo que partiu recentemente dizia que a Cornagem tinha se tornado uma coisa tão séria que, inclusive, já seguia rigorosamente as Leis da Física. “Um Corno em movimento, tende a continuar em movimento”, ou seja tende a repetir a carga por outras vezes : primeira Lei de Newton. “A Toda ação do homem em procurar de cornear a Mulher, existe uma Reação da companheira de mesma intensidade e em sentido contrário” , segunda Lei de Newton. “Um corno atrai outro na razão direta da cornagem recebida e no inverso do quadrado da distância dos ricardões” , Lei da Gravitação Universal que explica a necessidade dos cornos se reunirem e associarem. Inclusive, dizia esse amigo, já houve repercussão até na Física Moderna. Existe, segundo ele, A Teoria da Relatividade da Cornagem. Ou seja : ser corno é relativo. Se eu descobrir que sou corno em Salitre, eu mato a mulher e o amante ; se eu descobrir o mesmo aqui em Crato, mato o amante; se em Fortaleza não mato ninguém, só me separo; agora se morar no Rio de Janeiro e não for corno, vou ficar preocupado e deprimido: por que ninguém quer essa mulher, meu Deus? Aí sou capaz de me suicidar.

J. Flávio Vieira

Inscrições Prorrogadas – Projeto No Terreiro dos Brincantes até dia 16

Inscrições para Monitória do Projeto No Terreiro dos Brincantes foram prorrogadas até quinta-feira, dia 16 de fevereiro. As inscrições estão sendo feitas na Secretaria de Cultura do Crato ( Largo da REFSA).

Podem se inscrever estudantes das universidades/faculdades públicas e particulares da região do Cariri.

O que é necessário para inscrição?

Preenchimento de Formulário Padrão e entrega de currículo
Informações: (88)96616516

O que é o Projeto?


O Projeto “No Terreiro dos Brincantes” consiste no registro e produção de documentários sobre as manifestações da cultura popular da Região do Cariri e é desenvolvido pelo Instituto Ecológico e Cultural Martins Filho – IEC da Universidade Regional do Cariri, Coletivo Camaradas e conta com a parceria da Secretaria de Cultura, Esporte e Juventude do Crato.

Lider do Caldeirão terá missa de 66 anos de morte em Juazeiro do Norte

A missa acontece nesta segunda-feira, às 17 horas, na Igreja do Socorro.

O líder religioso e político Beato José Lourenço fez neste domingo, dia 12, aniversário de 66 anos de morte. José Lourenço foi uma das figuras centrais da comunidade do Caldeirão dizimada pelas forças militares do Estado e com o consentimento da Igreja Católica.

A comunidade do Caldeirão localizada no Sitio Baixa Dantas no Crato, abrigou trabalhadores rurais de diversos estados encaminhados pelo Padre Cícero e se desenvolveu a partir de preceitos do catolicismo popular e do trabalho. A comunidade possuía um sistema de produção e distribuição de forma coletiva, se caracterizando como espaço de cunho socialista. Em cerca de 10 anos a comunidade se transformou num local de fartura e alimento para a alma.

Nesta segunda, 13 de fevereiro, às 17h00 na Igreja do Socorro em Juazeiro do Norte será celebrada a tradicional missa do líder organizada ONG Beato José Lourenço, sob coordenação de Pedro Andrade, um dos poucos remanescentes da comunidade. O qual vem trabalhando há alguns anos pelo resgate da memória histórica da comunidade cruelmente aniquilada pelas elites econômicas e religiosas por defenderem a distribuição da produção, da terra e da fatura e se basearem no catolicismo popular.

Curso sobre artes “para não artistas” é realizado para universitários do Cariri

Com o intuito de discutir novos fazeres e perspectivas da arte na contemporaneidade com pessoas que estão fora dos espaços artísticos, o Coletivo Camaradas realiza deste o início de fevereiro, o curso sobre artes “para não artistas”. O curso é direcionado para estudantes universitários que estão como monitores no Laboratório de Estudos, Vivencias e Experimentos em Arte Contemporânea – LEVE Arte Contemporânea realizado pelo grupo em parceria com outras instituições.
O Laboratório vem sendo desenvolvido desde o ano passado com alunos de escolas públicas do Crato e já resultou na produção de seis vídeos pedagógicos que poderão ser utilizados por professores de Artes nas suas aulas e na Exposição “De não artistas” que está sendo exibida na Galeria do SESC Juazeiro.
Já mês de março, os monitores estarão visitando as escolas de Ensino Médio da cidade do Crato para inicia os trabalhos de parcerias com as escolas. A intenção é beneficiar 20 alunos de cada escola que terão a oportunidade de terem contatos com artistas, galerias de artes, espetáculos, materiais de estudos e ações de intervenções urbanas, performances e produção de vídeos para auxiliar os professores de Artes.

Versos e cantorias – Emerson Monteiro

Este final de semana, de 10 a 12 de março de 2012, corresponde à realização, em Crato, do Seminário do Verso Popular em sua terceira edição, que, desta vez, corresponde aos 21 anos de existência da Academia dos Cordelistas do Crato, e consta do programa exposições, painéis, palestras, conferências, homenagens, oficinas de xilogravura e cordéis, minicursos, feiras, mesas redondas, apresentações de trabalhos científicos, sessões de vídeos, recitais, lançamentos de cordéis, posse de novos acadêmicos, apresentações de humor e música regional, numa festa da cultura popular nordestina digna dos melhores encômios.

A coerência cultural com que se criou, no tempo certo de duas décadas passadas, a Academia dos Cordelistas do Crato ora resulta no patrimônio universal dessa literatura, circunscrevendo o âmbito das manifestações artísticas do mundo inteiro qual mérito de registro necessário.

O Nordeste brasileiro preserva suas origens medievais como nenhum outro território deste mundo, enquanto a fundação dessa instituição do verso popular aqui reúne valores exponenciais em grupo de riqueza ímpar. Autores talentosos, de oficina própria e edições que já remontam a casa dos dois milhares, atualizadas fontes da leveza das rimas e do gênero, a fonte primeira da grande literatura em juventude perene.

De particular, noticio, pois, fortes sentimentos da satisfação experimentada nestes momentos do Seminário de Verso Popular do corrente ano. Houve blocos distintos na sede da Academia, no Largo da RFFSA e no SESC – Crato. Ocorreu, concomitante, a distribuição de obras editadas pelo Projeto Livro de Graça na Praça, idealização exitosa do mineiro José Mauro da Costa, pioneiro dessa função de expandir o livro ao povo nos quatro cantos do País, também um dos conferencistas do evento, no domingo à noite. E no sábado à cantoria dos jovens expoentes da atual cantoria, Ismael Pereira e Jonas Bezerra, testemunhas autênticas do menestrel sertanejo, provas inconteste da sapiência humana por meio dessa expressão natural do verso violado.

No decorrer das manifestações, as presenças de Josenir Lacerda, Tranquilino Ripuxado, João do Crato, Mana do Romualdo, Dalinha Catunda, Pedro Costa, Eugênio Dantas, João Nicodemos, Miguel Teles, Abidoral Jamacaru, Jorge Carvalho, Pedro Bandeira, Bastinha, Poeta Nascimento, Maércio Lopes, Ginevaldo, Pedro Ernesto, Luciano Carneiro, Arievaldo, Gildemar, Willian Brito, Anilda Figueiredo, Wiliana, Carlos Henrique, Sandra Alvino, Chico Pedrosa, Maria do Rosário, Higino, Moreira de Acopiara, Ulisses Germano, Seu Zezé, Alexandre Lucas,Vicente, Vandinho Pereira, Aldemá de Morais, Zé Joel, Raul Poeta, Nizete, Manuel Patrício, dentre outros da intelectualidade caririense, razões do sucesso das ações desenvolvidas. Para formar juízo claro da importância do acontecimento, veio dele participar o autor Gonçalo Ferreira da Silva, atual Presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel.

SAIBA AGORA QUEM SÃO “OS CAMARADAS”

O COLETIVO CAMARADAS
AUTOR: Hamurábi Batista

Coletivo camaradas
É de luta, é de ação,
No intuito de promover
Grande mobilização
Pelas artes, a estética
Da cultura e educação.

As camadas populares
Engajam-se no processo
Pra barrar a exploração
Em nome do tal progresso
Da mentira imperialista
E todo seu retrocesso.

Além do questionamento
E o caráter engajado
É a arte libertando
O pensamento ofuscado
Do consumismo absurdo
Do gosto manipulado.

Desde o ano 2007
O Coletivo criado
Interveio, e atuou
Como foi idealizado
De lá pra cá construímos
Um movimento engajado.

Exposições,e debates,
Oficinas, instalações,
Performances poéticas
Palestras, e exibições
Com musicais, e debates,
Estéticas, intervenções.

Uma arte engajada
No contexto social
Inclusiva, atuante,
Brilhante, fenomenal,
Excelente, estimulante,
Política, e cultural.

Procura a comunidade
Pra fazer integração
E transformar pela arte
A atual situação
Excluída e sem acesso
Ao poder de criação.

Em defesa incessante
Do patrimônio cultural
E dos maiores tesouros
De valor imaterial,
Meio ambiente, ecologia,
E o conflito social.

Coletivo Camaradas,
Pela biodiversidade,
Ao resgate ambiental
Em plena modernidade
Da falta de consciência
Das pessoas da cidade.

Atuação objetiva
Na defesa ambiental
Esforços na intenção
Do diálogo vivencial
Em favor da natureza
O grande manancial.

O coletivo procura
Primeiro conscientizar
Com intervenção urbana
Desenvolver, informar,
Com a pessoa interagir
Para poder transformar.

Questiona a exploração
Da religiosidade
De fundo comercial
Praticada na cidade
Religião por dinheiro
E não pela caridade.

A dura realidade
Que o Coletivo encarou
Chegou no meio da rua
Pra começar contestou
E contra o preconceito
A sua luta engajou.

Busca a conscientização
Contrária a homofobia,
A violência gratuita,
Estupidez, covardia;
Lutando pelo respeito,
Em convivência e harmonia.

Seja em meio acadêmico
Ou em reduto popular
Inspiração coletiva
Na arte de inventar
O exercício da cultura
E o poder de libertar.

A cidade é um espaço
Pra fazer reflexão
É a tendência no campo
da arte na região
intervenção, liberdade
do Coletivo em ação.

Enxergar no espaço urbano,
novas formas e a cultura
Linguagens, Intervenções
Os fazeres e a estrutura
E os discursos da arte
Com grande desenvoltura.

Coletivo Camaradas
com inspiração Marxista
A arte é compreendida
Na tendência progressista
Materialismo Dialético
Por uma arte socialista.

A arte como elemento
Em prol da revolução
Para mudar o sistema
De injustiça e exploração
Do império capitalista
De fome e escravidão.

Apresentar os caminhos
Pro fazer intelectual,
Pelo acesso de todos
À produção cultural,
Pra libertação da gente,
Pra justiça social.

Então venha conhecer
Assistir, participar
Redescobrir a cultura,
Conhecer, vivenciar
Encontrar no coletivo
A força para lutar.

FIM

SERVIÇO:
Informações de como participar
[email protected]
(88)96616516