Arquivos mensais: março 2010

Curso na área de cultura

Com término programado para esta sexta-feira (19), a Secretaria de Cultura da Prefeitura de Juazeiro do Norte participa do programa de capacitação em projetos culturais do Ministério da Cultura. O evento acontece no Hotel Verdes Vales, em Juazeiro. Para o Ministério da Cultura (MC), o programa busca do ponto de vista acadêmico e na prática, que o produtor cultural desempenhe suas funções de forma adequada. Esta é uma das políticas culturais do Governo Federal, para fortalecer a capacidade de gestão dos agentes produtores de cultura.

Lei de Direitos Autorais

As novas regras para o direito autoral, que vão à consulta pública em breve, atingem diretamente os estudantes brasileiros, pois tratam da democratização do conhecimento que é produzido nas universidades, bem como sua circulação no meio acadêmico.

A Lei de Direitos Autorais (a chamada LDA, lei 9.610, de 1998) não permite que músicas, filmes, fotos, cópias de textos – mesmo aqueles que estão fora de circulação comercial – sejam usados para fins didáticos e educacionais. Escolas e universidades, assim como organizações não-governamentais que trabalham com atividades de formação, estão sujeitas a esses limites.
Depois de um processo de audiências iniciado em 2007 com diversos setores da sociedade civil, o Ministério da Cultura elaborou um anteprojeto de lei para a reforma da LDA, que está prestes a ser aberto para consulta pública, antes de ser encaminhado para votação no Congresso. A previsão é que a consulta se inicie ainda em março, de acordo com o Ministério.

“É conhecido o caso de fechamento de copiadoras, principalmente nas universidades particulares, que xerocam materiais usados puramente com fins acadêmicos. Em alguns casos, não é permitido copiar sequer uma folha! Precisamos então de novas regras que permitam o acesso a trechos de obras com finalidade acadêmica”, alerta Fellipe Redó – Diretor de Cultura da UNE, que chama os estudantes a se informarem e se envolverem mais neste tema, extremamente importante – tanto na democratização, quanto na desburocratização dos meios de circulação de conteúdos.

Entenda como a lei de direitos autorais tem impacto sobre a educação, e o que está sendo discutido na reforma:
A Lei de Diretrizes e Bases da educação nacional (LDB) estabelece como princípios “a liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber”, bem como “o pluralismo de idéias e concepções pedagógicas”. No entanto, a legislação autoral e os critérios de comercialização de livros didáticos restringem o exercício desses direitos.

Vamos acompanhar e nos integrar ao debate!

Fonte: Observatório da Educação

Escola Polivalente tem oficina com artista Júnior Érre

Escola Polivalente recebe oficina do artista Júnior Érre Reaproveitar revistas velhas para fazer arte é um dos intuitos oficina ministrada pelo artista plástico Júnior Érre que está sendo realizada na EEFM Polivalente Governador Adauto Bezerra no Crato. A oficina teve início nesta terça-feira e se prolongará até o dia 19 deste mês. A oficina é fruto da parceria entre o Ponto de Cultura Mestre Noza, Coletivo Camaradas e direção da Escola.
Júnior Érre é um dos grandes nomes das artes visuais do Estado do Ceará , além de artista plástico, ele é poeta, compositor, músico e produtor cultural. Formado pelas ruas como costuma dizer, publicou seus trabalhos em muros e asfaltos, depois em fanzines como Séquiço, Fome, Ovni, Jornal Censurado e cartões poéticos. Ele é um dos artistas que tem uma preocupação técnica e discursiva nos seus trabalhos. Desde a década de oitenta, Júnior vem contribuindo para a arte e com os artistas na região do Cariri, desde a organização de eventos artísticos como na luta política da categoria.
Junior Érrer já realizou e participou de várias exposições coletivas e individuais no Ceará e em outros estados brasileiros. A direção da escola tem o objetivo com aproximar a arte para do cotidiano dos alunos. Ainda serão realizadas outras oficinas, como teatro, xilogravura, rodas de conversa com artistas e foi criado recentemente o Coletivo de Estudos e Vivências em Arte Contemporânea – COLEPOLI.

Instrumental & Qual – O Som da Terra nº 5

Programa radiofônico de música instrumental que será veiculado nesta quarta, dia 17/03, das 14 às 15 horas, pela Rádio Educadora do Cariri AM 1.020 e Internet (cratinho.blogspot.com) .

Roteiro musical (composições e intérpretes)
1. Bourée (Jethro Tull)
2. Woodward Avenue (Yusef Lattef)
3. Maracangalha (A Cor do Som)
4. Mountain (Chick Corea e Béla Fleck)
5. Um bilhete pra Didi (Novos Baianos)
6. Verano Porteño (Astor Piazzolla)
7. 1×0 (Pixinguinha)
8. I Wish (Najee Rasheed)
9. Serenata no Joá (Leo Gandelman)
10. Peter Gunn (Henry Mancini)
11. Trenzinho do Caipira (Egberto Gismonti)

Ficha Técnica
O programa Instrumental & Qual – O Som da Terra é uma produção das Officinas de Cultura e Artes & Produtos Derivados (OCA) e revista virtual Cariricult, com apoio do Centro Cultural Banco do Nordeste em parceria com a Rádio Educadora do Cariri AM 1.020.
Redação e programação musical: Luiz Carlos Salatiel, Dihelson Mendonça e Carlos Rafael Dias.
Apoio logístico: Guilherme Farade e Amilton Som – CDs, DVs e Acessórios.
Apresentação: Carlos Rafael Dias.
Operador de Áudio: Iderval Silva.
Operador de transmissão: Iran Barreto.
Gerente do Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri: Lenin Falcão.
Direto da Rádio Educadora do Cariri: Geraldo Correia Braga.

Fique ligado!

DEFINIDA A LOGOMARCA OFICIAL PARA O CENTENÁRIO DE JUAZEIRO DO NORTE E-mail Imprimir PDF


A proposta vencedora e que se tornará a logomarca oficial do Centenário de Juazeiro do Norte é de um artista plástico do município. Cícero Reginaldo Farias da Silva, de 37 anos, residente na Rua Todos os Santos, 334 (Centro) concorreu com mais 85 proposições oriundas de São Paulo, Fortaleza, Recife, Juazeiro, Crato e outras localidades. O resultado oficial emanado da Comissão Organizadora do Centenário de Juazeiro do Norte será publicado nesta terça-feira no Diário Oficial do Município.

O ganhador foi informado pelo secretário executivo da comissão, Renato Dantas, na manhã desta segunda-feira e vai receber o prêmio das mãos do prefeito Manoel Santana em data a ser definida. Reginaldo não escondeu a alegria da vitória e o orgulho de ter uma arte sua escolhida para uma festa tão importante como a dos 100 anos de Juazeiro. Doravante, o trabalho dele vai figurar em todas as peças referentes às comemorações que estão sendo preparados pelo município.

Reginaldo explica a concepção da logomarca a partir da utilização da estátua de Padre Cícero como destaque. Segundo ele, a cor dourada do número 100 enfatiza a grandiosidade, importância e beleza do evento que representará um marco na história de Juazeiro. Quanto ao laço que contém a inscrição “Centenário de Juazeiro do Norte”, diz representar a união de vários elementos como a reprodução da ladeira do Horto, as fitas utilizadas pelos romeiros e a lembrança da hospitalidade dos juazeirenses.

Explica ainda que a fita vermelha sugere um laço que “abraça apaixonadamente” todas as imagens da logomarca, indicando que Juazeiro está sendo reverenciado e cuidado com dedicação. Uma das imagens envolvidas pelo laço, conforme Reginaldo, remete à linha do tempo com referências ao Juazeiro primitivo, a Igreja Matriz, um cruzeiro indicando a religiosidade e dois pés de Juazeiro, árvore que deu nome à cidade. Os envelopes foram aberto pela comissão no dia 4 de março na Casa Paroquial.

Antes, o advogado Jônio Sampaio teceu comentários e deu explicações sobre o edital. A comissão não teve acesso aos nomes dos candidatos na hora de analisar cada proposta. Algumas delas foram desclassificadas previamente por não atender a todas as exigências. O presidente da comissão, Geraldo Menezes Barbosa, coordenou os trabalhos que durou um dia inteiro. Já o Secretário de Turismo e Romarias, José Carlos dos Santos, manifestou satisfação mediante a quantidade e o nível das propostas.

CABELO DO CÃO É ELEITO JUDAS 2010

Evandro Rogério dos Santos, conhecido como “Cabelo do Cão”, que assassinou friamente, em 2009, o mendigo Geraldo Siqueira Alves, o Geraldo “dono do Banco do Brasil”, figura folclórica de Juazeiro do Norte-CE, foi eleito “Judas” em Crato-CE. O meliante já havia matado sua mulher, quando vivia em Pernambuco. Ele simboliza a violência e a criminalidade que apavoram cidadãos e cidadãs.

10ª FESTA POPULAR DA MALHAÇÃO DO JUDAS 2010

ELEIÇÃO DO JUDAS – ATA DE APURAÇÃO

Aos 14 dias do mês de março do ano 2010, sob a Coordenação Geral do prof. Cacá Araújo, concluiu-se, no Bar do Evandro – Escritório Central da Malhação do Judas, sito à rua Ratisbona, n.º 375, Crato-CE, a apuração dos votos do Judas 2010. Após a totalização dos sufrágios, verificou-se que participaram do pleito 11.995 votantes. Concluída a contagem, não havendo nenhum recurso impetrado por quaisquer dos indicados reclamando para si o direito de subir à forca no dia 3 de abril do corrente ano, Sábado de Aleluia, no Largo da RFFSA – Centro Cultural do Araripe / Crato, em virtude de haver traído o povo com requinte de maior sacanagem e ou maldade, gozando de maior índice de antipatia, o Presidente da Junta Eleitoral do Judas 2010, Evandro Saraiva Primo, proclamou o resultado da eleição, que vai consignado na presente ata, na ordem decrescente do número de sufrágios recebidos, ficando autorizada a severa malhação do eleito.
ELEITO: Cabelo do Cão (Nº de Votos: 6.334 – 52,80%)
1º Suplente: Big Brother (Nº de Votos: 1.694 – 14,12%)
2º Suplente: José Roberto Arruda (Nº de Votos: 1.615 – 13,46%)
3º Suplente: Violentino – O Monstro da Insegurança (Nº de Votos: 1.416 – 11,00%)
4º Suplente: Madame Doença (Nº de Votos: 501 – 4,17%)
Nulos – Nº de Votos: 128 (1,90%)
Em Branco – Nº de Votos: 307 (2,55%)
TOTAL DE VOTANTES: 11.995
Nada mais havendo a tratar, foi declarada encerrada a apuração, cujo resultado será distribuído a toda a imprensa, seja ela falada, escrita, televisada, internetizada, psicografada, gesticulada, ou fuxicada. “E era só”. JUNTA ELEITORAL DO JUDAS: Presidente – Evandro Saraiva Primo; Secretária – Lílian de Carvalho Araújo; Orador Oficial – Chico Morais; Coordenadora de Trânsito de Urnas – Joseany Ferreira Oliveira Lobo; Delegado da Fronteira Crato-Juazeiro – Edilberton Menezes Joquinha; Chefe de Segurança – Valdenôr de Araújo.

PROGRAMAÇÃO

Malhação do Judas: dia 3 de abril de 2010 (Sábado de Aleluia)

14 horas: 1. Cortejo do Judas, acompanhado pelo Grupo de Caretas do Distrito da Bela Vista, Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto, Catirinas e Mateus, Boi, Burrinha e Jaraguá de reisados locais, por atores em seus personagens regionais Chica Curuja (Joseany Oliveira), Geroplícia (Orleyna Moura), Zé de Baca (Cacá Araújo), Buneca de Lôça (Mª Isaura Araújo), Chicó (Flávio Rocha), Sivirino Cipó Cravo (Franciolli Luciano), Maria Capionga (Tereza Cândido), Fofolete do Sertão (Gabriela Melo), Zefa Rapa-Côco (Charline Moura), Eufrosina Barraquêra (Lílian Carvalho), Carrim do Bago Mole (Edival Dias), Cabôco Fumadô (Jardas Araújo), Cumade Meropéia (Mônica Batista), Tanajura Cafuné (Jonyzia Fernandes), Perpa Criolina (Lorenna Jéssica), Lôra do Banhêro (Françoi Fernandes), Cão Côxo (Josernany Oliveira), Serpentina Vuadora (Joênio Alves), Mutuca Lombrada (Felipe Tavares), Carrapato de Musquito (Márcio Silvestre), Medusa Bombril (Andecieli Martins), Dona Pomba (Mariana Nunes), Tranquilino Ripuxado (Pedro Ernesto Morais), Coroné Barduíno (Adauberto Amorim), Cabinha do Babado (Paulo Henrique Macêdo), Luizinho Brega Star (Tio Bibi), Vitalino Fura-Fura (Lifanco), Zé Bocoió (Aécio Ramos), Maria Matusquela (Teresa Ramos) e Raul Canga-Seixas, Jurema Catolé (Carla Hemanuela), Beata do Chafurdo Bom (Kelyenne Maia), Virgulino Goiaba (Danilo Brito). Seguem animados com carro-de-som pelo trecho: Centro (Bodega do Joquinha, rua dos Cariris) – Praça 3 de Maio – Praça Siqueira Campos – Praça da Sé – Bar do Gil – Rua da Vala – Av. Duque de Caxias – Rua São Francisco – Rua Mons. Assis Feitosa – Centro Cultural do Araripe.
16 horas: 1. Chegada ao Sítio do Judas, montado no Centro Cultural do Araripe, onde o traidor permanecerá até a hora de seu julgamento e malhação, sob a vigilância dos Caretas; 2. Tradicional roubo do Sítio do Judas: Os Caretas vigiam o sítio montado e açoitam com chicotadas os que ousarem roubar. A façanha é sair do sítio sem apanhar (e com o roubo).
18:30 horas: 1. Leitura do Testamento do Judas, elaborado em versos (cordel); 2. Malhação do Judas, com show pirotécnico e artistas circenses em perna-de-pau com malabares de fogo.
19:30 horas: 1. Forró pé-de-serra com Luizinho Brega Star, Sílvio Clay e Trio Flor do Pequi.
22:00 horas: Encerramento.

Realização:
Sociedade Cariri das Artes – Ponto de Cultura do Brasil
Cia. Cearense de Teatro Brincante
Circo-Escola Alegria / Projeto Circo do Sopé

Parceria:
Secretaria de Cultura do Município do Crato
Coletivo Camaradas
Centro de Ativação Cultural Poeta Cego Aderaldo
Sociedade de Cultura Artística do Crato

Patrocínio:
Prefeitura Municipal do Crato
SECULT / Governo do Estado do Ceará
Ministério da Cultura / Governo Federal

Eita mundão sem cancela! – Emerson Monteiro

Por vezes o atendi na Carteira Agrícola, proprietário e ativo agropecurista era sempre alegre e conversador, buscava seus empréstimos ou acertava suas contas no Banco do Brasil. José Inácio de Lucena, conhecido por Zequinha Chicote, guardava a fama de homem disposto, membro de família tradicional de Brejo Santo, lugar de histórias aguerridas de um passado conhecido pela saga dos seus primeiros habitantes. Dele uma frase característica definia bem o jeito de ser:
– Eita mundão sem cancela! – de longe sabíamos quem chegava, no chiste acompanhado da mais sonora gargalhada que preenchia o recinto, introdução para início de conversa seguida dos assuntos diários, bancários, negociais, técnicos…
Todo colega gostava dele. Ouvíamos tantas vezes narrativas de sua liderança, o respeito que lhe tinham seus pares, as proezas pelas quais houvera de passar nos confrontos dessa vida. Dado ao que desse e viesse, jamais se dobrava às contingências.
Quase todo final de semana me deslocava ao Crato, para a casa de meus pais. Organizava o passeio saudosista preso às amizades que deixara, o gosto por literatura, bebida, rádio, namorada, saídas aos pés de serra, um apego exacerbado à vida adolescente em diminuição. Livrarias, cinemas, bares. Em poucas oportunidades ficava no Brejo, onde tomara posse no banco em junho de 1967. Raras ocasiões permaneci, apenas em dias de festa, de acontecimentos marcantes, ou movido pelo coração, nalguns momentos especiais.
Retornava nas segundas de madrugada, em uma rural azul pertencente a Tércio Siebra, colega que fretava o veículo à turma do Crato, Zé Vicente, Bartolomeu, Seu Zé Siebra, Zé Oton, que ficava em Barbalha, e eu. Certas viagens ocorriam ainda no domingo à noite. Outras, a maioria, nas madrugadas da segunda, ressacados, saudosos, sonolentos, apressados, a fim de chegar no tempo do expediente rigoroso.
Num desses fins de semana, lembro bem, retornei ainda no domingo de tarde. Na véspera, no Bar Alvorada, centro da cidade, bem na frente da praça principal, enquanto bebia com amigos, Zequinha Chicote morrera alvejado com disparos de arma de fogo.
Algo tocara meu sentimento ao saber da notícia. Era dia nublado, desses quase escuros que prenunciam chuvas no sertão, e saí pelas ruas desertas da tarde, a rever na lembrança a figura daquele personagem do nosso cotidiano, um mutuário da Carteira. Alguma coisa restaria a menos diante do universo de funcionários procedentes das variadas origens que ali se encontravam tangidos para o trabalho. Levávamos existência burocrática, meio estrangeira, sobretudo, daí uníamos nossas histórias às dos moradores do lugar.
Com a perda de Zequinha Chicote, dia anterior, se fechara cancela de alegria daquele mundão primoroso, o que cheguei mesmo a pensar alguma cancela houvesse, face ao grito recorrente quantas vezes escutado:
– Eita mundão sem cancela!…

A Patota

Sei que a gíria é meio obsoleta , meio bandeirosa, mas que jeito? Eles vinham juntos desde os bancos de escola e era assim mesmo que denominavam a turminha : A Patota! Vararam, durante a juventude, os cursos primário e secundário sempre unidos . Foram companheiros inseparáveis no futebol, nas tertúlias , nas bebedeiras de fins de semana. Com o passar dos anos, alguns tiveram que procurar a extensão dos estudos na capital, outros terminaram ficando ali, ganhando a vida no comércio ou como barnabés. Mantiveram, no entanto, o pessoal unido, sempre se juntando em fins de tarde e de semana. Aos poucos, quando os que tinham ido estudar fora começaram a voltar, com o canudo embaixo do braço, o grupo rapidamente se refez. Testemunhas de uma mesma gloriosa geração, nada os conseguiu separar: tempo, nível escolar, condição econômica. Inconscientemente percebiam que o quebra-cabeças da história da vida de todos dependia de cada pecinha que os membros da patota guardavam cuidadosamente, como uma espécie de Santo Grall. O torvelinho da vida tentou em vão dispersá-los. Paulatinamente foram casando, constituindo família. Esperava-se um afastamento maior da turma, até porque lhes manchava o currículo uma longa folha corrida de bebedeiras , de boêmia desenfreada, de raparigagem reiterada. E a cidade era pequena e conhecia muito bem toda a trupe e suas peripécias. Ao que parece, no entanto, havia uma acordo tácito entre todos. Ainda no noivado, as coisas eram deixadas às claras com a futura esposa: exigia-se um aditivo ao contrato nupcial rezando a total impossibilidade de se dissolver a Patota. Algumas mais ciumentas que acataram as exigências no início e, com o passar dos dias, tentaram arrancar os maridos dos encontros, o que mais conseguiram foi destruir o casamento.
Havia algumas esposas mais inteligentes e que ao invés de lutar contra a maré, procuravam se aliar ao inimigo. Tentavam se integrar às reuniões da patota, coisa bastante complicada, pois aquilo sempre fora uma espécie de Clube do Bolinha. A Patota desenvolvera vacinas contra estas possíveis investidas. Estabeleceram atividades lúdicas variadas, insuportáveis para o sexo feminino: carteado que varava noite adentro, rachas futebolísticos, alpinismo em morros próximos, encontros em botequins de periferia. Até uma adesão em massa à ‘Loja Maçônica Gurreiros Espartanos” se projetou, com a certeza que ali mulher, definitivamente não tem acesso e, mais, o segredo não pode, em nenhuma circunstância, ser quebrado. Estas atividades iam, periodicamente, se revezando. A última invenção havia sido a da maçonaria que acabou por terra quando Dona Diva , a esposa de Argemiro, um dos principais dirigentes da Patota, acabou tendo uma surpresa. O marido estava promovendo festas brancas em uma outra casa e já tinha um exército com três bravinhos guerreiros espartanos.
No sábado, na reunião no botequim de Godô, a Patota viu-se na necessidade de mudar a tática. Estabeleceu, então, a pescaria de fim de semana. A idéia não podia ter sido melhor. Deslocando-se sempre para lugares inóspitos, em beira de açudes distantes da cidade, mulher nenhuma queria acompanhar um esporte radical daqueles. Algumas até que tentaram segui-los por ciúme e curiosidade, mas não passavam da primeira tentativa. O frio, o cansaço, os mosquitos, o despescar das redes que varava a noite, a dormida incômoda, a bebedeira da turma, quem diabos lá agüentava uma coisa daquelas? Quando alguma patroa mais renitente resolvia ir, a coisa andava conforme o figurino. O mais das vezes, no entanto, a pescaria rapidamente se desviava para as orgias de sempre : cachaça e mulheres. Aquela , certamente terá sido uma das desculpas mais duradouras da Patota e durou muitos anos. Tanto e tanto que seus membros, aos poucos, passaram a descuidar dos álibis necessários.
Semana passada, Quintiliano já ia chegando em casa, quando lembrou que não levava uma piaba sequer como produto da sua pescaria de todo final de semana. Correu rápido ao mercado e comprou uns três quilos de pescado. Chegando a casa, uma Dalva desconfiada o esperava à porta. Nosso Martim-Pescador, com cara de cansado, a entregou-lhe o saco, não sem antes explicar que o lugar da pescaria, lá em Lavras da Mangabeira, quase não tinha peixe, estava quase batendo piaba. Dalva, com olhos de Sherlock Holmes, revolveu o saco e , com uma purga atrás da orelha, começou o interrogatório:
— Que diabos é isso, Quincas? Peixe congelado? Em Lavras, aquele departamento do inferno?
Quintiliano, rápido no gatilho, emendou:
— Tá doida, mulher ? A gente leva uns isopores grandes cheios de barra de gelo. Lá dentro do mato, não tem geladeira não. Se deixar sem gelo, o peixe apodrece…
Dalva, no entanto, seguiu o interrogatório :
— Quincas, mas é estranho! E esse carimbo de S.I.F. aqui no peixe ? Que diabos é isso, homem de Deus ?
Quintiliano, agora já mais apreensivo, vendo-se perdido, buscou rápido, uma explicação:
— Mulher, deixa de ser desconfiada! Não viu na TV, não? O Ministério da Agricultura ta fazendo um recenseamento de todos os peixes dos açudes do Brasil e ta carimbando um por um. É no que dá só assistir novela !
Dalva, no entanto, tinha técnicas de delegado na investigação. Mexeu os peixes no saco, para um lado e para outro e mandou a cartada final:
— Certo, Quincas, mas o peixe que você pescou, meu filho foi cavala… que coisa mais esquisita… peixe de água salgada… onde é que existe este mar aqui por perto ? Tou doida para pegar uma praiazinha e não sabia desse braço de mar neste fim de mundo !
Nosso pescador tremeu nas bases e, quando parecia já como menino pego roubando a mariola, lascou o único álibi que lhe pareceu possível:
— Lá vem você com suas ironiazinhas de novo … Mais desconfiada do que cachorro em noite de São João ! Eu tava era em Lavras da Mangabeira, sua doida! E pescando sabe onde ? No Rio Salgado !
Armou uma cara de revolta e saiu sem conseguir suportar o peso das injustiças desse mundo. Desde então, veja como são as coisas, Dalva anda trombuda, com cara de elefante. E , pelo sim, pelo não, a Patota resolveu , por unanimidade, alterar a pauta das próximas reuniões da turma. A partir da próxima semana estão enveredando pelo ramo das caçadas. Chegaram à conclusão que o IBAMA é menos perigoso que as rodilhas de jaracuçu que eles andam criando em casa.

J. Flávio Vieira