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Luiz Carlos Salatiel – Dos anos de chumbo à contemporaneidade



Coletivo Camaradas: Quem é Luiz Carlos Salatiel ?

Um artista e produtor cultural inquieto que não gosta de farsas(admito apenas no teatro)e dissimulações. A impermanência é o meu paradigma. Sofro muito por saber que não vou alcançar -mas não desisto!- uma vida com qualidade plena em educação, saúde, política, meio-ambiente. De quando em vez me pego torcendo pelo Caos para ver se algo novo resurge das cinzas.

Coletivo Camaradas: Quando teve inicio seu trabalho artístico?

Começei artisticamente sendo crooner de uma banda no final dos anos 60 (com 14, 15 anos). Depois começei a cantar e recitar as canções e a poesia de protesto contra os “anos de chumbo” em um grupo chamado DESAFIO, em Juazeiro do Norte. Neste mesmo grupo me iniciei nas artes cênicas e montamos Bertold Brecht, Millor Fernandes, Martins Penna, dentre outros. Quando cheguei ao Crato em 1970 participei do Movimento de Juventude, ligado à Igreja Católica, e lá foi que desenvolvemos a idéia dos Festivais da Canção que praticamente sedimentou a moderna musicalidade caririense.

Coletivo Camaradas: Quais as influências do seu trabalho?

Num primeiro momento fui influenciado pela música de Geraldo Vandré. Depois, a anarquia do Tropicalismo me deu muitas referências, principalmente o grupo “Os Mutantes”. Gosto da música cubana/caribenha/latina de Pablo Milanés, Sílvio Rodigues, Vitor Jara, Violeta Parra, para citar alguns.citar alh. Ouço sempre os Beatles. Quando morei no Rio estudei canto lírico. O Teatro de Boal foi também uma influência e hoje o que faz o Zé Celso Martinez é o que mais me atrai em termos do fazer teatral.

Coletivo Camaradas: A sua trajetória consta de passagens pela música, teatro literatura, artes visuais, cinema e rádio. Essa experiência consolida o artista?

É. Expressar-se pelas múltiplas linguagens da arte é o que tento fazer sempre. Como falei no início, eu sou inquieto e nunca vou dizer pra mim que até aqui tudo já me bastou. Estou sempre buscando.

Coletivo Camaradas: Como você ver a relação entre arte e política?

Eu sempre acho que a atitude do artista é sempre política: de interferência positiva ou negativa. Os artistas, quase sempre por sua postura libertária, são os primeiros a serem perseguidos pelos ditadores de plantão. Dia desses estava conversando com um amigo sobre todas as revoluções que aconteceram no mundo moderno e que no primeiro momento utilizaram o oprimido como argumento maior, me parece que nenhuma delas conseguiu acabar com a miséria do mundo. O artista e sua arte pode ser sempre um grande aliado: da esquerda, do meio ou da direita!

Coletivo Camaradas: Você acredita que a diversidade musical do Estado do Ceará é contemplada nos eventos públicos, como Expocrato, Festa de Santo Antônio, Juaforró e o Férias no Ceará?

É terrível a forma de como somos tratados nos eventos maiores. Sem nenhum respeito. Na verdade, mesmo, eu faço uma música mais apropriada para teatro e não para multidões e, pessoalmente, não tenho interesse nos grandes eventos estimulados pelo alcool. Entretanto, paroquialmeste, as rádios do cariri não se interessam também por nossa música. Por que? No último show que fiz até pedi desculpas ao público que manifestava um prazer enorme em estar alí na platéia ouvindo belas músicas mas que desconhecia completamente.

Coletivo Camaradas: Qual a sua opinião em relação ao financiamento público das bandas de grande porte?

Sempre há por traz disso alguma maracutaia. Jogo de interesses entre quem vende o produto e compra. Hoje É preciso que se apure com mais rigor esse tipo de denúnica. Os Conselhos Municipais de Cultura seriam um foro apropriado para se apurar tais procedimentos.


Coletivo Camaradas: A falta de circulação nas emissoras de rádio e TV da musica produzida no Cariri é um empecilho para o artista da região?

Claro. Somos ilustres desconhecidos da nossa própria comunidade. Infelizamente, seremos reconhecidos um dia quando uma das nossas músicas se transformar em trilha de novela! Mas, mais importante que tudo é não se preocupar tanto com o sucesso e sim com o que a nossa arte pode trazer de ferramenta para transformar possitivamente a nossa comunidade. Aí, sim, esse é o grande “sucesso” almejado por mim. Eu não sou muito afeito a arte como puro entretenimento.

Coletivo Camaradas: Você se considera um artista contemporâneo?

O artista é o grande inventor da contemporaneidade. É obrigação dele estar dando respostas aos questionamentos do tempo em que está inserido. A arte fossilizada é sempre o que o poder público quer para sua fácil manipulação e trabalhar a seu(dele) favor.

Coletivo Camaradas: Como você ver a produção musical do Cariri?

O cariri será sempre vanguarda. Nenhuma outra região do nordeste (pelo menos) se manifesta com tanta pluralidade. Apesar de todas as dificuldades que enfrentamos conseguimos nos manifestar com uma certa grandeza. No programa que apresenta na Rádio Educadora, “Cariri Encantado”, tenho me defrontado com a admirável diversidade muisical da nossa região. Os estúdios locais têm facilitado muito o registro fonográfico dos artistas daqui. A gente se ressente muito com a falta de produtores locais que possam assumir a feitura de shows, etc. e que provoque mais mobilidade/circulação por outras cidades fora do eixo Crato/Juazeiro/Barbalha. Se não fossem as atividades do CCBNB-Cariri (Juazeiro) e do SESC (Crato/Juazeiro) a nossa vida artística estaria bem ruim. Já percebí, também, alguma mobilização da URCA no sentido de empreender ações culturais extra-muros, o que é bastante louvável. Resistiremos, sempre!

Coletivo Camaradas: A sua geração fez história no Cariri nas várias linguagens da arte. Você acredita que o grande público tem conhecimento desta trajetória?

O fato marcante como atividade artística no Cariri, principalmente, foi a realização dos festivais da canção que aconteceram no Crato dos anos 70 ate 78 (acho), no primeiro momento coordenado pelo Movimento de Juventude e depois pela SCAC – Sociedade de Cultura Artística do Crato. Até hoje os cinquentões guardam lembranças indeléveis dessa época. Os compositores de hoje, em sua grande parte, construiram sua musicalidade naquele tempo. Abidoral Jamacaru, Cleivan Paiva, Zé Flávio Vieira, Zé Newton, Eu mesmo, Pachelly Jamacaru,Geraldo Urano (foto), dentre outros, são figurinhas carimbadas desse album musical dos Festivais. Mas, convenhamos, são quarenta anos passados. Como diria Vandré: A vida não pode se resumir a festivais! Existe um novo tempo, novas gerações de poetas, compositores, dramaturgos, cineastas, artistas plásticos… Eu tenho saudades é do FUTURO!

Coletivo Camaradas: E por falar em trajetória, quais seus planos para 2010?

Quando finda o ano a gente fica cheio de planos para o próximo, não é mesmo.

Na música, eu quero circular por algumas cidades com o show Girassóis, que está montado, e também quero formatar o novo CD que também levará o mesmo nome;

No Teatro, estou desenvolvendo um texto com o Zé Flávio e que devo dirigir. Depois, quero, como ator, desenvolver um monólogo;

No cinema, quero dirigir um curta-metragem que devo fazer em parceria com o Imago;

Nas artes-plásticas, já tenho aprovado pelo CCBNB – Cariri, uma exposição sobre os 40 anos do Festival. Apresentei o projeto como Curador e que será desenvolvido pelo artísta plástico Reginaldo Farias.