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Pterossauro


                            “Todas as coisas têm o seu mistério,
e a poesia é o mistério de todas as coisas.”
  Lorca
                                   Os Anos 70-80 , no Cariri, se caracterizaram principalmente, na área cultural, por um intenso movimento de  Contracultura, estudado, meticulosa e cientificamente, muitos anos depois, pelos olhos atilados do professor  Roberto Marques. Jovens estudantes, bafejados pelas ondas liberalizantes de Maio de 68; de Woodstock; dos Hippies;  da pílula e da disseminação das drogas; oprimidos, por outro lado, pela Ditadura Militar; sentiram-se tocados na sua criatividade, investindo contra a institucionalizada e centenária Cultura caririense. O Teatro investiu-se de novas linguagens, através dos movimentos estudantis, despertando nomes como Ronaldo Correia Lima, Francisco de Assis Souza Lima, Luiz Carlos Salatiel, José do Vale Filho,  Renato Dantas , Gil Grangeiro, encenando Brecht, Ariano Suassuna e peças de cunho mais autoral. O Cinema trouxe nomes , alguns ainda hoje fortíssimos no cenário nacional, como Rosemberg Cariri, Jéfferson Albuquerque, Hermano Penna, José Hélder Martins, Jackson Bantim. Nas Artes Plásticas brotaram :  Stênio Diniz, Luiz karimai, Normando, Edélson Diniz, Janjão e muitos outros. Na Música : Abidoral e Pachelly Jamacaru, Luiz Carlos Salatiel, Thiago Araripe, João do Crato, Luiz Fidelis, Zé Nilton Figueiredo, Heládio Figueiredo, Cleivan Paiva. A Literatura nos  brindou com : Ronaldo Brito, Francisco de Assis Souza Lima, Emérson Monteiro, J. Flávio Vieira, Roberto Jamacaru e Geraldo Urano. Todos estes artistas e tantos outros se conglomeraram em jornais como “Vanguarda” e “Flor de Pequi”; em publicações como “Cariri Jovem 68 e 69”; nas dez edições dos  “Festivais da Canção do Cariri”; nos “Salões de Outubro”, no “Grupo de Artes Por Exemplo” e no   “Xá de Flor”.  Todo este período áureo da Cultura Caririense, já estudado tecnicamente  e com tanto rigor pelo professor Roberto Marques, está a merecer um trabalho de cunho mais jornalístico , uma biografia lúdica destes lúdicos-loucos tempos.
                                   Este pequeno relato pode parecer irrelevante e enfadonho para quem não viveu esta época. Tende a parecer coisa de velho curuca contando para os seus netos : “Meninos, eu vi!”. Mas, paciência ! Ele surgiu, por conta de uma das mais sensacionais notícias dos últimos tempos. O “Instituto Caravelas” acaba de montar uma Exposição junto ao Centro Cultural Banco do Nordeste em homenagem a um poeta icônico da nossa região : Geraldo Urano. Durante toda uma semana convivemos com shows, performances poéticas, mesas redondas e uma Exposição cuidadosa, expondo a obra do nosso grande bardo. E o mais interessante de tudo : a iniciativa partiu do Instituto Caravelas  que tem no seu corpo amantes da arte da novíssima geração.
                                   A homenagem é mais que merecida. Geraldo Batista, Urano, Mérkur, Efe, multiplanetário,  foi o mais importante poeta caririense dos últimos quarenta anos. Mais que ninguém, Geraldo captou este multifacetado período histórico, pleno de enormes incongruências , de contrastes incontáveis, onde todas as chagas da civilização ficaram imediatamente expostas e era preciso mudar tudo e mudar rápido. Sua poética é única : sem data, sem fronteiras geográficas ou políticas, perpassada por uma fina e doce ironia. Os primeiros rudimentos do Tropicalismo em terras cearenses saíram de suas performances nos nossos primeiros Festivais.  Pronto a adentrar os sessenta anos, recluso, nosso bardo, mais que nunca prova que a Arte é capaz de quebrar os cadeados de qualquer cativeiro.  Suas letras foram musicadas por incontáveis parceiros : Abidoral, Pachelly, Luiz Carlos Salatiel, Cleivan Paiva, Calazans Callou. É dele a letra do principal hino deste período : “Lua de Oslo”.
                                   Em Arte, como nos fenômenos geológicos, os movimentos culturais vão se sobrepondo, como placas sedimentares. O novo nem percebe que está necessariamente montado no velho, no arcaico. O presente é, necessariamente, o passado remasterizado. Algumas vezes, o moderno faz prospecções e se encanta ao descobrir preciosas peças soterradas na história, mas sempre as vê com a curiosidade do arqueólogo, como fósseis. A descoberta de Geraldo Urano pelas novas gerações compara-se à descoberta, pela ciência, de um pterossauro vivo. Foi assim que o nosso poeta surgiu para os olhos brilhantes de inúmeros adolescentes nas performances poéticas. Levantou vôo , trazendo no bico o mistério de todas as coisas, vinha novamente de Urano, de Mercúrio, de Vênus , de Marte, do infinito :   lá onde os poetas tecem seus ninhos.
J. Flávio Vieira

De ladeira abaixo


Rezam os anais da nossa cidade que o primeiro automóvel chegou em Crato, em 1919, por iniciativa do comerciante Manuel Siqueira Campos que terminou imortalizado,  nomeando uma das mais importantes praças de Crato. Nas décadas que se seguiram , com a pujança do nosso setor mercantil, o carro foi se tornando uma presença cada vez mais constante nas nossas ruas. Os antigos Fords Bigodes foram sendo substituídos , pouco a pouco, por modelos mais modernos : Buicks, Cadillacs, Mercedes, Mercurys, Simcas.  Após a II Grande Guerra,  começaram a chegar os caminhões que transportavam cargas , mas, também, travestiam-se de transporte coletivo interurbano. Vezes feitos pau-de-araras , tantas outras transformados em Mistos, levavam passageiros ,mundo a fora, por estradas terríveis e quase intransitáveis, num incômodo inimaginável nos dias de hoje.  Comparadas, no entanto, com as viagens longas, em lombo de animais, os caminhões traziam consigo o cheiro inevitável do novo :  maiores velocidade e conforto.
                        A tecnologia ainda primária dos primeiros veículos pesados, somada à tortuosidade natural de algumas estradas , como as que beiram a nossa Chapada do Araripe, elevavam, consideravelmente, o risco de acidentes. Ficaram famosas, na nossa região , a Ladeira das Guaribas aqui em Crato e a do Quincuncá em Farias Brito. Rodagens íngremes e extensas se associavam a fitas de freios aquecidas e terminavam desembestando caminhões, ladeira abaixo, com incontáveis vítimas. Até uns poucos anos atrás, a nossa Batateira via-se , diariamente, aterrorizada, temendo a chegada descontrolada de caminhões sem freio invadindo suas ruas e casas.
                        Pois o que vou contar vem desta época de heróicos desbravadores. Contava-se por aqui, com o exagero natural dos descendentes da Vila de Frei Carlos, esta historinha que buscava exemplificar o risco que era descer de caminhão a Ladeira das Guaribas.
                        Chagas vinha ,do Pernambuco, com um caminhão carregado de romeiros . Iam tomar a bênção ao  padrinho, pagar promessas e alimentar a indústria azeitada dos santeiros e fabricantes de rosários. Na famosa descida da serra, na altura da Barraca Verifique, o freio quebrou. O veículo começou a embalar, ladeira abaixo ,e o destino era mais que previsível: ou caía no abismo à direita ou, na melhor da hipóteses, desceria todo o percurso, equilibrado na munheca atilada do chofer e , ganhando velocidade e mais velocidade , terminaria por esborrachar-se nas casas da Batateira.  Os passageiros perceberam rápido o perigo e sojigados  entre ficar o serem comidos pelo bicho ou correr e ser pego por ele, arriscaram na segunda possibilidade. Começaram a saltar do caminhão em disparada: o desmantelo estava feito. Pernas quebradas, pescoços torcidos, pé-de-ouvidos ralados. Em pouco, tinham já pulado todos os romeiros da carroceria e da boléia. Chagas, por incrível que possa parecer, manteve-se firme na direção, aprumando ladeira abaixo. Para sua felicidade, já na proximidade das Guaribas, as rodas caíram na valeta à esquerda junto às  escarpas do Araripe. Adiante , perdendo carreira, as rodas travaram num grotão e o carro, por incrível que pareça, parou, ao arrastar o diferencial  pelo chão.
                                   Atrás , tinha restado um rastro de destruição. Romeiros feridos, ex-votos espalhados, alguns corpos sem vida. Aos poucos, os acidentados foram levados ao hospital, por carros que iam passando. Chagas permaneceu, ainda, por muito tempo, na boléia, sem entender o que tinha acontecido e deixado de acontecer. Uma viagem tão tranqüila! Como, de repente, se estabelece tamanho caos ?
                                   Uma hora depois chegou ao local um radialista. Resolvera entrevistar o  chofer, quando soube  da tragédia, através das vítimas que atulhavam a emergência do hospital. Aproximou-se o repórter do motorista e interrogou-o sobre o inusitado da cena:
                                   — Amigo ! Parabéns, quanta perícia ! Você é um herói, meu chapa !Mas me diga uma coisa, por que você não fez como os passageiros e pulou do carro ?
                                   Chagas, ainda capiongo e confuso, explicou:
                                   — É que eu carrego pregada aqui no tabeliê do carro, próximo ao volante, uma imagem do meu santo de devoção : São Cristovão ! Com ele, meu amigo, pra mim não tem tempo ruim !
                                   O radialista subiu na boléia , curioso em conhecer o santo milagreiro:
                                   — Cadê o santo ? Me mostre !
                                   Chagas  escascaviou todo o quadro do caminhão e não encontrou o santo. Procurou embaixo — poderia ter caído nos solavancos— e nada ! Olhou, então, convicto  para o repórter e concluiu:
                                   — O negócio foi mais feio que briga de foice no escuro. Pois na hora do pega-pra-capar, meu senhor, não é que até São Cristovão pinotou fora também,  pra num ver o destroço !
 
J. Flávio Vieira

Arisco


As cidades que se espreguiçam nas bordas da Chapada do Araripe vivem, literalmente, de sombra e água fresca. Os cratenses carregam consigo aquela fatia de preguiça e  de irreverência:  agimos  ainda  como caçadores-coletores,  igualzinho aos nossos avós cariris.  Somos mais afeitos à rede e à preguiçosa do que à enxada e ao moinho. É que trabalhar às vezes é até bom, mas dá uma canseira danada. E, ademais, para que essa  correria toda, se os frutos já pendem das árvores; os passarinhos ligam suas radiolas nos galhos; as fontes nos convidam para seus sonhos molhados e o verde da serra nos ensina, a todo momento, suas lições  de esperança ? Pernas para o ar que ninguém é de ferro !  Terminamos por ser, inexoravelmente,  um pouco a extensão da natureza que nos rodeia. Carregamos um sorriso mais úmido, uma postura mais refrescante, uma leveza de brisa, um líquido fluxo de levadas e cascatas. A placidez do mundo à nossa volta reflete-se no nosso espírito. A vida que palpita à nossa frente nos basta e marca, de alguma maneira, o ritmo das nossas sístoles e diástoles.
                                   A serra nos dá lições de perigo com seus penhascos e suas escarpas. A paisagem, vista da montanha, professa-nos aulas de pequenez. Somos um mero ponto diante da imensidão que se estende desafiadora no horizonte sem fim. Do alto, os homens são pequenos e as coisas minúsculas e salta-nos aos olhos a perfeita escala da nossa perturbadora  insignificância . O ciclo incessante das estações brota no nosso quintal e imanta-nos com sua magia: dias somos outono, noutros veraneamos, e , quase que continuamente , primaveramos , no aguardo dos rigores não tão rigorosos  dos nossos invernos exteriores e interiores.
                                   A vida , do outro lado da montanha, substituiu o concreto pelo verde; o sonho pela gula; as espigas pelos espigões; as flores pelo E.V.A; os frutos pelo isopor. Dizem-se todos fartos e felizes , protegidos pelos  seus muros de T.N.T. . Fartem-se ! A luz incandescente do lago artificial lhes ofusca. A nós , basta-nos o milagre nosso de cada dia : a cascata já empina as turvas águas do Batateiras e os pequis estão florando ali no Arisco e,  logo mais , nas encostas da Chapada. Vejam !
J. Flávio Vieira

MERCEDES SOSA – Al jardín de la república — Com cifras para violão


  .......C  G  C  G  C  E7  Am 



C G C
Desde el norte traigo en el alma
G C G C
La alegre zamba que canto aquí
E7 Am
Y que bailen los tucumanos
E7 Am
Con entusiasmo propio de allí
E7 Am
Cada cual junto a su pareja
E7 Am
Joven o viejo de todo vi.


C G C
Media vuelta y la compañera
G C G C
Forma una rueda para seguir
E7 Am
Viene el guacho le hace un floreo
E7 Am
Y un zapateo comienza allí
E7 Am
Sigue el gaucho con su floreo
E7 Am
Y el zapateo comienza allí.


A7 Dm
Para las otras no
G7 C
Pa? las del norte sí
E7 Am
Para las tucumanas
E7 Am
Mujer galana naranjo en flor
E7 Am
Todo lo que ellas quieran
E7 Am
Que la primera ya termino.


C G C
No me olvido, viera compadre
G C G C
De aquellos bailes que hacen allí
E7 Am
Tucumanos y tucumanas
E7 Am
Todos se afanan por divertir
E7 Am
Y se hace linda esta mala vida
E7 Am
Así se olvida que hay que morir


C G C
Empanadas y vino en jarra
G C G C
Una guitarra bombo y violín
E7 Am
Y unas cuantas mozas bizarras
E7 Am
Pa` que la farra pueda seguir
E7 Am
Sin que falten esos coleros
E7 Am
Viejos cuenteros que hagan reír?


A7 Dm
Para las otras no
G7 C
Pa? las del norte sí
E7 Am
Para las de simoca
E7 Am
Mis ansias locas de estar allí
E7 Am
Para brindarles mi alma
E7 Am
En esta zamba que canto aquí.


Cifras com http://www.cifras.com.br

De quem são os louros ?


Os Cangatis dominaram a política em Matozinho por mais de quarenta anos. Ligados diretamente à UDN ,  fizeram , por muitos anos, da cidade um feudo. Aos amigos as brechas da lei, aos inimigos sobravam os rigores. Existia, inclusive , um slogan na região :
                        —“Em Matozinho ou é  Cangati ou coitado”!
                         Naquele ano, no entanto, a coisa estava pegando fogo. Sinderval Bandeira envergara a bandeira do PSDB local, com amplo apoio do  governador, seu correligionário e entraram dispostos a dizimar a dinastia dos Cangatis. Tantos anos de poder haviam viciado a poderosa família que carregava consigo a certeza da invencibilidade. Nem percebiam que o poder desgasta, que se vão criando mais desafetos que amigos e que insidiosamente sempre se vai firmando, na população,  um desejo de se respirar novos ares. Que mudem ao menos os bolsos ! — bradava Jojó Fubuia , na praça, resumindo as aspirações de mudança dos matozenses. A campanha eleitoral foi tensa e violenta: tripas gaiteiras vazadas, tapa em terreiro dos olhos, cachaços lascados. Abertas as urnas, para total surpresa do candidato Pedro Cangati, Sinderval foi leito com mais de sessenta por cento dos votos.
                        Em cidade pequena, esse filme sempre tem final previsível. Nos  últimos meses do mandato , Pedro  procedeu a um verdadeiro desmonte da prefeitura. Parecia vingar-se daqueles que , no seu entender, o haviam traído. Atrasou salários dos funcionários, cancelou pagamento de contas , suspendeu coleta do lixo, suspendeu distribuição de medicamentos, demitiu sumariamente uma chusma de funcionários. Jojó me dizia que isso é um absurdo, coisa de vila de muros baixos  e acrescentava: em cidade grande, amigos, não é assim , não ! É muito pior !
                        Não bastasse esse desmazelo, na última semana, o prefeito resolveu fazer o rapa no que restava na prefeitura. Encostou um caminhão e providenciou a mudança: móveis, máquinas de escrever, documentos, tudo. Deixou apenas o cofre velho, no meio da sala, mesmo assim sem um centavo furado dentro dele. Fechou o prédio praticamente vazio e ainda jogou as chaves dentro do Rio Paranaporã.  
                        Uns quinze dias antes da posse de Sinderval, Marinaldo Pé de Zamba, um bodegueiro da Serra da Jurumenha, entrou de prefeitura adentro, com um pacote mal enjembrado na mão. Era uma gaiola coberta com papel de embrulho , cheia de furos esparsos, feitos de maneira irregular. Procurou Mundico Bizerra o Secretário de Finanças. Deu entrada na sala do barnabé e explicou o motivo da viagem. Sabia que o mandato atual estava terminando e como estava devendo a Mundico uma dívida refém à dispensa de alguns impostos do seu pequeno comércio, vinha cumprir o prometido . Esticou a embalagem  e colocou em cima do Bureau da autoridade:
                        — Mundico, tá aqui! Tô pagando o combinado! Sei que agora você , com essa mudança de política, vai ficar mais por baixo de que diferencial de cururu. Pois to pagando homem de Deus, taqui seu papagaio ! O bicho é falador que é danado !
                        Mundico agradeceu pela lembrança, tranqüilo por não ter ninguém na sala para testemunhar o escambo. Resolveu colocar a caqueira com o papagaio no seu gabinete, até levá-lo para casa, nas proximidades da posse do opositor. Pois bem, o danado do louro presenciou todo o combinemos do saque, justamente nos dias que antecederam ao butim. Eram reuniões e mais reuniões. Vamos carregar isso, vamos roubar aquilo, não vamos deixar pedra sobre pedra, vamos  limpar o cofre… No dia do arrastão, a sanha foi tanta que até o papagaio de Mundico foi afanado e levado à casa do prefeito, junto com todo o resto dos pertences públicos.
                        Os pessedistas, no poder, não perderam tempo. Espalharam em todas as bocas difusoras da cidade, o verdadeiro saque cometido pelos Cangatis. E fofoca em cidade pequena é como coceira em macaco: não tem que dê fim.  Substitui com larga vantagem as outras mídias. Pedro Cangati estava sobre acirrado ataque da população por conta da roubalheira explícita. No entanto, o que mais lhe enchia o saco era o velho papagaio que , não parava de repetir, as tramóias que aprendera na Secretaria de Finanças .
                        — Currupaco… Vou pegar todo o dinheiro do cofre…Currupaco… vou carregar os móveis lá pra casa…Currupaco vou roubar os documentos e queimar…
                        Cangati começou a se invocar com o louro. Não queria aquele testemunha ocular ( ou auditivo) ali, enchendo o saco o tempo todo, como um verdadeiro dedo-duro. Fulo da vida, meteu a mão na gaiola, amarrou o papagaio com um barbante e ameaçou:
                        — Vai ficar assim uma semana, seu filho da puta, para nunca mais roubar!
                        O louro, todo ingriziado, ficou ali em cima da máquina de costura, sem poder se mover.  Estava ali já há uns dois dias, quando observou, na parede, uma imagem de São Sebastião, naquela pose clássica. Amarrado numa árvore e todo flechado, com o pezinho levantado à Ana Botafogo e um olhar enviesado suspeitíssimo de soldada romana. O papagaio resolveu , então, entabular conversa:
                        — Ei, mulher ! Tu tá escândalo ! Me diz , há quanto tempo tu tá amarrada aí nessa árvore ?
                        São Sebastião, meio a contragosto, responde:
                        — Há uns mil e oitocentos anos, pelo menos…
                        O papagaio saltou, quase quebrando os barbantes , e surpreso, quis saber:
                        — Mil e Oitocentos Anos ? O que diabo foi  que tu roubou ? Tu é deputado ? Senador ? Governador ? Participou do Assalto do Banco Central ? Vôte !
J. Flávio Vieira

Data Vênia


Jesualdo entrou no escritório com aquele  ímpeto de  furacão Katrina. Esperara por mais de uma hora na sala de espera do advogado, ansioso, aguardando a saída de um senhor careca  que cuidava  de uma das coisas mais enroladas desse mundo : Inventário de gente rica.  Ficou ali, tentando ler revistas antigas, sem se concentrar nas notícias, como se estivesse sentado em folha de cansanção.  Os minutos se arrastavam tartarugadamente. Quando a atendente, por fim , liberou sua entrada, foi como se lhe tivessem arrombado as tariscas de uma  gaiola. O causídico ali estava à sua frente, calmo, impassível, sem maiores motivos para desespero, afinal casos eram apenas casos e se sucediam monotonamente, todo santo dia, diante do seu bureau. Não contendo a ansiedade represada por muitos minutos na saleta de espera, Jesualdo disparou :
                                   — Doutor,  quero entrar com um processo de danos morais!
                                   Afeito ao desespero comum de seus clientes, Dr. Cacionildo aprendera que se fazia mister atendê-los como se estivesse degustando um prato de papa quente: era preciso começar pelas beiradas até chegar ao fundo do pirex.  Com olho clínico percebera alguns hematomas, em fase de regressão no rosto do cliente.  Levantou-se, pois, da cadeira e cumprimentou-o formalmente. Quis saber-lhe do nome .  Pediu para ficar tranqüilo que aquela era sua especialidade. Inquiriu-o se estava tudo bem com ele e com a família, falou sobre a estiagem no Nordeste que estava uma verdadeira calamidade, dissertou brevemente sobre as dificuldades que vinha passando com as criações na sua fazenda e interessou-se saber se ele também era pecuarista e como estava se virando para alimentar o bando. Quebrado o gelo,  no tangenciamento do problema central, Cacionildo , finalmente meteu a colher no fundo do prato:
                                   — Pois, não, seu Jesualdo ! Em que posso  servi-lo ?  Quem feriu de morte seus princípios morais, homem de Deus ?
                                   Jesualdo, já abancado devidamente num cadeirão em frente ao bureau do adovogado, um pouco mais restabelecido, foi direto aos finalmentes:
                                   — Quero entrar com um processo contra a Coca-cola, por danos incalculáveis à minha moralidade e , inclusive, à minha integridade física.
                                   O doutor, mesmo sem ciência do objeto causador do dano e suas possibilidades jurídicas, viu-se diante de sentimentos díspares. De um lado a alegria de poder estar processando uma grande empresa, multinacional, de patrimônio incalculável e, pois, com amplas condições de pagar gordas indenizações. Do outro a percepção de que traria , na defesa, grandes escritórios nacionais, com pesada influência política e econômica nas decisões do judiciário, máxime em instâncias superiores. Pediu, então, a Cacionildo que detalhasse, data vênia,  toda a questão com fins de se ter um melhor diagnóstico e prognóstico  da causa a ser encetada. Pela história comprida e cheia de reentrâncias que Jesualdo começou a narrar, o advogado rápido percebeu que seria muito mais enrolada a consulta que a do careca do inventário.
                                   Jesualdo informou que estava casado há mais de vinte anos  não com uma mulher mas com uma mistura de jararaca com lacraia. Ele sempre fora um ferrolho, mais por temor e menos por virtude. Há uns dois anos, sabe-se lá como, começara  um rolo com uma colega de trabalho. Coisa debaixo de sete chaves, mais escondida do que  quenga  de cardeal. Sabia do perigo que corria, mas o temor estranhamente lhe instigava de forma quase que suicida. Gabriella  , a namorada, não era uma beleza clássica. Divorciada, era fraca de feição, mas tinha lindos e acolhedores air-bags e, da cintura para baixo, tanajurava-se maliciosamente. O romance, discreto, ia de vento em popa, até que  a CNN da vizinhança desconfiou e terminou divulgando-o  em várias edições especiais. Quando a manchete bateu nas orelhas afiadas da esposa, esta não perdeu tempo recolhendo provas. Quebrou o pau no pobre do Jesualdo, fez o maior escândalo e o expulsou de casa. Ele , ao menos, teve a felicidade de sair levando a mala, ao invés de ir dentro dela, como vem acontecendo mais modernamente.  Os meses se passaram e a raiva não aplacava. Jesualdo começou um discreto cerca-lourenço, ajudado por amigos e familiares, mas a esposa não queria nem ouvir falar no seu nome. Dera entrada oficial no pedido de divórcio. O tempo, no entanto,  o solucionador mor dos problemas da humanidade, começou a surtir efeito e a dismilinguir o ódio incontido da esposa, até porque havia opiniões fidedignas ( embora não confiáveis de todo) de que Gabriella já navegava em outras naus. Conversa vai, conversa vem, finalmente, após mais de um ano ,Jesualdo conseguiu marcar um jantar com a esposa onde pretendia conversar amenidades, encetar uma nova aproximação, fugir do passado como o cão da bíblia e, quem sabe, na melhor das hipóteses , terminarem num motelzinho, reacendendo o fogo antigo arrefecido pelas curvas tanajúricas gabrielianas. Segundo Jesualdo, tudo corria conforme planejado. Escolheu um restaurante caro, uma mesa reservada,  à luz de velas , uma música de fundo adocicada, dessas contraindicadas a diabéticos. Entabulou assuntos amenos, pediram um prato de frutos do mar, um vinho branco de boa safra. Tudo corria bem, as mãos tinham se tocado algumas vezes e Jesualdo disse que tinha dado uma certa “formigagem” nos dois. Mas aí veio a tragédia! Num instante,  estabeleceu-se, novamente, uma praça de guerra. Esporros da esposa, garrafada de vinho na testa de Jesualdo, fuga , intriga redobrada, audiência de divórcio novamente desencadeada. E tudo por culpa da Coca-Cola !
                                   — Da Coca-Cola ? Mas como, seu Jesualdo?  Onde ela entra na história ? Não entendo ! — Saltou de lá o advogado.
                                   — Da Coca-Cola sim, doutor ! Quando chegou o prato principal , a Lagosta ao Thermidor, minha mulher resolveu pedir uma Coca-Cola !
                                   — Sim, Jesualdo, mas qual o problema ?
                                   — Ora Dr. Cacionildo, a Coca me lascou! Agora ela não tá com essa mania besta de botar os nomes das pessoas na latinha? Pois adivinhe o que estava escrito na coca que minha mulher pediu ?  “Quanto mais  GABI , Melhor !”  Fudeu ! Quero indenização !
J. Flávio Vieira

Fortaleza: Administração que não deixará saudades – Messias Pontes – Portal Vermelho

Administração que não deixará saudades – Portal Vermelho
Messias Pontes *

Ninguém é tão bom que não tenha um defeito e nem tão ruim que não tenha uma virtude. Assim como as pessoas, são as administrações. Por pior que seja, nenhuma administração é 100% mal; até no desgoverno do Coisa Ruim (FHC), se procurar sem preconceito, se encontra coisas positivas.
Na próxima segunda-feira 31 chega ao fim os oito anos de administração da prefeita Luizianne Lins (PT). Ela buscou priorizar o social como nenhum outro antecessor, acabou com as filas para matricula nas escolas da rede municipal de ensino, tornou gratuita a carteira de estudante para alunos da rede pública e forneceu gratuitamente farda, tênis, material escolar e mochila, e deu qualidade à merenda escolar evitando escândalo neste setor.

Luizianne proporcionou substancial avanço na área cultural com destaque para o Mercado dos Piões, o pré-carnaval e à festa de passagem de ano, tornando o Réveillon de Fortaleza o segundo maior e melhor do País – o do ano passado contou com 1,5 milhão de pessoas. Também merece destaque a Defesa Civil que hoje é referência, não se registrando nenhum óbito nas áreas de risco nos últimos oito anos.

Contudo todos esses avanços foram suplantados sobretudo pela falta de planejamento e principalmente pelas deletérias práticas de direita que nem no tempo dos Coronéis eram verificadas. Muito recurso federal foi devolvido por absoluta falta de projetos, com destaque para as 80 creches que o governo da presidenta Dilma Rousseff destinou a Fortaleza e ela devolveu alegando não ter terreno para a construção. Isto sem falar nas inúmeras obras inacabadas e muitas que foram prometidas e não foram sequer iniciadas.

Nenhuma administração municipal foi tão hermeticamente fachada quanto a atual, sendo que até mesmo vereadores e até secretários municipais tinham dificuldades de acesso ao gabinete da Prefeita. O propalado Conselho Político, formado por lideranças e dirigentes dos partidos da base aliada, nunca se reuniu. A reeleição em 2008 com uma diferença de 0,16% se deu por exclusiva falta de opção, já que Patrícia Saboya (PDT), embora fosse uma boa candidata, estava muito ligada ao ex-governador Tasso Jereissati que é muito estigmatizado em Fortaleza, e Moroni Torgan representava a direita mais conservadora.

A vergonhosa prática direitista de indicação política para a direção de postos de saúde, hospitais e escolas do Município, por si só já anula todo avanço conquistado. Como prática deletéria também merece destaque a troca de apoio na Câmara Municipal por centenas de terceirizados para cada vereador da base de apoio. Nos corredores da Câmara fala-se que tem vereador com até mil terceirizados. Isto sim é um verdadeiro mensalão já que a mesada era mensal. A estimativa é que o número de terceirizados ultrapasse os 30 mil, embora representantes governistas da Comissão de Transição falem em pouco mais de 12 mil.

A ausência da Prefeita nos mais importantes acontecimentos em nossa Capital foi uma marca da sua administração, chegando a Prefeita ser chamada de Lombardi, numa alusão a um personagem do programa televisivo Sílvio Santos que todos sabiam existir mas ninguém via. Durante esses oito anos foram realizados em Fortaleza dois congressos de jornalistas e dois encontros nacionais de blogueiros progressistas, mas ela não compareceu a nenhum, não mandou representante e sequer mandou uma mensagem aos congressistas seus colegas jornalistas.

Também enlameou a sua administração o retorno da censura a programa de rádio, uma nódoa que ela e seu coordenador de Comunicação, Demétrio Andrade, levarão consigo para o resto da vida e terão de explicar aos seus alunos – ambos são professores de jornalismo – o saudosismo da ditadura militar. A Constituição Cidadã de 1988 erradicou a censura, mas Luizianne e Demétrio não tomaram conhecimento.

Para coroar o fracasso da administração, a pequenez da não aceitação da derrota eleitoral do seu candidato Elmano de Freitas, se vingando do povo de Fortaleza e do candidato eleito Roberto Cláudio (PSB,) anunciando a menos de um mês do fim do ano a não realização do já tradicional Réveillon e tentar inviabilizar o pré-carnaval de 2013.

Porém a tentativa de desmonte administrativo foi o fato que mais chamou a atenção, tendo inclusive o Ministério Público agido de ofício para impedir mais de 60 licitações após as eleições de outubro, portanto a menos de dois meses para o fim da administração. Uma pergunta precisa ser respondida sem subterfúgio: quem está por trás das empresas que fornecem mão de obra terceirizada para a Prefeitura? Se o futuro prefeito Roberto Cláudio decidir abrir a caixa-preta, Luizianne Lins ficará em maus lençóis.

Esta administração não deixará saudades. No geral foi um desastre!

Renato Rabelo: em 2013 a luta continua e o PCdoB está preparado – Portal Vermelho

Renato Rabelo: em 2013 a luta continua e o PCdoB está preparado – Portal Vermelho

“Chegamos ao final de 2012 com um Partido ainda mais forte política, estrutural e ideologicamente. E neste último programa saúdo cada comunista que fez do PCdoB esse Partido de luta, de programa, que tem como ideal uma sociedade justa e soberana.” Essas foram algumas das palavras externadas por Renato Rabelo, presidente Nacional do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), durante gravação da última edição do “Palavra do Presidente”.

Joanne Mota, da Rádio Vermelho em São Paulo


Para Renato, “o ano de 2012 foi um ano de significativas celebrações, mas também de muitas lutas e de grandes vitórias. Neste ano, o nosso Partido se empenhou para atingir seus objetivos, para garantir que as nossas lutas atingissem o sucesso, lutas essas que nunca perderam de vista o programa do PCdoB”.

Ele frisa que foi um ano que começou já com as celebrações dos 90 anos, momento que mobilizou todo o país na reafirmação desta data. 

“Todos os estados da federação comemoraram esta data, o país inteiro sentiu a expressão desta festividade, não só porque o PCdoB é o Partido mais antigo, mas porque tem tradição e mostrou seu valor ao longo da história do país”, reafirmou o dirigente nacional.

Segundo Renato, mesmo o PCdoB sendo um Partido nonagenário, é um Partido jovem, pois se ampara em ideias de vanguarda, está amparado em ideais avançados que buscam a construção de uma sociedade moderna, sobretudo a construção de uma sociedade que supere o capitalismo.

Durante o programa Renato Rabelo voltou a falar do documento aprovado, neste ano, pelo Comitê Central do Partido. “Esse documento, que foi intitulado ‘90 anos em defesa do Brasil, da democracia e do socialismo’, visa contar a história política do PCdoB inserida na própria história do Brasil, destaca as gerações comunistas que fizeram do PCdoB o que ele é hoje, como também procura tirar lições desse extenso caminho percorrido pelo Partido.”

Eleições 2012

Para o dirigente o Partido vive neste momento um ciclo de crescimento gradativo, “sai destas eleições com uma posição mais afirmativa e com mais respeito na seara política. Isso ocorre por que para nós o que importa é o interesse do povo, dos trabalhadores que diariamente movem esse país”.

Renato explicou que além do avanço quantitativo do Partido, o PCdoB também avançou qualitativamente. “É importante destacar qual a qualidade destes números conquistados. E nesse caso, nestas eleições, o PCdoB é o 6° no grupo chamado G85. Ou seja, o nosso Partido é o sexto partido com mais conquistas em prefeituras de municípios com mais de 200 mil habitantes.”

Partido de programa e militância

O dirigente nacional lembrou que o PCdoB não é um Partido de carreirismo e que não vai para nenhuma campanha sem projeto. “É importante lembrar que essa foi a maior campanha do PCdoB, mas o Partido não entrou nesta corrida sem definição, cada militante que ocupou as ruas sabia dos nossos desafios e tinha como referencial um projeto definido claro e consentâneo com o nosso programa. Desse modo, nossa militância, que é aguerrida e sabe porque luta, fez uma grande diferença na hora da disputa.”

De acordo com Renato, nesta campanha o Partido lutou por cidades mais humanas, mais modernas, apresentou propostas que levam em conta a governança com o povo. “Nossa campanha foi feita a partir de um debate de ideias e programa, esse é a nossa postura e o nosso mote. Alcançamos êxito, mas isso só foi possível graças ao nosso exército, que com suas bandeiras empunhadas, fizeram do PCdoB um Partido ainda mais forte, tornaram o Brasil ainda mais Vermelho. E nosso olhos agora se voltam para 2014”, orientou o dirigente. 

A direita e a mídia golpista

Durante o programa, Rabelo reforçou o coro sobre a luta pela democratização da mídia. “Diante do que foi assistido ao longo de 2012, os ataques da mídia e sua luta para deslegitimar o que foi iniciado por Luiz Inácio Lula da Silva e é continuado pela presidenta Dilma, o PCdoB reforçará a luta pela democratização da mídia no Brasil. Porque a mídia, a chamada grande mídia no Brasil, é um monopólio comandado por algumas famílias e em função disso a notícia é homogênea e serve a um segmento da sociedade.”

Segundo ele, “o que se observa no Brasil hoje é uma excrecência, não é uma mídia democrática, mas sim uma mídia antidemocrática e não podemos mais admitir isso em nosso país. Democratizar a mídia é uma luta fundamental, e está entre as tarefas mais importantes na agenda do PCdoB. É preciso garantir o direito de voz a toda a sociedade. É chegada a hora de pôr fim a esse grupelho que domina os meios de comunicação no Brasil”, disparou o presidente do PCdoB.

Reformas estruturais

Para o presidente do PCdoB o resultado colhido em 2012 é amplamente favorável para os partidos que compõem a base da presidenta Dilma Rousseff. “Os partidos de oposição perderam 30 milhões de eleitores nestas eleições, e isso não e qualquer coisa”, pontua. 

Desse modo, Renato reforça: “Nosso projeto não pode parar, temos ainda problemas graves para resolver e é esta base, que é progressista e que inaugurou um novo ciclo no país, que pode contribuir para as soluções. Ainda precisamos realizar reformas estruturais importantes, que são os grandes desafios de nossa nação. E o PCdoB está pronto para começar essa jornada”.

Projeto de desenvolvimento
Ao longo do “Palavra do Presidente”, Renato frisou a postura guerreira adotada por Dilma e explicou como a estratégia traçada pela presidenta para lograr êxito para a nação pode transformar a vida dos brasileiros.



“A postura assumida por Dilma, especialmente sua estratégia para construir um projeto de desenvolvimento econômico. Desde o final de 2011, Dilma está se empenhando em realizar uma espécie de transição, que visa colocar o país em um novo patamar, que tem como foco o desenvolvimento com inclusão, especialmente com o migração dos que ainda se encontram na linha da pobreza”, explicou.

Segundo ele, essa transição visa também superar toda aquela política econômica que estava baseada nos princípios neoliberais. E ele lembra, “isso só será possível a partir da luta política, a partir da firmação de um novo pacto social no país, este que leve em grande conta as forças do trabalho e da produção e do desenvolvimento nacional. E para que isso ocorra é preciso fazer alguns enfrentamentos, e a presidenta Dilma comprou alguns, cito as lutas que o governo tem travado com o chamado capital rentista”. 



E acrescentou: “Sabendo que os trabalhadores compõem de uma maneira geral a maioria da população deste país, não dá para pensar em projetos de desenvolvimento sem levar em consideração as demandas dos trabalhadores. Desse modo, desenvolver com inclusão e distribuição de renda, significa não perder de vista o papel dos trabalhadores e o PCdoB estará preparado defender esta demanda em 2013”, sinalizou Renato.

Perspectivas para 2013


Para 2013, Renato Rabelo diz que o PCdoB travará sua luta em duas grandes frentes: a política e a econômica. “Após ampla discussão, nossa estratégia será travar a luta tanto no plano político, com vistas a fortalecer nossa democracia, para tanto endurecemos nossa luta pela reforma política, como no plano econômico, engrossando o coro para a construção de um projeto brasileiro de desenvolvimento, que enterre de uma vez os fantasmas desta grande crise que assola diversos países do globo.”

Além disso, Renato sinalizou uma nova frente de luta, a democratização do poder judiciário. “É uma nova trincheira de luta que surge a partir dos últimos acontecimentos e o PCdoB, pelo Partido que é, não pode se furtar de enfrentar. Pensamos que já é chegada a hora de acabar com esse sistema de indicações para o Judiciário, o povo deve participar desse processo. O PCdoB quer a exigência de mandatos eletivos para os ministros dos Tribunais Superiores, chega de indicações e cargos vitalícios.” 

Ouça a íntegra do “Palavra do Presidente”:


Programa Palavra do Presidente Retro 2012


Luiz Carlos Azenha: Amaury Júnior promete revelar complô para derrubar Lula e Dilma – Portal Vermelho

Azenha: Amaury promete revelar complô para derrubar Lula e Dilma – Portal Vermelho

Na semana seguinte às eleições municipais em que Fernando Haddad derrotou José Serra em São Paulo, episódios estranhos começaram a acontecer em torno do premiado repórter Amaury Ribeiro Jr., autor do livro A Privataria Tucana, o best-seller que vendeu 150 mil cópias.

Por Luiz Carlos Azenha*

Primeiro, ele foi procurado por telefone por um homem de Guarulhos que prometeu documentos relativos à Operação Parasita, da polícia paulista, que investigou empresas que cometiam fraudes na área da saúde. Foi marcada uma reunião, mas a fonte se negou a entrar no local de trabalho de Amaury. Quando se encontraram pessoalmente, do lado de fora, a história mudou: o homem ofereceu a Amaury a venda de material secreto que teria como origem o despachante Dirceu Garcia.

No inquérito da Polícia Federal que apura a quebra de sigilo de dirigentes do PSDB, aberto durante a campanha eleitoral de 2010, Dirceu é a única testemunha que acusa Amaury de ter participado da violação. “Novamente, estão querendo armar contra mim”, diz Amaury. “Mas desta vez a trama foi toda gravada por câmera de segurança”.

Em seguida, outra situação nebulosa, desta vez supostamente para atingir a Editora Geração Editorial, que publicou o A Privataria Tucana. Um “ganso” da polícia paulista marcou encontro com o diretor de comunicação, William Novaes, com o objetivo de entregar um dossiê que incriminaria vários políticos tucanos, entre eles o ex-senador Tasso Jereissati.

O encontro, do qual Amaury também participou, foi gravado por câmeras ocultas. Amaury acredita que o objetivo era entregar à editora material falso que pudesse ser usado para desqualificar seu livro. Diante da recusa, a mesma suposta “fonte”, que responde a vários processos por estelionato, ligou para a editora dias depois dizendo que Amaury corria risco de vida.

“Acredito que eles pretendiam me acusar de obstruir o processo em andamento, o que poderia até resultar em minha prisão”, avalia o repórter.

Na mesma semana, narra Amaury, o ex-subprocurador da República, hoje advogado José Roberto Santoro, que segundo a revista Veja tem ligações com o tucano José Serra, procurou a direção do jornal O Tempo, de Minas Gerais, para intermediar um encontro com a direção do jornal Hoje em Dia, onde Amaury mantém coluna semanal.

O objetivo, segundo o repórter, seria reclamar de uma nota publicada na coluna de Amaury relativa a uma mineradora de Minas e ao ex-governador do Espírito Santo, Paulo Hartung. Mas, de acordo com Amaury, no encontro Santoro não reclamou objetivamente do conteúdo da coluna. “Ele ficou falando mal de mim, tentando levar à minha demissão e quando foi advertido pelos diretores do jornal aumentou ainda mais o tom de voz, como se estivesse numa crise histérica”, diz o repórter. A coluna continua a ser publicada.

Qual seria a explicação para esta sequência de eventos?

Amaury sustenta: “Está ocorrendo um verdadeiro complô, articulado provavelmente por tucanos, com apoio de setores da Polícia Federal e do Ministério Público Federal. O objetivo é derrubar primeiro o Lula e depois atingir a presidenta Dilma”.

Aqui, é importante lembrar que, na campanha de 2010, Amaury foi acusado pela mídia de integrar um grupo de inteligência a serviço da campanha de Dilma Rousseff, aquele que teria violado o sigilo fiscal de tucanos. O repórter nega: “Estão querendo requentar um assunto velho, que sumiu das páginas dos jornais logo depois das eleições de 2010. Pelo jeito vai voltar já pensando em 2014. Talvez estejam pensando em me usar para chegar na Dilma”.

Amaury estranha que o processo sobre a violação do sigilo de tucanos tenha voltado a andar uma semana depois das eleições de 2012, quando foram chamados para depor o jornalista Luiz Lanzetta e o secretário particular do diretor de redação do Correio Braziliense e do O Estado de Minas, Josemar Gimenez.

Lanzetta trabalhou na campanha de Dilma e foi acusado de ser o chefe do suposto núcleo de inteligência. Quanto a Josemar, Amaury trabalhou em O Estado de Minas, onde deu sequência à apuração dos fatos que resultaram no livro A Privataria Tucana. O repórter enfatiza sempre que baseou o livro em documentos públicos obtidos em juntas comerciais e cartórios, na CPI do Banestado e no exterior.

Aqui, pausa para uma bomba: segundo Amaury, o presidente do PSDB, Sergio Guerra, entrou na Justiça de Brasília com uma ação em que pede a retirada de circulação do livro, alegando que o A Privataria Tucanacausa danos morais a caciques do partido. O pedido foi feito durante a campanha de 2012 mas até hoje a Justiça não se pronunciou.

“Com certeza, o livro provocou muitos estragos nas eleições. Com certeza continuará provocando. O curioso é que eles nunca respondem especificamente às acusações ou documentos mostrados no livro”, diz Amaury.

Ele também estranha que o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que recebeu dezenas de livros pelos Correios, de leitores indignados com o conteúdo, não tenha aberto um procedimento para apurar as denúncias. Amaury entregou parte dos documentos utilizados no Privataria à Polícia Federal, que até hoje não abriu inquérito.

Além disso, apesar de o deputado federal e ex-delegado da PF Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) ter conseguido o número de assinaturas necessárias à abertura da CPI da Privataria, o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), parece ter sentado sobre o assunto.

Novo livro

Desde o lançamento do A Privataria Tucana, Amaury fala em escrever a sequência. O livro já tem nome:Privataria 2, o Grande Complô.

Viomundo: Amaury, do que tratará o livro?
Amaury: Vou mostrar como funciona o núcleo de inteligência do PSDB, que domina até hoje setores da Polícia Federal e do Ministério Público Federal. Eles se movimentam para desarticular o ex-presidente Lula e futuramente a presidenta Dilma. Quero mostrar porque o PT não reage. No caso da CPI do Cachoeira, tinha a faca e o queijo na mão para investigar melhor a relação entre o bicheiro e a revista Veja.

Viomundo: Você tem explicação para o recuo do relator Odair Cunha (PT-MG)?
Amaury: O PT parece abafar todos os casos. Suspeito que é por um motivo simples. Herdou e deu continuidade a esquemas dos tucanos. No caso do Odair Cunha, devemos lembrar que o ex-sócio dele, que é da região de Boa Esperança, em Minas Gerais, se tornou diretor de Furnas e controla verbas e cargos. Será que tem o rabo preso e os tucanos descobriram?

Viomundo: E a CPI da Privataria, agora sai?
Amaury: Acho que não sai. Tudo indica que o PT tenha herdado o esquema promíscuo que os tucanos tinham com as empresas de telecomunicações. Diante da nova denúncia do Marcos Valério, que diz que a Brasil Telecom teria doado R$ 7 milhões ao PT, o partido vai ficar totalmente desmoralizado se a CPI não for aberta. Se não for aberta, vai ficar bem claro que eles temem que as investigações atinjam o próprio PT.

Viomundo: O líder do PT na Câmara, Jilmar Tatto, chegou a convidar o ex-presidente FHC para falar sobre a lista de Furnas. Mas foi desautorizado pelo líder do PT no Senado, Walter Pinheiro. Afinal, essa lista de Furnas é falsa, como afirmam os tucanos?Amaury: O laudo da perícia da Polícia Federal diz que é verdadeira. A lista mostra doações de campanha feitas por um esquema montado em Furnas para vários caciques do PSDB, dentre os quais Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra. O caso foi denunciado na Justiça Federal do Rio de Janeiro pela procuradora Andrea Bayão Ferreira, que em seu relatório diz não ter dúvidas da existência do esquema, que era abastecido por empresas fornecedoras de Furnas. Mas a Justiça Federal transferiu o caso para a Justiça Estadual do Rio de Janeiro, apesar de Furnas ser uma estatal federal. É outro caso no qual o procurador Gurgel não tomou qualquer providência. Será que ele faria o mesmo se fosse um esquema petista?

Viomundo: E essa história do mensalão tucano, anda?

Amaury: Mais uma vez houve tratamento diferenciado ao PSDB. No caso do mensalão tucano, houve desmembramento das investigações, encaminhadas à Justiça de Minas. No STF só serão julgados os reús com foro privilegiado. Vai ficar mais difícil montar o quebra-cabeças que facilitaria a condenação, como foi o caso do mensalão petista. As teorias do Gurgel não teriam vingado se tivesse havido desmembramento também no mensalão petista. No caso dos tucanos, houve.

Viomundo: Lula nunca falou sobre a Operação Porto Seguro, aquela que desvendou um esquema de tráfico de influência nas agências reguladoras e que teria a participação de Rosemary Nogueira. A mídia explorou o que define como “relações íntimas” entre o ex-presidente Lula e Rosemary. O que te pareceu o caso?Amaury: São denúncias sérias, que devem ser apuradas. Mas outra vez a imprensa, a Polícia Federal e o Ministério Público dão tratamento desigual a petistas e tucanos. Devemos lembrar que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso acreditava ter tido um filho com uma jornalista da Globo e a imprensa não só calou a respeito durante quase duas décadas como ajudou a abafar o caso. Uma concessionária pública, a Globo, transferiu a mãe do menino para a Espanha. Conheço bem essa história. Nunca toquei no assunto por se tratar da vida pessoal. Mas diante do cinismo da imprensa estou pensando em incluir no livro algumas revelações sobre como era o esquema para sustentar mãe e filho na Europa. É jornalistacamente relevante por se tratar de dinheiro de caixa dois, de financiamento de campanha. Tenho uma testemunha que sabe de tudo.

Viomundo: Você não poupa nem a PF, que vem trabalhando como nunca?
Amaury: O governo é petista, mas há um núcleo tucano na PF, tanto que a presidenta da República só ficou sabendo da Operação Porto Seguro depois que ela foi deflagrada. O ministro da Justiça apareceu na TV com aquela cara de bobo, ficou vendido. Vale lembrar que o início das investigações se deu pelas mãos do serviço de inteligência do PSDB, que cooptou testemunhas para levar o caso adiante. Meu livro vai contar os detalhes de como isso aconteceu. Vai também desnudar as relações promíscuas entre integrantes do Ministério Público e da Polícia Federal com o alto tucanato. Como vou sustentar, é mesmo um grande complô.

Viomundo: Mas se a Rosemary foi exonerada no dia seguinte à operação da PF, Dilma não sabia de nada antecipadamente? Há especulação de que ela deixou andar justamente para eliminar um núcleo de corrupção que herdou do governo Lula…Amaury: Essa é a grande pergunta, até hoje não foi respondida. Pretendo responder no livro.

Viomundo: Já que estamos no campo das especulações, e a boataria sobre a saída de Dilma do PT para o PDT?
Amaury: Seria um suicídio político. No PDT há uma briga de vida e morte entre a família Brizola e o ex-ministro Carlos Lupi. Só faria sentido ela sair do PT se o Lula fosse candidato em 2014, o que o atual quadro político não indica.

Viomundo: E essas gravações que você fez, do pessoal que tentou armar contra você, vão entrar no livro?
Amaury: Com certeza, mas antes vou entregar todo o material à Polícia Federal e à Justiça. Quero deixar claríssimo que eles escolhem os casos para investigar e punir. Como eles até agora não tomaram providências, pretendo entrar com representações na PF e no Ministério Público pedindo a apuração das denúncias contidas no A Privataria Tucana. Quero ver eles sentarem em cima do assunto. Pelo jeito só vai me restar fazer denúncias fora do Brasil por meio da ICIJ, International Consortium of Investigative Journalists, entidade que tem sede nos Estados Unidos e representação em dezenas de paises. Fui o primeiro repórter brasileiro a integrar a entidade e estou pensando em acioná-la se as autoridades brasileiras não tomarem providências.

*José Carlos Azenha é jornalista e blogueiro.

Fonte: Portal Viomundo