Coletivo Camaradas divulga o conteúdo do documento que será entregue ao Prefeito e aos vereadores do Crato

O Coletivo Camaradas defende urbanização social para a Comunidade do Gesso e está recolhendo assinaturas dos moradores para validar documento que será encaminhado ao prefeito do Crato e aos vereadores.

veja o conteúdo do documento na integra:

 

Crato, CE 15 de dezembro de 2018.

Exmo. Sr. Prefeito Municipal do Crato
José Ailton Brasil
Aos secretários do Governo Municipal do Crato
Aos vereadores e vereadoras do Município do Crato

Senhores e senhoras do Executivo e do Legislativo Crato,

Nós, abaixo-relacionados, integrantes do Coletivo Camaradas, representantes de entidades da sociedade civil e moradores da comunidade do Gesso encaminhamos o presente documento com o intuito de discutir, orientar e apresentar uma nova perspectiva de urbanismo que seja baseada na compreensão de integração de territórios, desenvolvimento social e econômico, democratização estética e artística, mobilidade e acessibilidade urbana, preocupação ambiental e fomento de arborização que garanta o equilíbrio do ecossistema.

Contexto
A comunidade do Gesso está situada entre os bairros São Miguel, Pinto Madeira, Santa Luzia e Centro e se caracteriza como sendo um lugar permeado por diversos lugares; isso só é possível de ser compreendido a partir do conhecimento, de como se deu processo de ocupação e estratificação social da localidade.

A Comunidade abrigou por quase quatro décadas umas das maiores zonas de prostituição da região Sul do Estado do Ceará (1950- 1990). A área de prostíbulo foi espaço sitiado dentro deste lugar e marcado pela ausência de políticas públicas. A linha férrea serviu ao longo dos tempos como elemento simbólico de segregação das pessoas.

Boa parte da população da comunidade sobrevive a partir de programas sociais do Governo, empregos precarizados e prestação de serviços.

A infraestrutura urbana apresenta problemas de visíveis que vão desde a ausência de delimitação de ruas, sistema de saneamento debilitado, problemática de lixo, falta de pavimentação e pouca luminosidade.

Esses elementos contribuem para o processo de estigmatização e vulnerabilidade social. Outro aspecto importante, é reconhecer as experiências e as formas de organização que são desenvolvidas na comunidade e que podem apontar caminhos para pensar integração comunitária e inter-comunitária, desenvolvimento e urbanismo social.

Território Criativo do Gesso (TCG)

Desde de 2015, o Coletivo Camaradas vem desenvolvendo o conceito do Território Criativo do Gesso, como uma rede de articulação, integração e potencialização das instituições e sujeitos sociais que atuam na comunidade e no seu entorno.

A ideia surgiu a partir da percepção que no seu entorno e na comunidade atuam mais de vinte organizações do poder público e da sociedade civil, entre escolas, universidades, secretarias, ONGS, coletivos, agrupamentos esportivos e instituições de arte e cultura.
O TCG serve também como instrumento de “desinvisibilização” territorial e apresentação da potência criativa da comunidade, fator essencial no combate a estigmatização e vulnerabilidade social, democratização estética, artística, literária o desenvolvimento social.

Essa atuação em rede também tem contribuindo para criar as condições para a construção de uma nova narrativa de lugar, a partir de elementos positivos e de elevação da autoestima comunitária.

Comunidade do Gesso e a construção do urbanismo social

É preciso considerar as intervenções nos espaços urbanos, a partir dos seus contextos e narrativas, tendo como eixos centrais: escuta das demandas da população, integração de pessoas, diálogo intercomunitário, redução dos impactos e desenvolvimento das condições ambientais, sociais, ludicidade, criatividade, acessibilidade e mobilidade urbana.

Neste sentido, apontamos algumas questões que consideramos importantes para pensar urbanismo para além de um aspecto estático, mas intimamente ligado ao lugar, afetividade e ao processo de aproximação e bem viver das pessoas.

Assim sendo, propomos para a comunidade do Gesso:

1. SANEAMENTO BÁSICO – Revisão e adequação do saneamento básico, em especial, nas áreas que compreendem: o largo do Gesso, ruas Ministro João Gonçalves, São Francisco, 7 de setembro, Horácio Jácome e Monsenhor Juviniano Barreto;

2. PAVIMENTAÇÃO INTERTRAVADA – A pavimentação da comunidade do Gesso deve garantir as condições de mobilidade urbana, espaço da ludicidade, redução do calor e da velocidade de veículos e ao mesmo servir como elo do largo do Gesso ao Centro e ao São Miguel. A pavimentação com blocos de concreto seria ideal. A área a ser pavimentada compreende o largo do Gesso, ruas Horácio Jácome e Monsenhor Juviniano Barreto (de ambos os lados da linha);

3. CINTURÃO VERDE E FRUTÍFERO – Propomos como redução dos impactos do Metrô, tanto de barulho como dos danos nas residências, a plantação de árvores frutíferas, com o intuito também de proporcionar alimento, sombra, beleza, purificação do ar, convivência e construção de uma cultura de cuidado e partilha;

4. PRAÇA DO GESSO – Um complexo equipamento de integração comunitária e de encontros de gerações composto por: a) Quadra (já existente, é importante que esse equipamento esteja inserido dentro do circuito de competições esportivas da cidade), b) Terreiro/palco de apresentação do Coletivo Camaradas ( Já existente – atualmente é o principal equipamento cultural da comunidade e recebe ações no campo da arte e da literatura do tanto do Brasil como de outros países); c) Academia Popular e Parque de diversão (O brincar deve ser incentivado como vetor de desenvolvimento motor, emocional, social e integrativo da vida comunitária e a atividade física é indispensável no processo de prevenção de doenças e qualidade de vida); d) Quiosque comunitário ( espaço medindo circular 10m de circunferência com o intuito de servir como equipamento para feiras, oficinas, ensaios, reuniões e apresentações); e) Praça com Internet ( É preciso se conectar as exigências dos novos tempos, a disponibilização de internet gratuita nas praças deve pode e deve ser garantida por lei);

5. ILUMINAÇÃO PÚBLICA – Espaços mais iluminados geram sensação de segurança e amplia o fluxo de circulação e permanência de pessoas nas ruas. Ainda é reduzida a luminosidade na comunidade e pensar a iluminação pública neste contexto de urbanização social e sustentabilidade, se faz necessário a inclusão de energias limpas;

6. INTERVENÇÕES ARTÍSTICAS – A arte e a literatura são elementos que vêm referenciando a comunidade do Gesso nos últimos anos. Artistas e coletivos estão ocupando com os seus trabalhos o espaço urbano o que cria uma ambiência de aproximação e fruição estética. a) Reconhecimento da intervenção Poste Poesia como ação educativa, neste sentido, propomos que os postes de iluminação públicas sejam pintados por parte da gestão municipal nas cores primárias (azul, amarelo e vermelho); b) Pintura nas fachadas ( as fachadas das casas são cartões de visitas e de autoestima, renovar, incluir imagens podem compor um projeto amplo e humanitário de urbanização); c) Cartografia social e visual de serviços ( A urbanização pode favorecer a geração de renda local; neste sentido propomos o mapeamento dos serviços ofertados pelos moradores e a identificação com placas nas suas residências) d) Galeria de Arte Urbana ( É possível reconhecer a rua como galeria de arte. Possibilitar fruição da arte urbana, junto as escolas e a comunidade é referenciar a localidade como espaço visualmente criativo, entretanto, o fomento financeiro aos artistas é o elemento central para a sua própria sobrevivência).

7. CONTROLE DE NATALIDADE DE GATOS E CÃES – Aumento da população de gatos e cães tem gerado problemas na ambiência urbana da comunidade, que vai desde o aumento da possibilidade de doenças, fedentinas por contas de urinas, fezes e alimentos, além de prejuízos residenciais. (Entendemos que a gestão municipal ao agir na castração de cães e gatos está contribuindo para processo de urbanização social);

8. TURISMO COMUNITÁRIO – A Comunidade do Gesso e no seu entorno contempla uma rede de hotéis e pousadas (Hostel Kariri, Brisa Hotel, Pousada São Miguel, Crato Hotel, Pausada Sagrada Família, etc.) e as ações que vêm sendo desenvolvidas no campo da arte e da literatura têm ganhando visibilidade por atrair artistas nacionais e internacionais. Entendemos que a partir do que foi elencado e incrementado com outras ações seja possível desenvolver turismo comunitário.

9. CAMPANHA PERMANENTE DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL NAS ESCOLAS E NA COMUNIDADE – o trabalho de educação ambiental baseado no conceito do bem viver é um trabalho contínuo e persistente para favorecer o entendimento que o cuidar da ambiência do viver é cuidar da saúde física e mental da coletividade do seu lugar;
10. ACESSIBILIDADE E MOBILIDADE URBANA – É necessário pensar formas para integrar os lados que se separam pelos trilhos e possibilite condições seguras de passagem, em especial para população idosa e com debilitação motora.

Diante da necessidade de promover um novo olhar para a comunidade do Gesso, integrada a cidade e ao conceito de urbanismo social e bem viver, e, entendendo que esse documento representa um manifesto político que parte da compreensão do direito à cidade como direitos humanos e, consequentemente, da participação nas discussões sobre as políticas públicas, reivindicamos que as intervenções no espaço público aconteça com o calor humano daqueles que desenham e reconfiguram todo os dias as suas paisagens urbanas, sociais e culturais e que os birôs dos arquitetos e urbanistas seja apenas uma um decodificador dos anseios do povo.

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