O Coletivo como eu vejo: Uma militância além do Gesso

Cíntia Gomes – integrante do Coletivo Camaradas

Maria Cíntia Gomes*

Neste texto proponho uma reflexão sobre o Coletivo Camaradas que transcende os padrões acadêmicos em que me encontro enquanto graduanda no Curso de Licenciatura em Pedagogia e que se encontra na minha subjetividade, pois enquanto pessoa humana  almejo um mundo de empatia e de solidariedade em que todos sejamos reconhecidos dentro das nossas diferenças sem que isto nos torne superiores uns aos outros.  A minha pouca experiência no Coletivo Camaradas me faz pensar que este sonho não é impossível e nem tão distante, pois vi que existem pessoas engajadas na construção do Socialismo no Brasil e na resinificação social de muitas vidas que se encontram marginalizadas no Cariri cearense.

Sabemos que a estigmatização social e a marginalidade não são fenômenos recentes na nossa história e a luta pela superação desses mecanismos ultrapassam os séculos de nossas narrativas e rompem a cultura do silenciamento que atinge as classes populares de forma tão violenta. O desvelamento deste sistema marcado pelo patriarcado, pelo machismo, pela superioridade da cultura eurocêntrica e pela heteronormatividade  que constrange nossas representações, nossa liberdade e a maneira de existir que pertence a cada um de nós é um elemento fundamental para o combate a este sistema social que a nós está posto, entendendo que a construção de uma consciência crítica nos dá possibilidade de encarar esses padrões com a força necessária para desconstruí-los.

Os caminhos para se chegar a esta consciência crítica que potencializa a busca pela transformação social são diversos, o que não quer dizer que sejam fáceis. O Coletivo Camaradas surge na Comunidade do Gesso em uma conjuntura específica do local, que recebe reflexos do longo processo de estigmatização social decorrente de padrões estabelecidos socialmente baseados em princípios e valores hierarquizantes, neste sentido a cultura política adotada pelo Coletivo, enquanto Movimento Social, consiste na produção de propostas e ações conscientizadoras através da Arte Política. Uma arte que incomoda, que nos instiga, que nos faz refletir e que contribui para a desnaturalização de certos estigmas sociais. A Arte Política é um mecanismo de produção de novas narrativas acerca da própria comunidade e é um instrumento de luta emancipatório e humanizador que visa desenvolver o sentimento de pertencimento comunitário e a partir dele a valorização da própria identidade dos moradores que constroem o Gesso.

O papel que o Coletivo Camaradas desempenha no cenário de lutas pela busca da democratização social tem efeitos que vão além das questões estruturais da comunidade, isso é perceptível principalmente na concepção de infância construída com base no protagonismo infantil, onde as crianças da comunidade são vistas como sujeitos políticos, participativos e produtores de cultura tendo um lugar reservado no palco de reivindicações, neste sentindo há uma construção de identidade pautada em princípios que consideram as especificidades de cada sujeito sem interpretá-las como aspectos de dominação. As ações desenvolvidas pelas pessoas que fazem o Coletivo são fundamentais não só para o Gesso mais para todas as pessoas oprimidas pelo sistema, por isso é necessário unir forças para potencializar a emancipação humana e o sentimento de coletividade transposta na filosofia do Ethos Ubuntu que nos sugere a cultura do compartilhamento e de comunidade fruto da nossa afrodescendência que nos foi silenciada.

O além do Gesso sugerido no título desta pequena reflexão enfatiza a grande rede de relações que estabelecemos neste intervalo de nossa existência. As pessoas que passam pelo Coletivo Camaradas, mesmo as que não permanecem, a elas são acrescidas novos valores, novas concepções e novas visões de mundo que serão compartilhadas mais adiante com novas pessoas e assim por diante. O Coletivo como eu vejo é um grande palco de lutas que possibilita a livre expressão do nosso ser e do nosso existir, não é preciso incorporar personagens para subir a este grande palco basta ser quem somos ao passo que sentimos as dores, as angústias e os ensejos dos nossos companheiros. É preciso nos construir coletivamente para que possamos ser a força uns dos outros nesta narrativa.

 

*Graduanda em Pedagogia pela Universidade Regional do Cariri – URCA e integrante do Coletivo Camaradas

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