A comunidade do Gesso uma experiência além da cultura

Por Alexandre Lucas

A cultura pode ser um elemento de desenvolvimento e emancipação social, mas também ser um instrumento de dominação, opressão e naturalização da ditadura dos ricos. É preciso reconhecer esse aspecto conflitante e o seu caráter de classe para que não façamos a reprodução ingênua de tratar a cultura, como um elemento imparcial e acima da luta de classes.

A dominação econômica concomitantemente produz uma dominação cultural, caracterizada pela redução do acesso a diversidade historicamente produzida pela humanidade tanto no campo simbólico, como material e até mesmo de mobilidade urbana. Os meios de comunicação de massa estão a serviço do capital, o que vai deste a programação musical ao conteúdo das notícias.

Existe uma ditatura do consumo cultural e quem dita às regras são os donos dos meios de produção e o povo tem opções de consumir de forma alienada ou de criar pontes de resistências, abrindo canais para outras narrativas, algumas que se contrapõem a logica mercantil e outras que produzem uma nova espécie de cultura gourmet para o povo, que muitas vezes reforça uma concepção estética, artística e cultural dominante.

É preciso pensar a cultura a partir de um projeto de sociedade, o que ultrapassa as barreiras locais e se alinham as narrativas macros de sociedade. Pensar a sociedade a partir de uma ilha é cair no campo da utopia romanceada que não considera os fatores antagônicos das classes socais e as condições objetivas da realidade social.

A partir desta concepção, tentarei descrever uma experiência que vem sendo esboçada e refeita constantemente pelo Coletivo Camaradas na comunidade do Gesso, na Cidade do Crato, no Ceará.

A comunidade do Gesso é uma área situada entre os bairros Pinto Madeira, Centro, Santa Luzia e São Miguel, que na década de 50 a 80 teve uma das maiores zonas de prostituição da região sul do estado do Ceará e a marca da ausência das politicas públicas, com o declínio da zona de prostituição, o tráfico se torna referência da comunidade para a cidade. O que acontece na maioria dos bairros e comunidade que concentra as camadas populares em situação de vulnerabilidade social.

Esse contexto gerou e gera um forte impacto na estigmatização social da comunidade e internamente existe uma estratificação no processo de organização social dos moradores, o que repercute nas diferenças de compreensões das narrativas locais e de sociedade, mas que se comungam na ideia do “melhor para comunidade”.

No campo da cultura, o que não é um caso particular da comunidade, a industrial cultural tem papel degenerativo significante de reproduzir a descrença humanitária e a desvalorização dos direitos humanos.

É diante destas configurações que o Coletivo Camaradas vêm atuando, numa perspectiva de reconhecer a possibilidade da cultura enquanto vetor de desenvolvimento social e emancipação humana.

Para situar, o Coletivo Camaradas atua na comunidade desde 2007 e compreende que o seu papel deve ser de construir pontes entre as iniciativas da comunidade, os movimentos sociais e diálogos, quando possível, com o poder público. Essas pontes estão intimamente ligadas a um projeto de sociedade, que se permeia pela noção de interligação e não de isolamento social, ou seja, a compreensão de tratar a problemática social como fator local é reduzir o espaço de empoderamento e compreensão da realidade social.

O desafio do Coletivo Camaradas possivelmente seja o de ser compreendido e ao mesmo atuar no campo de disputa da cultura para construir uma nova cultura política baseada na solidariedade, na defesa da democracia e da construção comunitária de base intercomunitária.

Neste sentido, umas das questões centrais, no combate a estigmatização e vulnerabilidade social desenvolvida pelo Coletivo Camaradas é a “desinvisibilização territorial” e apresentação da potência criativa da comunidade, como elos de elevar a autoestima comunitária, a capacidade inventiva e o poder de articulação e conquista política.

Desinvisibilizar é torna visíveis os processos organizativos e criativos que ocorrem na comunidade como mecanismo de atração e diálogos com as instituições e sujeitos sociais, o que vem proporcionado à democratização da alfabetização estético-artística, aproximação da atuação do poder público na comunidade, o fortalecimento de parcerias entre comunidade, movimentos sociais e as instituições públicas.

Cada vez que é apresentada uma ação na comunidade, se impulsiona uma potência criativa, o que cria relações de identidade e pertencimento com o fazer criativo e positivo da comunidade, nesta luta é necessário, que a comunidade se veja como protagonista, no rádio, na tv, nas redes sociais e nos espaços. É um tiro na estigmatização.

Essa compreensão combate outra lógica, difundida pelos conservadores e reacionários, de apresentar as camadas populares como incapazes de construir suas pontes e seus caminhos de diálogos, sobrevivência e resistência política. A comunidade tem que ser a interlocutora das suas demandas sociais, sem intermediárias, os quais normalmente atrapalham o poder de organização da comunidade.

O Coletivo Camaradas neste processo de articulação que ultrapassa o âmbito da cidade busca alinhar alternativas políticas, pedagógicos, estéticas e artísticas que estejam conectadas a outra compreensão de sociedade baseada na solidariedade e na democracia econômica, social, cultural e tecnológica, o que só é possível interligando a comunidade ao mundo e a outros sujeito sociais.

Diversas são as ações neste sentido desenvolvidas pelo Coletivo Camaradas na Comunidade do Gesso, que vai deste a construção da ação/rede do Território Criativo do Gesso que é uma estratégia de atuação em rede que envolve comunidade, movimentos sociais e o poder publico e visa potencializar ações já desenvolvidas no entorno da comunidade, ou ainda, proporcionar novas parcerias.

O Terreiro do Coletivo Camaradas é outro exemplo, ligado ao processo de alfabetização estético-artística, o Terreiro consiste num piso de cimento medindo aproximadamente 5 metros x 8 metros, essa pequena estrutura construída em espaço aberto proporciona que a Comunidade possa ter um espaço para ser apresentar e se ver, bem como propicia dialogo com diversas instituições de fomento as artes, com outros grupos e artistas de diversas regiões brasileiras e coloca a comunidade dentro do circuito das artes.

O trabalho que é desenvolvido no campo da democratização do livro e da leitura visa contribuir para uma cultura leitora, através dos Pontos de Leituras nas bodegas, nas intervenções urbanas do Poste Poesia, as contações de histórias, exibição de filmes, apresentações musicais, na roda de poesia protagonizada pelas crianças e na publicação de livros. Essas ações envolvem a comunidade e estabelecer novas conexões e proporciona desenvolvimento intelectual e desperta olhares externos que compreendem a democratização da leitura como ferramenta para ampliar a visão social de mundo.

A Feira de Sustentabilidade “Trocaria” visa favorecer novas possiblidades de renda e inserir a comunidade dentro de outros espaços de economia solidária, em que a construção de “gente” seja mais importante do que a construção de “valores”.
Portanto, a experiência que vem sendo desenvolvida, foge da oferta e da procura da cultura enquanto mercadoria ou disponibilização do arroz e do feijão, que não agrega sustância no aspecto da emancipação humana. Queremos provar do caviar que nos é negado, podemos até não gostar, mas temos o direito de consumi-lo.
A defesa do direito a cultura deve ser contextualizada a outros direitos negados as camadas populares.
A experiência na comunidade do Gesso, não é uma receita pronta para um bolo social, mas um desafio que exige amplitude de compreensão, capacidade de interlocução e norte político do tipo de seres humanos e sociedade que se quer construir.

Na comunidade do Gesso, o Coletivo Camaradas aprende todos os dias como tomar rios e mares porque não comunga com a ideia de dar peixes ou ensinar a pescar. Isso vai além da cultura.

*Pedagago, artista/educador e coordenador do Coletivo Camaradas.

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