O que é mesmo esse Coletivo Camaradas?

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Por Alexandre Lucas*

Nada acontece do acaso, as coisas, pessoas e as formas de organização do povo sempre tem uma história para ser contada. Resgatar a história nos possibilita compreender a origem, motivações, práticas e diretrizes que norteiam as formas de organização da sociedade.

Não é diferente com o Coletivo Camaradas, temos uma história que precisa ser conhecida pelos seus ativistas como forma de contribuir com o processo de formação e compreensão da nossa atuação.

Resgatando a história, em 2005, alguns artistas do Crato tentavam se organizar para realizar movimento contrário a Secretaria de Cultura do Município que tinha uma postura de inércia em relação às políticas para o setor. Em dezembro de 2006, um grupo de artistas do Cariri, que participaram da IV Mostra Cariri das Artes realizada pela Secretaria de Cultura do Estado do Ceará e coordenada pela curadora Dodora Guimarães estiveram em São Paulo aonde visitaram ateliers, galerias, artistas e curadores. Esse intercambio em São Paulo contou com a participação dos artistas Nívia Uchoa, Junior Erre, Luís Karimai, Maria Candido, Guto Bezerra, Edelson Diniz, Francorli, Laerto Xenofonte, Zé Celestino, José Cordeiro, Alexandre Lucas e Weudes.

Na volta ao Cariri e movidos pela empolgação da viagem, os artistas se reuniram para tentar organizar um movimento na região. Como existiam divergências de concepção o grupo não vingou.

Já em 2007, existia uma movimentação em torno da poesia coletiva, em que amigos se reuniam nas quartas-feiras, após as aulas da Universidade Regional do Cariri – URCA, na minha residência para fazer saraus, a partir de dinâmica da construção conjunta da poesia, em que cada um escrevia um verso. No mesmo período, esse grupo participou da Mostra SESC Cariri com o Sarau “Os Camaradas”.

Posteriormente, reúnem-se três pessoas para criar o que hoje é o Coletivo Camaradas, eu, Michael Marques, na época estudante do Curso de Ciências Sociais e a estudante de Letras, Luciana Rodrigues (a qual participou de poucas atividades).

O Coletivo Camaradas surge no final de 2007, após essas diversas tentativas sem sucesso de organização de artistas.

O grupo inicial definiu algumas diretrizes para a perspectiva de atuação que ao longo do tempo foram se amadurecendo e definindo uma identidade política e pedagógica.

O que nos define?….Não é a indefinição!

O que seria da vida se não definíssemos diretrizes e caminhos a serem seguidos? Essa necessidade humana de definir as coisas é o que norteia caminhos, planos e tomada de posição diante da realidade. Ter clareza destas definições proporciona segurança no que fazemos. Imagine uma professora que não define o seu plano de aula ou que não busca se aprofundar na área que leciona, a tendência é ter um resultado desastroso e não compreender o seu processo de construção.

Portanto, é preciso entender o que defini o Coletivo Camaradas para se compreender o discurso e a pratica da nossa organização.

O Coletivo Camaradas foi resultado de um processo que se iniciou em 2005 e que se concretizou em 2007, a partir de uma compreensão mais amadurecida do ponto de vista de posicionamento e atuação.

Quando procuramos definir diretrizes políticas e pedagógicas estamos buscando desenhar uma bússola que nos oriente acertar o caminho que queremos chegar.

Apontarei algumas questões que vão indicando essas diretrizes e, por conseguinte vão definindo o nosso perfil.

Somos um coletivo que declaradamente se reconhece como uma organização política de esquerda e que busca compreender a realidade a partir de uma perspectiva marxista, atuamos no campo das artes, na defesa por políticas públicas para a cultura, em processos organizativos de empoderamento popular e na luta pela democratização da produção e da acessibilidade do conhecimento cientifico, cultural e tecnológico como forma de ampliar a visão social de mundo das camadas populares e contribuir para o processo de transformação social.

O Camaradas não é um grupo de artistas e especificamente de artes, é um coletivo que congrega pessoas das mais diferentes áreas do conhecimento e dialoga com as diversas linguagens artísticas e expressões culturais (literatura, artes visuais, dança , teatro, circo, música, performance, grupos da tradição, etc.)

Buscamos criar dentro do nosso fazer estético e artístico um processo criativo com e para o povo, visando estabelecer laços de pertencimento, participação e empoderamento. Essa perspectiva a nosso ver, amplia a visão social de mundo dos que estão à margem do circuito oficial das artes e constitui uma concepção de confronto com a perspectiva excludente e mercadológica de uma arte para poucos como determina a lógica capitalista. O acesso da nossa população a diversidade cultural e artística ainda é restrita as elites econômicas e intelectuais.

Conectado com o Brasil

O Coletivo Camaradas dialoga com outros coletivos do Brasil, a nossa trajetória não se resume ao Cariri Cearense ao longo dos anos estamos percebendo novos discursos e fazeres criativos no país, o que nos faz redescobrir um novo Brasil, o que fortalece e renova a nossa compreensão política.

Temos conversado, propiciando intercâmbios, efetuado articulações em rede e fortalecido ações e ideias. Isso tem nos proporcionado a compreensão de atuação colaborativa e novas relações de atuação política baseada na autonomia e protagonismo dos grupos.

Temos aprendido e trocado com o Centro Universitário de Cultura e Arte da União Nacional dos Estudantes – CUCA da UNE, com as experiências do Fora do Eixo, com articulação em rede dos Pontos de Cultura, com o Coletivo Psicodélico ( Macapá – AP), com o Programa de Interferência Ambiental – PIA, com a rede ColetivoS ( Cariri –CE) e com a criação da Rede IP – Intervenções e Performances surgida após a realização da III Mostra Nacional de Vídeos Intervenções e Performances – Mostra IP ( 2015).

Construindo redes e novos circuitos

Somos mais fortes juntos! Essa ideia tem guiado o nosso trabalho em rede e potencializado ações e ao mesmo tempo tem criado novos interlocutores e circuitos.

Temos como exemplo de experiência a Trocaria no Gesso, que reúne o poder público e sociedade civil e visa criar empoderamento comunitário, a partir de serviços e ações lúdicas; a Mostra IP que em 2015 foi realizada em 31 cidades de 15 estados brasileiros; II edição do Grito Rock no Crato, O Estopim – Mostra de Artes da Rede Coletivos, o Hip Hop é Coisa Séria também é uma experiência que tem fortalecido o movimento Hip Hop no Cariri. Outras ações que participamos enquanto parceiros também tem essa característica como é o caso da Festa Popular da Malhação Judas, a Guerrilha do Ato Dramático Caririense, Máfia Sonora (coletivo do Hip Hop), Corpos em Fluxo e o Caldeirão das Dança e as expedições fotográficas, etc.

Defendemos ainda que em cada canto da cidade tenha um coletivo por isso instigamos a formação de novas organizações por entender que quantos mais grupos tiverem na cidade, maior será a reflexão, produção, circulação e articulação em torno do pensar e fazer criativo e simbólico da cidade.

Comunidade do Gesso

A nossa sede funciona na Comunidade do Gesso no Crato, área estigmatizada e de vulnerabilidade social que abrigou por cerca de quatro décadas a maior zona de prostituição da região do sul do Estado do Ceará.

A nossa atuação na Comunidade tem o objetivo de contribuir com o processo de organização comunitária, através de processos lúdicos e criativos. Dentre as atividades que desenvolvemos na comunidade podemos cita: Trocaria no Gesso, Cine-Gesso, Pontos de Leituras nas Bodegas, oficinas, intervenções urbanas e brinquedoteca.

Tripé Pedagógico do Ensino de Artes

No Coletivo Camaradas defendemos o que chamamos de “Tripé Pedagógico do Ensino de Artes” que tem o objetivo de criar mecanismos de aprendizagem contextualizada para a prática social, bem como apontar caminhos para o empoderamento social.

O Tripé é baseado em Estudo, Vivência e Experimentação:

Estudo contextualizado – A arte não se explica pela arte, mas a partir da relação com outras áreas do conhecimento. O estudo contextualizado visa à formação integral do ser humano por ampliar a visão social de mundo. Neste aspecto para compreendemos e refletir sobre a produção simbólica precisamos assimilar os diversos contextos da sociedade.

Vivência – Ver, sentir, escutar e vivenciar novos espaços e contatos sociais no campo das artes criar uma processo de aproximação entre artista/obra/público, dando um nova dinâmica a essa compreensão e gerando novos saberes e fazeres.

Experimentação: É preciso propiciar a experimentação como forma de aprendizagem, empoderamento e criação de relações de pertencimento. A experimentação neste caso visa torna a arte um elemento de humanização, resistência social e conhecimento.

Acreditamos que neste contexto o Tripé propicia um processo de assimilação capaz de contribuir para o protagonismo e ocupação dos espaços políticos pelas camadas populares.

Outras referências sobre o Coletivo Camaradas

Site: www.camaradas.org.br

Facebook: www.facebook.com/coletivocamaradas

Blog Cordel Engajado: www.cordelengajado.blogspot.com

Livro: Entranhamentos entre Arte, Estética, Política, Cultura e Educação – Alexandre Lucas – http://pt.scribd.com/doc/140046014/Entranhamentos-Alexandre-Lucas

*Pedagogo, artista-educador e coordenador do Coletivo Camaradas

 

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