Arquivos mensais: outubro 2013

escher-auto-retrato

A mala e a alça



J. Flávio Vieira
                               Tardezinha. Beira de praia. O sol sangra distante ao som rítmico das ondas que se espedaçam na areia . Preamar. De quando em vez,  o chuá-chuá mântrico é entrecortado pelo agudo grito das garças riscando os céus. A moça sentara-se num banco e observava tudo, atentamente, como testemunha privilegiada,  o espetáculo. A paz e a beleza do mundo como que se transportavam para dentro dela: arrefeciam um pouco seus muitos conflitos interiores, como se lançassem água fria na fervura. De repente, um menino se aproxima da mocinha. Carregava lá seus dez anos distribuídos num corpo franzino, bronzeado,  vigiados por olhos vivíssimos. Trazia , embaixo do braço, uma pequena tabuleta onde prendera um pedaço de cartolina e, na outra mão, um crayon. Ela percebeu, claramente, pela conversa que se seguiu, que a necessidade o havia apeado cedo da inocência e das fantasias infantis. Parecia uma fruta que se tivesse colocado no carbureto pra antecipar o amadurecimento.
                               — Moça, você não quer que eu pinte seu retrato ? São só dez reais e vai ficar muito bonito !
                               Por baixo da cartolina branca, trazia , então,  vários modelos já pintados anteriormente e que usava como publicidade. Apresentou-os pausadamente à cliente. A mocinha, de início, resistiu à investida, mas o menino carregava muitas artimanhas e técnicas de sedução.
                               — Dez reais não é nada!  A senhora é tão bonita  que eu devia era fazer de graça !  Juro que pintaria,  se não estivesse precisando pagar uma continha na barraca  ali de seu Anfrízio!
                               De alguma maneira,  o garoto sabia que a beleza da paisagem, àquela hora,  imantava  todos de um sentimento de permanência, de eternidade. Como se o crayon tivesse a capacidade de tornar sólido,  o etéreo daqueles instantes,  fossilizar a efemeridade daquele momento mágico. Talvez, por tudo isso, a mocinha tenha acedido.
                               — Tá certo ! Mas quero sair linda, viu ?
                               O pintor sentou-se no chão,  diante da moça refestelada no banco e, rápido, começou a esboçar os contornos do rosto, tendo no segundo plano:   algumas nuvens e um projeto de lua cheia.  Usava os dedos e o dorso da mão para espalhar, aqui e ali,  a tinta e uma borracha para eventuais correções. Conhecia os mistérios da profissão e percebia que toda mulher, nesse mundo, se acha mais bela do que aparenta. Entendia, pois, na sua psicologia pictórica, que a interatividade com a modelo é, sempre,  essencial no  resultado final.
                               — Moça, seu rostinho é meio redondo, você não prefere que eu alongue um pouco ?  Acho que fica mais bonito!
                               — Alongue, meu filho, tenho um complexo danado dessa cara de lua cheia…
                               O pintor , freneticamente, como um Pollock tupiniquim, esparramava a tinta na cartolina enquanto , meticulosamente, ia indicando possíveis correções que podiam melhorar a arte final.
                               — Essa cicatrizinha no queixo, não é bom tirar ?
                               — Tire, isso foi de um acidente que quero esquecer!
                               — Se eu aumentar um pouco o busto, você vai ficar mais sensual !
                               — Pois aumente !
                               — Seu narizinho é charmoso, mas é um pouco chato. Posso arrebitar ?
                               — Arrebite, vá lá ! Você presta atenção em tudo, né ?
                               — Seu cabelo tá curtinho, acho que ficava mais legal se a gente botasse um pouco mais de volume, cobriria  mais suas orelhas que são um pouco cabanas…
                               — Pois avolume,  eu quero é ficar melhor ! Já que não posso fazer  plástica, ao menos no retrato é possível, né ?
                               Em poucos minutos , com movimentos cada vez mais rápidos e sincronizados, o menino finalizou a obra. Assinou num cantinho : “Juvenal”e, logo abaixo, datou: “2013”. A menina observou, detalhadamente,  o quadro e gostou do que viu. Ali estava  justamente como gostaria de ser, sem um defeito sequer: linda, deslumbrante, poderosa, com um sorriso pendendo nos lábios. Pagou, elogiou o trabalho do artista e saiu para casa levando sua relíquia debaixo do braço. No outro dia,  mandou botar no quadro , com uma moldura antiga e dourada  e um passe-partout  bege.  Afixou  na sala de jantar,   logo acima do divã azul.  
                               Os dias se passaram e a menina começou a encafifar. O retrato lá estava lindo e deslumbrante, todo visitante admirava-se da beleza da obra, mas ,invariavelmente, seguia-se a pergunta fatídica;
                               — Quem é ? Sua irmã? Uma prima ? Sua tia ?
                               De tanto responder e explicar, cansou. Resolveu tirar o quadro da parede. Chegou à conclusão que nós somos nós , não só por nossas qualidades, mas também por nossos defeitos.  Sem a alça,  a mala poderia  ser até mais bonita  e simétrica, mas seria apenas uma caixa. As pretensas deformações que nos tornam mais feios são , justamente, aquelas que nos dão a identidade , que terminam nos fazendo diferentes e únicos.
Crato, 24/10/13
                              

LÊNIN E OS DILEMAS DA REVOLUÇÃO RUSSA DE 1917 * – Augusto Buonicore Fundação Maurício Grabois

Por Augusto C. Buonicore **
A revolução socialista na Rússia, ocorrida em novembro de 1917, foi um dos principais marcos do século XX, pois traçou um risco vermelho que percorreu cerca de oito décadas da história mundial e alimentou, em milhões de pessoas, a esperança de um futuro melhor, sem opressão e miséria.
O grande arquiteto da vitória socialista foi Vladimir Ilitch Lênin. Apesar do muito que já foi escrito, ele continua sendo um desconhecido. O seu pensamento crítico, avesso ao dogmatismo, profundamente dialético, acabou sendo reduzido a fórmulas esquemáticas e empobrecidas. Muitos de seus ricos ensinamentos, especialmente no campo da construção da tática e da estratégia revolucionárias, foram deturpados por doutrinários de direita e de esquerda.
Este artigo abordará a contribuição teórica de Lênin ao processo revolucionário russo entre fevereiro e outubro de 1917 e recuperará alguns aspectos menos conhecidos de sua elaboração política, especialmente de sua tese sobre o “desenvolvimento pacífico da revolução” e a necessidade de um período de transição entre o capitalismo e o socialismo.
O objetivo do artigo não será apresentar receitas universais para as revoluções socialistas passadas ou futuras, mas mostrar as inúmeras possibilidades que as revoluções reais — e não imaginárias — colocam para as correntes marxistas revolucionárias, e como é difícil se posicionar diante delas.
A particularidade da revolução democrática na Rússia: o duplo poder.
Em fevereiro de 1917 o povo russo pôs abaixo a odiada autocracia czarista. Em seu lugar surgiu um governo provisório composto por setores da oposição liberal-burguesa e por socialistas reformistas. Ao lado dele ste surgiu outro poder, criado pela ação revolucionária das massas populares: os Sovietes. Estava assim estabelecido um duplo poder.
Desde o seu nascedouro o governo provisório deu sinais de que não poderia corresponder aos grandes acontecimentos que estavam sacudindo a Rússia. Não se mostrava disposto a atender às principais reivindicações dos trabalhadores, que haviam sido a força decisiva na derrocada do czarismo. Não se comprometia com a decretação da paz, com a reforma agrária e nem mesmo com as bandeiras democráticas, como a convocação de uma assembleia éia nacional constituinte. E, por outro lado, os Sovietes, dirigidos pelos social-revolucionários e mencheviques, não estavam determinados a arrancar dele essas conquistas. A própria direção bolchevique vacilava em relação a que atitude tomar frente ao novo governo  democrático-burguês.
Lênin, que estava exilado na Suíça, mostrava muita preocupação com o desenvolvimento do processo revolucionário. Assim, escreveu cinco cartas analisando a situação política aberta após a revolução e expondo suas opiniões sobre qual devia ser uma tática justa naquela nova, e imprevista, situação. Estas seriam denominadas Cartas de Longe. Ele iniciou sua correspondência vaticinando: “Seguramente, esta primeira etapa não será a última de nossa revolução”.
“Ao lado deste governo (provisório)”, continuou ele, “apareceu um governo operário (…) ainda, relativamente débil, que expressa os interesses do proletariado e de todos os elementos pobres da população da cidade e do campo. Este governo é dos Sovietes (…). Quem pretende que os operários devem apoiar ao novo governo (provisório) em nome da luta contra a reação czarista (…) trai a causa do proletariado, a causa da paz e da liberdade. Porque, de fato, este novo governo já está atado pelas de mãos e os pés ao capital imperialismo, à política imperialista belicista, de rapina, e já iniciou as transações (sem consultar ao povo) com a dinastia”. E, concluiu, que aquele governo não podia dar ao povo “nem a paz, nem o pão, nem a liberdade”.
Em abril, Lênin chegou a uma Rússia ainda convulsionada e apresentou, pela primeira vez, a palavra de ordem revolucionária: “Todo o Poder aos Sovietes!”. Neste período, também, elaborou dois importantes documentos: Teses de Abril e As tarefas do proletariado na presente revolução.
“Na Rússia”, escreveu ele, “o poder de Estado passou para as mãos de uma nova classe, a saber, da burguesia e dos latifundiários que se tornaram burgueses. Desta forma, a revolução democrático-burguesa está consumada (…). A característica principal de nossa revolução (…) é a duplicidade de poderes (…). Esta circunstância excepcionalmente original, sem precedente na história da humanidade, levou ao entrelaçamento de duas ditaduras: a ditadura da burguesia (…) e a ditadura do proletariado e dos camponeses (o Soviete de deputados operário e soldados)”.
Ele tinha plena consciência da instabilidade desta situação e dos perigos, e possibilidades, que ela colocava diante do proletariado. “Não há sombra de dúvida de que esse ‘entrelaçamento’ não está em condições de se sustentar por muito tempo. Não podem subsistir dois poderes num mesmo Estado. Um deles precisa desaparecer (…). A duplicidade de poder não exprime senão um instante transitório no desenvolvimento da revolução, quando ela já ultrapassou os limites da revolução democrático-burguesa comum, porém ainda não atingiu uma ditadura ‘pura’ do proletariado e do campesinato”.
No entanto, deixou claro que não acreditava na possibilidade da implantação imediata do socialismo e que seria necessário um período de transição mais ou menos longo, dependendo de uma série de fatores objetivos e subjetivos. “Nossa tarefa imediata não é a ‘introdução’ do socialismo (…). O partido do proletariado não pode propor-se, de forma alguma, ‘estabelecer’ o socialismo num país de pequenos camponeses enquanto a grande maioria da população não tiver tomado consciência da necessidade da revolução socialista”.
Ainda em abril escreveu o artigo Sobre a Dualidade de Poderes, no qual contestava aqueles que pretendiam derrubar imediatamente o governo provisório. O governo devia ser derrubado por ser oligárquico-burguês, mas isto não poderia ser realizado em curto prazo, pois ele ainda tinha apoio dos Sovietes e de parte significativa da população. Era preciso, em primeiro lugar, conquistar a maioria do povo para o lado da revolução. “Não somos blanquistas”, afirmou, “não somos partidários da tomada do poder por uma minoria. Somos marxistas, partidários da luta proletária de classe contra a embriaguez s pequeno-burguesa”.
O comitê bolchevique de Petrogrado rejeitou as teses de Lênin por 14 votos contra 2. Na maioria dos comitês, a nova tática proposta foi recebida com desconfiança. A respeito dessas sucessivas derrotas sofridas, Sukhanov escreveu: “a massa do partido eleva-se contra Lênin para defender os princípios elementares do socialismo científico tradicional”. Bogdanov comentou: “É um delírio, o delírio de um louco”. Goldenberg afirmou irônico: “Durante muitos anos, o lugar de Bakhunin e na revolução russa tinha estado vazio; agora, foi ocupado por Lênin”. Kamenev, importante líder bolchevique, resistiu em publicar os artigos de Lênin. O primeiro deles acabou saindo endo publicado no dia 7 de abril com o título Sobre os objetivos do proletariado na revolução atual.
Alguns velhos bolcheviques estavam presos a esquemas enrijecidos. Ao contrário do que pensavam, não aplicavam as teses presentes em Duas táticas da social democracia na revolução democrática — escritas por Lênin em 1905 — e sim recuavam para a posição esquemática predominante na II Internacional, que encarava a revolução como uma sucessão de etapas rígidas, estanques, sem comunicação entre si. Segundo esta concepção, era preciso um longo período de desenvolvimento capitalista, sob o domínio político burguês, para que se pudesse avançar a uma segunda etapa socialista. Tese rejeitada por Lênin desde 1905.
Lênin, buscando novamente esclarecer suas reais posições, escreveu uma série de cartas. A primeira intitulava-se Análise da situação atual. Nela, defendeu a justeza da estratégia e da tática bolcheviques aplicadas até a revolução de fevereiro. “Desde a revolução, o poder está nas mãos de uma classe diferente, uma classe nova, isto é, a burguesia (…). A este nível, a revolução burguesa, ou democrático-burguesa, está concluída (…). As palavras de ordem e ideias éias bolchevistas, no seu todo, têm sido confirmadas pela história; mas, concretamente, as coisas resultaram de forma diferente; são mais originais, mais peculiares, mais variadas do que se podia ter esperado (…). ‘A ditadura revolucionária e democrática do proletariado e campesinato’ já se tornou uma realidade”. No entanto, “temos lado a lado, coexistindo simultaneamente, a regra burguesa (…) e uma ditadura revolucionária e democrática do proletariado e campesinato que vai cedendo voluntariamente poder à burguesia, tornando-se voluntariamente um apêndice da burguesia. Este fato não se enquadra nos velhos esquemas”.
De novo, ele se defendeu da acusação de querer saltar etapas na revolução. “Mas não estamos nós em perigo de cair no subjetivismo, de querer chegar à revolução socialista ‘saltando’ sobre a revolução democrático-burguesa -– que ainda não está concluída e quando não se esgotou o movimento camponês? Eu poderia incorrer neste erro se dissesse: ‘Não ao czar, sim a um governo operário’. Mas, eu não disse isso (…). Afirmei que não pode haver outro governo (exceto um governo burguês) na Rússia que não seja o dos Sovietes de Deputados operários, trabalhadores rurais, soldados e camponeses (…). E nestes Sovietes (…) são os camponeses, os soldados, isto é, a pequena burguesia, que tem preponderância, para usar um termo científico, marxista, uma caracterização classista (…). Nas minhas teses, precavi-me seguramente a fim de não saltar sobre o movimento camponês (…) ou sobre o movimento pequeno -burguês em geral, contra qualquer brincadeira de ‘tomada do poder’ por um governo operário, contra qualquer tipo de aventureirismo blanquista (…). O controle sobre a banca, a fusão de todos os bancos num só, não é ainda socialismo, mas um passo rumo ao socialismo”.
O “desenvolvimento pacífico da revolução” e o problema da transição ao socialismo
Lênin passou os meses seguintes, pacientemente, esclarecendo suas posições junto à militância partidária. Os primeiros que aderiram às elas suas foram Krupskaia, Stálin e Zinoviev.  A crise político-revolucionária recrudesceu, com as sucessivas derrotas militares russas, e Lênin conseguiu enfim impor suas ideias. A primeira grande vitória se deu na Conferência das seções bolcheviques de Petrogrado, que se iniciou no dia 14 de abril e na qual conseguiu obter 20 votos contra 6.
No dia 18 de abril o ministro de negócios estrangeiros do governo provisório, Miliukov, lançou uma nota acintosa afirmando: que “o povo desejava continuar a guerra até a à vitória total e que o Governo Provisório mantivesse todos os tratados”. Dois dias depois mais de 100 mil manifestantes saíram às ruas contra a declaração belicosa do ministro e entraram em choque com tropas do governo. Um grupo de bolcheviques, contra as indicações de Lênin, chegou a levantar a palavra -de -ordem “abaixo o governo provisório!”.
Isto contrariava frontalmente a tática apregoada por Lênin, que escreveu: “Dissemos que a palavra de ordem ‘Abaixo o governo provisório!’ era aventureira, que agora não se podia derrubar o governo e, por isso, lançamos a palavra de ordem de manifestação pacífica. Só queríamos fazer um reconhecimento pacífico das forças do inimigo, sem lhe dar combate, mas o Comitê de Petersburgo virou um pouco mais para a esquerda, o que neste caso é, naturalmente, um gravíssimo crime (…) (pois) era despropositado ir ‘um pouco mais para a esquerda'”.
Imediatamente o governo provisório e as forças conservadoras acusaram os bolcheviques de serem  agentes do governo alemão. A onda reacionária foi tão forte que levou que se efetuasse um amplo acordo: os bolcheviques lançariam uma nota desmentindo as acusações e a direção dos Sovietes exigiria a retirada da nota do ministro. Esta foi a primeira grande crise enfrentada pelo governo provisório e acarretou na demissão de Miliukov. Lênin criticou a vacilação dos Sovietes que poderiam ter se aproveitado da crise para exigir que todo o poder lhes fosse transferido para eles e, assim, conduzir a revolução por um caminho menos traumático, através da constituição de um governo efetivamente operário e popular, ainda que sob hegemonia dos mencheviques e social-revolucionários.
A crise, ao contrário do que propunha Lênin, levou à constituição de um governo de coalizão  no qual ingressaram dois mencheviques e vários social-revolucionários, a maioria dirigente dos Sovietes. O líder social-revolucionário Kerensky tornou-se figura central desse novo governo.  Houve, assim, uma gradual submissão dos Sovietes à hegemonia liberal-burguesa.
Na 7ª Conferência dos bolcheviques, iniciada em 24 de abril de 1917, as posições de Lênin foram vitoriosas por 71 votos contra 38. Ratificou-se a tática de “desenvolvimento pacífico da revolução”, que se expressava na palavra de ordem “Todo poder aos Sovietes!”. Rejeito-se, mMais uma vez, era rejeitada a consigna “Abaixo o governo provisório!”.
Outra divergência surgida foi quanto à existência ou não de uma fase de transição na rRevolução rRussa, que conduziria ao socialismo. Neste ponto Lênin condenou, novamente, a tese que afirmava ser preciso passar diretamente ao socialismo, sem etapas intermediárias — sem nenhum processo de transição. “O camarada Rikov diz não haver período de transição entre o capitalismo e o socialismo. Não é assim. Isso é romper com o marxismo”, afirmou Lênin. “Esse é o defeito principal de todos os raciocínios em que a questão é formulada em termos demasiados gerais (…). Entretanto, é necessário falar dos passos e medidas concretas. Alguns deles amadureceram, outros ainda não. Vivemos um momento de transição. É evidente que avançamos formas que não parecem com as dos Estados burgueses: os Sovietes de deputados operários e soldados (…). São formas que representam os primeiros passos para o socialismo (…). Os Sovietes (…) devem tomar o poder, mas não para implantar uma república burguesa corrente, nem passar diretamente para o socialismo (…). Para que então? Devem tomar o poder para dar os primeiros passos concretos, que podem e devem ser dados, para esta transição”.
Na resolução “sobre o momento atual” escreveu: “o proletariado da Rússia que atua num dos países mais atrasados da Europa, no meio de uma imensa população de pequenos camponeses, não pode propor-se como fim para a realização imediata de transformações socialistas”. E, em seguida, apresentou o programa desta “transição ao socialismo” na Rússia pós-fevereiro: nacionalização da terra, o controle do Estado sobre os bancos -– e a sua fusão num banco central único -–, controle sobre os maiores consórcios capitalistas, sistema mais justo de impostos progressivos sobre rendimentos e bens. Mesmo na aplicação destas medidas, ainda não socialistas, seria necessário “uma extraordinária prudência e precaução” se quisessem “conquistar uma sólida maioria da população e conseguir a sua convicção na preparação prática desta ou daquela medida”.
Em primeiro de junho se reuniu o I Congresso de Toda a Rússia dos Sovietes. Num total de 1090 delegados os bolcheviques tinham apenas 105. Todas as suas teses foram fragorosamente derrotadas, mas Lênin teve uma grande atuação na defesa das propostas bolchevistas. Quando o ministro dos correios e telégrafos, o menchevique Tseretéli, afirmou: “Não existe neste momento, na Rússia, um partido político que possa dizer: dêem-nos o poder, vão-se embora, nós ocuparemos o vosso lugar” . Uma voz ao fundo respondeu: “Existe! O nosso partido não o recusa: a à todo momento está pronto para tomar todo o poder”. Era Lênin. Muitos riram do que parecia uma petulância do dirigente de uma corrente política que tinha apenas 10% do Congresso.
Nesta mesma ocasião os bolcheviques resolveram convocar uma grande manifestação contra a guerra. Esta decisão foi duramente criticada e acusada de fazer o jogo da contra-rrevolução. O partido, com a concordância de Lênin, resolveu recuar para não se isolar das massas que ainda confiavam na direção dos Sovietes. No entanto, para mostrar força e influenciar o governo provisório, esta própria direção foi obrigada a realizar uma manifestação. No dia 18 de junho mais de 500 mil pessoas tomaram as ruas de Petrogrado e grande parte delas aderiu às palavras de ordem “Abaixo os dez ministros capitalistas!” e “Todo poder aos Sovietes!”. Os bolcheviques ainda possuíam uma organização relativamente pequena, mas suas ideias éias já começavam a influenciar milhões de pessoas.
A ofensiva reacionária e o fim do desenvolvimento pacífico
No final de junho a situação se tornou ainda mais desesperadora após novas derrotas do exército russo. A mortandade nos campos de batalha e a fome adubavam o solo da revolução. Finalmente, alguns regimentos decidiram pôr abaixo o governo provisório.
Os bolcheviques desaconselharam a rebelião, afirmando que as condições ainda não estavam maduras. No entanto, a situação havia fugido do controle da vanguarda revolucionária. Os operários também estavam agitados e aderiram ao movimento. Não podendo impedi-lo, sob pena de agora se isolar das massas avançadas, decidiram participar transformando-o numa manifestação pacífica — evitando assim provocações desnecessárias. Uma curiosidade: o jornal bolchevique, Pravda, chegou a sair com um espaço em branco na capa. Ali seria publicada uma conclamação do partido contra a realização da manifestação que acabou sendo retirada, mas não houve tempo de incluir o outro texto trazendo a nova diretiva partidária.
Entre 3 e 4 de julho ocorreram manifestações de caráter revolucionário que reuniram cerca de 500 mil pessoas.  O movimento foi reprimido à bala pelo governo de Kerensky. Nos choques morreram centenas de pessoas. Lênin afirmou que aquele movimento havia sido “algo significativamente maior que uma manifestação e menor do que uma revolução”.
As forças conservadoras não perderam tempo e passaram à ofensiva contra os bolcheviques. Lênin, por segurança, refugiou-se na Finlândia. Os jornais bolcheviques foram fechados, e o Ppartido passou para a clandestinidade. Temerosa, a direção dos Sovietes capitulou e o duplo poder se esvaiu. Agora, o único poder era o do governo provisório (burguês) e este rapidamente se transmutou num regime sustentado nas forças militares reacionárias.
A revolução passava, segundo Lênin, por mais uma “viragem histórica” que exigia uma nova tática. “Todas as esperanças de um desenvolvimento pacífico da revolução russa se desvaneceram definitivamente. A situação é esta: ou a vitória da ditadura militar ou a vitória da insurreição armada dos operários (…). A palavra de ordem da passagem de todo o poder aos Sovietes foi a palavra de ordem do desenvolvimento pacífico da revolução possível em abril, em maio, em junho e até 5-9 de julho, isto é, até o poder passar de fato para as mãos da ditadura militar”.
No artigo A propósito das palavras de ordem, escrito poucos dias depois da vitória da contra-rrevolução, Lênin voltou ao tema: “A palavra de ordem de passagem de todo poder aos sSovietes foi justa durante o período passado de nossa revolução” no qual “reinava a chamada ‘dualidade de poder’ (…). Eis o que garantia a via pacífica de desenvolvimento (…). E isto teria sido o mais fácil, o mais vantajoso para o povo. Tal caminho seria o mais indolor e por isso mesmo era preciso lutar por ele com toda energia (…). A via pacífica do desenvolvimento da revolução foi tornada impossível. Começou a via não-pacífica, a mais dolorosa”. Assim, os bolcheviques abandonaram a consigna “todo poder aos sSovietes!” e a insurreição armada começou a ser preparada.
Aqui cabe uma advertência: o denominado “desenvolvimento pacífico da revolução”, apregoado por Lênin, não tinha nenhuma relação com a tese de “via pacífica para o socialismo”, defendida pelas correntes reformistas. Não se confundia com a gradual conquista do poder através da institucionalidade democrático-burguesa. O pressuposto de Lênin era a existência de um duplo poder, no qual o poder operário e popular possuía força política, moral e militar. Era preciso construir e fortalecer outra institucionalidade, mais avançada e democrática de caráter operário e popular.
Derrotados os bolcheviques, a reação burguesa voltou-se contra os Sovietes e o próprio governo provisório. O general Kornilov, comandante-em-chefe do exército, exigiu a dissolução imediata dos Sovietes. Não conseguindo seu intento, no dia 25 de agosto, lançou seu exército contra Petrogrado. Constituiu-se, então, um vigoroso movimento de resistência dirigido pelos bolcheviques. Kornilov foi rapidamente derrotado e preso. O governo de Kerensky se enfraqueceu e os bolcheviques adquiriram grande autoridade moral e política.
O crescimento do Partido bolchevique foi assustador. O número de filiados passou de 24 mil em fevereiro para 240 mil em julho e, em poucos meses, passou a ser maioria nos Sovietes de Petrogrado e de Moscou. Lênin constatou uma nova “viragem” no processo revolucionário e propôs outra alteração na tática, — retomando a linha do “desenvolvimento pacífico”.
Os compromissos e as novas perspectivas do “desenvolvimento pacífico”
No dia primeiro de setembro Lênin escreveu o artigo Sobre os compromissos.  Nele afirmou: “A ideia éia corrente que o homem de rua tem dos bolcheviques, encorajada por uma imprensa que os calunia, é de que os bolcheviques nunca concordarão com um compromisso com ninguém (…). Contudo, devemos afirmar que esta é uma ideia éia errada (…). A Revolução Russa está a experimentar uma viragem tão abrupta e original que nós, como partido, podemos conceder um compromisso voluntário (…) com os nossos adversários mais próximos, os partidos pequeno-burgueses ‘dominantes’, os socialistas revolucionários e os mencheviques”.
Continuou: “O compromisso da nossa parte é o nosso regresso à exigência de antes de julho de todo poder aos Sovietes e um governo de social-revolucionários e mencheviques responsável perante ele (…). Tal governo poderia ser instalado e consolidado de um modo perfeitamente pacífico (…) e proporcionar fortes possibilidades para grandes progressos nos movimentos mundiais pela a paz e vitória do socialismo (…) uma oportunidade extremamente rara na história e extremamente valiosa (…). O compromisso equivaleria ao seguinte: os bolcheviques, sem fazerem qualquer exigência de participação no governo (…) abster-se-iam de exigir a transferência imediata do poder para o proletariado e camponeses pobres e de empregar métodos revolucionários de luta por essa exigência. Uma condição evidente (…) consistiria na liberdade completa para propaganda e convocação da Assembleia éia Constituinte sem mais demora”.
Segundo Lênin, os bolcheviques não apresentariam outras condições, pois confiavam “na evolução pacífica da revolução”, e que suas posições triunfariam “pacificamente” graças “à verdadeira e completa liberdade de propaganda e à instalação imediata de uma nova democracia na composição dos Sovietes e no seu funcionamento”. E concluiu: “Talvez isto já seja impossível? Talvez. Mas se ainda houver uma probabilidade em cem, o esforço para a concretização desta oportunidade ainda valerá a pena”.
Dentro deste espírito Kamenev propôs ao Soviete de Petrogrado a seguinte resolução: “Dado que a rebelião contra-rrevolucionária de Kornilov foi preparada e apoiada por certos partidos cujos representantes pertencem ao governo, o Comitê Executivo Central dos Sovietes considera que a única solução possível atualmente é a formação dum governo composto por representantes do proletariado revolucionário e dos camponeses”.  O programa proposto pelos bolcheviques era: República democrática, dissolução da Duma e do Conselho de Estado, convocatória de uma Assembleia éia Nacional Constituinte, confisco ação dos latifúndios e sua entrega aos comitês agrários, controle operário da produção, nacionalização das principais indústrias, impostos severos sobre capitais e lucros e proposta imediata da paz às potências beligerantes.
Uma proposta bolchevique conseguiu, pela primeira vez, ser aprovada no Soviete. Foram 279 votos numa reunião com 400 delegados. A palavra de ordem “Todo poder aos Sovietes!”, que havia sido abandonada em julho, voltava ou a ter atualidade.
A hora da insurreição armada
Infelizmente, poucos dias depois, esta situação propícia para uma transição pacífica ao socialismo já havia passado. Os mencheviques e os social-revolucionários não acataram a proposta dos bolcheviques, criando novamente um impasse no processo revolucionário. Lênin chegou à conclusão de que a insurreição armada voltava à ordem do dia.
Esta posição sofreu uma dura oposição. Numa reunião do Comitê Central, no dia 15 de setembro, a proposta de Lênin não conseguiu ser aprovada e ele resolveu abandonar o exílio e voltar ao centro da revolução. Em outubro já estava em solo russo e em outra reunião do CC, ocorrida em 10 de outubro, as suas posições saíram vitoriosas.
Logo se abriu a polêmica em relação à a data da insurreição e quem a dirigiria. Trotsky advogou que ela deveria ser comandada pela direção do congresso dos Sovietes. Lênin, por sua vez, defendeu que não se devia esperar e sim colocar a tomada do poder como fato consumado ao congresso e simplesmente entregar-lhe o poder. O impasse continuou até o dia 16 de outubro, quando uma nova reunião decidiu pelas posições de Lênin.
Kamenev e Zinoviev discordaram da posição do CC e fizeram uma campanha interna contra as posições do partido, e a notícia da decisão dos bolcheviques sobre a insurreição acabou chegando à a imprensa burguesa, comprometendo gravemente o sucesso do movimento revolucionário. Lênin pediu a expulsão dos dois dirigentes sob acusação de traição. Proposta que foi prontamente recusada.
No dia sete de novembro, coincidindo com a abertura do II Congresso dos Sovietes, os bolcheviques tomaram o poder em nome do proletariado revolucionário. “Vamos proceder agora à a construção da ordem socialista”. Estas foram as primeiras palavras que Lênin pronunciou na plenária daquele histórico congresso. Mais tarde ele diria que tinha sido mais fácil tomar o poder na Rússia do que dar os primeiros passos na construção da nova sociedade socialista.
* Este artigo foi publicado originalmente no sítio Vermelho em 2004 e republicado na revista Princípios em 2007.
** Augusto Buonicore é historiador, secretário-geral da Fundação Maurício Grabois. E autor dos livros Marxismo, história e a revolução brasileira e Meu Verbo é Lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas, ambos publicados pela Editora Anita Garibaldi.
Bibliografia
BAMBIRRA, Vânia & SANTOS, Theotonio dos. La estrategia y la táctica socialistas de Marx y Engels a Lenin. México: Ediciones Era, 1981.
CRUZ, Humberto M. da. Lenine e o Partido Bolchevique. Lisboa: Seara Nova, 1976.
GRUPPI, Luciano. O pensamento de Lênin. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
HARNECKER, Marta. Estratégia e Tática. São Paulo: Expressão Popular, 2004.
INSTITUTO DE Marxismo-Leninismo/PCUS. Lenine: Biografia. Lisboa-Moscou, 1984.
LÊNIN, V. I. Obras escolhidas. Vol. 2, São Paulo: Alfa-Ômega, 1980.
_______. Cartas sobre táctica. Lisboa: Estampa, 1978.
_______. Teses de abril. São Paulo: Acadêmica, 1987.
_______. Cartas desde lejos. Moscou: Progresso, 1980.

Geraldo Junior – Warakidzã (Álbum Completo) [Full Album]


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Geraldo Junior – Álbum Warakidzã 2011/2012

01 Mitologia Cariri Música: Geraldo Junior e Grupo / Texto: Rosemberg Cariry

“Afirma a tradição que o Cariri era o território mítico de Badzé – o deus do fumo e civilizador do mundo. No princípio era a Trindade: Badzé era o Grande – Pai, Poditã era o filho maior, que ensinou aos índios a reconhecer os frutos, a caçar animais, a fazer farinha de mandioca, a preparar utensílios de uso cotidiano, a dançar, a cantar e a fazer os rituais de pajelanças, e Warakidzã (senhor do sonho), o filho menor. Os dois irmãos habitavam a constelação de Órion.”

Extraido do texto: O CARIRI CEARENSE – A nação das Utopias, de Rosemberg Cariry
Geraldo Junior – Voz, efeitos e flauta
Eduardo Karranka – Guitarra
Marco Bz – Efeitos e vibratone

02 Treme-Terra (ou Grito de Guerra) Geraldo Junior

Cada dia é mais um dia de mistério
Sei que vai ficar mais sério
Vamos ter de conversar
Sobre o destino de tudo
As nossas vidas o mundo
Pois sem amor
Onde é que as coisas vão parar?

Esse teu beijo é pecado na boca de quem lhe roubou
Esse teu cheiro me invade lembrando o que passou

Até parece saudade
Nem posso acreditar
Que ainda penso em você
Depois de tanto penar

Essa paixão é canção de louvação ao passado
Essa paixão é zabumba, dançado improvisado
É uma pareia de pife tocando bem afinado
É um chiado de prato num contra tempo danado
Meu peito é paixão, é revolução
Minha voz canção, é grito de guerra
Descendo a serra, subindo ladeira
Fazendo zoeira, em meu peito se encerra
Levanta poeira amor treme-terra

Ainda penso em você

Geraldo Junior – Voz, triângulo e flauta
Beto Lemos – Viola, zabumba e vocal
Ranier Oliveira – Piano e orgão elétrico
Filipe Müller – Baixo
Gabriel Pontes – Flauta
Eduardo Karranka – Guitarra
Cláudio Lima – Bateria

03 Meu Canarinho, Minha Beija-Flor Domínio Público
* Peça de Reisado e Guerreiro Caririense

04 Canção pra o Beija-flor Geraldo Junior

Hoje eu vou cantar
Para o meu amigo beija-flor
Que deixou seu ninho
E não mais voltou

Saiu a voar pelo mundo
Buscando sua linda flor
Mil beijos não seriam ainda
Capazes de curar sua dor

Ah! Meu peito a mil por hora
Beija-flor eu tenho tua sina
A flor que tem meu amor
Meu beijo provou e sumiu pela vida

A flor que tem meu amor meu beijo roubou

Geraldo Junior – Voz e triângulo
Beto Lemos – Viola e ganzá
Ranier Oliveira – Sanfona e vocal
Filipe Müller – Violão e vocal
Eduardo Karranka – Guitarra
Cláudio Lima – Bateria e vocal
Baixo Fretless e vocal – Marcelo Müller

05 Mais Tarde, Mais Forte Abdoral Jamacaru

Tudo tem tempo de ser
E quando um grito custa a nascer
Se atira além do horizonte
Viaja nos quatro ventos

Estala que nem chicote
Ressoa muito pra pouco chão
Dói, lateja, explode
E voa sem direção

Dói na canção
Dói no refrão
Tem força de água de cheia
Que cai no mar e passeia

Tem madrugada morrendo
Tem aurora raiando
Tem noite parindo o dia
Novo grito sangrando

Geraldo Junior – Voz e triângulo
Beto Lemos – Viola e mineiro
Ranier Oliveira – Orgão elétrico
Filipe Müller – Baixo
Gabriel Pontes – Sax tenor
Eduardo Karranka – Guitarra
Cláudio Lima – Bateria e vocal

06 Força e Poder Geraldo Junior

Eu não tenho força pra te domar
Mas eu tenho poder pra te conquistar!

Teus dias se vão como
Fossem estrelas cadentes
Teu sorriso é de repente
Quase nem pra sonhar
Teu ciclo é lunar
Tua história é diferente
Mesmo assim sei que agente
Segue num mesmo caminho
Entre rosas e espinhos
Teus desejos de mulher

Me azunhe, me devore
Quero ser os teus instintos
Só assim tudo o que sinto
Poderá te realizar
Mas enquanto eu cantar
Com teu cheiro em minha mente
As palavras simplesmente
Vão rasgar toda incerteza
Com você não há tristeza
Entre nós não há mistérios

Geraldo Junior – Voz
Beto Lemos – Viola, violoncelo e vocal
Ranier Oliveira – Piano elétrico
Eduardo Karranka – Guitarra
Gabriel Pontes – Sax soprano
Cláudio Lima – Bateria
Baixo Fretless – Marcelo Müller

07 Vou no Vento Música: Abdoral Jamacaru / Letra: Cláudia Rejane

Ô maninha eu vou num vento
Pra chapada do Araripe
Vou fazer uma cantiga
Vou passear por ali
Adentrar naquela fresta
Que os espíritos da floresta
Deixaram no Cariri

Trago a sede de esperança
Um baú pra colher paz
Quero ver na mata a dança
Cada habitante de ti
Será um irmão a mais
O teu chão será meu pai
E a floresta minha mãe

Geraldo Junior – Voz, trompete, ganzã, surdo e vocal
Beto Lemos – Viola, violoncelo e vocais
Filipe Müller – Baixo
Gabriel Pontes – Sax soprano
Eduardo Karranka – Guitarra
Cláudio Lima – Bateria e vocal
Jonas Correa – Trombone

08 Ancestrais Geraldo Junior

Ela me dará outra canção?
Meu peito involuntário se contrai
Aguardando em paciência e oração
Ela me consome o coração

Mas o que construí
Não se desfez
Não se desfaz
E ha de não se desfazer jamais!

O passado, os ancestrais
Deuses tortos
O Horto, um cais.
Da igreja da sé à matriz do juazeiro
É o caminho de um mundo inteiro

A partida, a chegada
O reencontro, o confronto
O crescendo na orquestra!
Eu fico tonto.

Me prometeste uma existência longa e de prazer
Viver o amor, a bel felicidade
Warakidzã, o sonho, o rito de passagem
Rompendo os ciclos de nossa imortalidade

Que nos atrai
E se refaz
E nos disfarça
Só para nos reconhecermos mais
Ancestrais!

Minha menina, te dou tudo o que quiser
Porque por ti, conheço o perfume da flor
Sou cariri minha sina me fez cantador 
Vi a mãe d’água! Sei teus segredos, mulher!

Geraldo Junior – Voz, flautas e vocal
Beto Lemos – Viola e violoncelo
Filipe Müller – Baixo
Gabriel Pontes – Sax tenor
Eduardo Karranka – Guitarra
Cláudio Lima – Bateria e vocal

09 Bendito da Virgem do Rosário Domínio Público
* Bendito cantado pelos penitentes do Sítio Cabeceiras de Barbalha CE

10 Asa Quebrada Geraldo Junior

Estou de asa quebrada
Meu canto pende
Meu desejo era voar
No imenso da tarde
Para te encontrar

Tanto já aconteceu
Foi um milagre
Um sonho no Juazeiro
Movendo montanhas
E um vale inteiro

Pois só o amor nos livra de todo pecado

Aquela nossa história
Varou o tempo e se perdeu
Quem sabe já estávamos juntos
E nem nos demos conta
Conta por conta
Um dia agente se encontra
Seguirei essas candeias

Se não agora, dia de finados
Amor penado
Se não então, te dou louvores
Na romaria da Mãe das Dores
Essa canção correrá toda a cidade
Vencendo toda maldade
Pra só restarem os amores

Geraldo Junior – Voz
Beto Lemos – Viola e vocais
Eduardo Karranka – Guitarra
Ranier Oliveira – Sanfona e vocal
Filipe Müller – Violão e vocal
Cláudio Lima – Bateria e vocal
Baixo Fretless e vocal – Marcelo Müller

11 Seis Cordas Luiz Fidelis

Quem tem uma viola só chora se quiser
São seis cordas pra amarrar uma mulher

E depois prender dentro do seu coração
Pra depois calar a boca do violão
Os maus olhos derrubam qualquer paixão

Morena faceira do cabelo cacheado
Seu laço de fita já laçou o meu olhado
E agora quero ser seu namorado

Geraldo Junior – Voz e triângulo
Beto Lemos – Viola e vocal
Eduardo Karranka – Guitarra
Cláudio Lima – Bateria e vocal
Kiko Horta – Acordeon
Baixo – Fábio Mesquita
Joana Queiroz – Clarinete
Diogo Jobim – Sintetizador Kaossilator 

12 Marcha de Reisado / Perguntai como se Chamas / Tanta Flor, Tanta Beleza / Reisado é Bom Domínio Público
* Peças de Reisado e Guerreiro Caririense

Perguntais como se chama
É tão galante o menino
Eu me chamo rei dos peixes
Jesus, cordeiro divino

Levanta, Pedro alevanta
Dessa cadeira divina
Pergunta a nossa senhora
Se tem santo na matriz

São Pedro se alevantou-se
Procurou o santo e não via
Nossa senhora chorava
Quando o divino saía

Tanta flor, tanta beleza
A flor mais mimosa é a minha
Meu reisado se conhece
Pelo som da violinha

Reisado é bom
Reisado foi minha infância
Ainda hoje eu tenho lembrança
Do Reisado que eu brinquei

Chegou a vez
Eu hoje vou recordando
E a velhice desmanchando
O que a mocidade fez 

Geraldo Junior – Voz, ganzá, triângulo e vocais
Eduardo Karranka – Guitarra
Beto Lemos – Viola, violão, rabeca, violoncelo, zabumba, tarol e vocais

13 A Alma Afoita da Revolução Geraldo Junior
* Poesia declamada: Vigília – Livro “Romeiros” de Oswald Barroso

É meio dia, é sol a pino
Eu já transpiro e vou dizer! 

O meu lamento não tem história
Não tem memória, o mundo não se acabou
Daí por diante segui pensando
Não acabou, mas está se acabando

No meio dia de um vinte e três de junho
Uns quatro anos depois do final dos tempos
Tanto calor mexeu com a minha cabeça
Eu estou vendo! Quase não me arrependo

Lá vem a banda, talvez seja uma miragem
Dobrado e marcha, mas parece um funeral
São deserdados, esqueléticos soldados
Numa parada, um desfile ou coisa igual

Não tem beleza, a miséria em suas faces
Verdade e lenda se ajuntaram num só hino
Vão celebrando vitórias que nem sei se temos
O purgatório já não cabe um nordestino

Pro fim da vida até que morte nos ampare
Será que existe pra esse mundo uma salvação
Se não, eu fico aqui vagando pelo tempo
Com minha alma afoita por revolução 

Geraldo Junior – Voz e triângulo
Beto Lemos – Viola
Filipe Müller – Baixo
Gabriel Pontes – Flauta
Eduardo Karranka – Guitarra
Cláudio Lima – Bateria e vocal
Jefferson Gonçalves – Gaita

14 Rainha do Maracatu Geraldo Junior

Deusa da rua
Moreninha cor de fogo
Às vezes muito, me fazendo pouco
Rodava a saia, me deixava louco

E no seu passe de maracatu
Girava o mundo com calma
E minha alma quando quase apagava
Ela voltava, mas, só me olhava

Ainda vou contar meus segredos
Eu mostro a ela o toque do meu tambor
Que ela deixou quando bailava em meus sonhos
E o meu desejo lhe corou

Geraldo Junior – Voz, ferro de maracatu, agogô, tarol, surdo, tambor, treme-terra e vocal
Beto Lemos – Viola e vocais
Ranier Oliveira – Orgão elétrico
Filipe Müller – Baixo
Eduardo Karranka – Guitarra
Cláudio Lima – Bateria e vocal
Jonas Correa – Trombone
Eduardo Santana – Trompete

15 Warakidzã – Senhor do Sonho Geraldo Junior

Quando a verdade descer nos meus olhos
E o destino vier nas encostas
O sol me trará novamente
A luz que preciso pra me encandear

Aí serei como o fogo
Descendo no alto da serra
Trazendo na roda do tempo
As horas que marcam meu desencantar

Vem que o destino chamou
E é chegada a hora de desencantar
Vem que o fim desaguou
E a grande pedra vai rolar
Eu já traguei do meu fumo
Guardado comigo o ano inteiro

E agora revelo em teu sonho
A baleia que irá despertar
Com a virgem trazida em seu dorso
Ela nos guiará

Geraldo Junior – Voz, trompete, ganzã, surdo e vocal
Beto Lemos – Viola e vocais
Gabriel Pontes – Sax soprano
Eduardo Karranka – Guitarra
Cláudio Lima – Bateria e vocal
Baixo – Marcelo Müller
Jonas Correa – Trombone

16 Pra Ninar o Cariri Abdoral Jamacaru

O sol doura o cume verde da chapada do Araripe
Sonolenta a tarde cai, noite vem ninar o Cariri

Dorme o canavial, marmeleiro, pequizal
E as palmeiras do coco Babaçu

Cores, claros, urubus reis,
Vinvin, jacu, caboclolindo
Zabelê, cigarras, papa-ventos
Guaxinins, rolinhas, cascavel, guará
Já vão dormir.

Repousa o camaleão
Borboleta, gavião
Fecha a folha o maliçal
Dorme em paz criança e ancião

Geraldo Junior – Voz
Beto Lemos – Viola, violão, rabeca e violoncelo
Joana Queiroz – Clarinete
Diogo Jobim– Sintetizador


Ficha técnica:
Arranjos: Beto Lemos
Direção: Geraldo Junior
Gravado por Fábio Mesquita no Studio Making Of Records – RJ
Sintetizador e Microkorg Kaossilator gravados no Estúdio da Etnohaus – RJ
Pianos eletricos e orgãos gravados por Ibbertson Nobre no Ibbetson Studio – Crato CE
Editado, mixado e masterizado por André Magalhães no Estúdio Zabumba no Cariri, Nova Olinda – CE e Estúdio NaGoma – SP
Arranjos de Treme-Terra E Alma Afoita da Revolução – Ranier Oliveira e Beto Lemos
Projeto gráfico e ilustrações de Boni
Fotos: JoA Azria (capa do encarte) e Thailyta Feitosa (fundo do CD)
* Aquarela de Rebeca Queiroz (contra-capa do encarte): Seu Cachoeira de Palhaço Mateus

Agradecimentos:
Minha família, meu Ceará amado e a nação Cariri e todo esse sertão além das fronterias politicas! Dane de Jade, Sidnei Cruz, Tahiba, Rosemberg Cariry, Oswald Barroso, Beto Lemos, Fábio Mesquita, Bruno, Diego, Jefferson Gonçalves, Gabriel Gomes (Cotoco), André Magalhães, Fábio Mesquita, Beth Fernandes e Emrah, Grupo Filhotes de Leão, Casa Gira Mundo, Terreirada Cearense (Gabriel, Cláudio, Joana, Felipe e todos os outros que já passaram por esse projeto), Paloma Fraga, CCBNB, Fundação Casa Grande, Carlos Gomide, Carroça de Mamulengos, Reisado Discípulos de Mestre Pedro (Os Irmãos), Felipe Magalhães e toda a galera do Estúdio Nagoma, Gil Duarte e Mirian, Flauberto Gomes, Dudé Casado, Daniel Batata, Antônio Queiroz, JoA Azria, Nathan Thrall, BEATOS, Oficina Casa do Alto (George Belisário, Thailyta, Regivânea, Michel, Carol, Maria, Mauro, Amélia e Haarllem), Roberta Naddeo, Joana Queiroz, Filipe e Marcelo Müller, Kiko Horta, Marco Bz, Jonas Correa, Eduardo Santana, Diogo Jobim, Mariana Albanese, Boni, Maíra, Abdoral, Luiz Fidelis, toda a galera da Etnohaus, todos os músicos que gravaram e tocam comigo, e sempre, a todos os Mestre de cultura Popular tradicional do universo.

Geraldo Junior – Warakidzã (Álbum Completo) [Full Album]


Quer ouvir tudo de uma vez?! Pois pega a ficha técnica aí também!

Geraldo Junior – Álbum Warakidzã 2011/2012

01 Mitologia Cariri Música: Geraldo Junior e Grupo / Texto: Rosemberg Cariry

“Afirma a tradição que o Cariri era o território mítico de Badzé – o deus do fumo e civilizador do mundo. No princípio era a Trindade: Badzé era o Grande – Pai, Poditã era o filho maior, que ensinou aos índios a reconhecer os frutos, a caçar animais, a fazer farinha de mandioca, a preparar utensílios de uso cotidiano, a dançar, a cantar e a fazer os rituais de pajelanças, e Warakidzã (senhor do sonho), o filho menor. Os dois irmãos habitavam a constelação de Órion.”

Extraido do texto: O CARIRI CEARENSE – A nação das Utopias, de Rosemberg Cariry
Geraldo Junior – Voz, efeitos e flauta
Eduardo Karranka – Guitarra
Marco Bz – Efeitos e vibratone

02 Treme-Terra (ou Grito de Guerra) Geraldo Junior

Cada dia é mais um dia de mistério
Sei que vai ficar mais sério
Vamos ter de conversar
Sobre o destino de tudo
As nossas vidas o mundo
Pois sem amor
Onde é que as coisas vão parar?

Esse teu beijo é pecado na boca de quem lhe roubou
Esse teu cheiro me invade lembrando o que passou

Até parece saudade
Nem posso acreditar
Que ainda penso em você
Depois de tanto penar

Essa paixão é canção de louvação ao passado
Essa paixão é zabumba, dançado improvisado
É uma pareia de pife tocando bem afinado
É um chiado de prato num contra tempo danado
Meu peito é paixão, é revolução
Minha voz canção, é grito de guerra
Descendo a serra, subindo ladeira
Fazendo zoeira, em meu peito se encerra
Levanta poeira amor treme-terra

Ainda penso em você

Geraldo Junior – Voz, triângulo e flauta
Beto Lemos – Viola, zabumba e vocal
Ranier Oliveira – Piano e orgão elétrico
Filipe Müller – Baixo
Gabriel Pontes – Flauta
Eduardo Karranka – Guitarra
Cláudio Lima – Bateria

03 Meu Canarinho, Minha Beija-Flor Domínio Público
* Peça de Reisado e Guerreiro Caririense

04 Canção pra o Beija-flor Geraldo Junior

Hoje eu vou cantar
Para o meu amigo beija-flor
Que deixou seu ninho
E não mais voltou

Saiu a voar pelo mundo
Buscando sua linda flor
Mil beijos não seriam ainda
Capazes de curar sua dor

Ah! Meu peito a mil por hora
Beija-flor eu tenho tua sina
A flor que tem meu amor
Meu beijo provou e sumiu pela vida

A flor que tem meu amor meu beijo roubou

Geraldo Junior – Voz e triângulo
Beto Lemos – Viola e ganzá
Ranier Oliveira – Sanfona e vocal
Filipe Müller – Violão e vocal
Eduardo Karranka – Guitarra
Cláudio Lima – Bateria e vocal
Baixo Fretless e vocal – Marcelo Müller

05 Mais Tarde, Mais Forte Abdoral Jamacaru

Tudo tem tempo de ser
E quando um grito custa a nascer
Se atira além do horizonte
Viaja nos quatro ventos

Estala que nem chicote
Ressoa muito pra pouco chão
Dói, lateja, explode
E voa sem direção

Dói na canção
Dói no refrão
Tem força de água de cheia
Que cai no mar e passeia

Tem madrugada morrendo
Tem aurora raiando
Tem noite parindo o dia
Novo grito sangrando

Geraldo Junior – Voz e triângulo
Beto Lemos – Viola e mineiro
Ranier Oliveira – Orgão elétrico
Filipe Müller – Baixo
Gabriel Pontes – Sax tenor
Eduardo Karranka – Guitarra
Cláudio Lima – Bateria e vocal

06 Força e Poder Geraldo Junior

Eu não tenho força pra te domar
Mas eu tenho poder pra te conquistar!

Teus dias se vão como
Fossem estrelas cadentes
Teu sorriso é de repente
Quase nem pra sonhar
Teu ciclo é lunar
Tua história é diferente
Mesmo assim sei que agente
Segue num mesmo caminho
Entre rosas e espinhos
Teus desejos de mulher

Me azunhe, me devore
Quero ser os teus instintos
Só assim tudo o que sinto
Poderá te realizar
Mas enquanto eu cantar
Com teu cheiro em minha mente
As palavras simplesmente
Vão rasgar toda incerteza
Com você não há tristeza
Entre nós não há mistérios

Geraldo Junior – Voz
Beto Lemos – Viola, violoncelo e vocal
Ranier Oliveira – Piano elétrico
Eduardo Karranka – Guitarra
Gabriel Pontes – Sax soprano
Cláudio Lima – Bateria
Baixo Fretless – Marcelo Müller

07 Vou no Vento Música: Abdoral Jamacaru / Letra: Cláudia Rejane

Ô maninha eu vou num vento
Pra chapada do Araripe
Vou fazer uma cantiga
Vou passear por ali
Adentrar naquela fresta
Que os espíritos da floresta
Deixaram no Cariri

Trago a sede de esperança
Um baú pra colher paz
Quero ver na mata a dança
Cada habitante de ti
Será um irmão a mais
O teu chão será meu pai
E a floresta minha mãe

Geraldo Junior – Voz, trompete, ganzã, surdo e vocal
Beto Lemos – Viola, violoncelo e vocais
Filipe Müller – Baixo
Gabriel Pontes – Sax soprano
Eduardo Karranka – Guitarra
Cláudio Lima – Bateria e vocal
Jonas Correa – Trombone

08 Ancestrais Geraldo Junior

Ela me dará outra canção?
Meu peito involuntário se contrai
Aguardando em paciência e oração
Ela me consome o coração

Mas o que construí
Não se desfez
Não se desfaz
E ha de não se desfazer jamais!

O passado, os ancestrais
Deuses tortos
O Horto, um cais.
Da igreja da sé à matriz do juazeiro
É o caminho de um mundo inteiro

A partida, a chegada
O reencontro, o confronto
O crescendo na orquestra!
Eu fico tonto.

Me prometeste uma existência longa e de prazer
Viver o amor, a bel felicidade
Warakidzã, o sonho, o rito de passagem
Rompendo os ciclos de nossa imortalidade

Que nos atrai
E se refaz
E nos disfarça
Só para nos reconhecermos mais
Ancestrais!

Minha menina, te dou tudo o que quiser
Porque por ti, conheço o perfume da flor
Sou cariri minha sina me fez cantador 
Vi a mãe d’água! Sei teus segredos, mulher!

Geraldo Junior – Voz, flautas e vocal
Beto Lemos – Viola e violoncelo
Filipe Müller – Baixo
Gabriel Pontes – Sax tenor
Eduardo Karranka – Guitarra
Cláudio Lima – Bateria e vocal

09 Bendito da Virgem do Rosário Domínio Público
* Bendito cantado pelos penitentes do Sítio Cabeceiras de Barbalha CE

10 Asa Quebrada Geraldo Junior

Estou de asa quebrada
Meu canto pende
Meu desejo era voar
No imenso da tarde
Para te encontrar

Tanto já aconteceu
Foi um milagre
Um sonho no Juazeiro
Movendo montanhas
E um vale inteiro

Pois só o amor nos livra de todo pecado

Aquela nossa história
Varou o tempo e se perdeu
Quem sabe já estávamos juntos
E nem nos demos conta
Conta por conta
Um dia agente se encontra
Seguirei essas candeias

Se não agora, dia de finados
Amor penado
Se não então, te dou louvores
Na romaria da Mãe das Dores
Essa canção correrá toda a cidade
Vencendo toda maldade
Pra só restarem os amores

Geraldo Junior – Voz
Beto Lemos – Viola e vocais
Eduardo Karranka – Guitarra
Ranier Oliveira – Sanfona e vocal
Filipe Müller – Violão e vocal
Cláudio Lima – Bateria e vocal
Baixo Fretless e vocal – Marcelo Müller

11 Seis Cordas Luiz Fidelis

Quem tem uma viola só chora se quiser
São seis cordas pra amarrar uma mulher

E depois prender dentro do seu coração
Pra depois calar a boca do violão
Os maus olhos derrubam qualquer paixão

Morena faceira do cabelo cacheado
Seu laço de fita já laçou o meu olhado
E agora quero ser seu namorado

Geraldo Junior – Voz e triângulo
Beto Lemos – Viola e vocal
Eduardo Karranka – Guitarra
Cláudio Lima – Bateria e vocal
Kiko Horta – Acordeon
Baixo – Fábio Mesquita
Joana Queiroz – Clarinete
Diogo Jobim – Sintetizador Kaossilator 

12 Marcha de Reisado / Perguntai como se Chamas / Tanta Flor, Tanta Beleza / Reisado é Bom Domínio Público
* Peças de Reisado e Guerreiro Caririense

Perguntais como se chama
É tão galante o menino
Eu me chamo rei dos peixes
Jesus, cordeiro divino

Levanta, Pedro alevanta
Dessa cadeira divina
Pergunta a nossa senhora
Se tem santo na matriz

São Pedro se alevantou-se
Procurou o santo e não via
Nossa senhora chorava
Quando o divino saía

Tanta flor, tanta beleza
A flor mais mimosa é a minha
Meu reisado se conhece
Pelo som da violinha

Reisado é bom
Reisado foi minha infância
Ainda hoje eu tenho lembrança
Do Reisado que eu brinquei

Chegou a vez
Eu hoje vou recordando
E a velhice desmanchando
O que a mocidade fez 

Geraldo Junior – Voz, ganzá, triângulo e vocais
Eduardo Karranka – Guitarra
Beto Lemos – Viola, violão, rabeca, violoncelo, zabumba, tarol e vocais

13 A Alma Afoita da Revolução Geraldo Junior
* Poesia declamada: Vigília – Livro “Romeiros” de Oswald Barroso

É meio dia, é sol a pino
Eu já transpiro e vou dizer! 

O meu lamento não tem história
Não tem memória, o mundo não se acabou
Daí por diante segui pensando
Não acabou, mas está se acabando

No meio dia de um vinte e três de junho
Uns quatro anos depois do final dos tempos
Tanto calor mexeu com a minha cabeça
Eu estou vendo! Quase não me arrependo

Lá vem a banda, talvez seja uma miragem
Dobrado e marcha, mas parece um funeral
São deserdados, esqueléticos soldados
Numa parada, um desfile ou coisa igual

Não tem beleza, a miséria em suas faces
Verdade e lenda se ajuntaram num só hino
Vão celebrando vitórias que nem sei se temos
O purgatório já não cabe um nordestino

Pro fim da vida até que morte nos ampare
Será que existe pra esse mundo uma salvação
Se não, eu fico aqui vagando pelo tempo
Com minha alma afoita por revolução 

Geraldo Junior – Voz e triângulo
Beto Lemos – Viola
Filipe Müller – Baixo
Gabriel Pontes – Flauta
Eduardo Karranka – Guitarra
Cláudio Lima – Bateria e vocal
Jefferson Gonçalves – Gaita

14 Rainha do Maracatu Geraldo Junior

Deusa da rua
Moreninha cor de fogo
Às vezes muito, me fazendo pouco
Rodava a saia, me deixava louco

E no seu passe de maracatu
Girava o mundo com calma
E minha alma quando quase apagava
Ela voltava, mas, só me olhava

Ainda vou contar meus segredos
Eu mostro a ela o toque do meu tambor
Que ela deixou quando bailava em meus sonhos
E o meu desejo lhe corou

Geraldo Junior – Voz, ferro de maracatu, agogô, tarol, surdo, tambor, treme-terra e vocal
Beto Lemos – Viola e vocais
Ranier Oliveira – Orgão elétrico
Filipe Müller – Baixo
Eduardo Karranka – Guitarra
Cláudio Lima – Bateria e vocal
Jonas Correa – Trombone
Eduardo Santana – Trompete

15 Warakidzã – Senhor do Sonho Geraldo Junior

Quando a verdade descer nos meus olhos
E o destino vier nas encostas
O sol me trará novamente
A luz que preciso pra me encandear

Aí serei como o fogo
Descendo no alto da serra
Trazendo na roda do tempo
As horas que marcam meu desencantar

Vem que o destino chamou
E é chegada a hora de desencantar
Vem que o fim desaguou
E a grande pedra vai rolar
Eu já traguei do meu fumo
Guardado comigo o ano inteiro

E agora revelo em teu sonho
A baleia que irá despertar
Com a virgem trazida em seu dorso
Ela nos guiará

Geraldo Junior – Voz, trompete, ganzã, surdo e vocal
Beto Lemos – Viola e vocais
Gabriel Pontes – Sax soprano
Eduardo Karranka – Guitarra
Cláudio Lima – Bateria e vocal
Baixo – Marcelo Müller
Jonas Correa – Trombone

16 Pra Ninar o Cariri Abdoral Jamacaru

O sol doura o cume verde da chapada do Araripe
Sonolenta a tarde cai, noite vem ninar o Cariri

Dorme o canavial, marmeleiro, pequizal
E as palmeiras do coco Babaçu

Cores, claros, urubus reis,
Vinvin, jacu, caboclolindo
Zabelê, cigarras, papa-ventos
Guaxinins, rolinhas, cascavel, guará
Já vão dormir.

Repousa o camaleão
Borboleta, gavião
Fecha a folha o maliçal
Dorme em paz criança e ancião

Geraldo Junior – Voz
Beto Lemos – Viola, violão, rabeca e violoncelo
Joana Queiroz – Clarinete
Diogo Jobim– Sintetizador


Ficha técnica:
Arranjos: Beto Lemos
Direção: Geraldo Junior
Gravado por Fábio Mesquita no Studio Making Of Records – RJ
Sintetizador e Microkorg Kaossilator gravados no Estúdio da Etnohaus – RJ
Pianos eletricos e orgãos gravados por Ibbertson Nobre no Ibbetson Studio – Crato CE
Editado, mixado e masterizado por André Magalhães no Estúdio Zabumba no Cariri, Nova Olinda – CE e Estúdio NaGoma – SP
Arranjos de Treme-Terra E Alma Afoita da Revolução – Ranier Oliveira e Beto Lemos
Projeto gráfico e ilustrações de Boni
Fotos: JoA Azria (capa do encarte) e Thailyta Feitosa (fundo do CD)
* Aquarela de Rebeca Queiroz (contra-capa do encarte): Seu Cachoeira de Palhaço Mateus

Agradecimentos:
Minha família, meu Ceará amado e a nação Cariri e todo esse sertão além das fronterias politicas! Dane de Jade, Sidnei Cruz, Tahiba, Rosemberg Cariry, Oswald Barroso, Beto Lemos, Fábio Mesquita, Bruno, Diego, Jefferson Gonçalves, Gabriel Gomes (Cotoco), André Magalhães, Fábio Mesquita, Beth Fernandes e Emrah, Grupo Filhotes de Leão, Casa Gira Mundo, Terreirada Cearense (Gabriel, Cláudio, Joana, Felipe e todos os outros que já passaram por esse projeto), Paloma Fraga, CCBNB, Fundação Casa Grande, Carlos Gomide, Carroça de Mamulengos, Reisado Discípulos de Mestre Pedro (Os Irmãos), Felipe Magalhães e toda a galera do Estúdio Nagoma, Gil Duarte e Mirian, Flauberto Gomes, Dudé Casado, Daniel Batata, Antônio Queiroz, JoA Azria, Nathan Thrall, BEATOS, Oficina Casa do Alto (George Belisário, Thailyta, Regivânea, Michel, Carol, Maria, Mauro, Amélia e Haarllem), Roberta Naddeo, Joana Queiroz, Filipe e Marcelo Müller, Kiko Horta, Marco Bz, Jonas Correa, Eduardo Santana, Diogo Jobim, Mariana Albanese, Boni, Maíra, Abdoral, Luiz Fidelis, toda a galera da Etnohaus, todos os músicos que gravaram e tocam comigo, e sempre, a todos os Mestre de cultura Popular tradicional do universo.

privacidade

A latrina no horário nobre


J. Flávio Vieira
                                               Uma polêmica divide a classe artística do país: deve-se exigir ou não autorização dos interessados,   em casos de biografias ?  O Código Civil, atualmente, reza que qualquer cidadão pode impedir a publicação de biografias a seu respeito, se se sentir atingido na honra, boa fama ou respeitabilidade ou se se destinarem as biografias a fins comerciais. Atualmente, existem impedidas de publicação biografias de : Raul Seixas, Roberto Carlos, Guimarães Rosa.  A Associação Nacional dos Editores de Livros, no entanto, entrou no Supremo Tribunal Federal com uma ADIN ( Ação Direta de Inconstitucionalidade), justificando que a proibição das biografias não autorizadas fere frontalmente o preceito constitucional da Liberdade de Pensamento. Artistas se posicionaram, imediatamente,  em falanges diferentes. Um grupo importante chamado “Procure Saber” que inclui : Milton Nascimento, Erasmo e Roberto Carlos ,Chico Buarque, Caetano Velloso, Djavan, Gilberto Gil dentre outros, é frontalmente contrário à ação; já o GAP ( Grupo de Ação Parlamentar Pró-Música) que engloba músicos como Frejat, Alceu Valença, Léo Jaime, Leoni e Dudu Falcão entendem que as biografias devem ser produzidas sem necessidade de prévia autorização.
                                               Não sendo advogado, percebo que o embate não diz respeito, apenas aos simples pontos levantados nas notícias : Direito à Privacidade X Liberdade de Pensamento. Há , certamente, junto a tudo isso a importante questão do Direito ao uso da imagem. Artistas célebres e famosos não se conformam, claro, que suas vidas sejam expostas sem sua autorização expressa e, mais, alguém (biógrafos e editores) lucre fartamente com isso , sem que nem um centavo cai na caixinha do artista.  Os defensores da liberdade biográfica dizem que  se o biografado se sentir atingido de alguma forma, poderá ir à justiça em busca de indenizações por danos morais ou por conta do uso indevido da imagem, sendo, no entanto, necessário lembrar a lerdeza da justiça brasileira. Muitos, por outro lado, já deverão ter falecido e já não terão voz para se defender e apresentar outras versões mais palatáveis que as apresentadas pelos jornalistas.  Além do mais, em caso de difamações ou calúnias,  a simples indenização não cobre o dano terrível muitas vezes causado pela veiculação de uma notícia escabrosa ( mesmo que verdadeira). Uma vez quebrado o colar de pérolas,  já não é  mais possível refazer e montar  todas as peças.
                                               Se a gente observar direitinho os dois grupos, são justamente os artistas mais  midiáticos e importantes do país que se posicionam contra o liberou-geral. Certamente, são eles que mais têm a perder nesta questão. Serão os mais biografados e suas vidas as mais especuladas e dissecadas. Quanto mais podres encontrados : mais mídia, mais polêmica e mais Best-Sellers.
                                               Vou meter minha colher nesse angu de caroço. Sinto-me a antítese do biografado. Minha vida não daria sequer um cordel e empacaria a venda em qualquer barraquinha de feira. Sem glamour, sem aventuras mais pitorescas, sem tramas rocambolescas, percebo minha clara isenção para falar do melindroso assunto. Não há vida que sejam livros abertos, amigos. Todos nós temos nossas páginas pregadas com goma arábica no meio do tomo. Se escarafunchar mesmo não existem heróis nesse mundo : nem santos, nem valentes, nem honestos sem máculas. Cada um de nós carrega o Dr. Jekyll e o Dr. Hyde bem pertinho. Às vezes, um simples e mínimo defeito físico nos tortura, uma deformidade de caráter, uma orientação sexual nos atravanca a vida. Mesmo a Liberdade de Pensamento, como bem maior, tem lá seus limites. É justo , por exemplo, em nome dela, estimular o preconceito? Defender o Nazismo ? Propalar o extermínio por fogo dos moradores de rua ? A privacidade de cada um de nós é um Direito Sagrado. O que se passa na alcova e no banheiro só a mim interessa. Ninguém tem o direito de invadir este espaço, sem meu franco consentimento e tornar públicos segredos que só a mim interessam. Isso não é Bulling ?
                               As histórias trágicas envolvendo até mesmo Memórias de Família são corriqueiras. Pedro Nava, o maior memorialista brasileiro, fala da quantidade de inimigos que arranjou na própria parentada, quando começou a traçar o perfil pouco abonador de alguns ascendentes. Recentemente, um escritor na região , num livro sobre a sua vida, mostrou uma visão própria e desabonadora do próprio pai: foi motivo suficiente para a intriga de irmãos e sobrinhos. Imaginem tudo isso escrito por terceiros e,  mais: além de chafurdar na latrina ainda ganhar dinheiro com isso?  Como vocês reagiriam lendo a biografia do pai ou avô com detalhes sórdidos de crimes cometidos, de trapaças realizadas às escondidas, de distorções sexuais impensáveis , mesmo que sabidamente verdadeiras ?
                               Há países de primeiro mundo como França, Estados Unidos, Reino Unido e Espanha  onde as biografias não autorizadas são permitidas, mas as indenizações são prontas e rápidas àqueles que sofreram algum tipo de difamação. Aqui, o destino dos caluniados e difamados seria  seguir uma procissão enorme de recursos a processos, enquanto o esterco espalhava-se ventilador afora. Leis de primeiro mundo pressupõe-se sejam aplicadas com justiça do mesmo jaez.
                               Posso parecer retrógrado, mas continuo defendendo que o diálogo entre mim e a latrina não precisa ser filmado e veiculado como atração no horário nobre.
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Coletivo Camaradas realizará 4ª edição do Dia das Crianças na Comunidade do Gesso

Coletivo Camaradas realizará 4ª edição do Dia das Crianças na Comunidade do Gesso

Neste domingo, dia 20, a partir das 15h00, no Campinho da Comunidade do Gesso será realizada a quarta edição do Dia das Crianças realizado pelo Coletivo Camaradas. Ação contará com oficinas de artes, contação de histórias, cama elástica, brincadeiras e o tradicional cortejo dos fantasiados. A ação reúne crianças e jovens de vários bairros da cidade.
O Dia das Crianças esse ano será realizado em conjunto com a Trocaria da Comunidade que é realizada todos os meses e consiste na troca de serviços, roupas, livros e outros objetos.

Esse domingo será permeado de muita arte na comunidade, algumas fachadas de casas serão pintadas com trabalhos artísticos e muitos livros deverão ser trocados e doados.

A ação conta com a parceria do Projeto Nova Vida, Companhia Brasileira de Teatro Brincante, Laboratório de Estudos, Vivências e Experimentos em Arte Contemporânea – LEVE Arte Contemporânea, Laboratório Paidea/UFCA e do Governo Municipal do Crato através das secretarias de Assistência Social, Serviços Públicos, Esportes, Meio Ambiente e Controle Urbano, Saúde e a Coordenadoria de Políticas Públicas para Juventude do Crato.

A partir das 9h00, o Campinho dos Meninos do Gesso já deve tá sendo ocupado com o jogo das crianças, e Piuntura artistica das fachada de algumas casas

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Alysson Amancio Cia de Dança encerra temporada nacional e já engata em nova circulação

 

O grupo de dança contemporânea de Juazeiro do Norte Alysson Amancio Cia de Dança encerra próximo sábado dia 19 de Outubro a Temporada nacional  ‘Dança Cariri: Estreitando laços’ em Belém no FIDA – Festival Internacional de Dança da Amazônia.

Este espetáculo ‘Boa noite Cinderela’ rodou o país por dez cidades do Norte e Nordestedo Brasil: São Luiz, Salvador, Recife, Campina Grande, Teresina, Natal, Maceió, João Pessoa e Sumé. Tal temporada aconteceu graças ao Prêmio Petrobrás FUNARTE de Dança Klauss Vianna/2012.

Sem tempo para descanso, a companhia com outro elenco já inicia uma nova circulação com o espetáculo ‘Cajuína’. Este trabalho estreou em julho na Alemanha e agora em outubro, circula por Sobral, Fortaleza, Campina Grande, Juazeiro do Norte e Tabuleiro do Norte.

 
Para os interessados, segue a agenda da Companhia, que dia volta a encenar em palcos caririenses.

 

Dia 19 de Outubro às 20h em BELÉM/PA

Espetáculo ‘Boa noite Cinderela’ no FIDA –Festival Internacional  de Dança da Amazônia          

 

Dia 20 de Outubro às 20h em SOBRAL/CE

Espetáculo ‘Cajuína’ na IX Bienal Internacional de Dança do Ceará

 

Dia 21 de Outubro às 18h em FORTALEZA/CE

Espetáculo ‘Cajuína’ na IX Bienal Internacional de Dança do Ceará

 

Dia 25 de Outubro às 19h em CAMPINA GRANDE/PB

Espetáculo ‘Cajuína’ Mostra SESC da Paraíba

 

Dia 31 de Outubro às 18h em JUAZEIRO DO NORTE/CE

Espetáculo ‘Cajuína’ na IX Bienal Internacional de Dança do Ceará

 

Dia 01 de Outubro às 19h30 em TABULEIRO DO NORTE/CE

Espetáculo ‘Cajuína’ na IX Bienal Internacional de Dança do Ceará

Cultura, mercado e resistência

Por Alexandre Lucas*

A mercantilização da  cultura é um dos fatores preponderantes dentro da lógica capitalista, notadamente no que se denomina de indústria cultural ou cultura de massa. Conforme Edgar Morin “a produção cultural é determinada pelo próprio mercado. Por esse traço, ela se diferencia fundamentalmente das outras culturas”. Entretanto, se alinha na mesma lógica de mercado e perversão, o beneficiamento de instituições públicas e privadas através de políticas públicas  para cultura.

 Apesar dos avanços ocorridos na ultima década no campo das políticas públicas para a cultura, ainda persistem alguns entraves de mercado na legislação e no processo de privilégio  do mercado. As leis de incentivo fiscal é um dos exemplos. No Ceará a Lei do Mecenato beneficia grandes empresas e que vende a sua marca com recursos públicos. Nacionalmente a Lei Rouanet é tem o mesmo perfil, ou seja, o setor privado definir em que vai investir e ainda faz publicidade privada com recursos públicos. Valer ressaltar que somente as grandes empresas são atendidas por essas legislações.

Existe também, algo que deve ser combatido e denunciado de igual forma, que são as políticas de editais burocráticas para os pequenos produtores simbólicos e facilitadoras para empresas “produtoras culturais”. O Ceará é um exemplo implacável deste modelo, as políticas de editais cearenses  privilegiam os aspectos jurídicos como primários, em outras palavras, antes de analisarem o conteúdo de qualquer projeto, primeiro estabelecem o aspecto jurídico como medida de descarte, o que acaba favorecendo a as empresas de administração e contabilidade (Produtoras Culturais).  

A atual Ministra da Cultura também assume uma postura equivalente. Um dos exemplos é o edital de Ocupação para os Centros de Artes e Esportes Unificados – CEUS, o qual atenderá “empresas especializadas”, tendo em vista a sua complexidade de execução para os produtores individuais ( artistas) e os grupos e coletivos artísticos.  Outra lógica poderia ser mais consequente do ponto de vista de descentralização de recursos e empoderamento dos grupos, seguindo a coerência do Programa Cultura Viva abandonado na atual gestão.    

Dinheiro público para promoção privada é outra fator que deve ser criteriosamente analisado, diversas empresas criam suas fundações culturais e instituições ligadas ao comércio e a indústria, a exemplo do Sistema S, em que recebem valores públicos para promoverem a  imagem das suas instituições e empresas.  É preciso ter critérios de controle social destas instituições. É inadmissível, recursos públicos destinados  a empresas e instituições privadas não terem controle social, elas  não fazem um favor a sociedade, pelo contrário administram ao seu belo sabor a dinheiro desta sociedade. É preciso urgente criar mecanismos de controle e proposição social, transparência nos processos de escolhas artísticas, averiguação contábil e de contrapartida social destas instituições e empresas. Elas não podem ditam o que fazer com os recursos públicos.

É preciso antes de tudo estamos juntos e aguerridos contra os processos de mercantilização da cultura, tanto os que bestificam a população, com os que  dizem  se contrapor a isso, mas que acabam mamando e se beneficiando dos escassos  recursos para cultura do país.

Um dos caminhos é a interlocução nacional dos movimentos sociais ligados a cultura, entrelaçadas com dois instrumentos fundamentais para essa luta que é a Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados e a Frente Parlamentar Mista em Defesa da Cultura, que já desempenha um papel fundamental de fiscalização e discussão de um novo marco legal para as políticas públicas de cultura no País.

Resistir é tarefa dos guerrilheiros da cultura. Não vamos pagar para o mercado ou para os parasitas de recursos públicos que teimam em querer ditar as regras.  
*Pedagogo e Artista/educador, integrante do Coletivo Camaradas.