Arquivos mensais: maio 2013

O Condicionado


E, aquele
Que n
ão morou nunca em seus próprios abismos
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas
N
ão foi marcado. Não seráexposto
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.”
Manoel de Barros
                                   Raimundo Arruda Sobrinho, um velhinho simpático de 74 anos, viveu os últimos vinte anos, como morador de rua, no canteiro central da avenida Pedroso Morais,  na Zona Oeste de São Paulo. Nascera no Tocantins , filho de um vaqueiro, viera tentar a sorte na capital paulista, ainda rapazinho , após   ser reprovado na segunda série ginasial. Como todo migrante, meteu-se nas mais variadas profissões,  desde  jardineiro a  vendedor de livros velhos,inclusive com passagens em hospitais psiquiátricos Tentou a vida ainda como migrante ilegal no Paraguai, na Argentina e no Uruguai . Até 1978 já computava mais de quatorze endereços, quando , definitivamente, fez da rua seu bangalô. Em 1993, por fim, adotou o canteiro central da avenida Pedroso Morais, como seu lar. Barba longa e desgrenhada, higiene precária, roupas em frangalhos.   Ali, na dura selva urbana,  conviveu com a fauna típica do submundo brasileiro : esmoleres, bêbados, prostitutas, bandidos, traficantes, descuidistas, menores abandonados e adolescentes delinquentes  de classe média jogando o  seu  esporte preferido : churrasco de mendigo.
                                   A história de Raimundo não é tão diferente da de outros tantos desafortunados da sorte que, órfãos de família , de emprego, de amigos e de amparo social, terminam por sujar, incomodamente,  a paisagem das grandes metrópoles. Moram numa outra dimensão , como se prematuramente tivessem morrido e , agora, invisíveis, vagassem como zumbis pelas praças e pelas ruas. Alguns fatos específicos, no entanto, diferenciam a vida de Arruda e que terminaram por fazer com que a história, estranhamente,  findasse com final feliz. Raimundo, sem mais nem porque, começou a escrever, quase que continuamente, aquilo que ele denominou de minipáginas. Redigia e ia oferecendo aos transeuntes que por ali passavam, em retribuição a alguma esmola por eles oferecida. Algumas, no entanto, colecionou cuidadosamente em  caderninhos, preparados com papel de embrulho. Escrevia a qualquer hora,  nada o atrapalhava, nem mesmo o barulho dos carros que freneticamente cruzavam ao derredor. Se chovia, enfurnava-se num plástico e continuava seu mister , sentado numa lata de dezoito litros. Utilizava um pseudônimo : “O Condicionado”. Condicionado a viver ao relento, a lutar diuturnamente contra as feras da floresta urbana, a sobreviver entre trapos e migalhas.
                                    Recentemente,  Shalla Monteiro, com o aguçado fato dos publicitários,  interessou-se pela história de Raimundo e por seus escritos, e terminou conseguindo localizar um irmão dele em Goiânia. O irmão, com muito esforço, conseguiu tirá-lo da rua e lhe proporcionar uma moradia digna, com o precioso calor da família. Arruda já se acostumara àquela jaula e temia sair da selva onde já aprendera a viver ou  sobreviver aos lobos e aos abutres.
                                   A poesia de Raimundo é caótica e  fragmentária. Uma extensão da sua vida : um mosaico de cacos e estilhaços de momentos .  Literariamente não parece carregar grande valor . Rescende, no entanto, um imenso peso humanístico e artístico. A Arte para ele foi redentora. Sobrinho, como uma Sherezade moderna, foi escrevendo, por mais de vinte anos,  suas histórias para não ser trucidado pelo Sultão que se chamava , agora,  Miséria. Linha após linha, página após página foi desfiando  suas mais de 7300 noites.  Ele é uma espécie de Arthur Bispo do Rosário da Literatura. Diante de um mundo cruel e hostil, criou um universo poético paralelo e para lá se mudou. Viveu e sobreviveu literalmente da sua Arte por muitos e muitos anos. Residiu nos seus abismos mais abissais  e conviveu promiscuamente com todos os seus fantasmas, talvez tenha sido por isso mesmo que a Poesia  se lhe tenha oferecido voluptuosamente como uma fêmea no cio.

J. Flávio Vieira

Encontro reunirá pipeiros no Crato

O mês de maio é sempre propicio para a brincadeira de pipas na cidade do Crato (CE).  Esse ano, a comunidade do Gesso realizará evento denominado de  “Pipada no Gesso” que visa reunir crianças e adultos na brincadeira que teve origem com os chineses há cerca de 3000 anos.  

A pipa também conhecida como papagaio,  pandorga ou raia fez parte da infância de várias gerações. No Crato, o Campinho dos Meninos do Gesso é um dos locais tradicionais para a prática da brincadeira.

Segundo os organizadores,  a Pipada não tem caráter competitivo e visa fortalecer a ocupação criativa da comunidade no campinho dos Meninos do Gesso que já vem sendo ocupada com outras atividades como jogos de futebol, brincadeiras de bila, pião, malhação dos Judas e Dia das Crianças.  

A Pipada será um evento aberto e colaborativo, aonde as pessoas não precisarão fazer inscrições, basta levar sua pipa e brincar. No local haverá oficina de produção de pipas e registros fotográficos.

O evento conta com a parceria do Coletivo Camaradas, Blog do Alexandre Lucas, Projeto Nova Vida, Programa Nacional de Interferência Ambiental – PIA  e a Comunidade do Gesso.
Serviço:
Pipada no Gesso
Dia: 26/05/2013
Horário: 8h00 (manhã)
Local: Campinho dos Meninos do Gesso    
Colabore com doação de materiais: Linhas, Papel Seda, Sacos Plásticos e cola. Informações: 96616516.       

A tortuosa estrada do sonho


                                                                                    
                                  Ali estava bem na sua frente e era um deslumbramento. Parara ofegante e atônito, como um menino que balbucia as primeiras palavras de amor para a namorada. Saíra com a inglória missão de comprar um presente para o aniversário do filho, esta difícil e impalpável arte de calçar  a matéria no sonho alheio. De repente, diante dos seus olhos, como se pronunciasse o abracadabra ou o abre-te-sésamo, aparece o objeto de todos os desejos da sua já distante  infância.                                                                                                                             

                                    

Fora pirralho pobre e desde cedo precisara aprender a inventar os seus próprios brinquedos. A duras penas , aprendera a fazer o pião com um tronco de goiabeira e um prego; o “triângulo”, mais simples , o precedera, quando entortou a extremidade de um arame e afiou a outra ponta numa pedra de amolar facas. Depois viera o caminhão, doce enlevo da sua meninice, que fabricara desfazendo uma velha caixa de madeira e dela construiria todos os módulos: a boléia, a carroceria, as rodas ( a mais difícil tarefa) e até os amortecedores —  feitos das aspas metálicas que recobriam a caixa e que davam ao carrinho um discreto molejo, tão importante para as manobras mais radicais. As bolas de gude   (  de aço ,as preferidas) eram conseguidas dos mecânicos da redondeza, que as tiravam de rolamentos “gripados”. Depois vieram os carrinhos de rolimã , os patinetesconstruídos com tábuas e rolamentos, que eram o terror do sono de todos os vizinhos Fez-se clone  de Ícaro ,também , montando   “pipas” com papel celofane, pedaços de madeira e “grude de goma”. Os “papagaios”, ao serem empinados, como que alçavam aos céus o dourado enleio da sua  infância ( enleio que um dia se perdeu no espaço,  ao ser cortado pelo brusco cerol da adolescência).                                                                                                                   .                                                                                                    

                                          Uma vez , pisando na sombra do pai, tinha tido um encantamento igual ao de hoje : diante de si um ônibus feito artesanalmente, de quase meio metro, com inúmeras cadeiras no seu interior , as laterais fabricadas de lata e pintadas, onde se lia, em letras transversais: “Viação Cometa”. Lembra, como se fora ontem,  atanazara tanto o pai para comprar aquela maravilha,  que terminou por ganhar o mais comum presente do seu tempo: uma surra monumental.

                                  Hoje, no entanto,  se sentia o mais feliz homem do mundo: podia dar ao filho o mais almejado presente da sua vida de guri. Comprou-o, trêmulo, como se tivesse voltado  trinta anos .  Cerrou os olhos um pouco, enquanto o vendedor lhe trazia o troco, e se viu apenas de calção listrado, com barbante na mão,  à guisa de volante,  e dirigindo cuidadosamente aquele ônibus que por tantos e tantos anos foi o cometa de todos os seus desejos. O tilintar do troco no balcão o fez viajar , num átimo, três décadas de volta. Tomou do embrulho valioso e partiu célere para casa, na expectativa de ver ,nos olhos do filho,  a felicidade que poderia ter brilhado nas suas próprias retinas tantos anos atrás…

                              Mal abre a porta, berra, ofegante :

                   —Filho, olha o presente de aniversário que eu trouxe pra você!

                              O menino corre e rasga o invólucro, vorazmente, sem nenhum critério artístico. De repente emerge do papel picotado , o ônibus reluzente. O filho , porém, não reluz como o ônibus,  o olha sem entusiasmo e pergunta, sem graça:

                   —- Pai, o que é que ele faz, hein? Tem controle remoto, anda sozinho?

                             O pai, triste,surpreso,  ainda pensou em explicar que aquele carrinho fazia tudo: andava sozinho, corria, subia ladeiras e rampas, até voava e tinha controle remoto sim: A imaginação. Mas já não adiantava, o guri, hipnotizado,   agora fixava seu pensamento  apenas no videogame e o sonho de infância do pai estava ali jogado no chão em total desamparo — um ônibus que capotara , perdera em algum lugar a sua força lúdica,  e era agora um  veículo  enferrujado,  obsoleto , sem rumo claro e sem destino previsível.
J. Flávio Vieira

Carlos Fernando Niedersberg concede entrevista a Zero Hora – Portal Vermelho

Carlos Fernando Niedersberg concede entrevista a Zero Hora – Portal Vermelho

O ex-secretário de Meio Ambiente, Carlos Fernando Niedersberg, concedeu entrevista ao jornalista André Machado, onde nega qualquer envolvimento em ações irregulares quando esteve a frente da Fepam e diz que licenças ambientais são processos técnicos. Leia abaixo a integra da entrevista publicada no jornal Zero Hora de hoje (11):

André Machado/Agência RBS

Filiado ao PC do B, ex-titular do Meio Ambiente espera conversar com o governador e provar inocência

– Quantos milhões tem neste saco, seu corrupto? – disse o brigadiano, apertando com força os testículos de Carlos Fernando Niedersberg, 46 anos, no momento em que ele passava pela revista para ir falar com seu advogado, no parlatório do Presídio Central.

A situação constrangedora foi relatada ontem, durante uma hora de entrevista no mesmo apartamento onde o então secretário estadual do Meio Ambiente foi preso pela Polícia Federal na manhã de 29 de abril, suspeito de envolvimento em fraudes no licenciamento ambiental de empreendimentos.

O acanhado imóvel no bairro Bom Fim já estava sendo esvaziado na chegada dos policiais. Niedersberg está trocando o aluguel de R$ 1 mil pela locação de outro imóvel, no qual irá morar com a namorada, testemunha de sua prisão. Ele ficou no Central por quatro dias.

Mas nem os maus-tratos na revista nem o constrangimento de ser preso diante dos vizinhos foram os momentos mais difíceis para o químico indicado pelo PC do B para ocupar postos no governo Tarso Genro – antes de assumir a secretaria, no início de abril, ele presidiu a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam).

As piores recordações são das 12 horas que passou em uma sala apertada e de pé direito baixo dentro da sede da PF em Porto Alegre. Virado para a parede forrada com isolamento acústico, o ex-secretário passou a metade daquela segunda-feira buscando foco para entender o que ocorria. Havia um agravante: depois de ficar preso em um cano de esgoto aos seis anos de idade, Niedersberg passou a sofrer de claustrofobia.

Zero Hora – Como tem sido a rotina depois que o senhor deixou o Presídio Central?

Niedersberg – Tem sido um momento de acolher a solidariedade da família, dos amigos, dos camaradas de partido. Momento de reestruturar a vida. Foi um baque forte que a gente está vendo agora como se supera.

ZH – Trecho de um documento da Justiça Federal afirma que o senhor estaria diretamente envolvido na concessão ilegal de licenças ambientais. O senhor recebeu alguma vantagem indevida?

Niedersberg – Afirmo categoricamente que não. Repilo a ideia de que licenças ambientais possam ser transacionadas desta forma. Não é um ato político que dependa da vontade do gestor. A licença é um ato de construção técnico-jurídica.

ZH – Em algum momento lhe ofereceram vantagem para influenciar em processos?

Niedersberg – Nunca me ofereceram e sabem, olhando para a minha cara e conhecendo a minha vida, que jamais isto teria trânsito comigo.

ZH – Qual o seu relacionamento com os ex-secretários Berfran Rosado e Giancarlo Tusi Pinto e com o Instituto Biosenso?

Niedersberg – Tive a oportunidade conhecer Berfran e Giancarlo na campanha de 2008. Depois, fiquei um longo tempo sem vê-los. Com a criação do Biosenso, eles passaram a atuar como consultores ambientais, que é uma das atividades mais comuns de ter contato na Fepam.

ZH – Em uma gravação, o senhor pede recurso a Giancarlo para a campanha para vereadora de Jussara Cony. Como se deu este contato e o que o senhor pediu?

Niedersberg – Pela relação política construída com Berfran e Giancarlo, o que fiz foi ofertar convites para a festa da Jussara Cony. Foram 15 convites. Não recordo o valor, pois tinha convites de R$ 500 e R$ 1 mil. Eles ficaram com 15 convites para depois ajudar a vender.

ZH – Ainda sobre o pedido de recursos para a campanha de Jussara Cony. Depois da venda destes convites, de acordo com a PF, o senhor teria atuado em prol do Biosenso com a OHR. O senhor conhece a OHR?

Niedersberg – Pessoalmente não conheço, mas, como estudei o processo, sei do que se trata. É um dos dois processos do Biosenso que eu tinha conhecimento na Fepam. É absolutamente inverídica esta afirmação de que há qualquer ligação. Era um processo extremamente moroso pela sua dificuldade e que não atendeu aos interesses iniciais do empreendedor.

ZH – O senhor não atendeu então o interesse da OHR em um condomínio no Litoral? O projeto ao fim foi liberado?

Niedersberg – O empreendimento tinha licença da Fepam. No processo de revisão que fizemos em todos os processos do Litoral por conta de uma busca e apreensão da polícia em 2012, esta licença foi revisada. Nesta revisão, vários interesses dos empreendedores foram revertidos. Trata-se de saber se o terreno tinha ou não área de banhado. A posição foi de que havia e que o banhado deveria ser preservado.

ZH – Consta no relatório da PF que o senhor teria almoçado com representantes da OHR e com Berfran em uma churrascaria. O senhor lembra disto?

Niedersberg – Lembro e isto não corresponde. Almocei exclusivamente com Berfran.

ZH – Qual a sua reação diante da exoneração imediata?

Niedersberg – A posição do governador, estando em Israel e sabendo de um ato que chegou à consequência de uma prisão, não poderia ser outra que não a exoneração. Não o critico. Espero ter a oportunidade de conversar, olhar nos olhos dele e falar: sou inocente. Ele sabe disso e conhece o meu trabalho.

ZH – Quando Gabriele Gottlieb foi indicada para a presidência da Fepam, o senhor sabia que ela respondia a um processo em razão da rápida concessão de licença para um parque eólico em Quintão?

Niedersberg – Com certeza. Era um dos processos que mais me orgulhavam. Conseguimos fazer do Rio Grande do Sul uma referência em energia eólica. O Conama está debatendo uma resolução sobre o licenciamento destes parques baseada na experiência gaúcha. Criamos uma expertise para licenciar parques sem nenhuma irregularidade.

ZH – O senhor foi apontado por outros presos da operação como o mais nervoso no Central. Por quê?

Niedersberg – No Central, não concordo com a afirmação. Eu estava muito mal no dia da prisão por ter claustrofobia. Aos seis anos, fiquei preso por 12 horas em um cano de esgoto com outras pessoas por cima. Sou muito claustrófobo, e o ambiente na PF foi muito angustiante. Senti como se fosse a boate Kiss durante 12 horas.

ZH – Qual era a sua relação com o servidor Mattos’Alem Roxo?

Niedersberg – Mattos’Alem era chefe do balcão do Litoral Norte quando tivemos denúncias em relação à atuação dele num inquérito do MP. O retiramos da chefia e o trouxemos para a sede. Ele ficou afastado da atividade de licenciamento, e abrimos uma sindicância interna. As duas reuniões que ele teve comigo desde então foram para pedir para ingressar no serviço de emergência ambiental, um dos mais importantes da casa. E apresentei para ele a impossibilidade diante do inquérito e da sindicância que ele respondia.

ZH – O presidente estadual do PC do B, deputado Raul Carrion, fez referência a agressões que o senhor teria sofrido no sistema prisional. Como foi?

Niedersberg – Foi um episódio isolado. Dentro do possível, o tratamento no presídio se deu com dignidade. A curva que fugiu do ponto foi em uma revista quando fui ao parlatório conversar com meu advogado. Na revista, tive uma pressão psicológica muito forte, me chamando de coisas que não tenho coragem de repetir, e pressionando os meus testículos simultaneamente. O fato já foi debatido com a direção do presídio.

ZH – O que a sua vida mudou do ponto de vista pessoal e material desde que o senhor assumiu funções públicas?

Niedersberg – O meu crescimento profissional foi fabuloso nestes dois anos. Acho que fiz uma gestão revolucionária na Fepam. Do ponto de vista material, ao longo deste período, não tenho nada a acrescentar de positivo. Meu saldo bancário e fiscal está disponível e pelas condições que vivo é possível demonstrar que não ganhei um centavo de patrimônio ao longo destes anos.

Fonte: Zero Hora

Enxugando gelo


Vocês já devem ter percebido a grande polêmica que invade as redes sociais. A Frente Nacional de Prefeitos,  desde o início do ano, vem pressionando o Governo  com o fito de contratar médicos estrangeiros para atender ao SUS, principalmente nos grotões mais inóspitos do país. Existe, pois, uma mobilização no sentido de contratar seis mil médicos de Cuba e Portugal,, principalmente, na busca de solucionar essa demanda historicamente consolidada.  Diversas Entidades Médicas, capitaneadas pelo Conselho Federal de Medicina, se puseram , imediatamente, por razões técnicas, contrárias à iniciativa. A Direitona brasileira, por sua vez, range os dentes e espuma,  sempre que soa o nome Cuba nos ares. Nem lhes interessa muito discutir a questão, pensa , imediatamente, que Fidel está vindo com seus guerrilheiros invadir o país  e comer criancinhas.  Há razões plausíveis do lado das entidades médicas, dos prefeitos e do Governo Federal para adotarem uma ou outra postura. Interessa-nos dissecar anatomicamente o problema e tentar encontrar caminhos em meio ao tiroteio de lado a lado. Até mesmo porque , exatamente no meio do fogo cruzado, encontra-se a população mais necessitada, sempre baleada,ferida  mas, mesmo assim,  usada como massa de manobra nessas intrigas e arranca-rabos dos cachorros maiores.

            O Brasil tem hoje 400.000 médicos , uma proporção de exatamente dois esculápios para cada 1000 habitantes: o dobro da necessidade mínima preconizada pela OMS.  A grosso modo esta estatística demonstra que temos profissionais suficientes no país para atender a nossa população. Existem, no entanto, filigranas que precisam ser avaliadas. Possuímos, por outro lado, um grande problema de distribuição. Os médicos no Brasil, na sua maioria, residem nos  grandes Centros , nas Capitais, no litoral.  72% desses estão fincados nas Regiões Sul e Sudeste. Em São Paulo existe um médico para cada 239 habitantes, em Roraima um  para cada 10.306 almas. No Amazonas, um estado de enorme dimensão territorial,  88% dos médicos residem em Manaus. O acesso aos cuidados médicos depende assim, intrinsecamente, da nossa geografia. Se você mora no interior do Brasil e nas regiões Nordeste e Norte certamente se verá em grandes dificuldades quando precisar de consultas, exames ou internamentos. Vamos, amigos, para ter uma visão mais abrangente, tentar entender a perspectiva de cada uma das partes envolvidas .

            Os governantes dos estados com menor oferta de médicos se vêem politicamente cobrados pela população, no sentido de ampliar a oferta de profissionais. Acossados pela desassistência e sua inevitável conseqüência nas urnas, pressionam as esferas superiores no sentido de minorar o problema. Eles sabem, perfeitamente, que não é apenas o salário ofertado o imã suficiente para atrair profissionais: a questão é bem mais complexa. Compreendem que o grosso do atendimento está sendo feito por pajés, meizinheiros, “cientistas”, balconistas de farmácia, rezadores. Todos sem nenhum diploma que pudesse ser revalidado. Depreendem daí , rapidamente, que qualquer médico, com qualquer nível de qualificação, é melhor que médico nenhum.

            As Entidades Médicas, que têm a função precípua de regulamentar a atividade no país,  não se sentem capazes de validar diplomas estrangeiros , sem saber , realmente, como o profissional foi formado e qual seu nível de qualificação. Mais cedo ou mais tarde, fechando os olhos para isso, percebem que os Conselhos se verão atulhados de processos éticos e penais , o que termina por colocar ( bons e maus profissionais)    na mesma corda bamba, como farinha de um mesmo angu indigesto.

            Já o  Governo Federal, de há muito , tem se incomodado com essa realidade da má distribuição de médicos no país. Desde a famigerada Revolução de 64, vem fazendo proliferar as Escolas Médicas no Brasil. De 2000 a 2010 as Faculdades de Medicina dobraram por aqui. Na sua maior parte, privadas. Hoje temos quase duzentas. Ingenuamente,  imaginavam nossos governantes que inflacionando o mercado de profissionais, a competição aumentaria e a distribuição se faria imperiosa. Não foi isso que aconteceu. Até os médicos estrangeiros em atividade por aqui estão mais concentrados no Sul e Sudeste. Médicos aqui se formam para tratar quem pode pagar. Formam-se especialistas e não generalistas: apenas 0,5 % dos médicos brasileiros são especialistas em Medicina Preventiva e Social. E mais : preparam-nos  para tratar e não para prevenir.  Ademais, o governo interroga as Entidades Médicas : Por que exigir qualificação dos estrangeiros apenas ?  O PSF no Brasil se compõe, basicamente, de  médicos  recém formados e aposentados. Passariam no teste do Conselho Federal ?  é importante lembrar que  o Governo traz junto o apoio da Organização Pan-Americana de Saúde ( OPAS) e há uma verdade indiscutível: no que tange à Medicina Preventiva , os médicos cubanos são extremamente bem capacitados.

                        Os médicos brasileiros, por sua vez,  isoladamente ou em grupo, protestam contra a contratação dos estrangeiros. Defendem uma certa reserva de mercado.  Poucos, no entanto, por qualquer preço que lhes fosse oferecido, com a maior estabilidade possível, deixariam o conforto da beira mar e dos recursos mais modernos que a Medicina oferece, para se enfurnarem, como bandeirantes, naquilo que chamam de fim de mundo. As novas gerações de esculápios são muito mais cartesianas que hipocráticas.

                        O mais importante, no entanto, ao meu ver é o entendimento que qualquer solução que se tome, com ou sem estrangeiros, é perfeitamente emergencial e temporária. Os médicos estrangeiros , se vierem, não ficarão definitivamente e, mesmo se receberem visto permanente, que garantia teremos que permanecerão nos grotões do Brasil ? A grande pergunta que permanece no ar é : como fixar nossos esculápios em todo o Brasil, com uma distribuição de profissionais menos perversa ? Como diminuir a volatilidade nos PSF ? Se é o mercado a grande fábrica das vocações médicas, é para ele que nos devemos voltar. Não é tão-somente o salário que atrai o médico. A coisa é bem mais complexa e passa por estabilidade no emprego, possibilidade de ascensão  funcional, qualidade de vida , horizontes amplos de exercício de  uma Medicina moderna, com formação continuada. Precisaríamos, assim, ter uma carreira federal , de preferência com dedicação exclusiva, regulamentada trabalhisticamente, com começo, meio e fim claros e, mais, salário muito atraente para oferecer aos nossos médicos do Programa Saúde da Família. Teríamos a possibilidade de revitalizar a especialidade de Médico de Família e  de Medicina Preventiva e Social. Já tivemos algo parecido na história com a Fundação SESP. O grande gargalo parece ser, mais uma vez, o subfinanciamento da Saúde. Só no Ceará necessitaríamos de algo em torno de 2300 profissionais.

                        O SUS, com todas as críticas que se lhe faça, conseguiu, em pouco mais de vinte anos, mudar radicalmente para melhor nossos Indicadores de Saúde. Doenças de controle Vacinal desapareceram, a Mortalidade Infantil teve um decréscimo vultoso, a Esperança de Vida melhorou de forma impressionante. Já pensou se houvesse orçamento suficiente ? Continuamos, em algumas questões como a da distribuição, a malhar em ferro frio: não tocamos nas raízes mais profundas dos nossos problemas. Com ou sem estrangeiros,   ainda permanecemos enxugando o gelo na esperança inglória de um dia secá-lo, agora com toalha importada.

J. Flávio Vieira

Ato publico em defesa do campo- tema: Baixio das Palmeiras(Tranposição) e Gravatá (implantação do aterro sanitário).

 

Hoje terá um GRANDE ATO PUBLICO EM DEFESA DO CAMPO,toda e qualquer força será bem vinda, o ato esta sendo articulado dentro do ERA-encontro regional de agroecologia que esta acontecendo no ifca-crato- teremos representação de todo o nordeste neste ato, inclusive presença do MST, via campesina, levante popular, aparecidos politicos , coletivo camaradas e variadas forças, faça parte deste ato
sobre o ato hoje: A concentração será as 14h no Polivalente no Seminário e deceremos a ladeira. O tema é sobre o Baixio das Palmeiras(Tranposição) e Gravatá (implantação do aterro sanitário).

Por Vossa Mercê me ardo de amores…


 
                               Acarta foi descoberta e deu-se com o tesouro , envolto em um canudinho e atado comum já puído barbante.  Junto uma espiga de milho que deve ter ajudado a introduzir o canudo nas profundidades do muro. Havia sido ali colocada, cuidadosamente, como uma relíquia que se quer preservada. Como se a descoberta  inoportuna pusesse em desequilíbrio a estabilidade de dinastias e estados. A restauração careceu de cuidados arqueológicos. O documento ameaçava desintegrar-se ao simples toque das mãos. Para surpresa de todos,  a cartinha não carregava consigo segredos de estado, estratégias militares, conspirações palacianas. Tratava-se de  uma carta de amor.

m uma greta, na parede de uma casa antiga de Toledo na Espanha. O proprietário atual da velha mansão se dispusera a fazer uma reforma. Por trás de uma das vigas,

                               As linhas  haviam sido escritas, em letra artística,  com uma pluma de pássaro : nada mais adequado  para palavras de amor !  Fluidez, leveza, horizontes infinitos de passarinho. Nela, um apaixonado Dom Alfonso de Vargas y Montes  dirigia-se à sua querida Doña  Maria de Sierra,  com a aflição dos amantes, em frases como : “É por vossa mercê que me ardo de amores…” e “nasci para servir a vossa mercê e não para mandar”.   Agradecia por alguns favores recebidos  e demonstrava, claramente, que o amor se fazia correspondido,  pois  D. Alfonso elogiava, cortesmente, a letrinha da amada em correspondências anteriores.  Citava ainda duas outras pessoas que, certamente, deviam conhecer a relação  secreta: “ Pepita, quando te beijar, te dará dois beijos, um por mim e outro por Don Juan”.Terminava a missiva de forma esperançosa : “Por haver escrito com pressa, não explico melhor meu afetuoso amor por vossa mercê. Para manhã, sendo Deus servido, espero resposta”.  Datava D. Alfonso sua correspondência : “29 de Outubro de 1700”.
                               Tinham se passado mais de trezentos anos desde que o nosso apaixonado e fervoroso Vargas y Montes encaminhou  aquelas bem traçadas linhas à sua amada. Quem seriam D. Alfonso e D. Maria de Sierra ? Qual o fim dessa história ? Pesquisadores tentaram identificar o casal de enamorados , mas mostrou-se impossível o projeto. Na época, não havia registro nenhum de mulheres  e nem participação delas em  levantamentos censitários. Dom Vargas y Montes também não se localizou.  Descobriu-se, apenas, que a atual vivenda onde a relíquia foi descoberta  fazia parte de um antigo seminário e aventou-se a possibilidade de a amada de D. Afonso ser uma religiosa, talvez enclausurada com o único fito de ser afastada de um pretendente de origem plebeia ou  inadequado aos olhos da família Sierra.
                               O leitor pode até concluir, como Álvaro de Campos, que “Todas as cartas de amor são ridículas” , independentemente da cronologia de quando se as grafaram. Talvez, no entanto, mais grotescas e ridículas sejam as forças que se antepõem seguidamente ao exercício natural do amor em suas mais diversas formas. A paixão de D. Afonso e Doña Maria terminou corroída pela inexorabilidade  do tempo, como todas as coisas neste mundo,  sujeitas à ferrugem e ao cupim das horas.  Se os beijos  do nosso galante  escritor aconteceram apenas pela intersecção de Papita  ou um dia chegaram à esperada realidade, não se sabe. Apenas temos a certeza que duraram o infinitesimal momento em que aconteceram. Se o amor carrega consigo essa efemeridade inevitável, a cartinha de trezentos anos prova, por outro lado, que o sentimento que tangeu D. Afonso e D. Maria são eternos na sua essência. Hoje , com os celulares e os e-mails,  já não possuem a perenidade de registro que Vargas y Montes um dia imprimiu.  Mas, no íntimo, mantém aquela cola básica que se faz a força motriz da humanidade e que um dia redundou na degustação dos frutos da árvore do bem e do mal e na expulsão dos jardins do éden.
                                               O que faz a Terra girar sempre continua sendo a  a esperança que imantou D. Vargas y Montes :  a de que, para amanhã, sendo Deus servido, uma resposta há de chegar.
  
J. Flávio Vieira

OS CAETANOS – Eu vou, por que não?

https://www.facebook.com/events/155021341336470/155036004668337/?ref=notif&notif_t=plan_mall_activity
Na próxima semana a banda OS CAETANOS aportam pela primeira vez no nosso Cariri. Eles vem trazendo um repertório todo montado em cima da obra do grande Caetano Veloso, só que tocado, interpretado e representado às sua maneiras. O pernambucano Cláudio Brasil, lider e cantor da banda, encarna o bahiano de forma inusitada e carregado de performances tropicalistas. É realmente um evento que não se pode perder. Um trabalho que vem dando grande destaque aos Caetanos, pela maneira diferenciada, ousada e recheada de jeitos, trejeitos à la Caetano Veloso. 
O local desse evento não poderia deixar de ser o Crato Tênis Clube, um espaço que tem todo o glamour da tropicália, dos tempo em que a banda Ases do Ritmo balançava os nossos corações tocando sucessos de Caetano, Gil, Mutantes e outros ícones desse movimento que marcou uma geração no Brasil. O antigo salão do clube do Pimenta será o palco desta apresentação que será um marco na história cultural e musical no Cariri. Os Caetanos vem pra fazer a festa e, assim como eles, nós vamos fazer acontecer um dos eventos mais bacanas do Cariri. Porque nós nascemos para ser superbacanas. Venha com a sua alegria, o seu amor, a sua paz e sigamos juntos, afinal, eu vou, por que não?

TEATRO DE BONECOS EM CRATO-CE

A COMPANHIA DE TEATRO DE BONECOS
O CLUBE DE SISIFO 

Apresenta


 “O ESPANTALHO”
Uma estória para crianças que acontece no milharal
Manipulação: Juan Carlos Guzmán Vélez (Colômbia)


Auditório do Centro Cultural do Araripe (RFFSA), Crato-CE, 17h30min
02 (quinta) e 03 (sexta) de maio de 2013, 17h30min

ENTRADA FRANCA



Sinopse:
“O espantalhinho faz muito bem seu trabalho, mas fica sozinho no momento de ter que enfrentar o seu terrível inimigo. Então, descobre que precisa dos outros pra salvar sua vida e com ajuda da plateia e algum bichinho da roça tenta afastar o fogo. Nesta procura eles vivem interessantes aventuras.”

Informações:
(88) 8801.0897
(88) 9960.4466

Apoio:
Prefeitura Municipal do Crato
Secretaria Municipal da Cultura
Sociedade Cariri das Artes 
Cia. Brasileira de Teatro Brincante
Ponto de Cultura Cena Brincante
Guerrilha do Ato Dramático Caririense