Arquivos mensais: janeiro 2013

De quem são os louros ?


Os Cangatis dominaram a política em Matozinho por mais de quarenta anos. Ligados diretamente à UDN ,  fizeram , por muitos anos, da cidade um feudo. Aos amigos as brechas da lei, aos inimigos sobravam os rigores. Existia, inclusive , um slogan na região :
                        —“Em Matozinho ou é  Cangati ou coitado”!
                         Naquele ano, no entanto, a coisa estava pegando fogo. Sinderval Bandeira envergara a bandeira do PSDB local, com amplo apoio do  governador, seu correligionário e entraram dispostos a dizimar a dinastia dos Cangatis. Tantos anos de poder haviam viciado a poderosa família que carregava consigo a certeza da invencibilidade. Nem percebiam que o poder desgasta, que se vão criando mais desafetos que amigos e que insidiosamente sempre se vai firmando, na população,  um desejo de se respirar novos ares. Que mudem ao menos os bolsos ! — bradava Jojó Fubuia , na praça, resumindo as aspirações de mudança dos matozenses. A campanha eleitoral foi tensa e violenta: tripas gaiteiras vazadas, tapa em terreiro dos olhos, cachaços lascados. Abertas as urnas, para total surpresa do candidato Pedro Cangati, Sinderval foi leito com mais de sessenta por cento dos votos.
                        Em cidade pequena, esse filme sempre tem final previsível. Nos  últimos meses do mandato , Pedro  procedeu a um verdadeiro desmonte da prefeitura. Parecia vingar-se daqueles que , no seu entender, o haviam traído. Atrasou salários dos funcionários, cancelou pagamento de contas , suspendeu coleta do lixo, suspendeu distribuição de medicamentos, demitiu sumariamente uma chusma de funcionários. Jojó me dizia que isso é um absurdo, coisa de vila de muros baixos  e acrescentava: em cidade grande, amigos, não é assim , não ! É muito pior !
                        Não bastasse esse desmazelo, na última semana, o prefeito resolveu fazer o rapa no que restava na prefeitura. Encostou um caminhão e providenciou a mudança: móveis, máquinas de escrever, documentos, tudo. Deixou apenas o cofre velho, no meio da sala, mesmo assim sem um centavo furado dentro dele. Fechou o prédio praticamente vazio e ainda jogou as chaves dentro do Rio Paranaporã.  
                        Uns quinze dias antes da posse de Sinderval, Marinaldo Pé de Zamba, um bodegueiro da Serra da Jurumenha, entrou de prefeitura adentro, com um pacote mal enjembrado na mão. Era uma gaiola coberta com papel de embrulho , cheia de furos esparsos, feitos de maneira irregular. Procurou Mundico Bizerra o Secretário de Finanças. Deu entrada na sala do barnabé e explicou o motivo da viagem. Sabia que o mandato atual estava terminando e como estava devendo a Mundico uma dívida refém à dispensa de alguns impostos do seu pequeno comércio, vinha cumprir o prometido . Esticou a embalagem  e colocou em cima do Bureau da autoridade:
                        — Mundico, tá aqui! Tô pagando o combinado! Sei que agora você , com essa mudança de política, vai ficar mais por baixo de que diferencial de cururu. Pois to pagando homem de Deus, taqui seu papagaio ! O bicho é falador que é danado !
                        Mundico agradeceu pela lembrança, tranqüilo por não ter ninguém na sala para testemunhar o escambo. Resolveu colocar a caqueira com o papagaio no seu gabinete, até levá-lo para casa, nas proximidades da posse do opositor. Pois bem, o danado do louro presenciou todo o combinemos do saque, justamente nos dias que antecederam ao butim. Eram reuniões e mais reuniões. Vamos carregar isso, vamos roubar aquilo, não vamos deixar pedra sobre pedra, vamos  limpar o cofre… No dia do arrastão, a sanha foi tanta que até o papagaio de Mundico foi afanado e levado à casa do prefeito, junto com todo o resto dos pertences públicos.
                        Os pessedistas, no poder, não perderam tempo. Espalharam em todas as bocas difusoras da cidade, o verdadeiro saque cometido pelos Cangatis. E fofoca em cidade pequena é como coceira em macaco: não tem que dê fim.  Substitui com larga vantagem as outras mídias. Pedro Cangati estava sobre acirrado ataque da população por conta da roubalheira explícita. No entanto, o que mais lhe enchia o saco era o velho papagaio que , não parava de repetir, as tramóias que aprendera na Secretaria de Finanças .
                        — Currupaco… Vou pegar todo o dinheiro do cofre…Currupaco… vou carregar os móveis lá pra casa…Currupaco vou roubar os documentos e queimar…
                        Cangati começou a se invocar com o louro. Não queria aquele testemunha ocular ( ou auditivo) ali, enchendo o saco o tempo todo, como um verdadeiro dedo-duro. Fulo da vida, meteu a mão na gaiola, amarrou o papagaio com um barbante e ameaçou:
                        — Vai ficar assim uma semana, seu filho da puta, para nunca mais roubar!
                        O louro, todo ingriziado, ficou ali em cima da máquina de costura, sem poder se mover.  Estava ali já há uns dois dias, quando observou, na parede, uma imagem de São Sebastião, naquela pose clássica. Amarrado numa árvore e todo flechado, com o pezinho levantado à Ana Botafogo e um olhar enviesado suspeitíssimo de soldada romana. O papagaio resolveu , então, entabular conversa:
                        — Ei, mulher ! Tu tá escândalo ! Me diz , há quanto tempo tu tá amarrada aí nessa árvore ?
                        São Sebastião, meio a contragosto, responde:
                        — Há uns mil e oitocentos anos, pelo menos…
                        O papagaio saltou, quase quebrando os barbantes , e surpreso, quis saber:
                        — Mil e Oitocentos Anos ? O que diabo foi  que tu roubou ? Tu é deputado ? Senador ? Governador ? Participou do Assalto do Banco Central ? Vôte !
J. Flávio Vieira