Arquivos mensais: janeiro 2013

Papagaios & Araras


Acredito que terá sido Pero de Magalhães Gândavo , na sua “História da Província Santa Cruz  a que vulgarmente chamamos de Brasil”,publicado em 1576, que já alertava : os indígenas costumam pintar papagaios para vender como araras aos viajantes menos atilados. E assim tem sido historicamente, amigos , desde nossas mais remotas origens : nossas leis mais rigorosas simplesmente não pegam; as normas mais pétreas sempre têm uma escapadinha possível;  os ritos mais sagrados banham-se rapidamente em águas profanas; nossas guerras e revoluções mais sangrentas não pingam uma gotinha de sangue sequer. Culturalmente sempre há um  “jeitinho” para se resolver tudo. Indignamo-nos, facilmente, com as tragédias que nós mesmos produzimos, seja na vida pública, na esfera privada, na política, na economia. Entupimos a cidade de lixo e nos queixamos da sujeira; desmatamos nossas encostas e reclamamos das enchentes; elegemos políticos corruptos e, depois,  nos revoltamos com os desmandos e os desvios de verbas.
                        Dias desses, um amigo tomou uma Topic para Nova Olinda. Ao passar no Colégio Agrícola, o motorista alertou os passageiros : “Pessoal, coloque o cinto de segurança que vamos passar no Posto da Polícia Rodoviária!”. Ultrapassada a vigilância, na altura das Guaribas, ele voltou a informar : “Pessoal, já passamos do Posto, podem desafivelar os cintos !”. Existe uma conduta mais brasileira que esta ? Na Expô/Crato e na Festa do Pau de Santo Antonio os políticos locais providenciam para que se evitem blitz, para que se afastem os bafômetros: fiscalização demais, eles alegam, pode prejudicar a festa. Dane-se o Código Nacional de Trânsito! Seque a Lei Seca !
                        Esta semana convivemos com a tragédia indizível da Buate de Santa Maria, onde mais de duzentos jovens perderam a vida. Impossível imaginar tantos ninhos desfeitos, tantos sonhos prematuramente esmagados, tantas mães e pais à deriva, sem um profundo sentimento de comoção nacional. E esta, também, é uma característica bem brasileira: somos solidários e emotivos. Gostamos de nos ajudar mutuamente. Claro que carregamos conosco preconceitos atávicos. A dor e o sofrimento no Sul e Sudeste têm um peso bem maior que nos grotões do Norte e Nordeste. A Seca no Piauí não tem a mesma importância da enchente em Teresópolis. Constatada a tragédia como em Santa Maria, estabelece-se a corrida desenfreada em busca dos culpados. “Queremos Justiça!” “Essa calamidade não pode se repetir !” Rapidamente, posto o excremento no ventilador, muitos sairão pouco perfumados. De quem é a culpa afinal? Do dono do ventilador? De quem colocou o excremento nas suas aspas? De quem ligou o eletrodoméstico? De quem não verificou a funcionalidade do bicho ? Possivelmente, pelas proporções gigantescas do holocausto de Santa Maria, todos os atores  sairão mais ou menos calabreados.
                                   Mas , no fundo, a mesma história tende a se repetir. Brasileiro não trabalha com prevenção do fogo, só como bombeiro. No dias que se seguiram ao incêndio, o Brasil todo começou a fiscalizar as Casa Noturnas e encontraram inúmeras irregularidades. Todas estavam perfeitamente aptas a refazer a calamidade gaúcha: esperavam apenas um estopim. Por que não vinham sendo vistas com a regularidade necessária ? Por que o problema não tinha sido detectado antes e sanado antes do sacrifício de incontáveis vidas ?
                                   E pior, amigos, escrevam aí : passados os primeiros momentos da tragédia, sepultada a notícia por outra mais cabeluda, tudo volta a ser “Como Dantes no Quartel de Abrantes”.  Depois do grande incêndio no Grand Circo Norte-Americano em Niterói , em 1961, o que melhorou na segurança destes espetáculos ? Quem fiscaliza os Circos, quando chegam nas cidades e quem verifica a segurança a fim de liberar  o alvará de funcionamento?  Após as enchentes de Teresópolis e Nova Friburgo em 2011, que se fez para que novas catástrofes não venham a acontecer ? Você se sente seguro em mandar seu filho a um parque de diversões após as medidas tomadas depois do Acidente no Parque Hopi Hari em São Paulo , no ano passado ?
                                   Culpados serão apontados em Santa Maria, processos se arrastarão na justiça, mas a centenária instituição do “jeitinho” providenciará  para que  os responsáveis saiam sapecados, mas ilesos. Só não há “jeitinho” para a imponderável dor das famílias diante da perda incalculável dos seus filhos queridos; nem para que essa tragédia anunciada não  se repita. Enquanto isso , vamos dando nosso jeitinho para que os papagaios continuem sendo negociados a preço de araras, exatamente como há cinco séculos atrás.

A Pureza do Corpo na Policlínica de Sobral-CE

A Pureza do Corpo – Wescley Braga
Fachada da Policlínica de Sobral-CE

       Com o objetivo de humanizar o espaço institucional da Policlínica de Sobral-CE, o artista plástico Wescley Braga criou uma pintura que possui mais de 18 metros de comprimento. Intitulada “A Pureza do Corpo”, a obra mostra a visão do artista de como o homem busca a saúde do próprio corpo. A pintura começou a ser feita no dia 12 de janeiro e só foi finalizada quatro dias depois.

       Tratando a parede como se fosse uma tela gigante, Wescley poeticamente deu vida à obra com suas cores expressivas. Saindo da realidade, a pintura emerge para o campo sensível do surrealismo, deixando os expectadores inundados de sensações que vão para além deles mesmos. “É preciso lembra que as pessoas são possuidoras de sentimentos e que não basta apenas remédios para curar. Um sorriso e um olhar cuidadoso é mais necessário para cuidar da alma”, expressa Wescley.

      Conheça mais em: www.wescleyb.blogspot.com.br

Missão Velha: Foi dada a largada para o IV Cariri Cangaço 2013




Dr. P. Luiz, B. André, M.Severo, C.Cagece(pres. da Câmara), Ver.Rodrigo Roberto, JC e S. Neto  
 
Dr. Niltino(Sec. de Saúde), B.André, Dr. tardyne(prefeito), S. Neto e J.Cícero
Sousa Neto, Bosco André, Manoel Severo, Cláudia Maria e Dr. Pedro Luiz
No casarão centenário no sítio Cafundó a caminho da Gameleira
No sítio Arraial de Missão Velha anfitrião Bosco André
Na secretaria de Cultura de Missão Velha
reunião na secretaria da Câmara de Vereadores de M. Velha
Com o vigário de Jamacaru ao lado da igreja do distrito
No distrito de Gameleira do Pau sob a sombra da árvore centenária do lugar
Visão panorâmica da mata na Gameleira do pau
Velho casarão dos italianos no distrito de Jamacaru(azuleijos portugueses)
Na casa paroquial: Manoel Severo, Cláudia e Dr. Pedro Luiz
Neste final de semana foi dada a largada oficial para mais um Cariri Cangaço dição 2013. Com este objetivo o curador do evento Manoel Severo Barbosa acompanhado do Dr. Pedro Luiz(Crato) paricipou neste último sábado(26) de reunião na câmara de vereadores de Missão Velha  onde estiveram presentes alguns dos representantes  dos municípios que mais uma vez este ano,   deverão sediar   os seminários temáticos municipais. 
Comparceram ao encontro o memórialista Bosco André anfitrião do acontecimento; o secretário de cultura  de Missão Velha George Camelo; o secretário de cultura de Aurora professor José Cícero e sua espora Cláudia Maria, bem como o secretário de cultura do Barro Sousa Neto. Cumpre destcacar que durante o encontro Manoel Severo recebeu das mãos de Bosco André – secretário da casa, o certificado oficial dando conta do título de cidadão missãovelhense concedido ano passado ao curador do CC. Na mesma ocasião os representantes do CC também mantiveram contato com o prefeito Tardyne Pinheiro e o presidente do legislativo local Cícero Cagece(fotos).
Logo após a reunião  no anexo do legislativo a equipe  se dirigiu até a sede da secretaria de Cultura localizada no centro da cidade, onde os conselheiro do CC foram recebidos pelo chefe da pasta George Camelo. Lá foram discutidas as principais propostas com vistas a mais uma participação daquele município. Ficando acordado, por exemplo, a pedido do próprio prefeito, que o seminário de Misão Velha fosse realizado no distrito de Jamacaru – histórico habitat do não menos famoso coronel Santana da serra do mato – onde Lampião com todo o seu bando por muitas vezes esteve acoitado qundo da sua passagem para o Cariri.
Saindo da secretaria, todos participaram de um saboroso almoço a la culinária sertaneja  oferecido pelo entusiasta do cangaço Bosco André no sítio Arraial.  Em seguida,  a equipe se dirigiu até o aprazível distrito de Jamacaru para checar in loco a estrutura do ambiente que deverá receber o histórico evento. 

Em Jamacaru ciceroneados pelo secretário George e Bosco André, todos visitaram o centenário sobrado dos pioneiros italianos, assim com a casa paroquial onde  foram recebidos pelo padre Idemar, vigário local.
Do Jamacaru os pesquisadores do cangaço ainda foram até o distrito de Gameleira do Pau, metade do caminho para a Serra do mato; ocasião em que puderam conteplar de perto a grande beleza da vista do Araripe, assim como toda a abundância  da flora e da fauna  da região e, em particular, a bela árvore centenária de trezentos anos – Uma famosa Gameleira, espécie edêmica  daqueles rincões, e que nçao por acaso deu nome ao lugar.
O Cariri Cangaço:
Previsto para acontecer em meados do mês de setembro/2013 o Cariri Cangaço, é atualmente um dos mais importantes e renomados eventos culturais(senão o maior) já realizado nesta parte do Nordeste e, seguramente, o mais respeitado e conceituado do Cariri. Em parte, pelo alto nível de sua organização, depois pela magnitude dos temas que são abordados e debatidos em todas as suas edições já realizadas, num total de três. Além da sua imensa capacidade de mobilização sociocultural, bem como da grande gama de estudiosos, pesquisadores, escritores e intelectuais dos mais diversos matizes que todos os anos acorrem ao evento. O que segundo o seu próprio curador, a previsão para este ano é de que próximo de 180 pesquisadores tomem parte diretamente das discussões e dos  debates oferecidos pelo evento se espalhando desde o eixo Crajubar para os demais municípios da região.  
O mesmo está previsto, até agora,  para contemplar mais de oito municípios caririrenses, além das sessões de pré-lançamentos a ser realizadas em cidades da PB, RN, SE, PE e, inclusive na capital cearense.. 
“O Cariri Cangaço é um verdadeiro fomentador da cultura de raiz nordestina, assim como uma provocação necessária para que possamos resgatar, difundir e conhecer um pouco mais da nossa própria história, de modo que não há como não abraçarmos esta causa. Razão pela qual é fundamental que outras instituições, notadamente de ensino, quer sejam públicas ou privadas adiram a este acontecimento”, disse o secretário de cultura de Aurora.
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Da Readção do Blog de Aurora e do site  Cariri de fato
Foros JC/Cláudia Maria

Pterossauro


                            “Todas as coisas têm o seu mistério,
e a poesia é o mistério de todas as coisas.”
  Lorca
                                   Os Anos 70-80 , no Cariri, se caracterizaram principalmente, na área cultural, por um intenso movimento de  Contracultura, estudado, meticulosa e cientificamente, muitos anos depois, pelos olhos atilados do professor  Roberto Marques. Jovens estudantes, bafejados pelas ondas liberalizantes de Maio de 68; de Woodstock; dos Hippies;  da pílula e da disseminação das drogas; oprimidos, por outro lado, pela Ditadura Militar; sentiram-se tocados na sua criatividade, investindo contra a institucionalizada e centenária Cultura caririense. O Teatro investiu-se de novas linguagens, através dos movimentos estudantis, despertando nomes como Ronaldo Correia Lima, Francisco de Assis Souza Lima, Luiz Carlos Salatiel, José do Vale Filho,  Renato Dantas , Gil Grangeiro, encenando Brecht, Ariano Suassuna e peças de cunho mais autoral. O Cinema trouxe nomes , alguns ainda hoje fortíssimos no cenário nacional, como Rosemberg Cariri, Jéfferson Albuquerque, Hermano Penna, José Hélder Martins, Jackson Bantim. Nas Artes Plásticas brotaram :  Stênio Diniz, Luiz karimai, Normando, Edélson Diniz, Janjão e muitos outros. Na Música : Abidoral e Pachelly Jamacaru, Luiz Carlos Salatiel, Thiago Araripe, João do Crato, Luiz Fidelis, Zé Nilton Figueiredo, Heládio Figueiredo, Cleivan Paiva. A Literatura nos  brindou com : Ronaldo Brito, Francisco de Assis Souza Lima, Emérson Monteiro, J. Flávio Vieira, Roberto Jamacaru e Geraldo Urano. Todos estes artistas e tantos outros se conglomeraram em jornais como “Vanguarda” e “Flor de Pequi”; em publicações como “Cariri Jovem 68 e 69”; nas dez edições dos  “Festivais da Canção do Cariri”; nos “Salões de Outubro”, no “Grupo de Artes Por Exemplo” e no   “Xá de Flor”.  Todo este período áureo da Cultura Caririense, já estudado tecnicamente  e com tanto rigor pelo professor Roberto Marques, está a merecer um trabalho de cunho mais jornalístico , uma biografia lúdica destes lúdicos-loucos tempos.
                                   Este pequeno relato pode parecer irrelevante e enfadonho para quem não viveu esta época. Tende a parecer coisa de velho curuca contando para os seus netos : “Meninos, eu vi!”. Mas, paciência ! Ele surgiu, por conta de uma das mais sensacionais notícias dos últimos tempos. O “Instituto Caravelas” acaba de montar uma Exposição junto ao Centro Cultural Banco do Nordeste em homenagem a um poeta icônico da nossa região : Geraldo Urano. Durante toda uma semana convivemos com shows, performances poéticas, mesas redondas e uma Exposição cuidadosa, expondo a obra do nosso grande bardo. E o mais interessante de tudo : a iniciativa partiu do Instituto Caravelas  que tem no seu corpo amantes da arte da novíssima geração.
                                   A homenagem é mais que merecida. Geraldo Batista, Urano, Mérkur, Efe, multiplanetário,  foi o mais importante poeta caririense dos últimos quarenta anos. Mais que ninguém, Geraldo captou este multifacetado período histórico, pleno de enormes incongruências , de contrastes incontáveis, onde todas as chagas da civilização ficaram imediatamente expostas e era preciso mudar tudo e mudar rápido. Sua poética é única : sem data, sem fronteiras geográficas ou políticas, perpassada por uma fina e doce ironia. Os primeiros rudimentos do Tropicalismo em terras cearenses saíram de suas performances nos nossos primeiros Festivais.  Pronto a adentrar os sessenta anos, recluso, nosso bardo, mais que nunca prova que a Arte é capaz de quebrar os cadeados de qualquer cativeiro.  Suas letras foram musicadas por incontáveis parceiros : Abidoral, Pachelly, Luiz Carlos Salatiel, Cleivan Paiva, Calazans Callou. É dele a letra do principal hino deste período : “Lua de Oslo”.
                                   Em Arte, como nos fenômenos geológicos, os movimentos culturais vão se sobrepondo, como placas sedimentares. O novo nem percebe que está necessariamente montado no velho, no arcaico. O presente é, necessariamente, o passado remasterizado. Algumas vezes, o moderno faz prospecções e se encanta ao descobrir preciosas peças soterradas na história, mas sempre as vê com a curiosidade do arqueólogo, como fósseis. A descoberta de Geraldo Urano pelas novas gerações compara-se à descoberta, pela ciência, de um pterossauro vivo. Foi assim que o nosso poeta surgiu para os olhos brilhantes de inúmeros adolescentes nas performances poéticas. Levantou vôo , trazendo no bico o mistério de todas as coisas, vinha novamente de Urano, de Mercúrio, de Vênus , de Marte, do infinito :   lá onde os poetas tecem seus ninhos.
J. Flávio Vieira

De ladeira abaixo


Rezam os anais da nossa cidade que o primeiro automóvel chegou em Crato, em 1919, por iniciativa do comerciante Manuel Siqueira Campos que terminou imortalizado,  nomeando uma das mais importantes praças de Crato. Nas décadas que se seguiram , com a pujança do nosso setor mercantil, o carro foi se tornando uma presença cada vez mais constante nas nossas ruas. Os antigos Fords Bigodes foram sendo substituídos , pouco a pouco, por modelos mais modernos : Buicks, Cadillacs, Mercedes, Mercurys, Simcas.  Após a II Grande Guerra,  começaram a chegar os caminhões que transportavam cargas , mas, também, travestiam-se de transporte coletivo interurbano. Vezes feitos pau-de-araras , tantas outras transformados em Mistos, levavam passageiros ,mundo a fora, por estradas terríveis e quase intransitáveis, num incômodo inimaginável nos dias de hoje.  Comparadas, no entanto, com as viagens longas, em lombo de animais, os caminhões traziam consigo o cheiro inevitável do novo :  maiores velocidade e conforto.
                        A tecnologia ainda primária dos primeiros veículos pesados, somada à tortuosidade natural de algumas estradas , como as que beiram a nossa Chapada do Araripe, elevavam, consideravelmente, o risco de acidentes. Ficaram famosas, na nossa região , a Ladeira das Guaribas aqui em Crato e a do Quincuncá em Farias Brito. Rodagens íngremes e extensas se associavam a fitas de freios aquecidas e terminavam desembestando caminhões, ladeira abaixo, com incontáveis vítimas. Até uns poucos anos atrás, a nossa Batateira via-se , diariamente, aterrorizada, temendo a chegada descontrolada de caminhões sem freio invadindo suas ruas e casas.
                        Pois o que vou contar vem desta época de heróicos desbravadores. Contava-se por aqui, com o exagero natural dos descendentes da Vila de Frei Carlos, esta historinha que buscava exemplificar o risco que era descer de caminhão a Ladeira das Guaribas.
                        Chagas vinha ,do Pernambuco, com um caminhão carregado de romeiros . Iam tomar a bênção ao  padrinho, pagar promessas e alimentar a indústria azeitada dos santeiros e fabricantes de rosários. Na famosa descida da serra, na altura da Barraca Verifique, o freio quebrou. O veículo começou a embalar, ladeira abaixo ,e o destino era mais que previsível: ou caía no abismo à direita ou, na melhor da hipóteses, desceria todo o percurso, equilibrado na munheca atilada do chofer e , ganhando velocidade e mais velocidade , terminaria por esborrachar-se nas casas da Batateira.  Os passageiros perceberam rápido o perigo e sojigados  entre ficar o serem comidos pelo bicho ou correr e ser pego por ele, arriscaram na segunda possibilidade. Começaram a saltar do caminhão em disparada: o desmantelo estava feito. Pernas quebradas, pescoços torcidos, pé-de-ouvidos ralados. Em pouco, tinham já pulado todos os romeiros da carroceria e da boléia. Chagas, por incrível que possa parecer, manteve-se firme na direção, aprumando ladeira abaixo. Para sua felicidade, já na proximidade das Guaribas, as rodas caíram na valeta à esquerda junto às  escarpas do Araripe. Adiante , perdendo carreira, as rodas travaram num grotão e o carro, por incrível que pareça, parou, ao arrastar o diferencial  pelo chão.
                                   Atrás , tinha restado um rastro de destruição. Romeiros feridos, ex-votos espalhados, alguns corpos sem vida. Aos poucos, os acidentados foram levados ao hospital, por carros que iam passando. Chagas permaneceu, ainda, por muito tempo, na boléia, sem entender o que tinha acontecido e deixado de acontecer. Uma viagem tão tranqüila! Como, de repente, se estabelece tamanho caos ?
                                   Uma hora depois chegou ao local um radialista. Resolvera entrevistar o  chofer, quando soube  da tragédia, através das vítimas que atulhavam a emergência do hospital. Aproximou-se o repórter do motorista e interrogou-o sobre o inusitado da cena:
                                   — Amigo ! Parabéns, quanta perícia ! Você é um herói, meu chapa !Mas me diga uma coisa, por que você não fez como os passageiros e pulou do carro ?
                                   Chagas, ainda capiongo e confuso, explicou:
                                   — É que eu carrego pregada aqui no tabeliê do carro, próximo ao volante, uma imagem do meu santo de devoção : São Cristovão ! Com ele, meu amigo, pra mim não tem tempo ruim !
                                   O radialista subiu na boléia , curioso em conhecer o santo milagreiro:
                                   — Cadê o santo ? Me mostre !
                                   Chagas  escascaviou todo o quadro do caminhão e não encontrou o santo. Procurou embaixo — poderia ter caído nos solavancos— e nada ! Olhou, então, convicto  para o repórter e concluiu:
                                   — O negócio foi mais feio que briga de foice no escuro. Pois na hora do pega-pra-capar, meu senhor, não é que até São Cristovão pinotou fora também,  pra num ver o destroço !
 
J. Flávio Vieira

Arisco


As cidades que se espreguiçam nas bordas da Chapada do Araripe vivem, literalmente, de sombra e água fresca. Os cratenses carregam consigo aquela fatia de preguiça e  de irreverência:  agimos  ainda  como caçadores-coletores,  igualzinho aos nossos avós cariris.  Somos mais afeitos à rede e à preguiçosa do que à enxada e ao moinho. É que trabalhar às vezes é até bom, mas dá uma canseira danada. E, ademais, para que essa  correria toda, se os frutos já pendem das árvores; os passarinhos ligam suas radiolas nos galhos; as fontes nos convidam para seus sonhos molhados e o verde da serra nos ensina, a todo momento, suas lições  de esperança ? Pernas para o ar que ninguém é de ferro !  Terminamos por ser, inexoravelmente,  um pouco a extensão da natureza que nos rodeia. Carregamos um sorriso mais úmido, uma postura mais refrescante, uma leveza de brisa, um líquido fluxo de levadas e cascatas. A placidez do mundo à nossa volta reflete-se no nosso espírito. A vida que palpita à nossa frente nos basta e marca, de alguma maneira, o ritmo das nossas sístoles e diástoles.
                                   A serra nos dá lições de perigo com seus penhascos e suas escarpas. A paisagem, vista da montanha, professa-nos aulas de pequenez. Somos um mero ponto diante da imensidão que se estende desafiadora no horizonte sem fim. Do alto, os homens são pequenos e as coisas minúsculas e salta-nos aos olhos a perfeita escala da nossa perturbadora  insignificância . O ciclo incessante das estações brota no nosso quintal e imanta-nos com sua magia: dias somos outono, noutros veraneamos, e , quase que continuamente , primaveramos , no aguardo dos rigores não tão rigorosos  dos nossos invernos exteriores e interiores.
                                   A vida , do outro lado da montanha, substituiu o concreto pelo verde; o sonho pela gula; as espigas pelos espigões; as flores pelo E.V.A; os frutos pelo isopor. Dizem-se todos fartos e felizes , protegidos pelos  seus muros de T.N.T. . Fartem-se ! A luz incandescente do lago artificial lhes ofusca. A nós , basta-nos o milagre nosso de cada dia : a cascata já empina as turvas águas do Batateiras e os pequis estão florando ali no Arisco e,  logo mais , nas encostas da Chapada. Vejam !
J. Flávio Vieira

MERCEDES SOSA – Al jardín de la república — Com cifras para violão


  .......C  G  C  G  C  E7  Am 



C G C
Desde el norte traigo en el alma
G C G C
La alegre zamba que canto aquí
E7 Am
Y que bailen los tucumanos
E7 Am
Con entusiasmo propio de allí
E7 Am
Cada cual junto a su pareja
E7 Am
Joven o viejo de todo vi.


C G C
Media vuelta y la compañera
G C G C
Forma una rueda para seguir
E7 Am
Viene el guacho le hace un floreo
E7 Am
Y un zapateo comienza allí
E7 Am
Sigue el gaucho con su floreo
E7 Am
Y el zapateo comienza allí.


A7 Dm
Para las otras no
G7 C
Pa? las del norte sí
E7 Am
Para las tucumanas
E7 Am
Mujer galana naranjo en flor
E7 Am
Todo lo que ellas quieran
E7 Am
Que la primera ya termino.


C G C
No me olvido, viera compadre
G C G C
De aquellos bailes que hacen allí
E7 Am
Tucumanos y tucumanas
E7 Am
Todos se afanan por divertir
E7 Am
Y se hace linda esta mala vida
E7 Am
Así se olvida que hay que morir


C G C
Empanadas y vino en jarra
G C G C
Una guitarra bombo y violín
E7 Am
Y unas cuantas mozas bizarras
E7 Am
Pa` que la farra pueda seguir
E7 Am
Sin que falten esos coleros
E7 Am
Viejos cuenteros que hagan reír?


A7 Dm
Para las otras no
G7 C
Pa? las del norte sí
E7 Am
Para las de simoca
E7 Am
Mis ansias locas de estar allí
E7 Am
Para brindarles mi alma
E7 Am
En esta zamba que canto aquí.


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