Arquivos mensais: dezembro 2012

Data Vênia


Jesualdo entrou no escritório com aquele  ímpeto de  furacão Katrina. Esperara por mais de uma hora na sala de espera do advogado, ansioso, aguardando a saída de um senhor careca  que cuidava  de uma das coisas mais enroladas desse mundo : Inventário de gente rica.  Ficou ali, tentando ler revistas antigas, sem se concentrar nas notícias, como se estivesse sentado em folha de cansanção.  Os minutos se arrastavam tartarugadamente. Quando a atendente, por fim , liberou sua entrada, foi como se lhe tivessem arrombado as tariscas de uma  gaiola. O causídico ali estava à sua frente, calmo, impassível, sem maiores motivos para desespero, afinal casos eram apenas casos e se sucediam monotonamente, todo santo dia, diante do seu bureau. Não contendo a ansiedade represada por muitos minutos na saleta de espera, Jesualdo disparou :
                                   — Doutor,  quero entrar com um processo de danos morais!
                                   Afeito ao desespero comum de seus clientes, Dr. Cacionildo aprendera que se fazia mister atendê-los como se estivesse degustando um prato de papa quente: era preciso começar pelas beiradas até chegar ao fundo do pirex.  Com olho clínico percebera alguns hematomas, em fase de regressão no rosto do cliente.  Levantou-se, pois, da cadeira e cumprimentou-o formalmente. Quis saber-lhe do nome .  Pediu para ficar tranqüilo que aquela era sua especialidade. Inquiriu-o se estava tudo bem com ele e com a família, falou sobre a estiagem no Nordeste que estava uma verdadeira calamidade, dissertou brevemente sobre as dificuldades que vinha passando com as criações na sua fazenda e interessou-se saber se ele também era pecuarista e como estava se virando para alimentar o bando. Quebrado o gelo,  no tangenciamento do problema central, Cacionildo , finalmente meteu a colher no fundo do prato:
                                   — Pois, não, seu Jesualdo ! Em que posso  servi-lo ?  Quem feriu de morte seus princípios morais, homem de Deus ?
                                   Jesualdo, já abancado devidamente num cadeirão em frente ao bureau do adovogado, um pouco mais restabelecido, foi direto aos finalmentes:
                                   — Quero entrar com um processo contra a Coca-cola, por danos incalculáveis à minha moralidade e , inclusive, à minha integridade física.
                                   O doutor, mesmo sem ciência do objeto causador do dano e suas possibilidades jurídicas, viu-se diante de sentimentos díspares. De um lado a alegria de poder estar processando uma grande empresa, multinacional, de patrimônio incalculável e, pois, com amplas condições de pagar gordas indenizações. Do outro a percepção de que traria , na defesa, grandes escritórios nacionais, com pesada influência política e econômica nas decisões do judiciário, máxime em instâncias superiores. Pediu, então, a Cacionildo que detalhasse, data vênia,  toda a questão com fins de se ter um melhor diagnóstico e prognóstico  da causa a ser encetada. Pela história comprida e cheia de reentrâncias que Jesualdo começou a narrar, o advogado rápido percebeu que seria muito mais enrolada a consulta que a do careca do inventário.
                                   Jesualdo informou que estava casado há mais de vinte anos  não com uma mulher mas com uma mistura de jararaca com lacraia. Ele sempre fora um ferrolho, mais por temor e menos por virtude. Há uns dois anos, sabe-se lá como, começara  um rolo com uma colega de trabalho. Coisa debaixo de sete chaves, mais escondida do que  quenga  de cardeal. Sabia do perigo que corria, mas o temor estranhamente lhe instigava de forma quase que suicida. Gabriella  , a namorada, não era uma beleza clássica. Divorciada, era fraca de feição, mas tinha lindos e acolhedores air-bags e, da cintura para baixo, tanajurava-se maliciosamente. O romance, discreto, ia de vento em popa, até que  a CNN da vizinhança desconfiou e terminou divulgando-o  em várias edições especiais. Quando a manchete bateu nas orelhas afiadas da esposa, esta não perdeu tempo recolhendo provas. Quebrou o pau no pobre do Jesualdo, fez o maior escândalo e o expulsou de casa. Ele , ao menos, teve a felicidade de sair levando a mala, ao invés de ir dentro dela, como vem acontecendo mais modernamente.  Os meses se passaram e a raiva não aplacava. Jesualdo começou um discreto cerca-lourenço, ajudado por amigos e familiares, mas a esposa não queria nem ouvir falar no seu nome. Dera entrada oficial no pedido de divórcio. O tempo, no entanto,  o solucionador mor dos problemas da humanidade, começou a surtir efeito e a dismilinguir o ódio incontido da esposa, até porque havia opiniões fidedignas ( embora não confiáveis de todo) de que Gabriella já navegava em outras naus. Conversa vai, conversa vem, finalmente, após mais de um ano ,Jesualdo conseguiu marcar um jantar com a esposa onde pretendia conversar amenidades, encetar uma nova aproximação, fugir do passado como o cão da bíblia e, quem sabe, na melhor das hipóteses , terminarem num motelzinho, reacendendo o fogo antigo arrefecido pelas curvas tanajúricas gabrielianas. Segundo Jesualdo, tudo corria conforme planejado. Escolheu um restaurante caro, uma mesa reservada,  à luz de velas , uma música de fundo adocicada, dessas contraindicadas a diabéticos. Entabulou assuntos amenos, pediram um prato de frutos do mar, um vinho branco de boa safra. Tudo corria bem, as mãos tinham se tocado algumas vezes e Jesualdo disse que tinha dado uma certa “formigagem” nos dois. Mas aí veio a tragédia! Num instante,  estabeleceu-se, novamente, uma praça de guerra. Esporros da esposa, garrafada de vinho na testa de Jesualdo, fuga , intriga redobrada, audiência de divórcio novamente desencadeada. E tudo por culpa da Coca-Cola !
                                   — Da Coca-Cola ? Mas como, seu Jesualdo?  Onde ela entra na história ? Não entendo ! — Saltou de lá o advogado.
                                   — Da Coca-Cola sim, doutor ! Quando chegou o prato principal , a Lagosta ao Thermidor, minha mulher resolveu pedir uma Coca-Cola !
                                   — Sim, Jesualdo, mas qual o problema ?
                                   — Ora Dr. Cacionildo, a Coca me lascou! Agora ela não tá com essa mania besta de botar os nomes das pessoas na latinha? Pois adivinhe o que estava escrito na coca que minha mulher pediu ?  “Quanto mais  GABI , Melhor !”  Fudeu ! Quero indenização !
J. Flávio Vieira

Fortaleza: Administração que não deixará saudades – Messias Pontes – Portal Vermelho

Administração que não deixará saudades – Portal Vermelho
Messias Pontes *

Ninguém é tão bom que não tenha um defeito e nem tão ruim que não tenha uma virtude. Assim como as pessoas, são as administrações. Por pior que seja, nenhuma administração é 100% mal; até no desgoverno do Coisa Ruim (FHC), se procurar sem preconceito, se encontra coisas positivas.
Na próxima segunda-feira 31 chega ao fim os oito anos de administração da prefeita Luizianne Lins (PT). Ela buscou priorizar o social como nenhum outro antecessor, acabou com as filas para matricula nas escolas da rede municipal de ensino, tornou gratuita a carteira de estudante para alunos da rede pública e forneceu gratuitamente farda, tênis, material escolar e mochila, e deu qualidade à merenda escolar evitando escândalo neste setor.

Luizianne proporcionou substancial avanço na área cultural com destaque para o Mercado dos Piões, o pré-carnaval e à festa de passagem de ano, tornando o Réveillon de Fortaleza o segundo maior e melhor do País – o do ano passado contou com 1,5 milhão de pessoas. Também merece destaque a Defesa Civil que hoje é referência, não se registrando nenhum óbito nas áreas de risco nos últimos oito anos.

Contudo todos esses avanços foram suplantados sobretudo pela falta de planejamento e principalmente pelas deletérias práticas de direita que nem no tempo dos Coronéis eram verificadas. Muito recurso federal foi devolvido por absoluta falta de projetos, com destaque para as 80 creches que o governo da presidenta Dilma Rousseff destinou a Fortaleza e ela devolveu alegando não ter terreno para a construção. Isto sem falar nas inúmeras obras inacabadas e muitas que foram prometidas e não foram sequer iniciadas.

Nenhuma administração municipal foi tão hermeticamente fachada quanto a atual, sendo que até mesmo vereadores e até secretários municipais tinham dificuldades de acesso ao gabinete da Prefeita. O propalado Conselho Político, formado por lideranças e dirigentes dos partidos da base aliada, nunca se reuniu. A reeleição em 2008 com uma diferença de 0,16% se deu por exclusiva falta de opção, já que Patrícia Saboya (PDT), embora fosse uma boa candidata, estava muito ligada ao ex-governador Tasso Jereissati que é muito estigmatizado em Fortaleza, e Moroni Torgan representava a direita mais conservadora.

A vergonhosa prática direitista de indicação política para a direção de postos de saúde, hospitais e escolas do Município, por si só já anula todo avanço conquistado. Como prática deletéria também merece destaque a troca de apoio na Câmara Municipal por centenas de terceirizados para cada vereador da base de apoio. Nos corredores da Câmara fala-se que tem vereador com até mil terceirizados. Isto sim é um verdadeiro mensalão já que a mesada era mensal. A estimativa é que o número de terceirizados ultrapasse os 30 mil, embora representantes governistas da Comissão de Transição falem em pouco mais de 12 mil.

A ausência da Prefeita nos mais importantes acontecimentos em nossa Capital foi uma marca da sua administração, chegando a Prefeita ser chamada de Lombardi, numa alusão a um personagem do programa televisivo Sílvio Santos que todos sabiam existir mas ninguém via. Durante esses oito anos foram realizados em Fortaleza dois congressos de jornalistas e dois encontros nacionais de blogueiros progressistas, mas ela não compareceu a nenhum, não mandou representante e sequer mandou uma mensagem aos congressistas seus colegas jornalistas.

Também enlameou a sua administração o retorno da censura a programa de rádio, uma nódoa que ela e seu coordenador de Comunicação, Demétrio Andrade, levarão consigo para o resto da vida e terão de explicar aos seus alunos – ambos são professores de jornalismo – o saudosismo da ditadura militar. A Constituição Cidadã de 1988 erradicou a censura, mas Luizianne e Demétrio não tomaram conhecimento.

Para coroar o fracasso da administração, a pequenez da não aceitação da derrota eleitoral do seu candidato Elmano de Freitas, se vingando do povo de Fortaleza e do candidato eleito Roberto Cláudio (PSB,) anunciando a menos de um mês do fim do ano a não realização do já tradicional Réveillon e tentar inviabilizar o pré-carnaval de 2013.

Porém a tentativa de desmonte administrativo foi o fato que mais chamou a atenção, tendo inclusive o Ministério Público agido de ofício para impedir mais de 60 licitações após as eleições de outubro, portanto a menos de dois meses para o fim da administração. Uma pergunta precisa ser respondida sem subterfúgio: quem está por trás das empresas que fornecem mão de obra terceirizada para a Prefeitura? Se o futuro prefeito Roberto Cláudio decidir abrir a caixa-preta, Luizianne Lins ficará em maus lençóis.

Esta administração não deixará saudades. No geral foi um desastre!

Renato Rabelo: em 2013 a luta continua e o PCdoB está preparado – Portal Vermelho

Renato Rabelo: em 2013 a luta continua e o PCdoB está preparado – Portal Vermelho

“Chegamos ao final de 2012 com um Partido ainda mais forte política, estrutural e ideologicamente. E neste último programa saúdo cada comunista que fez do PCdoB esse Partido de luta, de programa, que tem como ideal uma sociedade justa e soberana.” Essas foram algumas das palavras externadas por Renato Rabelo, presidente Nacional do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), durante gravação da última edição do “Palavra do Presidente”.

Joanne Mota, da Rádio Vermelho em São Paulo


Para Renato, “o ano de 2012 foi um ano de significativas celebrações, mas também de muitas lutas e de grandes vitórias. Neste ano, o nosso Partido se empenhou para atingir seus objetivos, para garantir que as nossas lutas atingissem o sucesso, lutas essas que nunca perderam de vista o programa do PCdoB”.

Ele frisa que foi um ano que começou já com as celebrações dos 90 anos, momento que mobilizou todo o país na reafirmação desta data. 

“Todos os estados da federação comemoraram esta data, o país inteiro sentiu a expressão desta festividade, não só porque o PCdoB é o Partido mais antigo, mas porque tem tradição e mostrou seu valor ao longo da história do país”, reafirmou o dirigente nacional.

Segundo Renato, mesmo o PCdoB sendo um Partido nonagenário, é um Partido jovem, pois se ampara em ideias de vanguarda, está amparado em ideais avançados que buscam a construção de uma sociedade moderna, sobretudo a construção de uma sociedade que supere o capitalismo.

Durante o programa Renato Rabelo voltou a falar do documento aprovado, neste ano, pelo Comitê Central do Partido. “Esse documento, que foi intitulado ‘90 anos em defesa do Brasil, da democracia e do socialismo’, visa contar a história política do PCdoB inserida na própria história do Brasil, destaca as gerações comunistas que fizeram do PCdoB o que ele é hoje, como também procura tirar lições desse extenso caminho percorrido pelo Partido.”

Eleições 2012

Para o dirigente o Partido vive neste momento um ciclo de crescimento gradativo, “sai destas eleições com uma posição mais afirmativa e com mais respeito na seara política. Isso ocorre por que para nós o que importa é o interesse do povo, dos trabalhadores que diariamente movem esse país”.

Renato explicou que além do avanço quantitativo do Partido, o PCdoB também avançou qualitativamente. “É importante destacar qual a qualidade destes números conquistados. E nesse caso, nestas eleições, o PCdoB é o 6° no grupo chamado G85. Ou seja, o nosso Partido é o sexto partido com mais conquistas em prefeituras de municípios com mais de 200 mil habitantes.”

Partido de programa e militância

O dirigente nacional lembrou que o PCdoB não é um Partido de carreirismo e que não vai para nenhuma campanha sem projeto. “É importante lembrar que essa foi a maior campanha do PCdoB, mas o Partido não entrou nesta corrida sem definição, cada militante que ocupou as ruas sabia dos nossos desafios e tinha como referencial um projeto definido claro e consentâneo com o nosso programa. Desse modo, nossa militância, que é aguerrida e sabe porque luta, fez uma grande diferença na hora da disputa.”

De acordo com Renato, nesta campanha o Partido lutou por cidades mais humanas, mais modernas, apresentou propostas que levam em conta a governança com o povo. “Nossa campanha foi feita a partir de um debate de ideias e programa, esse é a nossa postura e o nosso mote. Alcançamos êxito, mas isso só foi possível graças ao nosso exército, que com suas bandeiras empunhadas, fizeram do PCdoB um Partido ainda mais forte, tornaram o Brasil ainda mais Vermelho. E nosso olhos agora se voltam para 2014”, orientou o dirigente. 

A direita e a mídia golpista

Durante o programa, Rabelo reforçou o coro sobre a luta pela democratização da mídia. “Diante do que foi assistido ao longo de 2012, os ataques da mídia e sua luta para deslegitimar o que foi iniciado por Luiz Inácio Lula da Silva e é continuado pela presidenta Dilma, o PCdoB reforçará a luta pela democratização da mídia no Brasil. Porque a mídia, a chamada grande mídia no Brasil, é um monopólio comandado por algumas famílias e em função disso a notícia é homogênea e serve a um segmento da sociedade.”

Segundo ele, “o que se observa no Brasil hoje é uma excrecência, não é uma mídia democrática, mas sim uma mídia antidemocrática e não podemos mais admitir isso em nosso país. Democratizar a mídia é uma luta fundamental, e está entre as tarefas mais importantes na agenda do PCdoB. É preciso garantir o direito de voz a toda a sociedade. É chegada a hora de pôr fim a esse grupelho que domina os meios de comunicação no Brasil”, disparou o presidente do PCdoB.

Reformas estruturais

Para o presidente do PCdoB o resultado colhido em 2012 é amplamente favorável para os partidos que compõem a base da presidenta Dilma Rousseff. “Os partidos de oposição perderam 30 milhões de eleitores nestas eleições, e isso não e qualquer coisa”, pontua. 

Desse modo, Renato reforça: “Nosso projeto não pode parar, temos ainda problemas graves para resolver e é esta base, que é progressista e que inaugurou um novo ciclo no país, que pode contribuir para as soluções. Ainda precisamos realizar reformas estruturais importantes, que são os grandes desafios de nossa nação. E o PCdoB está pronto para começar essa jornada”.

Projeto de desenvolvimento
Ao longo do “Palavra do Presidente”, Renato frisou a postura guerreira adotada por Dilma e explicou como a estratégia traçada pela presidenta para lograr êxito para a nação pode transformar a vida dos brasileiros.



“A postura assumida por Dilma, especialmente sua estratégia para construir um projeto de desenvolvimento econômico. Desde o final de 2011, Dilma está se empenhando em realizar uma espécie de transição, que visa colocar o país em um novo patamar, que tem como foco o desenvolvimento com inclusão, especialmente com o migração dos que ainda se encontram na linha da pobreza”, explicou.

Segundo ele, essa transição visa também superar toda aquela política econômica que estava baseada nos princípios neoliberais. E ele lembra, “isso só será possível a partir da luta política, a partir da firmação de um novo pacto social no país, este que leve em grande conta as forças do trabalho e da produção e do desenvolvimento nacional. E para que isso ocorra é preciso fazer alguns enfrentamentos, e a presidenta Dilma comprou alguns, cito as lutas que o governo tem travado com o chamado capital rentista”. 



E acrescentou: “Sabendo que os trabalhadores compõem de uma maneira geral a maioria da população deste país, não dá para pensar em projetos de desenvolvimento sem levar em consideração as demandas dos trabalhadores. Desse modo, desenvolver com inclusão e distribuição de renda, significa não perder de vista o papel dos trabalhadores e o PCdoB estará preparado defender esta demanda em 2013”, sinalizou Renato.

Perspectivas para 2013


Para 2013, Renato Rabelo diz que o PCdoB travará sua luta em duas grandes frentes: a política e a econômica. “Após ampla discussão, nossa estratégia será travar a luta tanto no plano político, com vistas a fortalecer nossa democracia, para tanto endurecemos nossa luta pela reforma política, como no plano econômico, engrossando o coro para a construção de um projeto brasileiro de desenvolvimento, que enterre de uma vez os fantasmas desta grande crise que assola diversos países do globo.”

Além disso, Renato sinalizou uma nova frente de luta, a democratização do poder judiciário. “É uma nova trincheira de luta que surge a partir dos últimos acontecimentos e o PCdoB, pelo Partido que é, não pode se furtar de enfrentar. Pensamos que já é chegada a hora de acabar com esse sistema de indicações para o Judiciário, o povo deve participar desse processo. O PCdoB quer a exigência de mandatos eletivos para os ministros dos Tribunais Superiores, chega de indicações e cargos vitalícios.” 

Ouça a íntegra do “Palavra do Presidente”:


Programa Palavra do Presidente Retro 2012


Luiz Carlos Azenha: Amaury Júnior promete revelar complô para derrubar Lula e Dilma – Portal Vermelho

Azenha: Amaury promete revelar complô para derrubar Lula e Dilma – Portal Vermelho

Na semana seguinte às eleições municipais em que Fernando Haddad derrotou José Serra em São Paulo, episódios estranhos começaram a acontecer em torno do premiado repórter Amaury Ribeiro Jr., autor do livro A Privataria Tucana, o best-seller que vendeu 150 mil cópias.

Por Luiz Carlos Azenha*

Primeiro, ele foi procurado por telefone por um homem de Guarulhos que prometeu documentos relativos à Operação Parasita, da polícia paulista, que investigou empresas que cometiam fraudes na área da saúde. Foi marcada uma reunião, mas a fonte se negou a entrar no local de trabalho de Amaury. Quando se encontraram pessoalmente, do lado de fora, a história mudou: o homem ofereceu a Amaury a venda de material secreto que teria como origem o despachante Dirceu Garcia.

No inquérito da Polícia Federal que apura a quebra de sigilo de dirigentes do PSDB, aberto durante a campanha eleitoral de 2010, Dirceu é a única testemunha que acusa Amaury de ter participado da violação. “Novamente, estão querendo armar contra mim”, diz Amaury. “Mas desta vez a trama foi toda gravada por câmera de segurança”.

Em seguida, outra situação nebulosa, desta vez supostamente para atingir a Editora Geração Editorial, que publicou o A Privataria Tucana. Um “ganso” da polícia paulista marcou encontro com o diretor de comunicação, William Novaes, com o objetivo de entregar um dossiê que incriminaria vários políticos tucanos, entre eles o ex-senador Tasso Jereissati.

O encontro, do qual Amaury também participou, foi gravado por câmeras ocultas. Amaury acredita que o objetivo era entregar à editora material falso que pudesse ser usado para desqualificar seu livro. Diante da recusa, a mesma suposta “fonte”, que responde a vários processos por estelionato, ligou para a editora dias depois dizendo que Amaury corria risco de vida.

“Acredito que eles pretendiam me acusar de obstruir o processo em andamento, o que poderia até resultar em minha prisão”, avalia o repórter.

Na mesma semana, narra Amaury, o ex-subprocurador da República, hoje advogado José Roberto Santoro, que segundo a revista Veja tem ligações com o tucano José Serra, procurou a direção do jornal O Tempo, de Minas Gerais, para intermediar um encontro com a direção do jornal Hoje em Dia, onde Amaury mantém coluna semanal.

O objetivo, segundo o repórter, seria reclamar de uma nota publicada na coluna de Amaury relativa a uma mineradora de Minas e ao ex-governador do Espírito Santo, Paulo Hartung. Mas, de acordo com Amaury, no encontro Santoro não reclamou objetivamente do conteúdo da coluna. “Ele ficou falando mal de mim, tentando levar à minha demissão e quando foi advertido pelos diretores do jornal aumentou ainda mais o tom de voz, como se estivesse numa crise histérica”, diz o repórter. A coluna continua a ser publicada.

Qual seria a explicação para esta sequência de eventos?

Amaury sustenta: “Está ocorrendo um verdadeiro complô, articulado provavelmente por tucanos, com apoio de setores da Polícia Federal e do Ministério Público Federal. O objetivo é derrubar primeiro o Lula e depois atingir a presidenta Dilma”.

Aqui, é importante lembrar que, na campanha de 2010, Amaury foi acusado pela mídia de integrar um grupo de inteligência a serviço da campanha de Dilma Rousseff, aquele que teria violado o sigilo fiscal de tucanos. O repórter nega: “Estão querendo requentar um assunto velho, que sumiu das páginas dos jornais logo depois das eleições de 2010. Pelo jeito vai voltar já pensando em 2014. Talvez estejam pensando em me usar para chegar na Dilma”.

Amaury estranha que o processo sobre a violação do sigilo de tucanos tenha voltado a andar uma semana depois das eleições de 2012, quando foram chamados para depor o jornalista Luiz Lanzetta e o secretário particular do diretor de redação do Correio Braziliense e do O Estado de Minas, Josemar Gimenez.

Lanzetta trabalhou na campanha de Dilma e foi acusado de ser o chefe do suposto núcleo de inteligência. Quanto a Josemar, Amaury trabalhou em O Estado de Minas, onde deu sequência à apuração dos fatos que resultaram no livro A Privataria Tucana. O repórter enfatiza sempre que baseou o livro em documentos públicos obtidos em juntas comerciais e cartórios, na CPI do Banestado e no exterior.

Aqui, pausa para uma bomba: segundo Amaury, o presidente do PSDB, Sergio Guerra, entrou na Justiça de Brasília com uma ação em que pede a retirada de circulação do livro, alegando que o A Privataria Tucanacausa danos morais a caciques do partido. O pedido foi feito durante a campanha de 2012 mas até hoje a Justiça não se pronunciou.

“Com certeza, o livro provocou muitos estragos nas eleições. Com certeza continuará provocando. O curioso é que eles nunca respondem especificamente às acusações ou documentos mostrados no livro”, diz Amaury.

Ele também estranha que o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que recebeu dezenas de livros pelos Correios, de leitores indignados com o conteúdo, não tenha aberto um procedimento para apurar as denúncias. Amaury entregou parte dos documentos utilizados no Privataria à Polícia Federal, que até hoje não abriu inquérito.

Além disso, apesar de o deputado federal e ex-delegado da PF Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) ter conseguido o número de assinaturas necessárias à abertura da CPI da Privataria, o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), parece ter sentado sobre o assunto.

Novo livro

Desde o lançamento do A Privataria Tucana, Amaury fala em escrever a sequência. O livro já tem nome:Privataria 2, o Grande Complô.

Viomundo: Amaury, do que tratará o livro?
Amaury: Vou mostrar como funciona o núcleo de inteligência do PSDB, que domina até hoje setores da Polícia Federal e do Ministério Público Federal. Eles se movimentam para desarticular o ex-presidente Lula e futuramente a presidenta Dilma. Quero mostrar porque o PT não reage. No caso da CPI do Cachoeira, tinha a faca e o queijo na mão para investigar melhor a relação entre o bicheiro e a revista Veja.

Viomundo: Você tem explicação para o recuo do relator Odair Cunha (PT-MG)?
Amaury: O PT parece abafar todos os casos. Suspeito que é por um motivo simples. Herdou e deu continuidade a esquemas dos tucanos. No caso do Odair Cunha, devemos lembrar que o ex-sócio dele, que é da região de Boa Esperança, em Minas Gerais, se tornou diretor de Furnas e controla verbas e cargos. Será que tem o rabo preso e os tucanos descobriram?

Viomundo: E a CPI da Privataria, agora sai?
Amaury: Acho que não sai. Tudo indica que o PT tenha herdado o esquema promíscuo que os tucanos tinham com as empresas de telecomunicações. Diante da nova denúncia do Marcos Valério, que diz que a Brasil Telecom teria doado R$ 7 milhões ao PT, o partido vai ficar totalmente desmoralizado se a CPI não for aberta. Se não for aberta, vai ficar bem claro que eles temem que as investigações atinjam o próprio PT.

Viomundo: O líder do PT na Câmara, Jilmar Tatto, chegou a convidar o ex-presidente FHC para falar sobre a lista de Furnas. Mas foi desautorizado pelo líder do PT no Senado, Walter Pinheiro. Afinal, essa lista de Furnas é falsa, como afirmam os tucanos?Amaury: O laudo da perícia da Polícia Federal diz que é verdadeira. A lista mostra doações de campanha feitas por um esquema montado em Furnas para vários caciques do PSDB, dentre os quais Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra. O caso foi denunciado na Justiça Federal do Rio de Janeiro pela procuradora Andrea Bayão Ferreira, que em seu relatório diz não ter dúvidas da existência do esquema, que era abastecido por empresas fornecedoras de Furnas. Mas a Justiça Federal transferiu o caso para a Justiça Estadual do Rio de Janeiro, apesar de Furnas ser uma estatal federal. É outro caso no qual o procurador Gurgel não tomou qualquer providência. Será que ele faria o mesmo se fosse um esquema petista?

Viomundo: E essa história do mensalão tucano, anda?

Amaury: Mais uma vez houve tratamento diferenciado ao PSDB. No caso do mensalão tucano, houve desmembramento das investigações, encaminhadas à Justiça de Minas. No STF só serão julgados os reús com foro privilegiado. Vai ficar mais difícil montar o quebra-cabeças que facilitaria a condenação, como foi o caso do mensalão petista. As teorias do Gurgel não teriam vingado se tivesse havido desmembramento também no mensalão petista. No caso dos tucanos, houve.

Viomundo: Lula nunca falou sobre a Operação Porto Seguro, aquela que desvendou um esquema de tráfico de influência nas agências reguladoras e que teria a participação de Rosemary Nogueira. A mídia explorou o que define como “relações íntimas” entre o ex-presidente Lula e Rosemary. O que te pareceu o caso?Amaury: São denúncias sérias, que devem ser apuradas. Mas outra vez a imprensa, a Polícia Federal e o Ministério Público dão tratamento desigual a petistas e tucanos. Devemos lembrar que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso acreditava ter tido um filho com uma jornalista da Globo e a imprensa não só calou a respeito durante quase duas décadas como ajudou a abafar o caso. Uma concessionária pública, a Globo, transferiu a mãe do menino para a Espanha. Conheço bem essa história. Nunca toquei no assunto por se tratar da vida pessoal. Mas diante do cinismo da imprensa estou pensando em incluir no livro algumas revelações sobre como era o esquema para sustentar mãe e filho na Europa. É jornalistacamente relevante por se tratar de dinheiro de caixa dois, de financiamento de campanha. Tenho uma testemunha que sabe de tudo.

Viomundo: Você não poupa nem a PF, que vem trabalhando como nunca?
Amaury: O governo é petista, mas há um núcleo tucano na PF, tanto que a presidenta da República só ficou sabendo da Operação Porto Seguro depois que ela foi deflagrada. O ministro da Justiça apareceu na TV com aquela cara de bobo, ficou vendido. Vale lembrar que o início das investigações se deu pelas mãos do serviço de inteligência do PSDB, que cooptou testemunhas para levar o caso adiante. Meu livro vai contar os detalhes de como isso aconteceu. Vai também desnudar as relações promíscuas entre integrantes do Ministério Público e da Polícia Federal com o alto tucanato. Como vou sustentar, é mesmo um grande complô.

Viomundo: Mas se a Rosemary foi exonerada no dia seguinte à operação da PF, Dilma não sabia de nada antecipadamente? Há especulação de que ela deixou andar justamente para eliminar um núcleo de corrupção que herdou do governo Lula…Amaury: Essa é a grande pergunta, até hoje não foi respondida. Pretendo responder no livro.

Viomundo: Já que estamos no campo das especulações, e a boataria sobre a saída de Dilma do PT para o PDT?
Amaury: Seria um suicídio político. No PDT há uma briga de vida e morte entre a família Brizola e o ex-ministro Carlos Lupi. Só faria sentido ela sair do PT se o Lula fosse candidato em 2014, o que o atual quadro político não indica.

Viomundo: E essas gravações que você fez, do pessoal que tentou armar contra você, vão entrar no livro?
Amaury: Com certeza, mas antes vou entregar todo o material à Polícia Federal e à Justiça. Quero deixar claríssimo que eles escolhem os casos para investigar e punir. Como eles até agora não tomaram providências, pretendo entrar com representações na PF e no Ministério Público pedindo a apuração das denúncias contidas no A Privataria Tucana. Quero ver eles sentarem em cima do assunto. Pelo jeito só vai me restar fazer denúncias fora do Brasil por meio da ICIJ, International Consortium of Investigative Journalists, entidade que tem sede nos Estados Unidos e representação em dezenas de paises. Fui o primeiro repórter brasileiro a integrar a entidade e estou pensando em acioná-la se as autoridades brasileiras não tomarem providências.

*José Carlos Azenha é jornalista e blogueiro.

Fonte: Portal Viomundo

Presente de Natal

                                — Trimmmmmmm !!!!!!!

                        O estampido do telefone soou dentro da sua alma , como se tratasse de uma locomotiva a vapor. É que os últimos meses tinham sido terríveis. Funcionário de uma estatal, com salário minguado , mas regular, há um ano aderira a um destes fabulosos planos de demissão voluntária. Não dava mais para suportar o ambiente de trabalho: cobranças ininterruptas e o chefe olhando pra ele com aquele cara de carrasco , de “cuidado , você é o próximo!”. Pegou a indenização parca que lhe pagaram pelo seu suicídio prematuro e abriu um pequeno negócio de portões eletrônicos. De início a firma andou de vento em popa: com a incrível insegurança urbana, os homens precisam criar os seus castelos inexpugnáveis, pensando que assim podem se isolar do mundo. Chegou até a imaginar que a demissão tinha sido uma das melhores decisões que havia tomado.
                        Em pouco, porém, o mercado se viu saturado, eram tantos e tantos outros , na mesma situação dele, dividindo  a mesma fatia do bolo! Não bastassem as pequenas piabas iguais a ele, com a globalização entraram peixes grandes no aquário e , aí , a ração só costuma sobrar  para os tubarões! Quebrou e se encontrava naquela situação desesperadora: os amigos antigos se afastaram, os cobradores batiam à porta a todo instante, os filhos já tinham sido transferidos para escolas públicas, o aluguel atrasado quatro meses e ninguém mais aceitava seus vales. Os vizinhos diziam, com sorriso maroto:                          –“Não tem crédito nem para comprar a vista!”.
                        Esse era o fosso verdadeiro em que se encontrava no exato momento em que o telefone tilintou , desesperadamente: talvez por isto foi que penetrou tão agudamente no fundo da sua alma.
                        — Trimmmmmmmmmmm!!!!!!
                        Nos últimos dias aquele aparelhinho havia feito pacto com o demo. Atendê-lo configurava-se em causa imediata de aborrecimento. Cobradores circulavam sua casa , como aves de rapina e as chamadas eram uma espécie de aviso prévio do ataque faminto e guloso. Assim, pediu à esposa que atendesse e desse uma desculpa qualquer: saiu, viajou, foi para a missa! A companheira atendeu contrafeita : já não mais suportava criar estórias fantasiosas e  esfarrapadas. O semblante tenso da mulher relaxou um pouco,  quando ouviu a voz do interlocutor, do outro lado da linha. Conversou pouco e formalmente: tudo bem, tudo em paz, todo mundo com saúde! Virou-se aliviada para o marido e passou o fone:
                        — Sua mãe!
                        Num primeiro momento, sentiu-se aliviado. Nada como ouvir a voz da mãe num momento destes. Certamente tinha sido o sexto sentido materno que havia , como um timer, disparado e a impulsionara a ligar imediatamente para o filho. A velhinha morava em outro estado e andava muito doente: perdera a vista praticamente, ouvia mal e deslocava-se com grande dificuldade. O filho pressentia, no entanto, que em meio à tamanha debilidade orgânica, havia uma força estranha e profunda, aquela energia materna, capaz de reacender as mais arrefecidas esperanças. No instante seguinte, porém, estacou absorto e vacilou : seria justo beber aquela última centelha de luz, da sua mãe ? Ela a cederia com o maior prazer e abnegação, mas seria justo?
                        — Mamãe? Tudo bem ? Aqui tudo às mil maravilhas! Os negócios estão crescendo, como nunca imaginei ! Sou agora um dos maiores empresários do estado! Reformamos a casa e estou falando com a senhora, neste exato momento, deitado numa cadeira , na beira da piscina olímpica aqui do quintal. A mulher arranjou um trabalho na procuradoria do estado e está ganhando uma nota preta. Troquei o carro esta semana , por um outro do ano e importado. Como o Collor, já não agüentava estas latas de sardinha nacionais!  Queria até que o seu neto, mamãe, estivesse aqui para falar com a senhora, mas foi para os Estados Unidos, conhecer a Disney e só volta no fim do mês. Não vamos poder ir agora no final do ano, infelizmente, porque estou ampliando a fábrica, mamãe; logo que tiver uma folguinha, dou um pulinho por aí. Beijo, mamãe! Feliz Natal para a Senhora. Sei que a senhora tá feliz, sei, não precisa nem dizer.Tchau!
                        Defronte dele, a mulher embasbacada, parece que tinha visto fantasma. Ele, calmamente, desvendou o mistério: Ela, minha filha, está doente , já não pode vir nos visitar e ver a porqueira de vida que estamos vivendo e mesmo que viesse, está cega, não viria nada. Quantas vezes ela, na minha infância não fez o mesmo? Seu pai não tarda a chegar! Quando ganhar na Loteria te dou uma bicicleta! Vou arrancar este dentinho de leite, não vai doer nada!Esta foi a única maneira que eu encontrei de dar para ela um presente neste Natal!
                        A mulher , entre lágrimas, sorriu! Adivinhou que são afinal estas pequenas mentiras , estes leves engodos que tornam a vida suportável e que vão realimentando as nossas baterias gastas, pelo tempo afora  . Sem este filtro cor de rosa, a vida que já é um curta metragem ,surgiria aos nossos olhos, violentamente, com seu verdadeiro , sombrio e cru preto-e-branco. Estas mentirinhas, afinal, são como um prisma que se interpõe entre o frio e translúcido feixe de luz da vida e que acaba por fazer a refração , muitas vezes a transformando na beleza fugaz, mas multicolorida do arco-iris.
J. Flávio Vieira

Dane de Jade – Cultura enquanto desenvolvimento humano

A produtora cultural, atriz e pesquisadora Dane de Jane assimirá a partir de janeiro de 2013 a Secretaria de Cultura do Crato. Na função de Secretária de Cultura da minha cidade natal, espero poder contribuir para o alargamento das ações que buscam desenvolver o ser humano, na perspectiva da construção de uma sociedade melhor.  Ela destaca  “Vamos analisar cada ponto da “Carta Compromisso com a Cultura” e buscar junto às três esferas do poder público e a sociedade os meios para honrar esse compromisso. A “Carta” trata-se de um documento político assinado pelos quatro candidatos a prefeito do Crato que assumem compromissos com politícias públicas para cultura. O documento foi elaborado a partir de uma proposção nacional elaborada pela Frente Parlamentar Mista em Defesa da Cultura.    

Alexandre Lucas – Quem é Dane de Jade?
Dane de Jade – Natural do Crato – Ceará, atriz-pesquisadora, produtora, arte-educadora, radialista e gestora cultural. Graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Regional do Cariri – URCA, cursou também arte-educação na URCA, pós-graduação em Gestão Estratégica nas Organizações de Terceiro Setor na Universidade Estadual do Ceará – UECE e Doutoranda em Turismo, Lazer e Cultura pela Universidade de Coimbra em Portugal. Dirigiu o Departamento de Promoção, Difusão e Ação Sócio-Cultural da Fundação Cultural J. de Figueiredo Filho em Crato-CE, fomentou a criação e gerenciou o Programa Cultura do SESC Ceará por 14 anos, onde desenvolveu e coordenou, entre outros projetos, a Mostra SESC Cariri de Culturas.

Foi a responsável pela curadoria do projeto “Traga a França para os meus versos e leve os meus versos para França”, dentro da programação do Ano França/Brasil na Universidade de Poitiers e criou a Mostra SESC Luso-Brasileira, em Coimbra/Portugal. Por 13 anos foi a curadora representante do Ceará nos projetos Palco Giratório – Rede Nacional de Difusão e Intercâmbio das Artes Cênicas e Sonora Brasil – Formação de Ouvintes Musicais.
Participou e atou em diversas peças de teatro no Ceará, com indicação ao prêmio de melhor atriz pelo espetáculo “O Baile do Menino Deus.” Atuou no monólogo “A Hora da Bruxa”, dirigida pela argentina Vanina Fabiak e participou da fundação do Grupo Armazém de Teatro – GAT em 1996.

Como curadora, participa do Festival Cena Brasil Internacional (Rio de Janeiro e São Paulo),  da comissão de seleção do Festival de Curitiba e do Edital Verão Cênico 2012 em Salvador/BA, integrou o núcleo curador do Prêmio Myriam Muniz em 2009, a comissão do Programa Petrobras Cultural 2010 e a delegação brasileira no Festival de Edimburgo/Escócia em 2011.  É integrante da Rede de Programadores Conexões Latinas sediada em Buenos Aires/Argentina.

Sócio-fundadora da Ong BEATOS – Base Educultural de Ação e Trabalho de Organização Social. Realiza palestras e oficinas sobre Gestão Cultural em diversas regiões do país. Vencedora do Prêmio Claudia 2012 (maior premiação feminina da América Latina realizada pela editora Abril) na categoria Cultura. Membro do Conselho Estadual de Cultura do Ceará, consultora da Associação Teatro da Boca Rica. Desenvolve trabalhos e pesquisa na área de tradição popular, atualmente aceitou convite para assumir a secretaria de Cultura do Crato.

Alexandre Lucas – Quando ocorreram seus primeiros contatos com as artes?

Dane de Jade – Boa parte de nossa infância, minha e dos meus irmãos, foi vivida dentro do Cinema da Rádio Educadora de Crato, mantido pela Fundação Padre Ibiapina. Quando estavam em cartaz filmes que meu pai, Raimundo Inácio,  considerava “apropriados” para a nossa idade, assistíamos das cadeiras, quando ele dizia que os filmes eram “proibidos”, ficávamos na cabine de projeção vendo-o trabalhar e observando os rolos com as películas. Papai foi operador cinematográfico e minha mãe, Luzanira, professora da Fundação, ela ensinava corte e costura, era uma artista das mãos que além de excelente costureira bordava, pintava e fazia artesanatos belíssimos. Meus pais sempre foram, para mim, motivo de grande admiração: ele, pela honestidade, serenidade e perseverança; ela, pela bondade, sabedoria e sensibilidade artística que manifestava até em tarefas cotidianas como cozinhar, costurar, na relação amorosa e afetiva com as pessoas, sem fazer distinção de posição social. Então meu primeiro contato com a arte vem dessa educação que recebi de meus pais.

Alexandre Lucas – Fale da sua trajetória.

Dane de Jade – Quando muito pequena recebi de uma tia o apelido que me acompanharia por toda a vida. Crianças que costumam fazer traquinagens são chamadas de “danadas”. No meu caso, o nome passou por variações desde “Danoca, Danada” até virar “Dane”, quando comecei a me iniciar no meio artístico recebi o complemento “de Jade” batizada por João do Crato, devia ter uns 15 anos. Iniciei meus estudos em uma escola municipal chamada Teodorico Teles, onde fui alfabetizada por Tia Mariza. Estudei no Colégio Pequeno Príncipe e Madre Ana Couto, em seguida, no Colégio Diocesano do Crato, ambos ligados à Fundação Padre Ibiapina. Ainda na escola comecei a participar de apresentações teatrais, musicais, grupos de lapinhas e quadrilhas juninas, inicialmente era brincadeira, mas com o passar dos anos essas atividades foram ocupando cada vez mais o meu tempo. Atuei em espetáculos teatrais como “O Belo e a Fera”, “FM Histérica”, “Até que a morte me separe”, “TV Devora – A emissora que traça todas”, “A Vingança do Carapanã Atômico”, “O Baile do Menino Deus”, entre outros; participei de ações musicais como “Coral Boca de Sapo” e shows em barzinhos, fiz vocal no cd de Hildelito Parente (eu e Auci Ventura). Em 1996 atuei, em comemoração ao Ano da Terceira Idade, no monólogo “A hora da bruxa – o mito do corpo sempre jovem”, em que fui dirigida pela argentina Vanina Fabiak.

Trabalhei sempre com ações culturais, em instituições privadas, órgãos públicos ou produções independentes. Participei das gestões do ator e diretor Fernando Piancó e do cineasta e poeta Rosemberg Cariry na secretaria de Cultura de Crato, quando trabalhei em diversos projetos: Festival CHAMA – Chapada Musical do Araripe, Encontro de Cultura Popular do Nordeste, Auto da Malhação do Judas, Dia de Reis, entre outros. No mandato de Rosemberg na gestão do prefeito Raimundo Bezerra iniciamos uma articulação junto à Prefeitura para aquisição da propriedade onde se deu um importante episódio histórico da região Cariri, o “Caldeirão da Santa Cruz do Deserto”, movimento social liderado pelo Beato José Lourenço e cujas características lembram Canudos, na Bahia. A partir desse momento me envolvi mais diretamente com grupos de tradição popular: Reisados, Maneiro-Pau, Cocos, Bandas Cabaçais, Lapinhas, Guerreiros e tantos outros que compõem o vasto caldeirão de manifestações do nordeste.

Nesse mesmo período, mobilizamos a criação da Fundação Mestre Elói. A proposta inicial encabeçada pelo Mestre Elói (poeta popular, radialista e folclorista) era homenagear o rabequeiro Cego Aderaldo, mas, com sua morte (Mestre Elói) a instituição passou a ser chamada Fundação Elói Teles de Menezes, uma homenagem a esse baluarte da cultura popular com quem tive a honra e a satisfação de conviver e aprender.

Em 1998, o Serviço Social do Comércio, o SESC, estava reinaugurando sua Unidade no Crato e abriu seleção para coordenador de Cultura. Participei da seleção, fui aprovada e ocupei este cargo por dois anos, quando pudemos trazer iniciativas desenvolvidas nacionalmente como os projetos “Dramaturgia – Leituras em Cena”, “Palco Giratório” e “Sonora Brasil”, entre outras ações capitaneadas por Sidnei Cruz e Wagner Campos, ambos do Departamento Nacional do SESC, foi nesse período que encaminhamos a reforma do auditório do Sesc Crato para ser adequado e estruturado como espaço cênico, o Teatro-Auditório Adalberto Vamozi.

Logo me identifiquei com os ideais do Sidnei Cruz (grande amigo) e passamos a pensar, sonhar, executar e organizar ações para região Cariri, uma delas a elaboração do projeto “Desenvolvimento e Consolidação do Teatro no Cariri”,   que dividimos em três eixos: (1) “Um Teatro Atrás do Outro”, (2) “Banco de Textos Teatrais” e (3) “Mostra SESC Cariri de Teatro,” cuja primeira edição foi realizada em 1999 em Crato, apesar da programação relativamente tímida, já continha, no seu embrião, a possibilidade de expansão que veio a se concretizar nos anos seguintes.  

 Com o apoio e incentivo da direção do SESC Ceará, Presidente Luiz Gastão Bittencourt e a diretora Regina Leitão, geramos uma grande efervescência cultural na região Cariri com desdobramentos e reverberação em todo o país. Convidada a assumir a gerência regional do Programa Cultura do SESC-CE, em 2001 me transferi para Fortaleza com minhas filhas Jade e Clara. Desempenhei as funções relativas a esse cargo até 2011, regularizando, nesse período,  o Programa Cultura do SESC em nível estadual, buscando promover maior articulação entre as programações das unidades SESC no Ceará. Para isso estruturamos uma equipe capacitada para sistematizar, formatar, elaborar e acompanhar ações e atividades no âmbito do programa cultura.

Atualmente estou envolvida em ações de curadoria junto a festivais nacionais como Festival Cena Brasil Internacional (Rio de Janeiro e São Paulo) e Festival de Teatro de Guaramiranga, participo de comissões de seleção de mostras em Fortaleza, Aracaju, Bahia, Curitiba, entre outras cidades. Realizei na cidade de Antônio Cardoso/BA o Festival Bule Bule – Um Conto de Poesia, em homenagem ao grande poeta, cantador e repentista Mestre Bule Bule.

Integrei a curadoria do projeto Palco Giratório, do programa Petrobras Cultural e FUNARTE.
Em nível internacional, participei da curadoria do Festival de Edimburgo e coordenei a Mostra Luso Brasileira de Culturas na cidade de Coimbra, Portugal. Participei do Festival Del Caribe, em Santiago de Cuba, do intercâmbio em Pontedera na Itália e do Encontro de Programadores em Buenos Aires na Argentina.

Ao final do ano de 2011, fui convidada pela presidente a assumir a Consultoria Institucional de Cultura no SESC Ceará, função que desempenhei até o final de 2012, quando recebi o convite do prefeito Ronaldo Gomes de Matos e seu vice Raimundo Filho para assumir a Secretaria de Cultura do Crato.

Alexandre Lucas – Como você ver a produção artística na região do Cariri?

Dane de Jade – Percebo um momento de elevados níveis de consciência artística, quando as pessoas estão em busca de maiores e melhores critérios para organização dos seus trabalhos, uma vontade coletiva de cada vez mais  de qualificar as suas ações.

Entretanto, percebo também que, apesar dos esforços investidos, as dificuldades continuam limitando a expansão do setor, dificuldades que estão presentes em todo o país e  se expressam com maior ou menor intensidade nos lugares.

Implementar políticas culturais no Brasil, diante de tanta riqueza e diversidade, é sempre um desafio. Temos poucos históricos de políticas sistematizadas e regularizadas no âmbito da cultura.

O campo da cultura ainda está em ajustes. Os orçamentos disponíveis são restritos para dar conta de todas as demandas, o que termina por fortalecer a indústria cultural protagonizada pela grande mídia.

Precisamos pensar a cultura a partir de outra lógica que não a economicista. O retorno dos investimentos em cultura não se traduzem, nem podem se traduzir, em lucros financeiros. São investimentos na transformação humana com fins sociais.

Toda política pública deveria ser, acima de tudo, uma política cultural, e, nesse sentido, uma politica social.

O campo da cultura, sobretudo aquele que se manifesta por meio dos princípios e das formas artísticas,  possui o que se costuma chamar de fecundidade. Ele é capaz de dar origem, de propiciar algo, de instigar, de transformar.

Precisamos avançar na salvaguarda do patrimônio cultural brasileiro, revigorando e fortalecendo o diálogo permanente com as nossas manifestações tradicionais. É também por meio dessas tradições, enquanto espaço aberto para a reflexão e a consciência, que a cultura pode contribuir de maneira significativa para o engrandecimento humano e para o desenvolvimento social sustentável.

Alexandre Lucas –  Você foi uma das idealizadoras da “Mostra  Sesc” no Cariri que ao longo dos anos recebeu vários nomes e é um evento que vem se consolidando na Região Metropolitana do Cariri. Qual a importância da Mostra?

Dane de Jade – Ainda na Fundação Cultural eu pensava numa proposta que abraçasse a realização de um festival no Crato, uma ideia que pude dar forma concreta depois que ingressei no SESC em 1998.  Apresentei a proposta e ela foi melhor estruturada por meio do projeto Desenvolvimento e Consolidação do Teatro no Cariri, que elaborei em parceria com Sidnei Cruz (na época, técnico em teatro do Departamento Nacional do SESC).

Inicialmente, o principal objetivo era estimular a produção teatral na região, proporcionando o desenvolvimento dos artistas e a participação do maior número possível de grupos, espetáculos, artistas, estilos e visões distintas no fazer cênico. A proposta era incentivar a troca de informações, ampliar o campo de referências e contribuir para a comunhão dos que fazem  teatro no Ceará, acabamos por ampliar as linguagens e trazer para Mostra ações nos diversos segmentos que compõem o programa cultura do Sesc como literatura, música, tradição, cinema e artes visuais.

A partir desse conceito surgiu a Mostra Sesc Cariri de Teatro, passando à Mostra Sesc Cariri de Artes, numa parceria com a SECULT Ceará e em seguida, à Mostra Sesc Cariri de Culturas, que hoje abrange essa diversidade de linguagens e ações que se espalham por toda a região.

A Mostra se constitui como uma ação fundamental para o Cariri, irrigando a região com o que há de mais instigante no panorama artístico nacional.

Nesse sentido, ela oportuniza o intercâmbio das artes, dos artistas e das comunidades locais, proporcionando formas de difusão e valorização das culturas, fomentando as práticas e os saberes locais. Ela assume o desafio de se inserir nos diversos municípios que compõem e região, mantendo a sua capacidade de renovação com o compromisso de atrair, cada vez mais, investimentos e esforços que possam se traduzir em políticas de cultura.

Alexandre Lucas – Você vem desenvolvendo no Crato um trabalho na ONG Beatos. Fale desse trabalho.

Dane de Jade – A ONG BEATOS – Base Educultural de Ação e Trabalho de Organização Social, é um espaço coletivo com ações integradas voltadas para os saberes de tradição oral, a troca de ideias e a pesquisa. Ela se constitui como uma organização da sociedade civil criada com o intuito de defender e promover os direitos humanos, econômicos, sociais, culturais, ambientais e simbólicos das comunidades onde se insere.  A Beatos é uma associação sem fins lucrativos que reúne pessoas atuantes na preservação, melhoria e revigoramento das tradições populares. Uma proposta em cultura, patrimônio e educação voltada para o desenvolvimento das pessoas, construída a partir do sentimento de coletividade e comunhão, fundamentada no pensamento dos beatos, como por exemplo, Pe. Ibiapina e José Lourenço, idealizadores  de uma civilização para um mundo melhor.

Dentre os seus objetivos estão o fortalecimento da democracia e a busca do desenvolvimento social, a preservação ambiental, o uso de tecnologias sustentáveis, o respeito e salvaguarda da memória e do patrimônio cultural dos povos. No seu conjunto de ações podemos destacar o Centro de Referência, Transmissão, Pesquisa e Memória das Culturas do Cariri recentemente certificada pela Gaia Education.

Enquanto sócia-fundadora da ONG,  tenho atuado na articulação de projetos e propostas como a implantação do Programa de Fortalecimento do Centro de Referência de Cultura para Sustentabilidade da Região do Cariri Cearense – Gaia Cariri com o intuito de promover, permanentemente, o envolvimento, o compromisso e a participação das comunidades locais no manejo e aproveitamento dos recursos naturais, de acordo com os critérios de sustentabilidade.

Buscamos focar em ações culturais que possam contribuir para o fortalecimento das nossas identidades, para a transmissão das culturas e saberes de tradição oral e para a preservação do meio ambiente.

A proposta da BEATOS é ser um espaço coletivo com ações integradas, focadas nas trocas simbólicas e afetivas, que possam envolver as comunidades e a região do Cariri. 

Alexandre Lucas – Nos últimos meses os artistas do Crato vêm se mobilizando e discutindo políticas públicas para a cultura. Você é uma das pessoas que tem participado dessas discussões. Na sua avaliação o que representa para o Município o desenvolvimento de políticas públicas ao invés de política de gestão?

Dane de Jade – Na verdade uma coisa não está dissociada da outra; políticas públicas e políticas de gestão podem ter um sentido de complementaridade.

O que realmente considero necessário para a elaboração e implementação de políticas públicas de cultura é o dialogo permanente. É a partir desse diálogo que poderemos perceber e compreender as demandas socioculturais.  Entendo a cultura como algo que não necessariamente está relacionada ao puro entretenimento. Acima de tudo ela tem uma função sociopolítica. A sua proposta deve estar relacionada ao desenvolvimento humano, à “ampliação da esfera de presença do ser”, nas palavras de Teixeira Coelho.

Alexandre Lucas – A indicação do seu nome para Secretaria de Cultura do Crato é avaliada como positiva por diversos segmentos da cultura. Como você encara esse desafio?

Dane de Jade – Como você bem coloca, encaro como um desafio, entretanto, numa perspectiva bastante otimista, por saber que estarei contando com o apoio das pessoas, dos artistas e dos gestores municipais, o Prefeito Ronaldo Gomes e do Vice Raimundo Filho.

Gestão cultural é a minha área de afinidade, de paixão. Sou militante da cultura e busco sempre, enquanto cidadã, levantar a  bandeira da Cultura, destacando a sua importância fundamental para os processos de desenvolvimento das sociedades.

Na função de Secretária de Cultura da minha cidade natal, espero poder contribuir para o alargamento das ações que buscam desenvolver o ser humano, na perspectiva da construção de uma sociedade melhor.  É um prazer e uma honra poder fazer isso a partir do Crato, a partir do Cariri. 

Alexandre Lucas – A “Carta Compromisso com a Cultura” foi assinada pela candidatura  do Prefeito eleito. Como você pretende honrar esse compromisso?

Dane de Jade – Assumiremos no dia 01/01/2013.  Inicialmente, a nossa intenção será nos debruçar sobre o planejamento, considerando as realizações e projetos de gestões anteriores.

Vamos dar continuidade ao que merece ser continuado. Vamos analisar cada ponto da “Carta Compromisso com a Cultura” e buscar junto às três esferas do poder público e a sociedade os meios para honrar esse compromisso, inscrevendo as ações no Plano Municipal de Cultura definindo com democracia e transparência estratégias de desenvolvimento para o Crato que queremos viver.

Alexandre Lucas – Como pretende manter o diálogo como os artistas e demais segmentos da cultura?

Dane de Jade – Esse é o maior dos desafios. Compreendo a construção da cultura como algo que se constitui por meio do diálogo. Meu gabinete estará aberto para todas e todos, quero estabelecer e institucionalizar canais de participação para que a sociedade tenha o protagonismo na construção das politicas publicas e nas decisões a respeito dos destinos da cidade no âmbito da cultura. Vamos realizar a conferencia de cultura e espero sair da conferencia com os canais de participação devidamente formalizados.

Maias


                                                               Embora negue ,peremptoriamente, consta que teria partido de Valdenor aquele projeto genial. Depois do big-bang,   fica difícil juntar os cacos do quebra-cabeças e descobrir quem  teria assoprado o lume do estopim. Como sempre, as grandes idéias surgem, meio por acaso, sopradas pelo bafejo de algum anjo de luz ou sussurradas no pé do ouvido pela língua ofídica de algum dos decaídos . E o diabo é que a tragédia tinha acontecido simultaneamente com dois amigos de infância e adolescência, mas que agora, tangidos pelas vicissitudes do destino, estava cada um ( ado-ado-ado) no seu quadrado, tendo de ganhar a vida e arranjar algum alpiste para alimentar os bruguelos, cada um em  planeta diferente.
                                               Valdenor , passados os sonhos dourados  da juventude, teve que antecipar o casamento por conta de um emprenhamento prematuro da namorada. E eram tempos de “casa ou morre”. Na sinuca de bico, preferiu a morte a crédito: casou, deixou de lado os projetos estudantis e passou a trabalhar como vendedor numa concessionária de automóveis. Orlando fora seu amigo inseparável nos tempos de escola , de bailes e de farras homéricas. Firmou-se nos livros, terminou um curso de odontologia em Recife e vivia de boticão em punho no Crato há mais de vinte anos. Seus caminhos cruzavam-se,  esporadicamente, na rua, numa farmácia, no comércio. Não mais que isso.
                                               Pois bem, neste 2012 — e pululam explicações catastróficas sobre esta coincidência —  as aparentes paralelas, descobriram-se  semi-retas e voltaram às intersecções. Meio do ano, no último final de semana da Expô/Crato, os dois — cada um por  razões diversas — tiveram que viajar. Valdenor fora convocado para uma reunião de avaliação de desempenho da sua Concessionária em São Paulo e Orlando  partia para  um Congresso científico, no Rio. Viajavam ambos meio a contragosto, tendo que abandonar os dias mais virulentos das festividades de meio do ano. Mas que jeito ? Manda quem pode e obedece quem tem juízo !  E não era , simplesmente, o desassossego de abandonar a cidade em tempos tão festivos. Orlando  era muito supersticioso e ficou cabreiro quando um tio seu, o velho Júlio Maia, lhe alertou, no dia anterior, que tinha tido um sonho muito ruim: vira no delírio onírico, com aqueles olhos que a terra haveria de lanchar,  uma avalanche de troncos de madeira descendo ladeira abaixo e caindo em cima do sobrinho. E Valdenor, embora não tenha contado a ninguém, andava também com uma pulga detrás da orelha. Ele tinha uma vaca que chamava carinhosamente de “Maiada” e que dava uns quinze litros de leite todo dia, pois depois que marcou a viagem, ela  botou para secar os peitos e , de repente, não caiu mais um pingo. O vaqueiro do sítio o alertara que aquilo não era sinal de  bom augúrio.
                                               Por peripécias do acaso, iriam se encontrar no aeroporto. Estavam meio emburrados com a necessidade de viajar em dias tão pouco propícios. Tinham chegado ali com a ajuda das esposas que se despediram de cada um deles , após o check-in. Toparam um com o outro já na sala de embarque, enquanto reviviam os bons tempos, perguntavam por colegas da época e pelo destino das meninas mais charmosas da turma. Tinham comprado, embora não soubessem, passagens no mesmo avião. A coincidência chicotou ainda mais a curiosidade sobre os bons e  antigos tempos. E conversa puxa conversa, fofoca exuma fofoca, nem perceberam que a aeronave não chegara no tempo previsto e no quadro já não havia previsão para o embarque. Passadas uns sessenta minutos da hora prevista, finalmente,   o pessoal de terra avisou que o vôo 1899 para São Paulo, com escala no Rio, por problemas técnicos estava suspenso. Sabiam que só haveria agora vôo no dia seguinte e ficaram chateados com o contratempo.
                                                É neste exato momento que as versões divergem. Quem teria dado a idéia cabalística ? Reza a crença que Valdenor teria bolado o plano. Eu, como simples relator dessa história é que não vou enfiar minha colher neste consumê . O certo é que , independente de quem foi o Thomas Edison, os dois concordaram. Oras, não havia outros passageiros conhecidos. Deixariam as malas no Malex do Aeroporto, comprariam um chapéu para disfarçar e partiriam direto dali para a Expô/Crato. Na hora prevista de chegada aos seus destinos originais , cada um ligaria para a esposa informando que a viagem foi ótima , que estava tudo bem e que iriam descansar um pouco para  o início dos trabalhos mais tarde. Virariam a noite, na maior farra desse mundo e , no outro dia cedinho, pegariam um taxi, se despediriam das catraias que tinham arranjado e partiriam , finalmente, para Rio e São Paulo para os eventos previstos, com a desculpa mais que justificável de falha da Companhia Aérea.
                                   Seguiram à risca o plano. Sentiram-se voltando no tempo e gazeando a aula de Educação Física para ir ao Cabaré. Chegando na Expô/Crato foram direto para aquele lugar recôndito chamado inferninho. Primeiro porque ali é sempre mais reservado e privativo e, depois, porque existiam informações mais que abalizadas dizendo que lá , apesar do nome, se tratava do Nirvana. Tinha até as onze mil virgens, só descobririam que elas já tinham perdido de há muito esse atributo. Encheram a cara, dançaram o dia todo e à noite, ainda deram uma escapadinha e desceram para o show de uma Banda de Forró de nome apetitoso: “Cheira meu tabaco e desmaia”.  
                                   Ainda bêbados e grogues, de madrugadinha , já de táxi previamente contratado, partiram para o Aeroporto, com aquela cara de menino que acorda em dia de natal. Só não esperavam pela surpresa. As duras esposas estavam lá os esperando, de bote armado. Apanharam que só galinha pra largar o choco. Só depois souberam que houvera uma mudança no horário do novo vôo e a Companhia tinha ligado para suas casas avisando de mais esse contratempo. As jararacas pegaram o fio da meada, descobriram rapidamente a tramóia e partiram para lá, prontas para flagrar os recém-ressuscitados boêmios. O julgamento foi sumário, a peia comeu no centro, o papelão revelou-se publicamente e a pena executada fora em praça pública.
                                   Alguns dias depois, ainda de caras inchadas e reclusos, em silêncio obsequioso, Valdenor ligou clandestinamente para Orlando. Na defesa , um tinha colocado a culpa no outro e, certamente, quando o tempo os absolvesse , ficaria um ranço danado de cada uma das esposas com o amigo do marido. Mas que jeito ?   Orlando, o mais supersticioso, fatalisticamente disse ao colega que deviam ter prestado mais atenção aos sinais premonitórios da catástrofe. Tudo estava escrito!
                                   — Veja só, Valdenor ! Tio  Júlio MAIA disse que eu não viajasse;  sua vaca MAIAda secou os peitos e a o diabo da banda da Exposição, você lembra?  “Cheira o meu tabaco e desMAIA” . Pois todos esses Maias tinham razão ! A calendário dos Maias estava certo,  nós é que nos abestalhamos, o Mundo tinha mesmo que se acabar neste 2012 !
J. Flávio Vieira

Mostra Nacional de Vídeos sobre Intervenções e Performances começa segunda no Crato



A I Mostra Nacional de Vídeos Intervenções e Performances – Mostra IP  será realizada nos dias 17 e 18 de dezembro na cidade do Crato-CE.  A Mostra tem o objetivo de exibir  vídeos de registros de trabalhos performáticos e de intervenções de artistas e grupos brasileiros.  
A Mostra exibirá trabalhos de artistas e coletivos dos estados do Ceará, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Bahia, Paraná, Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Amapá e Pará. O Material recebido será posteriormente disponibilizado numa plataforma virtual que  poderá auxiliar como ferramenta pedagógica os professores de artes.
A abertura da Mostra acontece nesta segunda-feira, dia 17, às 18h30, no Teatral Municipal Salviano Arraes. Já terça-feira, dia 18,  a Mostra começa a tarde a  partir das 14h00 e a noite a às 18h30.
As escolas que participarem da Mostra IP receberão um kit de Arte composto por livro, documentário, cordéis, postais e vídeos.
A Mostra é uma realização do Programa Nacional de Interferência Ambiental – PIA, em parceria com a Pró-Reiotoria de Assuntos Estudantis e  Pró-Reitoria de Extensão da URCA, Secretaria Municipal de Cultura, Esporte e Juventude do Crato, Centro Universitário de Cultura e Arte da União Nacional dos Estudantes – CUCA da UNE e Coletivo Camaradas.
Para o artista/educador, Alexandre Lucas, idealizador da Mostra IP, o evento visa criar um canal de intelocução entre os artistas brasileiros que desenvolvem ações no campo da performance e da intervenção. Ele destaca que esse tipo de fazer artístico tem uma ligação muito forte com o registro fotográfico e audiovisual, tendo em vista, que é a partir do registro que é possível torna o trabalho discutido e conhecido.      

Coalho


Toda vila tem seus muitos filhos  naturais e um sem número de outros adotivos. Aqueles  não tiveram escolha, emitiram seus primeiros vagidos no lugar, por mero acaso ou por ditames obscuros da sorte e do destino. Os adotivos, por outro lado, usaram sua sensibilidade e sua empatia na escolha do lugar geográfico onde iriam depositar sua história. Difícil compreender que estranhas forças os impeliram para lugares distantes e muitas vezes inóspitos, sem nos ampararmos nas amarras do fatalismo ou da transcendência. O Crato viveu, durante todo seu percurso, prenhe de uma infinidade de filhos adotivos que aqui chegaram, por obra de estranhas forças e ajudaram a escrever e reescrever muitas linhas da história da Vila de Frei Carlos: Bárbara de Alencar, Martins Filho, os coronéis Antonio Luiz, Álvaro Bomílcar, Jéfferson de Albuquerque, Dr. Antonio Gesteira,  Padre David Moreira, José do Vale Feitosa, Manuel Vieira, Soriano de Albuquerque, João Brígido, isto apenas para citar alguns.                                
                                   Pois bem, hoje, falaremos de um desses importantes filhos adotivos do Crato e que fundiu sua alma ao doce espírito da nossa Vila. Chamava-se Teófilo Artur de Siqueira Cavalcante e nasceu em Palmares , no Pernambuco tão ligado umbilicalmente ao Cariri. Nascido em 1869, veio para o Crato ainda guri, com seu pai, juiz de direito e aqui permaneceu até sua partida definitiva em 1941.  Nas primeiras décadas do Século XX, Teófilo fundou a Pharmácia Siqueira, estabelecida ali na Rua do Fogo ( hoje Senador Pompeu), colada ao nosso primeiro Clube :  “ O Cariri”. O prédio foi demolido ,recentemente, como tem acontecido com todo o Centro Histórico da nossa cidade , numa deliberada e programada incineração do nosso passado glorioso. A Pharmácia Siqueira funcionava como uma espécie de Pronto Socorro da cidade, junto com outros estabelecimentos farmacêuticos da Vila : A Pharmácia Telles, a do Coronel Secundo Chaves, a Botica do Coronel Garrido  e a Central de José Alves de Figueiredo ( o Zuza  da Botica). Mais que isso, elas juntavam , em rodinhas de fim de tarde, toda a intelectualidade da vila, a comentar as últimas notícias, as derradeiras fofocas  e os debates acalorados das áreas:  literária, econômica  e política.
                                   Teófilo era esguio, usava óculos de lentes grossas e tinha um nariz proeminente que lhe imprimia feições parecidas com  a do poeta Manuel Bandeira. Nosso boticário era bem humorado e irreverente. Língua afiadíssima, comentava todas perversões da sociedade provinciana com uma fina argúcia , imersa num comburente molho de malagueta. As suas peripécias faziam parte da nossa doce mitologia cotidiana, cresci ouvindo meu pai , na Livraria Católica, narrar as suas histórias, alegremente, como se viessem de João Grilo,  Cancão de Fogo  ou Pedro Malasartes. Percebendo que se vão esmaecendo estas lembranças nas novas gerações, resolvi registrá-las no papel que tem uma perenidade bem maior que a saliva. Pois aí vão, vendo-as pelo mesmo preço que as comprei !
                                   Aí pelos anos 20, chegou ao Crato um oftalmologista e se estabeleceu na Rua Grande, numa sala agregada à Farmácia Telles , onde depois funcionou o consultório do Dr. Maurício Telles. A novidade espalhou-se rapidamente na região. Se médico naquele tempo era coisa rara, especialista, então, tornava-se artigo para ser tombado pelo IBAMA. A notícia chegou aos ouvidos de Teófilo que não engoliu bem a história. Imaginou, logo, que estabelecido nas  beiradas da farmácia rival, o especialista só iria prescrever remédios da farmácia mais próxima. Começou, imediatamente, a alfinetar o novo esculápio , sem ao menos o conhecer. Um dia, o oculista entrou na Pharmácia Siqueira . Desejava cumprimentar o boticário e apresentar-se , pensando na possibilidade de alimentar uma política de boa vizinhança e, claro, vislumbrando possíveis encaminhamentos de pacientes ao seu consultório. Siqueirinha, o filho do boticário e balconista,  conhecia já o novo profissional e percebendo a aproximação ainda à distância, resolveu pregar uma peça no pai. Abriu o assunto que sabia bastante melindroso:
                                   — Pai, sabia que chegou um novo oculista na cidade?
                                   Teófilo, meio exasperado, respondeu, enquanto o doutor já entrava na botica:
                                   — Soube meu filho ! Pois vá lá em Gonzaga de Melo—que era genro Siqueira– e diga para mandar aqui para farmácia uma carrada de vara !
                                   Siqueirinha, sem compreender, já com o médico junto do balcão, pergunta, ciente da bomba que vem de lá:
                                   — Carrada de vara, papai ? Aqui pra farmácia ? Não entendi !
                                   Teófilo, então, explode a dinamite:
                                   —- Vara, sim, menino ! Pelo qu´eu soube desse oculista novo, o que vai dar dinheiro agora, em farmácia, é vara de puxar cego !
                                   Siqueirinha, por sua vez, aproveita para completar a pegadinha . Virando-se para o oculista, diz:
                                   — Papai, eu quero lhe apresentar este rapaz! Ele é o novo oculista da cidade.
                                   Ao contrário do que esperava o filho, o boticário não perdeu a fleugma. Olho-o da cabeça aos pés, sem demonstrar surpresa e saiu-se com essa:
                                   — Oxente, tá besta menino ! Eu conheço o doutor já de muito tempo, já tava até brincando com ele !
                                   A década de vinte trouxe ao Crato uma das maiores pianistas brasileiras. Conhecida familiarmente por “Chaguinha”, tinha uma grande ligação com o Crato.  Consta que a artista tivera um affair ou um rolo com o nosso Pedro Maia, músico, fotógrafo e motorista, por fim, quando suas folhas começaram a tombar no outono da existência. Pois, bem,  a cidade engalanou-se  para  o show. Armou-se um grande palco na Praça da Sé, onde se instalou um piano de cauda e uma grande mesa que comandaria a importante solenidade. Teófilo fora escolhido como orador do evento. Possivelmente por indicação de Dr. Elysio Figueiredo(1892-1975) de quem era grande amigo. Dr. Elysio, médico,  talvez tenha sido o orador mais brilhante e inspirado que o Cariri  já teve  . Dono de uma memória prodigiosa, de porte atlético e com gestos teatrais tinha o poder de hipnotizar qualquer platéia com sua voz possante e sua erudição. Ele sabia perfeitamente que Teófilo possuía um discurso básico e único adaptável a qualquer ocasião e já o tinha decorado de cabo a rabo. Antes do início da solenidade, procurou o Dr. Irineu Pinheiro(1881-1954), um dos nossos maiores historiadores , o autor de “Éfemerides do Cariri “ e o informou que sabia qual seria a fala de Teófilo naquela noite. Sapecou-lhe o discurso que tinha decorado com sua memória fotográfica. Montada a mesa, antes do concerto, com todas as autoridades locais, inclusive Dr. Elysio e Dr. Irineu, a palavra foi cedida ao orador da noite : Teófilo Siqueira. Encetado o discurso, Dr. Irineu começou a não se agüentar e a rir descontroladamente: saía o pronunciamento igualzinho ao que Dr. Elysio havia há pouco recitado. Nosso historiador necessitou sair de mansinho , sob qualquer pretexto, sem conseguir sustentar a crise de riso. Terminada a solenidade e o concerto inspirado de Chaguinha, Teófilo comentou o descontrole do escritor:
                                   — Tu viu, Elysio a besteira de Irineu? Aquilo é burro, tapado, bocó que só uma porta velha . Também num é pra menos, né ? Ele nasceu no “bê-erre-obró” !
                                   Dr. Elysio sabia que Teófilo , como um ascendente do personagem  “Coxinha”, tinha sempre duas avaliações críticas. Uma na presença do avaliado e outro na sua ausência. Finalizado o concerto, nosso boticário se dirigiu para a pianista e dissolveu-se em elogios:
                                   — D. Chaguinha, eu nunca vi coisa tão linda. A senhora toca como um anjo !  Por um momento eu fechei os olhos e  tive o maior sobressalto, pensei que tinha era morrido e já tinha chegado  no céu ! Isso que a senhora carrega nas mãos não são dedos : são varinhas de condão !
                                   Terminada  a solenidade, voltando para casa, Dr. Elysio pediu, por fim a segunda avaliação da artista. Teófilo olhou para um lado e para o outro, certificando-se que não havia testemunhas outras e soltou o verbo:
                                   —- Elysio, como é que a pessoa não tem vergonha e vem para o Crato dizendo que sabe tocar piano ? A noite toda tengo-tendo-tengo ! Parecia um ferreiro cantando numa gaiola! Uma nota não batia com a outra, rapaz!  Era ver uma casa na chuva, cheia de goteira, as panelas espalhadas pelo chão e os pingos caindo aqui e ali: tém-tém-tém.  
                                   O cratense Vicente Leite ( 1900-1941) foi um artista plástico de fama internacional, considerado por alguns o maior paisagista brasileiro. Aluno da Academia Brasileira de Belas Artes, Vicente foi colega de Portinari e Orlando Teruz.  Muito premiado, Vicente Leite em 1935 recebeu como prêmio, uma viagem pelo Brasil , seu maior sonho. Aproveitou a oportunidade para expor seus trabalhos na sua terra natal , vindo em companhia ilustre do escritor cearense, membro da Academia Brasileira de Letras, Gustavo Barroso (1888-1959).  Sua Exposição foi aberta em Crato com muito estardalhaço e, na inauguração, estiveram presentes, na comitiva principal que acompanhava o pintor e Gustavo Barroso, Dr. Elysio e Teófilo. Antes Dr. Elysio já havia alertado o artista plástico e nosso importante literato sobre a variabilidade das avaliações estéticas do boticário, dependendo, claro, da presença ou ausência do avaliado. Cientes todos destas características, combinaram todos para apreciar a primeira opinião e , depois, se ausentarem Vicente e Gustavo, escondendo-se por perto, para , assim, terem , por fim, aquela outra visão menos pessoal de crítica estética. À medida que a comitiva ia, pouco a pouco, degustando as lindas paisagens do pintor cratense, Teófilo proporcionalmente parecia se extasiar com a beleza das telas e comentava :
                                   — Vicente, isso é uma coisa divina ! Sua arte, meu amigo, é de um realismo difícil de se conceber. Eu acho que você deve , embaixo de cada uma dessas paisagens, botar uma advertência informando que se trata de um quadro. Corre o risco, se não o fizer, de um menino querer trepar num pé de mangueira desse pensando que é de verdade. Eu mesmo, há pouco,  cheguei a pensar em ir buscar minha rede prá armar debaixo dessa braúna à beira do rio.
                                   Os elogios se sucediam até chegar o momento em que  o previamente combinado se realizou. Vicente Leite e Gustavo deram uma desculpa , pediram licença, dizendo que precisariam se ausentar um pouco a fim de resolver algumas pendências da Vernisage.  Sem que ninguém percebesse, esconderam-se por trás de um empanada próxima que fazia a divisória de partes da exposição. Dr. Elysio, então, mandou o mote :
                                   — Teófilo, agora que os homens já saíram, diga prá gente, rapaz, o que é que você tá achando mesmo dos quadros de Vicente Leite ?
                                   Teófilo cubou o ambiente certificando-se da ausência dos autores e não tardou em mandar a glosa:
                                   — Compadre Elysio, mas como é que pode ? A pessoa trazer de tão longe uma porcaria dessa dizendo que é arte ? O sobrenome dele já diz tudo : Leite ! E pode ter certeza, compadre, botaram água nesse leite. Eu não sei não, viu ? Prá fazer uma coisa labrocheira como essa eu acho que só tem um jeito : ele envia o pincel no cu e fica rodando prá lá e prá cá, como um pião doido.Nãããããooooooo!
                                   Por trás da empanada se ouviram gritos abafados e mal contidos. Parece que o leite de Vicente tinha acabado de talhar.  
J. Flávio Vieira