Arquivos mensais: novembro 2012

Pio


A s cidades, talvez por serem do sexo feminino, guardam no closet um sem número de vestidos que os vai escolhendo, propiciamente, conforme a ocasião. Há as roupas de gala  para os ensejos festivos, os uniformes mais recatados para os dias de labuta, as fardas para os momentos mais tensos , os hobbies para os instantes mais caseiros. À noite, quando passeiam pela periferia, as cidades, em feitio de baile carnavalesco, gostam de envergar fantasias e máscaras e se esbaldam, na surdina, que afinal ninguém é de ferro! E são em geral os poetas, os boêmios, os sátiros que ajudam as cidades a se travestirem para o corso,  quando os olhos oficiais da vila já ressonam. As fotografias registram as cidades com as vestes mais chiques e burocráticas, os trapos do bloco de sujos, em geral,  passam despercebidos das câmeras, dos flashes e da   história.
                                               O Crato sempre foi muito afeito às fantasias de carnaval e trajou-as, sempre, com quase igual  freqüência com que  portou os vestidos longos e seus penduricalhos. E aqui tivemos estilistas carnavalescos do mais fino jaez : Chico Soares, Melito, Zé de Matos, Zé Gato, Abidoral Jamacaru, Zé Ribeiro, Chico Piancó , Júlio Saraiva, isso para falar apenas de alguns nomes mais icônicos. Pois bem, hoje , vou relembrar uma das mais irreverentes figuras do Cariri . Chamava-se Pio Carvalho e nasceu em terras de Frei Carlos em 1877. Fez a última viagem, já velhinho,  em 1963.  Foi poeta , chegou a escrever um livrinho que ainda vi na biblioteca do meu avô materno, onde mesclava poemas e histórias bem humoradas.
                                                No primeiro quartel do século passado , espírito aventureiro, saiu mundo afora com outro personagem presepeiro da cidade, Teófilo Siqueira,  que era Boticário aqui, na Rua do Fogo. Pio receitava e Teófilo, que já levava os remédios acondicionados na carga  de um burro, aviava as receitas, mato adentro. Rápido no gatilho, Pio tinha um finíssimo senso de humor. Pena que a maior parte das suas tiradas tenham se perdido, possivelmente, por conta do alto teor de pimenta que carregavam. Vou lembrar algumas neste artigo que me chegaram de língua em língua , deixo-as aqui registradas , antes que a fuligem do tempo as soterre.
                                               Na famosa viagem empreendida por Pio e Teófilo, como bandeirantes, levando uma medicina rudimentar para o interior do Nordeste, consta que , um dia, pediram guarida na casa de um matuto. À noite, sabe-se Deus como, Teófilo saiu sorrateiramente e terminou bolinando uma das filhas do hóspede que dormia numa rede , num quarto próximo. Houve uma gritaria danada e Teófilo, descoberto, fingiu que era sonâmbulo. No outro dia, já novamente na estrada, Pio que não engoliu a versão, quis saber a verdade. O boticário desconversou e disse que estava com sede e tinha ido procurar a quartinha, na cozinha e errara o caminho. Pio , incrédulo, retrucou:
                                               — Conversa fiada, Teófilo ! Gargalo de quartinha não tem cabelo, não !
                                               Rapazinho  Pio Carvalho tinha um retrato oficial para ofertar às namoradas que se sucediam. Escrevia atrás, apaixonadamente : “ Fulana, receba este retratinho como prova do meu amor por ti!” Quando o romance terminava, Pio colava um papel atrás da fotografia e esperava um novo amor. Encetado novo namoro, repetia, agora já no papel novo, a mesma frase, trocando, claro, o nome da antiga amada, pela nova conquista. Passados os meses, papel após papel colado e sobreposto atrás da foto, a fotografia começou a aumentar muito o volume. Tanto que um dia, Pio já escreveu :
                                               –“Querida Eufrázia, receba este tijolinho, como prova do meu amor por ti. Do Teu, Pio” .
                                               Do livro de Carvalho, que ainda folheei, lembro-me de uma história bastante interessante. Chegara um circo novo numa pequena cidade do interior, quem sabe, Matozinho ? Como sempre, os artistas saíram em cortejo fazendo propaganda do espetáculo. Visitaram a casa de autoridades e , depois, foram até à igreja visitar o padre e pedir a bênção, uma vez que iam instalar o circo ali na Praça da Matriz e temiam algum protesto da igreja que não gosta de concorrência. Entraram dois malabaristas, no templo, plantando bananeira e foram, assim, falar com o vigário, artisticamente, levando-lhe alguns ingressos de cortesia para abrandar-lhe o coração.  Nisso , entraram duas beatas na igreja, que não sabiam da novidade e se achegavam para a confissão da tarde. Ao verem os dois homens de ponta cabeça , uma se assustou e avisou à outra :
                                               — Comadre, vamos voltar já  ! A penitência do padre hoje tá prá lascar e , com um calor danado desses, nós num viemos prevenidas , não !
J. Flávio Vieira

Leilões


Na novela “Gabriela”, recém reapresentada na TV brasileira, numa adaptação do Romance do nosso centenário Jorge Amado, há uma cena típica da época retratada : a Ilhéus dos anos 20.   Ina, uma quenga novinha, cheirando a cueiro, tem sua estréia de gala no Bataclã, quando sua virgindade é posta em leilão pela cafetina Maria Machadão, expondo-a aos esfaimados coronéis baianos do ciclo do cacau. Pareciam imagens típicas de um período pretérito, aqueles tempos em que o casamento era uma mera instituição burocrática, uma fábrica de fazer herdeiros e manter o patrimônio das famílias mais abastadas; sem nenhuma ligação com os prazeres de alcova, geralmente procurados pelos homens, nos cabarés,  junto às profissionais do ramo. Hímen, então, era apêndice de luxo, guardado e velado a sete chaves; passível de, roto, impelir pessoas aos crimes mais hediondos. A preservação quase que doentia desta película, inclusive, precede ao cristianismo e à pretensa virgindade de Maria. Gregos, Fenícios e Romanos  vigiavam as fronteiras sexuais das suas moças, mais que os muros dos seus castelos.
                                               Nas últimas décadas, no entanto, aparentemente, a virgindade viu esvair-se   sua importância. A iniciação sexual dos jovens tem começado cada dia mais precocemente e ninguém mais se preocupa com essa história de selo. Os meninos se queixam , inclusive, que é um saco, que dá trabalho, que atrapalha. E , mais, deixou de ser condição sine qua non no casamento, ninguém se encuca mais com a inauguração, com o invicto, com quem primeiro passou pela porta da loja, mas sim com o conteúdo do estabelecimento. Virgindade,  de virtude,  passou a ser démodé, brega, a cheirar a mofo e a cafonice.
                                               A  notícia que invadiu a imprensa, nos últimos meses, pois, parece , no mínimo, estranha.  Catarina Magliorine , uma linda catarinense de vinte anos, resolveu leiloar sua virgindade, na internet. Existe, inclusive, um site especializado neste leilão eletrônico e se chama “Virgins Wanted”. Na última quarta –feira , um japonês ( o Coronel Jesuíno do momento ) viu o martelo bater e arrematou a prenda por , nada mais-nada menos ,que um e meio milhões de reais. O Bataclã do Século XXI será instalado em um avião e a lua de mel acontecerá num vôo entre a Austrália e os Estados Unidos.
                                               Nesta semana, ainda, noticiou-se, Brasil a fora,  uma outra calamidade. No município de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, na fronteira com a Colômbia, a virgindade de meninas índias é comprada por um Celular, uma peça de roupa, uma caixa de chocolate ou por R$ 20,00. Existe todo um esquema criminoso envolvendo comerciantes locais, militares, motoristas  e até políticos no aliciamento de menores.
                                               Reflitamos um pouco sobre estas questões. Os casos do Amazonas não são tão diferentes do Bataclã do nosso Jorge Amado. Crianças são levadas à prostituição por mero instinto de sobrevivência . Já a nossa Catarina expõe-se, publicamente,  num leilão,  na busca desvairada pelo sangri-lá do consumo, inseto que já ferroou, inclusive, as nossas indiazinhas que se entregam , às vezes, por roupas de marca. A virgindade, talvez, pela raridade nos dias de hoje, volta a encantar . Se ontem mantinha seu infinito valor por conta da dificuldade em ser defenestrada, hoje reassume os valores de outrora, pouco a pouco, por vir se tornando um objeto em franco processo de extinção. O japonês e os meliantes do Amazonas compram-na , a preço de mercado, com a mesma sanha de um colecionador que adquire um Renoir para exibi-lo como parte da sua coleção. Nenhum dos dois tem qualquer amor à arte, fazem-no com a simples intenção de se mostrar para outros membros da sociedade, de pousar de bacana. Só. 
                               Como se vê, a história dos nossos costumes parece  andar em círculos. De repente, a virgindade volta a entrar em foco, a prostituição que se pensava seriamente ameaçada pela liberalidade sexual, reacende seu vigor; claro que com nuances e tonalidades diferentes. O imutável é apenas a Lei Internacional da Supremacia dos Poderosos sobre os Desafortunados. Continuamos numa mesma sociedade de castas, onde tudo está posto num balcão de negociação, tudo !  Dinheiro e poder compram tudo : amor verdadeiro, como dizia Nélson Rodrigues; beleza; santidade; reputação; saúde. Por enquanto,  apenas a morte ainda não entrou no processo de licitação, mas seu adiamento, sim.  A honra , neste mercado, vale alguma coisa entre o meio milhão de Catarina à caixa de chocolate das indiazinhas do Amazonas. 
J. Flávio Vieira

Luciana Santos :: Deputada Federal – PCdoB continuará defendendo 100% dos royalties para educação

Luciana Santos :: Deputada Federal – PCdoB continuará defendendo 100% dos royalties para educação
Publicado em 07/11/2012 



PCdoB continuará defendendo 100% dos royalties para educação
A Câmara dos Deputados votou nesta terça-feira (6), o Projeto de Lei sobre a distribuição dos royalties do petróleo. Em nota divulgada nesta quarta-feira (7), a bancada do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), reforçou sua posição de defesa dos 100% dos royalties para educação.

De acordo com a deputada Luciana Santos, líder do partido, a vinculação de recursos para a educação é um dos pontos mais importantes neste tema pois viabiliza a meta do Plano Nacional de Educação de investir 10% do PIB em expansão e qualidade da educação.

Para suprir a lacuna deixada pelo projeto aprovado a bancada comunista apresentou Projeto de Lei onde propõe a reposição de vínculo dos recursos do petróleo para educação, sendo 100% dos royalties dos Estados e Municípios e 50% dos rendimentos do Fundo Social do pré-sal.

“A vinculação de royalties e participação especial e de parte de rendimento do Fundo Social permitirá um adequado financiamento para a educação, sem elevar a carga tributária e porque, sendo novos, não reduzem recursos atualmente já destinados a outras despesas orçamentárias de qualquer dos entes federados“, diz a justificativa do PL.

Leia a nota:
A Câmara dos Deputados votou ontem à noite o Projeto de Lei sobre a distribuição dos royalties do petróleo. Em coerência com nossa posição, votamos pela aprovação do texto do relator, deputado Carlos Zarattini, que além de redistribuir mais justamente os royalties do petróleo entre Estados e Municípios, ainda vinculava esses recursos para a área de educação.

No entanto, a proposta foi derrotada, com a maioria preferindo aprovar o texto do Projeto de Lei que veio do Senado.

Esta vinculação de recursos para a educação era uma das questões mais importantes do projeto, pois viabiliza a meta do Plano Nacional de Educação de investir, ao final de dez anos, 10% do PIB em expansão e na qualidade da educação.

Quando posta em votação o texto do Senado, sem alternativa, a aprovamos – liberando o voto da deputada jandira Feghalli, do Rio de Janeiro, contrária à matéria –  que de igual maneira promove nova distribuição dos royalties, mas não contém sua vinculação ao investimento na educação.

Para preencher a ausência dessa vinculação para a educação, nossa Bancada já apresentou, hoje, o Projeto de Lei 4.671 em que repomos a vinculação desses recursos do petróleo para educação, sendo 100% dos royalties dos Estados e Municípios e 50% dos rendimentos do Fundo Social do pré-sal.
 

Brasília, 7 de novembro de 2012.

Deputada Luciana Santos
Líder do PCdoB
 

De Brasília;
Ana Cristina Santos