Arquivos mensais: novembro 2012

Mordendo pelas beiradas


Passadas as eleições municipais aqui em Crato, desencadeamos, imediatamente as especulações quanto aos cargos de primeiro e segundo escalão na administração  da prefeitura cratense. De um lado, há o depressivo “arruma a mala aí”, do outro a euforia do “prepare a mala lá”. À medida que se foram divulgando os nomes do futuro secretariado , encetou-se, nas redes sociais ,um grande movimento com o fito de apontar nomes para cargos ainda vacantes como Meio Ambiente, Cultura e Saúde ( alguns desses nomes, diga-se de passagem, de competência indiscutível).  Alguns grupos, inclusive, se reuniram no sentido de promover seminários com alguns especialistas, escolhidos por eles, pensando na perspectiva de contribuir com idéias e programas para a nova gestão municipal. Como sempre, nessa massa heterogênea, há muitos bem intencionados e alguns aproveitadores que ficaram em cima do muro no processo eleitoral, esperando para que lado penderia o fiel da balança e que agora, de repente, aparecem como salvadores da pátria, querendo mostrar serviço e ( quem sabe?) morder a beiradinha de um ou outro cargo que por ventura apareça.
                                   Ora, amigos, qualquer uma das iniciativas me parece totalmente despropositada. É de se imaginar que os eleitores , acompanhando atentamente os programas dos candidatos e suas propostas no processo eleitoral, escolheram seu prefeito ,cuidadosamente , antenados com o Programa de Governo que apresentaram para o Crato. Nego-me a acreditar que possam ter votado nesse ou naquele por conta da sua simpatia, do parentesco ou porque lhe prometeu um emprego ou lhe  deu um dinheirinho. Se foi por uma dessas  razões, então não tem o que cobrar, é botar a violinha no saco e esperar calado o kit que será ofertado. Se, por acaso, votou no Programa, também não há o que espernear. O momento exato de discutir e modificar esse programa de governo era antes da eleição. Engajar-se, mostrar a cara e discutir com todos o melhor para o Crato e levar as propostas ao partido e ao candidato preferido. Passada a eleição, amigos, já não há nada a fazer, assinamos um cheque em branco e , agora, temos que confiar que será preenchido de maneira adequada e com a quantia esperada.
                                   Precisamos compreender o processo democrático. O candidato vencedor tem um programa de governo a cumprir e, mais, um sem número de compromissos eleitorais de que precisará  se desvencilhar. Não existirão, certamente, nomes perfeitos e adequados para sua assessoria , divorciados das suas afinidades políticas e dos rumos  e metas que traçou. Imaginem se o forçamos escolher um secretário capacitadíssimo mas com quem politicamente não se afina! Será o secretário fritado , não terá espaço na gestão e sairá queimado e desacreditado.  Seminários agora são perfeitamente inócuos, não têm qualquer serventia. Deixemos o futuro prefeito à vontade para escolher os seus assessores e executar o plano de governo previsto. Se necessitar da opinião de qualquer um de nós, terá , com certeza, a desenvoltura de nos solicitar.
                                   O Crato escolheu, em outubro último, com votação recorde, seu prefeito. A cidade entendeu, pois, (expresso esse entendimento na maioria dos seus votantes), que Ronaldo Gomes de Matos é o mais capacitado para administrar nosso município nos próximos quatro anos. Pois bem, ele tem todo direito legal e moral para fazê-lo. Cabe a ele e tão-somente a ele a responsabilidade de escolher os melhores e mais qualificados assessores para acompanhá-lo nesta árdua empreitada. Não votei nele, mas torço de coração para que consiga alavancar a cidade de Frei Carlos e tirá-la do marasmo histórico em que se encontra.
 J. Flávio Vieira

Bateia

Acabo de me reunir , aqui no Recife, com os colegas de Medicina, comemorando os trinta e cinco anos de formatura. Como sempre acontece, há companheiros mais próximos e aqueles que tínhamos visto pela última vez na colação de grau. Há sempre alguns com quem sempre tivemos uma maior empatia e outros que privaram menos da nossa afeição. A vida louca e breve nos dispersou pelo mundo, cada um em busca do seu sonho e das suas realizações pessoais. Passados os anos, pomo-nos a perceber que a história é mais importante que a geografia e vemo-nos imantados pela imperiosa necessidade de buscar testemunhas de uma época áurea da nossa existência, onde o sol brilhava mais intensamente, onde a felicidade colhia-se nos galhos mais baixos das árvores, onde a longa estrada à frente impelia-nos a colher os muitos frutos pendentes e à aventura chapeuzinhovermelhiana de buscar o caminho da floresta ao invés das pacíficas veredas do rio. Muitas e muitas luas depois, embora enveredando por trilhas diversas, terminamos por perceber que , à frente , as aparentes paralelas   novamente se cruzam e que, sem que tivéssemos nos dado conta, percorríamos todos, um mesmo trajeto. Ei-nos , pois, sobreviventes de muitas guerras, contabilizando os poucos espólios de tantas batalhas, descobrindo ,atônitos, que o Shangri-lá não existe como fim, apenas como meio.  E mais :  que o pote de ouro  a que todos almejávamos não estava abaixo do arco-íris,  mas nas retinas de cada um dos  caçadores de esmeraldas e que era tão-sòmente a indefectível beleza multicolorida do próprio  arco-íris.
                                               O tempo, este ourives incansável, lapidou as brutas rochas que tinha às mãos. A bateia dos anos peneirou o cascalho dos ressentimentos, a ganga bruta das frustrações, os seixos imprestáveis  das paixões menores. Até os sulcos inevitáveis das nossas feridas de guerra parecem ter ganho uma luminescência especial, como um fogo fátuo dos nossos muitos sepultamentos interiores.  O inventário final do garimpo : uma pepita brilhante e imaecível : A vida vivida e a ser vivida !
                                               Folheando o antigo livro de chamadas, bate-nos o amargo gosto da impermanência:  contatamos que já muitos não respondem com o seu : Presente ! Os que continuam na caminhada descobrem uma nova responsabilidade: necessitam viver para si mesmos e por aqueles que acabaram, prematuramente, caindo à margem do caminho. Fechado o balanço de tantos sonhos percebemos que a memória de todo este milagre indefinível depende das testemunhares oculares deste sonho : nossos colegas de travessia.  Sem os muitos viandantes, a estrada não existiria: a única prova material da magia da minha existência  está na lembrança dos meus companheiros. Sem eles minha vida não existiria; sem a minha memória,  a existência de todos eles teria sido um mero efeito especial de um filme b.
                                               Celebrar a intersecção  das muitas retas que um dia pareciam paralelas remete-nos aos insondáveis mistérios da nossa geometria existencial. Parodiando Carl Sagan não parece ter sido mera coincidência que diante da incomensurável dimensão do universo, da vastidão impalpável do tempo, todos nós tenhamos divido juntos a mesma época, o mesmo chão e os mesmos sonhos.  
J. Flávio Vieira

Jefferson de Albuquerque Junior – O mundo é seu lugar


Um andarilho do cinema com trabalhos desenvolvidos nos mais diversos estados brasileiros e com uma preocupação política nos seus trabalhos, em especial pela questão ambiental Jefferson de Albuquerque Junior vem desenvolvendo o seu trabalho de cinema e educação cinematográfica no Brasil.  “Mesmo não sendo panfletária a arte é o reflexo de uma época, e direta ou indiretamente reflete o momento político…arte tem que ser participativa, engajada…mas sem perder a beleza, a estética… ressalta o cineasta.
Alexandre Lucas – Quem é Jefferson de Albuquerque Junior?

Jefferson de Albuquerque Junior –
Modado
nos tempos
Passado
re-moendo ando no espaço.
Mudando vida
caminhando canto
pelas ruas
passo e ando
chego lá!

Sou um caririense apaixonado pelo mundo, pela vida…Tenho raízes…mas não sou árvore, o mundo é meu lugar…tanto faz Crato, como o Rio, como Bahia, com Vitória, Itaúnas, Brasilia, Lima, Buenos Aires, Lisboa, Paris…me sinto bem em qualquer lugar e participo sempre ativamente  das atividades artísticas e culturais no local onde me encontro…sou participativo…ativo no processo de criação…na lutas pela preservação ambiental de todo um planeta…sou Latino Americano nascido no Crato…sou um “Caririoca”!

 
Alexandre Lucas – Quando se deu os seus primeiros contatos com as artes?

Jefferson de Albuquerque Junior No Instituto São Vicente Ferrer, no Crato, das irmãs Anilda e Alda Arraes, quando faziamos nosso teatrinho…assistindo os filmes do Cine Cassino, Moderno, Educadora…Depois na Bahia, vivendo na efervescência do Teatro Vila Velha, vendo a turma da Bahia nascer para a música…estudando Cinema com Guido Araújo e Walter da Silveira, na UFBA…a seguir em Brasilia, na UnB, no curso de arquitetura…

Alexandre Lucas –  O que foi fazer cinema no Cariri no tempo que você inicio sua carreira?

Jefferson de Albuquerque Junior Comecei a fazer cinema em Brasília, depois vim para o Cariri, fizemos uns dois super 8, um ficção com Pedro Ernesto Alencar e Rosemberg Cariry, entre outros (Múcio,Célia teles, Zulene e Socorro Sidrim, Jackson Bantim…)o outro sobre os Penitentes das Cabeceiras, em Barbalha, com Cristina Prata e Pii (Maria do Carmo Buarque de Holanda)…não era tão fácil como hoje…não tínhamos equipamento…o Pedro Ernesto, como era o rico da turma ganhou uma Câmera de Super 8…. a Cristina trouxe de São Paulo…éramos pioneiros…

Alexandre Lucas – Fale da sua trajetória
Jefferson de Albuquerque Junior Depois disto veio a produção do longa “Padre Cicero”,  do Helder Martins, onde fui cenógrafo e ator…fui embora com a equipe para o Rio me profissionalizar. A equipe deste filme era das melhores, Zé Medeiros como fotografo, Walter Carvalho e Antonio Luiz como assistente  de câmera, Cacá Diniz como produtor…Jofre Soares, Dirce Migliaço, Cristina Aché, Heliana Menezes, Ana Maria Miranda no elenco…Depois Marcos Matraga e Hermano Penna vieram fazer um Globo Repórter “Juazeiro do Padim Cicero’, fiz cenografia e assistente de produção…No Rio logo consegui trabalhar em “Lúcio Flávio- O Passageiro da Agonia de Hector Babenco, com Reginaldo Farias, Grande Otelo, Ana Maria Magalhães, Pereio, Lady Francisco…daí um filme puxava outro, eu como cenógrafo (na época não chamavam direção de arte…trabalhei a seguir em A Rainha do Rádio, de Luiz Fernando Goulart, com Nelson Xavier, Paulo Guarniere, Ana Miranda…”Amantes da Chuva” de Roberto Santos, “Eles Não usam Black-Tie” de Leon Hirzman, com Guarniere, Fenanda Montenegro, Bete Mendes ….Também ressalto  “Asa branca- Um Sonho Brasileiro” de Djalma Batista, que lançou Edson Celulari….Depois destes ainda participei de vários outros longas com diretores paulistas, brasilienses, mineiros e cariocas, até ajudar como produtor executivo, cenografo e diretor de produção de filmes cearenses como “Tigipió” e “O Calor da Pele” de Pedro Jorge de Castro, “O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto”, “O Guerreir Alumioso” e “Corisco e dadá” de Rosemberg Cariry, e Diretor assistente de “Luzia Homem” de Fábio Barreto, com Claudia Ohana, Zé de Abreu, Thales Pan Chacon entre outros do elenco cearense, como Antonieta Noronha e Ari Sherlock …Dos curtas metragens cearenses na mesma função fiz “Cotidiano Perdido no Tempo” e O Ultimo Dia de Sol, de Nirton Venâncio; O Pau Brasil, de Francis Valle. Como roteirista e diretor fiz  “Dona Ciça do Barro Cru’ em 1980, um premio da FUNARTE, ‘Músicos Camponeses”, “Patativa do Assaré- Um Poeta do Povo” em parceria com Rosemberg, todos estes também premiados no CONCINE e prêmios em festivais da Bahia, Brasília e Gramado. “Ana Mulata” foi uma ficção baseada em conto do meu avô materno Jose Alves de Figueiredo …além de “Arrais taí” e “Um Artista Chamado Zé”….Mais recentemente, com o meu retorno ao Cariri, fiz os três médias metragens sobre a Chapada do Araripe ‘Chapada do Araripe- A Questão dos Fósseis”, “Chapada do Araripe-Uma questão Ambiental” e “Chapada do Araripe-Uma visão do Futuro”. Por fim com prêmio da SECULT-CE adaptei um conto do José Flávio Vieira, “O Cinematógrafo Herege”, uma comédia com elenco caririense e agora com outro edital da SECULT, estamos lançando “UMA HISTÓRIA DA TERRA”, documentário sobre a ocupação do Caldeirão pelo MST em 1991 e hoje, 21 anos depois. Entre estas atividades no Cariri, orientei 40 curta metragens ambientais no estado do Espírito Santo,no MOVA CAPARAÓ ITINERANTE, na região do Caparaó e do Rio Itaúnas, além de dirigir um curta e um média…”Mosaico Capixaba”, ficção e “Parque Estadual de Itaúnas e a Mata Atlântica”….Com estes trabalhos recebi o título  de Cidadão Espírito Santense. Na TV Globo fiz os cenários da mine série ‘O Pagador de Promessas’ de Dias Gomes, com direção da minha amiga Tizuca Yamazaki e cenário de uma edição especial de “A Grande Família”…
Alexandre Lucas – Quais as influências do seu trabalho?  

Jefferson de Albuquerque Junior Uma grande influência foi uma mistura de Cinema Novo e Chanchadas brasileiras, além da estrangeira na Novelle Vouge, realismo italiano, também os filmes de Igmar Bergman…estes filmes passavam no Crato, no Cine Cassino e Cine Moderno e depois nos cinemas de Salvador. Um dos diretores que mais me influenciaram no Brasil foi Walter Lima Jr., além de Leon Hiczman e Roberto Santos, e o nosso Hermano Penna, com quem fiz “Fronteiras das Almas” e agora recentemente “Os Ventos que Virão”… 
Alexandre Lucas – Como você analisa a produção cinematográfica brasileira? 

Jefferson de Albuquerque Junior Venho de uma geração logo pós cinema novo, geração da EMBRAFILME e vejo com bastante alegria um período fértil de produções descentralizadas do eixo Rio x São Paulo, com destaque para o polo de Pernambuco e também muitas produções cearenses. Nesta fase do cinema digital, mais democrático, agora produzir um filme digital esta sendo possível para todas as classes sociais… antes apenas uma elite produzia, hoje não…mesmo tendo uma grande dificuldade na distribuição, apenas as produções globais conseguem uma fatia grande do mercado..mas temos a internet para divulgar, os cine clubes… A distribuição ainda é o grande gargalo do nosso cinema….se produz muito, mas se distribui pouco, poucos assistem o que esta sendo produzido…A esperança agora é a nova lei de mercado para as TVs por assinatura…
Alexandre Lucas – Como você analisa a relação entre arte e política?

Jefferson de Albuquerque Junior Uma é consequência da outra..Não consigo divorciar arte de política…Mesmo não sendo panfletária a arte é o reflexo de uma época, e direta ou indiretamente reflete o momento político…
arte tem que ser participativa, engajada…mas sem perder a beleza, a estética…
Alexandre Lucas – Você acredita que o cinema é um instrumento político e  educativo?

Jefferson de Albuquerque Junior O modo de viver capitalista e o socialista tem  no cinema o grande divulgador…cinema é também comunicação, as grandes idéias, as ideologias políticas estão transparentes no cinema, na TV…Na educação o cinema é uma grande arma, instrumento, muito embora poucas escolas na pratica o adotem, é tão fundamental assim como os livros…
Alexandre Lucas – Quais os trabalhos que você atualmente está desenvolvendo?  
Jefferson de Albuquerque Junior Atualmente estou, com muitas dificuldades, desenvolvendo o Projeto Audiovisual de Educação Ambiental da Chapada do Araripe, com o  projeto piloto no municipio de Barbalha e nas ONgs Juriti e Zaila Lavor de Juazeiro do Norte e da comunidade do Carrapato, no Crato. Trabalhamos com a noção de pertencimento da região da Chapada do Araripe, com exibição dos filmes bases d projeto, discussões e oficinas de realizaçaõ audiovisual…no final os alunos produzem filmes ambientais sobre as suas relações com a Chapada do Araripe, em ficção ou documentário. Também independente do projeto, participando dos editais da SECULT…e produzindo filmes com nossa temática, com a história fo nosso povo…