Rio com um barulho desses

Com a morte do velho Venceslau  Kandanga, após as lágrimas pouco sentidas, os filhos se reuniram para fazer o balanço do que interessava: o espólio. Estavam todos contendo uma indisfarçada felicidade. Venceslau vinha de uma ascendência abastada: fazendas, terras, imóveis e dinheiro em espécie eram perceptíveis nos velhos retratos espalhados na parede. O patriarca da família — Kandic Kandanga — teria vindo da Armênia, aí pelo início do Século XIX e, de mero vendedor de confecções, terminara por montar um imenso império fabril. Com as gerações e os inventários  que se sucederam,no entanto, os novos ricos foram pouco a pouco dissipando o patrimônio. Riqueza adquirida sem  suor, evapora como ele. Entre uma e outra amante, entre uma e outra excentricidade, entre uma e outra separação judicial, os cobres duramente conquistados por Kandic, esvaíram-se como por encanto.

                                   Aberto o testamento do tetraneto de Kandic, o velho Venceslau, não deu outra. Ficara apenas a casa do patriarca e   um prédio de cinco andares – o Edifício  Rio– , sito num bairro não muito privilegiado, para ser rateado entre os dez filhos, três viúvas e seis netos de Venceslau.  Iniciou-se, imediatamente, a terceira guerra mundial. Familiares endividados, mantendo, porém,  a importância dos tempos áureos, cada um desejava levar o maior pedaço do último quinhão. Arrastando-se a pendenga, para o gáudio dos advogados, terminaram por ter que vender a casa para cobrir as custas judiciais e, sob risco de ficar a herança para os causídicos e não para os descendentes, entraram por fim num acordo. Resolveram, salomonicamente, dar um apartamento do edifício para cada  herdeiro e, depois de mais de dois anos, por fim, fecharam o inventário do velho Venceslau.
                                   Como estavam todos na maior pindaíba, morando de aluguel, mudaram-se todos para seus apartamentos recém herdados.  No primeiro momento, as coisas andaram bem. Todos se sentiram de alguma maneira felizes com o alívio financeiro. Mas era bem previsível : a bomba estava armada e com estopim faiscante e curto. As desavenças não demoraram. Conflitos relativos às pretensas melhores condições de um ou outro apartamento se tornaram frequentes.  Começaram os atrasos reiterados da taxa de condomínio, por incrível que possa parecer executados pelos mais remediados e não pelos mais pobres. Exatamente atrasavam aqueles que mais consumiam a água e a luz. A conservação do velho prédio estava péssima e já apareciam algumas rachaduras progressivas em algumas paredes.  Eram marcadas reuniões com os moradores,  geralmente inúteis, pois os inadimplentes faltavam. Um belo dia,  o esperado ocorreu: desligaram a luz e cortaram a água do imóvel. Aí a gritaria foi geral. Os pobres reclamavam com razão, pois estavam pagando pela irresponsabilidade dos outros. Os menos lascados empavonavam-se, mantendo aquele ar de importância que herdaram dos seus ascendentes e dizendo enfaticamente : —  é nisso que dá, querer ser simples e vir morar num muquifo desses!
                                   Marcaram uma reunião de emergência, mas ninguém compareceu: simplesmente porque nenhum queria arcar com a vaquinha necessária para sanar o problema. Uns dois meses depois, no escuro e seco como outubro em Picos, no meio da noite, ouviram-se um grande estralo e um pequeno tremor. Todos acordaram apavorados e desceram as escadas num átimo. Em pouco, toda a descendência do velho Venceslau estava de camisola e pijama no meio da rua. Chamada a Defesa Civil, após vistoria, o Edifício  Rio foi condenado: Está prestes a cair, não tem qualquer condição de habitabilidade, disse o Coronel responsável. Providenciadas , de urgência, algumas tendas, à noite,  o Síndico chamou, por fim, mais  uma Reunião de condôminos. Pressionados, por fim, os moradores , já sem teto, resolveram comparecer. As discussões foram longas e demoradas. Depois de umas cinco horas, finalmente, houve consenso. A Ata foi devidamente lavrada : O problema será resolvido pelas futuras gerações dos Kandic, marcaram , então, uma próxima reunião para daqui a vinte anos quando os futuros herdeiros do Edifício Rio, já taludos e em condições de deliberar,  deverão tomar as devidas providências. O convite já foi até redigido e o conclave já tem um nome : Rio + 20.
 
J. Flávio Vieira

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