Arquivos mensais: abril 2012

O CARIRI TEM SAMBA

O nosso querido e amado Cariri tem artista por tudo que é canto. Como disse certa vez minha querida amiga Izaira Silvino, por onde você anda nessa região esbarra com um artista. Eu diria que, graças a Deus que é mesmo assim. Para todas as tendências de arte, o maior destaque sem dúvida que é a música. Nela estão inseridos diversos ritmos, indo do coco, embolada, forró autêntico, baião, samba, xote, mpb, passando pelo rock, pop-rock, blues, jazz e todas as variações desses ritmos. É um cenário deslumbrante, riquíssimo e de primeira qualidade. Dentre os já citados ritmos, quero aqui dar uma ênfase ao samba, um dos ritmos mais brasileiros e que, durante algum tempo andou meio esquecido pelos nossos músicos. Aqui e acolá, algum artista coloca um samba em seu repertório, mas sem dar maior destaque e importância devida. Agora esse delicioso ritmo está tendo um merecido reconhecimento através de um grupo recém formado aqui no Crato. É o “SAMBA DE MINUTO”, formado por jovens artistas e músicos do Cariri, e que vem fazendo a diferença em suas apresentações. O grupo, formado com a maravilhosa voz de Janinha Brito, o delicioso violão de Cidinho, o fino pandeiro de Walesvick Pinho, a batida perfeita da percussão de Rodrigo Moura e o ritimado cavaquinho de Savio Souza, tem animado e muito as noitadas caririenses e nos brinda com deliciosos sambas dos mais respeitados compositores brasileiros. É ouvir e sentir o pulsar do coração chamando para a dança, a festa e a alegria. Samba é o nosso ritmo mais festejado, cultuado e admirado e agora aqui no Cariri o grupo “SAMBA DE MINUTO” está o levando para o nosso prazer.

Se você quer ouvir o “SAMBA DE MINUTO”, nesta próxima segunda-feira, dia 30, véspera de feriado, o grupo vai se apresentar no “TERRAÇUS – Bar e Petiscaria”, um maravilhoso espaço que fica no triângulo do Grangeiro em Crato. Lá vai rolar o SAMBA DE PÉ (de serra), com o grupo. Começa por volta das 20h, mais cedo para não perturbar tanto a vizinhança, e vai ser cobrado cinco reais por pessoa de couvert artístico. Vai ser uma noitada regada a muito samba, cerveja e feijoada, além da alegria do encontro com pessoas bacanas. Vamos nessa?

Valei-me, Meu Sâo Luiz !

Matozinho sempre foi antenada com as novidades mundo afora. Nos primórdios da sua história, elas chegavam através dos tropeiros e caixeiros-viajantes. Eles eram esperados na cidade ansiosamente e traziam consigo não só suas quinquilharias, mas também  a moda e  costumes da capital. Nesta época a Vila ligava-se ao mundo por trilhas varadas apenas por animais de carga. Com o tempo, foram melhorando os meios de transporte e os caminhoneiros receberam a missão que um dia  tinha pertencido aos tropeiros. Os Caixeiros  investiram-se de ares de nobreza e passaram a ser chamados de viajantes e depois Representantes Comerciais. Com a melhoria do transporte e, mais tarde, a chegada da TV, as novidades do consumo aportaram em Matorzinho quase que de forma imediata, sem nenhum delay. Um outro fator importantíssimo na modernização dos costumes da Vila : o retorno de matozenses que fugindo da seca haviam emigrado para o Sudeste. Passada a fase de euforia, quando o concreto armado caía por fim nas suas cabeças, voltavam para sua cidade natal, geralmente contando vantagem, cagando goma, com a língua trôpega: cravejada de chiados, de  “uais” e de “carambas”.
                                   Nesses dias,  aportou em Matorzinho, vindo de “Sum Paulo”, um desses filhos pródigos :  Sonisvaldo Coité. Trabalhara no  Sudeste numa infinidade de empregos, até ter se especializado , finalmente, como garçon. Migrou daí para uma Pizzaria, onde terminou por se firmar como Pizzarollo, um dos mais consagrados da capital paulista, segundo sua própria avaliação.  Fizera um acordo com a firma e recebeu uma graninha boa, proporcional aos mais de dez anos que trabalhou por lá na beira do forno. Vaval , este era o apelido carinhoso que nosso pizzarollo já não reconhecia, trazia consigo já a determinação de se estabelecer no comércio da sua cidade natal : vou botar a primeira Pizzaria de toda Grande Matorzinho , vaticinou ainda no ônibus, nosso Coité. Mal  desembarcou ,com sua indumentária esdrúxula : botas, gorro do Corinthians, casacão de frio e um tênis paraguaio espalhafatoso; Vaval encetou os preparativos para sua empreitada. Sobe rua, desce rua, terminou escolhendo o ponto que lhe parecia perfeito.  
                                   João do Bozó havia sido proprietário de uma Bodega próximo à praça da Vila que findou evoluindo naturalmente para um mercadinho e, agora, ostentava o vistoso nome de : “Supermercado Santa Genoveva”.Há alguns meses, Bozó providenciara um “puxado” lateral no prédio, pensando numa ampliação futura das instalações. A idéia empacara e  o espaço estava até então inutilizado. Vaval negociou então o aluguel e encetou os preparativos para a instalação daquela que seria a pioneira em massas  em toda região. Antes da reforma, já abriu o letreiro no frontispício, em letras gigantes : “Sonny´s Trattoria” e, para que o povo não ficasse pensando que ali se vendiam  tratores,  logo abaixo explicava : “Pizzas”.  Como era de se esperar,  o povo acorreu célere em busca da novidade de Coité e o empreendimento  se mostrou um sucesso.  Até porque nosso empresário entendeu rapidamente que precisava adaptar a novidade aos costumes locais. Os sabores tiveram que ser acrescentados dos quitutes matozenses e aí surgiram as pizzas de macunzá, de panelada,de manzape,  de sarapatel e de sarrabulho. Às tubaínas , também, foi preciso acrescer algumas bebidas tradicionais como Gingibirra , Aluá e garapa de cana. Tirante estas necessárias adaptações, nada foi mais preciso corrigir para que a “Trattoria” se transformasse num dos empreendimentos de maior sucesso naquele cafundó do Judas. Vaval , inclusive, estava sonhando em levar filiais para Bertioga e Serrinha do Nicodemos. E quem sabe, no futuro, vender franquias da “Sonny´s”para todo país. Tudo ia tão bem!  Mas, como diz o velho Giba: “ pobre só tem as coisas até Deus descobrir, aí toma tudo de volta”.
                                   Algumas questões certamente contribuíram para a tragédia que um dia desabou sobre a “Trattoria”. Primeiro,  a proximidade com o Supermercado de Bozó. Era lá que Vaval se abastecia e por ali não existia prazo de validade de produtos: enquanto o tapuru não comesse toda a carne e o gorgulho esfarelasse todo feijão, negociava-se. Mas o ponto crítico de tudo, certamente, foi a introdução no cardápio, da famosa Pizza de Buchada de Bode. O lançamento do novo produto foi feito com alarde e , no domingo, a “Trattoria”, de repente, viu-se apinhada de gente, pronta a degustar a novidade, apresentada naquele dia com preço promocional. A metade da vila obedeceu aos chamados de Vaval e degustou a nova iguaria ,de difícil conservação, sofregamente, acrescida de maionese caseira ( uma outra novidade perigosa trazida pelo pizzarollo). O certo é que a maionese serviu de estopim e fez explodir a bomba de bactérias da buchada de Vaval.
                                   Em poucas minutos, viram-se todos acometidos de uma caganeira universal e fenomenal. Faltou moita ao redor de duas léguas da pizzaria. Folhas e sabugos eram disputados à tapa. O velho Antonio Sitó que usava calças presas em suspensórios, só nesse dia, gastou mais de cinco : baixando e levantando os elásticos. Negrinho ,mal saía da moita,  já pegava novamente a fila. D. Filismina, uma velhinha esguia, fina que só assovio de sagüi , simplesmente desapareceu. De tanto ir ao mato encontraram apenas o molhado no chão e o filho dela, ajoelhado ante a poça , chorava inconsolado : Mãe dissolveu! Mãe dissolveu !   A família de Juca Caçote estava com o velho de vela na mão, empanzinado há mais de quinze dias. Quando souberam da catástrofe, correram na pizzaria e trouxeram um pedacinho da pizza de buchada e fizeram Caçote , in extremis, engolir. De repente, ouviu-se um murmurejo na barriga do velho e ele começou a se contorcer como se estivesse com  dores de parto. O  barulho tomou forças de trovão e , subitamente, ele gritou :
                                   —“Valei-me, meu São Luiz !” 
                                   Ouviu-se um tiro seco,  como de um canhão no  quartel. Foi um destroço: esgotou-se a fossa, o homem desentupiu e sarou.
                                   Passados os dias, as coisas foram voltando ao normal, em Matozinho. Tirante D. Filismina, não houve baixas. Apenas o  velho Sinfrônio Arnaud preocupava. Há mais de quinze dias permanecia em casa, cabisbaixo e capiongo. Fora acometido da fininha em grandes proporções, mas aparentemente já recobrara as forças. A família preocupou-se com o velho. Vaval e Bozó, então, resolveram fazer-lhe uma visita. Encontraram-no recluso e tristonho , num canto do quarto escuro. Só com muito esforço conseguiram arrancar dele uma explicação. O velho foi enfático, estava bem, não mais sentira nada, mas estava com uma pulga detrás da orelha.
                                   — O que está acontecendo, Coronel, o Senhor tá doente ainda?
                                   — Não, seu Vaval, estive quase com  passagem na mão, mas já sarei.
                                   — Mas por que anda tão triste, tão jururu ? –pergunta Bozó.
                                   — Meu filho,  é que passei mais de três dias cagando sem o cu saber. Aí peguei aqui a matutar:  com um fiofó ignorante desses, que nem dá notícia do que tá saindo, se pode lá confiar num diabos desses, rapaz !
                                   — Confiar como, coronel ? Quis saber Vaval.
                                   — Se inventar de entrar alguma coisa, um fiofó analfabeto desses, será que o miserável vai  dar-se conta ?
J. Flávio Vieira

Pingo de Fortaleza – Uma chuva de musicalidade comprometida


Compositor, músico, brincante, pesquisador  e produtor cultural Pingo de Fortaleza é um artista  que nasceu um ano antes do Golpe Militar e que se envolveu com a música  e com outras linguagens artísticas na adolescência. Recebe esse pseudônimo por ter nascido prematuro. Com uma grandeza de olhar ele destaca que definir o que é  popular e  contemporâneo  está cada fez mais é difícil e perigoso usar estas compartimentações no campo da cultura e da arte. 


Alexandre Lucas – Quem é Pingo de Fortaleza?
Pingo de Fortaleza – João Wanderley Roberto Militão, nascido prematuro em Fortaleza no dia 08 de fevereiro de 1963, músico desde a adolescência e um eterno apaixonado pela arte da vida e pelas artes.
Alexandre Lucas – Fale da sua trajetória?
Pingo de Fortaleza – Comecei ainda menino tocando violão no bairro José Walter e em seguida junto aos amigos da ETFCE onde cursei meu segundo grau, depois fui cursar música na UECE e neste tempo já havia me envolvido com parceiros do teatro e da poesia. Ali no universo do movimento estudantil do inicio da década de 1980 fiz minhas primeiras apresentações e meus primeiros espetáculos individuais. Depois gravei meu primeiro LP em 1986 e nunca mais parei de produzir e seguir nesta viagem musical.

Alexandre Lucas – Como se deu sua relação com a música?
Pingo de Fortaleza – De forma natural, recebendo informações de todas as formas e linguagens e se fortaleceu na adolescência com a audição das músicas do Pessoal do Ceará.

Alexandre Lucas – você é autor do livro Maracatu Az de Ouro – 70 anos de memórias, loas e batuques. O que representa a publicação deste livro para o Maracatu Cearense?
Pingo de Fortaleza – Tenho mantido um envolvimento com o universo da cultura do maracatu do Ceará desde 1990 quando criei a canção Maculelê, acho que o livro traduz um pouco todo o meu aprendizado neste segmento e revela através da história do Maracatu Az de Ouro que ainda precisamos de muitos registros para reconhecer profundamente à rica e significativa presença do maracatu na cidade de Fortaleza.
Alexandre Lucas – Além de pesquisador, você é brincante de Maracatu. Isso possibilitou um olhar diferenciado para produção do seu livro?
Pingo de Fortaleza – Ser brincante me deu mais felicidade em conseguir produzir este trabalho, pois vivo este universo e procuro recriá-lo sempre.
Alexandre Lucas – você é um dos fundadores do Maracatu Solar. Como vem sendo desenvolvido esse trabalho?
Pingo de Fortaleza – O Maracatu SOLAR é um Programa de Formação Cultural Continuada da ONG SOLAR (ONG criada por mim e alguns parceiros em 2005) e de certa forma essa atividade deu mais visibilidade e articulação a SOLAR e também nos possibilitou uma prática mais livre desta manifestação.
Alexandre Lucas – Você agrega na sua musicalidade o popular e o contemporâneo?
Pingo de Fortaleza – Em minha arte agrego sempre aquilo que me vem de inspiração e atualmente tenho usado pouco essas nomeclaturas, por compreender que todas os gêneros estão de certa forma conjugados e que está cada fez mais é difícil e perigoso usar estas compartimentações no campo da cultura e da arte.
Alexandre Lucas – Como você ver a relação em entre arte e política?
Pingo de Fortaleza – Acho que no campo filosófico a arte é parte integrante das relações humanas na sociedade, portanto qualquer fazer artístico é uma ação política, contudo não me refiro à política de estado ou governo.
Alexandre Lucas – Quais os seus próximos trabalhos.
Pingo de Fortaleza – Depois dos cds Prata 950 (2009), Ressonância Instrumental (2010) e Axé de Luz(2011), pretendo lançar um novo livro sobre os universo rítmico do maracatu do Ceará e estou trabalhando num projeto intitulado “Pérolas do Centauro – 40 Anos da Música Cearense e 30 Anos da Musicalidade de Pingo de Fortaleza (1972-2012, Compositores e Intérpretes)

Os Pavôs e seus Filhetos


Zé Ramalho, em uma música famosa, criou uma denominação no mínimo curiosa: “Avohai”. Segundo ele um misto de pai e avô. A canção brotou de uma “viagem” do artista, numa das ruas de Olinda, aí pelos anos 70. Há certamente um quê de visionário neste delírio psicodélico do Zé. A partir daí , como por encanto, multiplicaram-se os Avohai´s. É que a revolução sexual, desencadeada mundialmente nos libertários e fulgurantes anos 60 , só aportou em terras brasileiras nas décadas subseqüentes. Aí começaram a se multiplicar os filhos desta liberdade, nascidos de pais adolescentes, em meio aos dourados sonhos juvenis e que acabaram por ser criados e educados pelos avós. Claro que , de alguma maneira , o aparecimento imprevisto destes bebês sobrecarregou toda uma geração que já imaginava ter cumprido o seu dever com os próprios rebentos, mas por outro lado encantaram e deram vida estes guris a pessoas que muitas vezes se consideravam inúteis e incapazes . De repente viram suas vidas florescerem com a chegada buliçosa dos netos.

Nos dias atuais, esta geração, que poderíamos chamar de “filhetos” ( uma mistura de filhos e netos), já cresceu o suficiente para ter a certeza absoluta de que o mundo lhe pertence, no que não está em absoluto errada.. O problema talvez diga respeito à porqueira de mundo que herdaram. A violência campeia por todo o país; as drogas anteriormente utilizadas com uma certa aura ritualística hoje se banalizaram e atapetam os noticiários de tragédias; o suicídio entre adolescentes aumentou para proporções inimagináveis; o aproveitamento escolar parece uma lástima. Talvez hoje se devesse mudar a denominação de “Avohai” para “Pavô” , tamanho o medo que vem assolando os pais e avós com o destino de seus descendentes. Os meninos nos parecem hoje totalmente perdidos : estudam pouco; suas festinhas começam depois da meia noite; quase não lêem um livro qualquer que seja; têm iniciação sexual geralmente com os primeiros namorados; parecem-nos extremamente irresponsáveis e inseguros; quase na sua maioria fazem-se muito pouco espiritualizados e a droga lhes é uma palavra bastante corriqueira e pouco tenebrosa. Além de tudo muitas vezes mostram poucas perspectivas de crescimento intelectual e profissional. Até mesmo o sonho de independência das gerações anteriores, eles não mais os têm: se pudessem jamais sairiam de casa. No casamento já não juram até que a morte os separe, mas até que a primeira briga os aparte. Separados retornam para “casa paterna , seu primeiro e virginal abrigo” , geralmente com os filhos a tiracolo.

O primeiro ímpeto dos “Pavôs” leva à conclusão mais óbvia: as velhas gerações foram mais bem educadas e seus guris aparentavam bem mais resolução e desenvoltura e bem menos vícios acachapantes. Diz-se, também, à boca miúda : estudávamos mais e tínhamos mais gana de mudar o planeta. Esta postura, no final das contas, não traz embutida nenhuma novidade, ela se repete em moto-contínuo de geração a geração. Os novos hábitos vêem-se com reserva, os novos costumes interpretam-se de forma bastante crítica. Com a mesma intensidade que os adolescentes confrontam as antigas verdades, os mais velhos torcem o nariz para as novas formas de pensar e ver o mundo. Mas afinal as deformidades tão facilmente apontadas nos “filhetos” têm ou não fundamento ?

Vamos por partes. Em primeiro lugar eles herdaram um mundo construído pelas gerações que lhes antecederam e tiveram que rapidamente se adaptar à triste herança que lhes legamos. A violência generalizada os tornou inseguros bem além da insegurança normal da idade e os prende mais fortemente ao ninho dos pais. Lêem e estudam menos na visão tradicional destes dois verbos, pois hoje têm uma infinidade de meios de obterem o conhecimento fora das páginas dos livros : a TV, o computador, a Internet, o telefone, o vide-cassete. Com o bombardeio incessante dos meios de comunicação ligam-se mais à imagem do que à palavra. O mundo que lhes legamos, por outro lado, lhes tolhe as perspectivas de um crescimento interior : a todo momento a geração dos “Avohai´s” lhes prega a verdade material : a felicidade está no consumo, é mais importante calçar um tênis Nike do que degustar Sêneca. A religiosidade dos novos foi em muito tolhida pelos “Pavôs”, cientes de que uma das formas de liberdade era a da escolha de credo e de que ninguém tinha o direito de impingir isto às crianças. A liberdade sexual também herdaram do grito libertário dos hippies dos anos 60 , o “Fica” faz-se apenas uma remasterização do antigo “sarro” ou “Casquinha”. O embevecimento no uso de drogas alucinógenas veio, certamente, da mesma fonte dos hippies e beats. Foram, também os “Avohai´s” que lhes deram aulas sobre a dissolubilidade do casamento que acaba sendo uma busca de felicidade comum( mesmo que efêmera) e não uma condenação às galés perpétuas. Talvez muitos deles não lutem por um crescimento profissional por vias mais retas porque a todo instante têm exemplo de que para chegar no éden do consumo existem veredas mais curtas: os pistolões, as maracutaias , a corrupção, a sonegação, o baba-ovismo. Estas aulas todas lhes ministraram as gerações anteriores, através da concreta arma do exemplo.

Antes de criticá-los e tecer previsões sombrias sobre seu destino é imprescindível lembrar que eles apenas estão inseridos num outro mundo cheio de avanços fenomenais e deformidades terríveis e esta ordem de coisas eles a herdaram . Talvez, apenas, se encontrem atônitos e embasbacados sem saber bem o que farão com tamanha batata quente nas mãos. Tomara que , com a força transformadora da juventude, consigam corrigir os rumos da humanidade e fazer deste planeta um lugar mais justo, mais solidário e mais respirável. Se não conseguirem este intento, ao menos terão o direito de pôr a culpa na próxima geração, exatamente como têm feito os seus “Pavôs” .

J. Flávio Vieira


Carta aos pretensos candidatos à Prefeitura do Crato


Outro olhar para políticas públicas para cultura

Pensar numa “Cidade da Cultura” no Crato pressupõe existirem cidades sem cultura. Logo essa indagação nos faz pensar sobre que conceito de cultura nos referimos e o que essa afirmação provoca no âmbito das discussões das políticas públicas para a cultura.

Podemos afirmar que o termo “Crato: Cidade da Cultura” é uma invenção das elites econômicas e intelectuais conservadoras da década de 50 do século passado, para se contrapor ao crescimento urbano, estético, econômico e social de Juazeiro do Norte, numa disputa que ainda hoje ronda as visões barristas que nos separam e nos atrofiam. Essa afirmação teve a serventia de colocar os cratenses num falso patamar de superioridade cultural e artística.

Apesar de este conceito ter permanecido, ele foi reinventado, negado e hibridizado ao longo dos anos, a partir de concepções diversas e divergentes, mas que comungam com a ideia de defesa do território simbólico e espacial.

A região do Cariri, notadamente as cidades de Crato e Juazeiro do Norte tem uma produção estética e artística efervescente, criativa e misturada em que o tradicional se mescla do contemporâneo, em que o popular e o erudito se hibridam fazendo frente à hegemonia da cultura de massa. Em que a tradição e os novos tradutores da cultura, arte e estética se brindam nos terreiros e nas conexões cibernéticas.

O discurso sobre o “artista da terra” e da “cultura de raiz” deve ser substituído por uma compreensão mais ampla e consistente, que considere os agentes da produção simbólica (artistas), como seres dotados de identidade e história, que dialogam constantemente com o seu umbigo social e o mundo e que não rastejam em terras úmidas, como as minhocas. Mas que são voadores e andarilhos, dóceis e bravos, resistentes e frágeis. Trabalhadores que trocam a sua mão de obra manual/intelectual pela sua subsistência. A produção intelectual e artística não deve ser vista com um hobby ou uma vitrine gratuita de apresentações. Por lado a cultura não é vegetal e por isso não pode ter raízes. A cultura é viva, é dinâmica, se reinventa, se hibrida, criar teias, se modifica constantemente e não se enclausura em padrões fixos ou determinações institucionais.

Essas colocações desapontam as concepções de gestão cultural ou de políticas públicas para a cultura que assinalam como caminhos visões que privilegiem determinadas produções simbólicas em detrimentos de outras perfazendo muitas vezes o percurso ilusório do discurso da “Cidade da Cultura”. Por lado, é inviável pensar que a gestão da cultura é um banco de financiamento público para todos e tudo.

Para pensar a gestão da cultura e das políticas para cultura no Crato se deve considerar as conquistas alcançadas, visando consolidar-las e aprofundar-las para evitar retrocessos e atropelos pelas gestões posteriores.

Outro fator, importante neste aspecto é que o Crato não ficou a margem dos processos de discussões da conjuntura nacional no tocante a políticas públicas para cultura e deu inicio a alguns aspectos jurídicos que devem ser reforçados e tornados triviais para a população e o poder público.

Diante do exposto, apresento algumas questões que são essenciais para refletir sobre as políticas públicas e a gestão da cultura na cidade do Crato. Para facilitar o entendimento se compreende como políticas publicas, ações que tem caráter “permanente” e são amparadas por aspectos jurídicos e gestão da cultura como formas organizacionais de gerir o setor e normalmente tem um caráter efêmero e se modificada de gestor para gestor.

A intenção não é recriar a roda, mas reforçar concepções que vem sendo defendidas pelos diversos agentes da produção simbólica e intelectual do campo progressista no país e que ganhou conteúdo e forma mais encorpada a partir do governo Lula, tendo como referencial dessas concepções figuras como Celio Turino, Juca Ferreira, TT Catalão, Gilberto Gil, Sergio Mamberti, Américo Córdula e Marilena Chaui, dentre outros e que teve como caixa de ressonância e empoderamento os diversos segmentos organizados do povo brasileiro que cotidianamente se reinventam, se pluralizam, se diversificam e se hibridizam, em cada ponto vivo das culturas do Brasil.

Quais são, portanto esses norteadores para se pensar as políticas e a gestão da cultura no Crato?

É preciso ter um norte que não seja fechado, mas que carregue um direcionamento que compreenda a cultura e a produção simbólica como direitos humanos, capaz de possibilitar que as pessoas possam se desenvolver e participar plenamente da vida.

Portanto é imprescindível que as políticas públicas para cultura sejam refletidas de forma intersetorial, pois ela deve ter ligação com o desenvolvimento econômico, social, educacional, turístico, comunitário, agrário e desportivo da cidade e da população.

Outra questão fundamental é garantir a acessibilidade da população as diversidades de linguagens estéticas e artísticas e as manifestações culturais de caráter tradicional e contemporâneo visando o entrelaçamento do popular e do erudito, do regional e do universal, sem hierarquias ou segmentações.

O patrimônio histórico, cultural, arquitetônico e artístico da cidade deve se tornar patrimônio vivo da população, o que só possível com a interação e processos educativos baseados em relações de identidade e pertencimento.

É necessário criar mecanismos de consulta permanente com os diversos segmentos para vislumbrar e efetivar políticas públicas, bem como possibilitar a criação de uma rede formada a partir do reconhecimento dos trabalhos de grupos e artistas nas comunidades rurais e urbanas como elemento de potencializar a troca de saberes e fazeres e o empoderamento político dos agentes culturais numa tentativa de redescobrir a produção simbólica do nosso povo.

Outra questão fundamental é agilizar o funcionamento do Fundo Municipal de Cultura e uma política de edital que incentive a produção artística de forma desburocratizada.

Criação de uma política de ocupação dos equipamentos culturais de forma permanente e adequação das necessidades técnicas.

Continuidade e consolidação dos eventos que vem sendo desenvolvido no Município pelo Poder Público Municipal, em especial o Festival Cariri da Canção, Abril prá Juventude e o Festival de Quadrilhas Juninas e incentivo aos demais eventos que já fazem parte do calendário turístico da cidade.

Revisão, discussão e aplicabilidade das resoluções da Conferência Municipal da Cultura.

Reconhecer as escolas como centros privilegiados de fruição e disseminação da cultura, da estética e das artes no sentido de transformar/adaptar esses equipamentos em espaços vivos de estudos, vivências, experimentações e circulação dos saberes e fazeres tradicionais e contemporâneos, regionais e universais, eruditos e populares. É primordial que as escolas possam atender as determinações da resolução estadual 411/2006 que fixa normas para o componente curricular Artes, no âmbito do Sistema de Ensino do Estado do Ceará, que vem sendo severamente descumprido pelo Governo Estadual e pelos Governos Municipais.

Esse é um ensaio para esboçar uma perspectiva mais abrangente que possa perpassar gestões e entregar ao povo o legitimo direito de protagonizar suas escolhas estéticas, artísticas e culturais de forma ativa e permanente.

Alexandre Lucas
Coordenador do Coletivo Camaradas, integrante do Coletivo Nacional Programa de Interferência Ambiental – PIA, pedagogo e artista/educador.

Jaquelina Rolim – Uma visão além dos olhos

Deficiente visual, massoterapeuta, fotografa e presidenta do Centro Educativo do Cariri de Apoio as Pessoas com Deficiência Visual – CEC, Jaquelina Rolim de Oliveira consegue enxergar além do seu umbigo e diz que qualquer deficiência só tem dificuldade quando não existe acessibilidade e acrescenta que não se admite a inclusão social sem o acesso à formação pessoal e profissional.

Alexandre Lucas – Quem é Jaquelina Rolim de Oliveira?

Jaquelina Rolim – Sonhadora com um mundo igualitário onde “ser diferente é normal”. Com baixa visão decorrente da perda gradual da visão na área central da retina, luto por uma sociedade justa e inclusiva, sem indiferença e com melhorias de vidas. Humilde serva de Deus com fé para enfrentar os desafios do dia a dia crendo na vitória.


Alexandre Lucas – Como teve inicio seu contato com a fotografia?


Jaquelina Rolim – Lendo alguns livros do fotógrafo cego EvgenBavcar despertou em mim o interesse pela fotografia.Espelhada no seu exemplo de superação decidi ir além dos meus limites e entrar no universo da arte.O primeiro contato foi no curso de fotografia ministrado pela professora Nívea Uchôa no SENAC Crato-CE.


Alexandre Lucas – Fale da sua trajetória:


Jaquelina Rolim – Comecei a fotografar a partir das experiências adquiridas no curso básico de Fotografia Digital, promovido pelo SENAC do Crato – CE e após fazer o curso de aperfeiçoamento, ministrado pelo renomado professor e profissional de fotografia, Dimang Kon Beu, radicado em Minas Gerais.


Alexandre Lucas – O que você gosta de fotografar?


Jaquelina Rolim – Prefiro registrar imagens do dia a dia que muitas vezes passam despercebidas para a maioria das pessoas. Imagens de lugares, pessoas e situações que nos remetem a sensações de tranquilidade, quietude e vida.


Alexandre Lucas – Você acha que a fotografia é um instrumento político?


Jaquelina Rolim – Com certeza. A fotografia apresenta e denuncia situações de lugares e pessoas no seu cotidiano.


Alexandre Lucas – Você tem deficiência visual e é fotografa. Quais as dificuldades?


Jaquelina Rolim – Qualquer deficiência só tem dificuldade quando não existe acessibilidade. As melhores câmaras digitais ainda não oferecem acessibilidade completa, sendo a principal dificuldade encontrada.


Alexandre Lucas – Os deficientes visuais criaram o Centro Educativo do Cariri de Apoio as Pessoas com Deficiência Visual e você é a presidenta. Qual a função desse Centro?


Jaquelina Rolim – O CEC é uma Associação de Utilidade Pública, sem fins lucrativos.

Objetiva se estabelecer na região do Cariri, como referência na prestação de serviços de apoio para pessoas com deficiência visual. Através da educação, cultura e lazer oferece atendimentos de formação com reforço escolar, atendimentos psicológicos, oficinas de música, teatro, dança, gastronomia, esporte, cursos de braille, informática, esculturas em argila, fotografia entre outros.
Não se admite a inclusão social sem o acesso à formação pessoal e profissional. Esse é o caminho para alcançar o sucesso.

Alexandre Lucas – Quais as principais bandeiras de lutas dos deficientes visuais do Cariri?


Jaquelina Rolim – Inclusão no mercado de trabalho, acessibilidade na educação e em ambientes culturais com a presença de um profissional audiodescritor.


Alexandre Lucas – Quais os seus próximos trabalhos?


Jaquelina Rolim – Continuarei com a Exposição Fotográfica Olhar do Coração. Em parceria com o CEC lutando pela inclusão. Estaremos na Expocrato 2012 com stand mostrando nossa proposta e acolhendo os deficientes.


Contatos:

Jaquelina Caldas Rolim de Oliveira

E-mail: [email protected]

Exposição Fotográfica Olhar do Coração

www.olhardocoracao.com

E-mail: [email protected]

CEC

www.cecariri.com

E-mail: [email protected]

A Carroça de Mamulengos – Emerson Monteiro

Um clã organizado que viaja o Brasil produzindo arte popular através de espetáculos circenses, eis o retrato resumido dessa trupe de artistas formada de irmãos da mesma família para festas de intensa alegria, músicas e cores, mostradas em praça pública, revivendo no palco das ruas e praças do Cariri as boas noites do que oferece silenciosa felicidade, aos olhos brilhantes de crianças atenciosas ao novo que recebem.

O prenúncio desse grupo de artistas remonta 1975, em Brasília, quando seu idealizador, Carlos Gomide, trabalhava de junto do diretor de teatro Humberto Pedrancini, em outro grupo chamado Carroça. Ano seguinte e conheceria o espetáculo Festança no reino da mata verde, do Mamulengo Só Riso, assim reforçando o gosto pelo teatro de bonecos.

Em 1978, Carlos conheceu Antônio Alves Pequeno (Antônio do Babau), mestre brincante paraibano da cidade de Mari, buscando-o em 1979 para desenvolver o aprendizado nos espetáculos dos bonecos. Um ano e meio de convivência seria o suficiente para o discípulo estruturar o conjunto de bonecos da mesma brincadeira e receber permissão do mestre para levar adiante a tradição milenar em viagens pelo País, isto que vem informado no site do grupo na Internet.

Em 1982, ainda no Distrito Federal, se incorporou ao elenco das peças a teatróloga Schirley França, futura esposa de Carlos Gomide, de cuja relação nasceriam os oitos filhos do casal que compõem a base atual da caravana artística que nos visita: Maria, Antonio, Francisco, João, Pedro, Mateus, Luzia e Isabel.

Na melhor qualidade desses espetáculos, em turnê patrocinada dentre outros pela Petrobras, a Carroça de Mamulengos alimenta o encanto da arte espontânea dos terreiros, feiras e festivais, essência natural das manifestações coletivas de cunho popular, o que traduze em termos presentes os primórdios da Grécia mais antiga, naquilo que chamaram ditirambo, fonte arcaica do teatro moderno e do cinema industrial.

Desta maneira, revivem sonhos e vivências comunitárias em ações plenas de música, dança, jogos, diversões, folguedos, confraternização, força pulsante dos universos da beleza inesperada, isso diante da tecnologia artificiosa destes dias massificados da artificialidade vendida aos borbotões nos vídeos distanciados da gente.

Nossos votos de boas vindas e sucesso à Cia. Carroça de Mamulengos nas cidades do Cariri que desfrutam a luminosidade dos instantes mágicos que traz ao povo.

Gêtsemani


Não, não transparecia cansaço nem fastio, embora a cena se repetisse há tantos e tantos anos. Apenas uma leve asa de indignação ruflava ao seu derredor. Como um moderno Prometeu acorrentado, fazia-se eterno pasto à águia do cristianismo. Parece até que ganhara a maldição da imortalidade. Ressuscitavam-no todo ano, em meio às velas, ao vinho e ao roxo da Semana Santa. No seu curto e sub-reptício reinado, fazia-se, rapidamente, senhor de uma quinta , ganhava roupas esfarrapadas, mas modernas, metia-se a cavaleiro. Metamorfoseava-se de uma personalidade qualquer escolhida entre os sempre novos e fartos Judas da humanidade e partia, no Domingo da Ressurreição, para o seu calvário particular.Até um testamento lhe seria providenciado, ele que não deixara sobre a terra nenhum legado que fosse além da pura e cristalina infâmia. Até os 30 dinheiros, levara ao santuário antes do pêndulo do corpo e do final balanço da corda.

Suas memórias, se escritas, seriam um farto material para o estudo do inconsciente coletivo. Havia, com certeza, algo de sanguinário, de sádico e tribal naquela malhação.A simples encenação daquela selvageria, no fundo, contradizia-se frontalmente com as lições de amor, de solidariedade e compreensão que terminaram por permear todo o Novo Testamento. A primeira pedra que ninguém ousara lançar sobre Madalena , agora fariseus multiplicados aos montes atiravam nele com sanha animalesca, sem nenhum remorso, sem nenhum pejo.

Neste ano, ali estava novamente no cadafalso, aguardando o desenlace tão previsível. Enquanto observava a faísca zigzagueante do estopim, teve , por fim uma clara visão do mundo que um dia abandonara pensando em se livrar dos seus demônios e fantasmas. Na verdade a turba não malhava ao Judas, mas tentava destruir as imperfeições pessoais que via nele refletidas. É como se diante do espelho, o quebrassem, por temerem a imagem horrorosa mas verdadeira que se revelaria na superfície cristalina. Nada mudara em tantos anos! Bastava fitar a multidão para ver claramente presente e cristalizado em todos os corações o veneno um dia inoculado no Gêtsemani: a indecisão de Pilatos, a tríplice negação de Pedro, a parcialidade de julgamento de Caifás, a eterna opção dos eleitores por Barrabás. Parecia claro para ele agora que não foram os filhos do Pai que povoaram o mundo, mas sim a raça de Judas. Sim, seus filhos tinham prosperado como nunca sobre a face da terra . Estavam muitos ali familiarmente reunidos, com suas fraquezas, suas indecisões e seus vícios bem à mostra : lábios preparados para o beijo fatídico, mãos entreabertas esperando, sofregamente, os trinta dinheiros…

J. Flávio Vieira