Arquivos mensais: Março 2012

3º Dia da Semana SESC de Artes Cênicas – Juazeiro


CÁRCERE: “LIBERDADE AINDA QUE TARDIA”
A platéia do Teatro Patativa do Assaré do SESC JUAZEIRO pôde prestigiar nesta noite de 24 de março ao depoimento de um artista sobre os caminhos da liberdade rumo ao melhor de nossos sonhos. Tem uma hora na peça que o personagem fala que todo mundo sonha em ser alguma coisa no futuro, mas que ninguém sonha em um dia ser presidiário. E tem outro momento que ele conta uma piada onde um desesperado se joga do 20° andar e que quando chega, em queda livre, ao décimo andar ele diz pra si mesmo: “Até aqui tudo bem”. Esse personagem é um pianista, preso por tráfico de drogas e que conta do tempo que passou, incentivado pelo seu tio, preparando-se para tocar piano, porque antes dele se aproximar de um piano, ele precisava estar pronto pra ele. Uma metáfora do tipo que diz: precisamos de ensaio pra ser livres ou que perdemos muito tempo nos preparando para sermos livres. Texto de Saulo Ribeiro  com intensa interpretação de Vinícius Piedade que deixou a todos, ao final, muito mais livres ou com algum gosto de liberdade na boca.


Programa Cultura SESC Cariri
(88) 3587 1065 (SESC Juazeiro)
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MEU ADEUS A UM CHICO EM MUITOS – por Ulisses Germano

UM CHICO EM MUITOS

Chico Anísio foi embora
Para nunca mais voltar
O Brasil agora chora
O humor foi descansar
De ver tanta palhaçada
Da política engraçada
Que ele soube imitar

Ele era um em muitos
Personagens bem reais
Que ainda estão vivinhos
Com seus trejeitos banais
Do Maluf ao Zé Sarney
O escracho era a lei
Que já não existe mais!

Ulisses Germano,Crato, CE.

2° Dia da Semana SESC de Artes Cênicas – Juazeiro

A DONZELA E O CANGACEIRO: UMA HISTÓRIADE AMOR À NATUREZA

Um público de peso prestigiou a belíssima apresentação de A Donzela e o Cangaceiro, texto rimado e Direção acertada de Cacá Araujo, com figurino e maquiagem criativas e exuberantes de Joênio Alves (que faz o Bode, sobre o qual é feita uma incrível expectativa durante a história). As expectativas, aliás, são todas confirmadas e superadas pelo talento dos atores e pela beleza poética e dramática da narrativa. Mateu e Catirina são os mestres de cerimônia que abrem o espetáculo e antecedem a aparição dos dois caçadores, Pafunço e Cafuçu e da maléfica Catrevagem. Todos os personagens encantam e convencem. O feitiço lançado pela Caipora (foto) como vingança da Natureza por todo o mal que o caçador faz à selva transforma este cordel encenado num conto de fadas que lembra A Bela Adormecida. Este é um excelente exemplo de teatro engajado na luta pela valorização da cultura popular e do meio ambiente!




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Caravana da UNE discute o Brasil que queremos – Portal Vermelho

Caravana da UNE discute o Brasil que queremos – Portal Vermelho

Onde você estará daqui a dez anos? Como será a estrutura social brasileira e quais serão as oportunidades de desenvolvimento para a juventude? Quais serão os avanços e desafios da educação pública e da sustentabilidade ambiental? Essas serão algumas das questões que serão levadas aos diversos estados pela Caravana UNE Brasil +10, promovida pela União Nacional dos Estudantes (UNE), entre 28 de março e 15 de maio. O movimento estudantil espera atingir 50 mil estudantes de todo país.

É a sexta edição da Caravana da UNE, co-realizada pelo Circuito Universitário de Cultura e Arte (CUCA), da entidade. Serão visitados no total 24 universidades, em 12 estados (Brasília, Porto Alegre, Curitiba, Manaus, Belém, Fortaleza, Natal, Recife, Belo Horizonte, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo).

Imaginando o Brasil possível em 2022, quando se completam 200 anos da Independência Nacional e 100 anos da Semana de Arte Moderna, a UNE leva uma maratona de atividades com grandes pensadores, cientistas, artistas, políticos e militantes do movimento social para debater e construir, junto aos estudantes, idéias e soluções para a próxima década. Entre eles o cientista Miguel Nicolelis, o escritor Fernando Moraes, o cineasta Silvio Tendler e o físico Ênio Candotti. As discussões vão girar em torno de quatro eixos: educação, desenvolvimento, justiça social e justiça ambiental.

Entre os objetivos da Caravana está a produção de um diagnóstico participativo, junto a jovens de diferentes estados e realidades, que possa contribuir no debate e formulação de políticas públicas, ações do movimento social ou do terceiro setor para o desenvolvimento do Brasil nos próximos dez anos. O resultado servirá de base para o Projeto “UNE Brasil Cidades 2012”, uma plataforma de reivindicações do movimento estudantil brasileiro a ser entregue para os candidatos a prefeito nas eleições do segundo semestre.

Acompanhe a Caravana:

28/03 – Brasília (DF): UNB
29/03 –Brasília (DF): UCB
03/04 – Porto Alegre (RS) UFRGS / PUC-RS
10/04 – Curitiba (PR): UFPR / PUC-PR
13/04 – Manaus (AM): UFAM / UNINORTE
16/04 – Belém (PA): UNAMA
17/04 – Belém (PA): UFPA
19/04 – Fortaleza (CE): Faculdades Integradas do Ceará (FIC)
20 /04 – Fortaleza (CE): UFC
23/04 – Natal (RN): UNP
24/04 – Natal (RN): UFRN
26/04 – Recife (PE): UNICAP
27/04 – Recife (PE): UFPE
03/05 – Belo Horizonte (MG): UFMG / PUC-MINAS
07/05 – Salvador (BA): Centro Universitário Jorge Amado (FJA)
08 /05 – Salvador (BA): UFBA
11/05 – Rio de Janeiro (RJ): UFRJ
12/05 – Rio de Janeiro (RJ): Universidade Castelo Branco (UCB)
15 /05 – São Paulo (SP): UNIP / USP

Atividades

Em cada uma das universidades, logo pela manhã, acontece um cortejo cultural, formado por atores e músicos, passando pelos corredores e convidando para o “Aulão Brasil+10”, uma grande aula referência, ministrada por personalidades brasileiras convidadas, sobre o tema Brasil+10. Depois, a mobilização estudantil estará voltada para as questões locais da universidade. A equipe da UNE fará reuniões com as entidades estudantis e representantes das instituições para debater as questões educacionais concretas enfrentadas em cada uma delas.

No final da tarde, o Cuca da UNE realizará uma reunião envolvendo estudantes e artistas locais. Ainda durante à tarde, acontecerá nas universidades privadas o Encontro do Prouni, que tem como objetivo analisar os resultados do programa de bolsas do Ministério da Educação, levantando seus problemas e virtudes, sistematizando-os na busca de aprimoramentos através das opiniões dos jovens beneficiados.

UNE 75 Anos

No próximo dia 11 de agosto, a UNE completa 75 anos de lutas e protagonismo nos principais episódios da vida do Brasil. Sendo, simultaneamente, o mais antigo e mais renovado movimento social do país, a entidade foi fundada em 1937, em meio à luta dos estudantes contra o nazi-fascismo no Brasil. O movimento estudantil marcou presença combatendo a ditadura do Estado Novo, na luta pelo desenvolvimento com a campanha “O Petróleo é Nosso” e nos turbulentos anos 60 e 70, quando a UNE e os estudantes foram perseguidos, torturados e mortos pela ditadura militar. Além disso, a UNE teve participação histórica em outros episódios como na campanha “Diretas Já”, na ação dos “cara-pintadas” durante a campanha “Fora Collor” e na resistência às privatizações e ao neoliberalismo que marcaram a era do presidente FHC.

Histórico das Caravanas da UNE
Em 1962, pela primeira vez em sua história, a UNE pôs o pé na estrada com a realização da UNE-Volante, mobilizada na rede da legalidade, movimento vitorioso que garantiu a posse do presidente João Goulart. Em 1963, reforçando as conquistas dessa experiência, foi realizada a segunda edição da UNE-Volante, congregando jovens artistas e universitários em busca de conhecer e integrar o Brasil. No entanto, essas experiências foram interrompidas pela ditadura.

Em 2004, a UNE conseguiu retomar os projetos das caravanas. Uma equipe de atores, produtores, documentaristas, artistas e estudantes embarcaram a bordo de um ônibus para mais um jornada, desta vez, chamada de Caravana UNE pelo Brasil, percorrendo 25 cidades brasileiras, sendo 18 capitais, passando por 31 instituições de ensino, nas cinco regiões do país. Ainda em 2004, foi realizada a Caravana Universitária de Cultura e Arte Paschoal Carlos Magno, o nome foi uma homenagem ao poeta e romancista criador do Teatro dos Estudantes.

No segundo semestre de 2008, a UNE apostou na diversificação dos temas das caravanas em um projeto ousado, a Caravana Saúde, Educação e Cultura. Em parceria com o Ministério da Saúde, o projeto passou pelos 26 estados, mais o Distrito Federal, a bordo de um ônibus.

Cuca

O Circuito Universitário de Cultura e Arte da UNE (Cuca) é um projeto de continuidade das iniciativas culturais da entidade dentro das universidades brasileiras. Trata-se de uma rede com núcleos em 15 estados brasileiros (São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Brasília, Amazonas, Piauí, Bahia, Ceará, Paraíba, Mato Grosso, Maranhão, Roraima, Rio Grande do Norte e Pernambuco), que promove ações em diversas linguagens como audiovisual,artes plásticas, literatura, teatro e música.

Fonte: UNE

Abertura da Semana SESC de Artes Cênicas – Juazeiro

O MENINO FOTÓGRAFO
Sons e Imagens da religiosidade popular

Como é lindo o colorido das roupas desse povo que sabe dar cor e intensidade à vida, mesmo que ao redor reine a pobreza, a violência, a miséria e a ignorância. Com velas em punho, abrem as portas do teatro e vão buscar a platéia para uma procissão que os transportará para a dimensão limítrofe entre o imaginário e a religiosidade popular do cariri cearense. Entoando cantos em uníssono, em determinado momento as vozes ganham independência e o que era um único canto, torna-se uma mixórdia. Existe muita energia e alegria durante todo o espetáculo. A Salve Rainha é recitada por eles, desconstruída e reinterpretada e ganha uma identidade tão íntima que vem seguida da Lagarta Pintada. A Semana SESC  de Artes Cênicas começou com o pé de direito!





Programa Cultura SESC Cariri
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Paranaporã de Menhã


Os matozenses eram conhecidos, em toda biboca desse mundão de meu Deus, por serem gabões de não mais se ver. Vilazinha perdida lá onde o vento faz a curva, lugar onde se vendia Coca-Cola em dose e onde urubu comia bagaço, o povo, no entanto, respirava ares de grande metrópole. Esta gabolice vinha , talvez, da comparação inevitável com as vilazinhas próximas : Bertioga e Serrinha do Nicodemos, estas bem mais raquíticas e pobres. Um matozense contemplava o leito invariavelmente seco do Paranaporã, com o orgulho de quem visse o Sena, o Tâmisa ou o Danúbio. E foi pela comparação inevitável que “Totonho da Rabeca” , compôs , em homenagem à sua terra natal, o chorinho “Paranaporã de Menhã”, certamente no pensamento de embotar o “Danúbio Azul” de Strauss. A musiquinha, fácil de assoviar, pegou rápido e terminou por se consagrar como o tema de Matozinho, uma espécie de “Cidade Maravilhosa” da catinga.

Terá sido, certamente, esta empáfia que levou o prefeito Sinderval Bandeira, depois de folhear alguns velhos almanaques Capivarol, a construir, uma réplica da Torre Eiffel, logo na entrada da cidade. Dizia que seria o cartão postal de Matozinho e apôs o nome de Torre da Bandeira, sob pretexto de que ali, no topo, estaria eternamente hasteado o panteão municipal da Vila. Na verdade, era uma tentativa de , sorrateiramente, imprimir seu nome na obra, fugindo de perseguições de adversários e da Justiça Eleitoral. Rapidamente o povo, com a sabedoria que lhe é peculiar, batizou a obra de “Torre da Bandalheira”.

Na Comemoração dos 200 Anos da Revolução Francesa, foram arrebanhados vários artistas populares com fins de participar das festividades na França. Em Matozinho a lembrança caiu , imediatamente, em “Totonho da Rabeca” que terminou sendo convocado e partiu para as estranjas com a digna missão de representar Matozinho. Uns dez dias depois, Totonho estava de volta da sua viagem diplomática. Voltou importante, falando meio engrolado. Só aprumou quando , no Bar do Giba, resolveu agradecer ,à francesa, um elogio e ao pronunciar o “Merci, Beaucoup!” , Francelino Catavento tomou aquilo como palavrão – “Vá tomar aonde, seu filho duma égua? Repita !” — e sentou-lhe o braço no escutador de novela do artista. Depois disso, Totonho desistiu, definitivamente, dos galicismos. Ao narrar sua experiência em terras estrangeiras, nosso rabequeiro não conseguia conter o bairrismo epidêmico de Matozinho :

— Paris é até bonitinha ! Um pouco maior que Matozinho! Mas dos franceses, eu não gostei, não ! Ou povo invejoso das mulestas dos cachorros! Pois vocês acreditam que os miseráveis construíram uma Torre lá também, igualzinha à de Bandalheira ? Pode ser um desaforo desses?

Há uns dois meses, Sinderval entrou na Câmara com um projeto muito mais mirabolante. Resolveu reconstruir em Matozinho as “Torres Gêmeas”, cada uma com sete andares. Uma delas abrigaria a Prefeitura Municipal e a outra a Câmara de Vereadores. Na justificativa, Sinderval lembrava que aquilo era uma homenagem que prestavam à cidade co-irmã de Nova York, além de ser um ato contra o Terrorismo Internacional. A Vila embebeu-se de uma euforia quase que incontida. Sinderval já vislumbrava uma re-eleição saltando da cartola com a nova iniciativa. Não teria maiores dificuldades em ver aprovado o projeto já que tinha ampla maioria na Câmara e a idéia se tornara a notícia mais badalada nas praças, botecos e boticas nas últimas semanas. Qual não foi sua surpresa quando vieram avisá-lo da derrota fragorosa da proposta na última reunião da Câmara. Sinderval procurou, irado, o presidente em exercício “Lulu da Vêmaguete”, seu correligionário ferrenho, cobrando explicações sobre a traição que sofrera. Aquilo se consubstanciava num verdadeiro cataclisma político para o Partido. Vêmaguete , meio atarantado, tentou justificar o ocorrido:

— Seu prefeito, todo mundo queria a construção e o projeto do senhor, no início, estava certo de ser aprovado por unanimidade. Foi aí que Gerebaldo Mobral, nosso Secretário, nos alertou do perigo. “Se a gente construir essas Torres, meus amigos, fiquem certos de uma coisa. Esses doidos do Afeganistão vem para cá e vão jogar os aviões deles em cima das torres, ora se vão ! Não fizeram do mesmo jeitinho até em Nova York? Se ao menos acertassem só na Torre de Sinderval, ainda vá lá ! Mas vou logo alertando, cambada ! quem avisa amigo é : Vai ser caco de vereador prá todo lado, viu?

J. Flávio Vieira

VAMOS SALVAR O SÍTIO FUNDÃO?

A DONZELA E O CANGACEIRO
Cia. Cearense de Teatro Brincante 
Texto e Direção de Cacá Araújo
Música de Lifanco 

O Sítio Fundão está prestes a ser totalmente destruído pela ganância do homem rico para especulação imobiliária, conquistado pelo império norte-americano para fins de intervenção militar ou dominado pelas forças das trevas profundas no afã de instalar uma sucursal do inferno. Decifrar o enigma da esfinge de Seu Jefrésso é a única salvação. Se a donzela morrer, tudo estará perdido…


AGENDA:
Teatro SESC Patativa do Assaré (Juazeiro-CE)
Dia 23 de março (sexta), 20h – Entrada Franca
Teatro Rachel de Queiroz (Crato-CE)
Dias 24 (sab), 25 (dom), 31 (sab) de março e 1º (dom) de abril, 20h
Investimento: R$ 5 (antecipada), R$ 6 (meia), R$ 12,00 (inteira)

Assessoria de Imprensa
Cia. Cearense de Teatro Brincante
(88) 8801.0897 / (88) 9960.4466  

Mazé Sales – Uma palavra viva do Caldeirão

Uma escritora que não se limita. Mazé tem contribuido para o resgate da história regional atraves da literatura. Fiha de remanescente do Caldeirão e autora do livro Auto do Caldeirão – dos calheiros da santa cruz do deserto e do Beato José Lourenço ela afirma que: “Tudo o que minha mãe falava sobre o Caldeirão está ali, contado em forma de teatro. Ela contava que havia abundância de tudo, muita fartura. Tudo era de todos.

Alexandre Lucas – Quem é Mazé Sales?

Mazé Sales – Uma menina da roça que se tornou professora na cidade. Encantou-se com o teatro do Grupo Construção 10 ( anos 70) e gostava de ler. Tomava livros emprestado e os devolvia antes do prazo para ter direito a outros empréstimos. Meus colegas de escola colaboravam comigo trazendo-me cópias de poemas que eu decorava e declamava em algumas ocasiões. Escrevia poemas para os namorados das minhas colegas, a pedido destas. Para isto eu precisava saber como eram eles. Gostava também de escrever diários. Sou também atriz. Passei por alguns grupos de teatro amador como o William Shakespeare, do extinto GMAXO , o ANTA e atualmente estou no LIVREMENTE. Faço Donana na peça Dentro da Noite Escura de Emanuel Nogueira e direção de Jean Nogueira, meu ex-aluno.Tenho também umas pequenas participações em alguns filmes: Padre Cícero ( anos 70), Caminho das Nuvens, O Cinematógrafo Hereje de Jeferson Albuquerque (2011), um conto de Zé Flávio Vieirra.

Alexandre Lucas – Como ocorreu seus primeiros contatos com a literatura?

Mazé Sales – “A Flor e as Fontes” de Vicente de Carvalho foi um poema que me emocionou bastante na minha infância. Ai como eu sofria com o sofrimento da flor! Então, fiz um poeminha para minha mãe. Enquanto escrevia os diários ia também fazendo versos. Minha infância foi recheada por literatura de cordel. Dobrava versos na tipografia São Francisco, antiga Lira Nordestina, e Dona Ana Silva me presenteava com muitos cordéis que eu lia em casa para a família.

Alexandre Lucas – Fale da sua trajetória:

Mazé Sales – Escrevi vários cadernos de “matérias” de poesias e algumas peças de teatro. Fui à gráfica e vi que não era pra mim. O custo era alto. Como me disse o dono de uma gráfica: “Publicar livros fica pra quem é rico e vaidoso”. Fiquei muito triste. Então, resolvi selecionar somente uns cinco poemas que cabia no meu orçamento e assim nasceu Banquete dos Deuses, em 1997. É como dar a luz ao filho desejado.

Alexandre Lucas – Você é filha de Maria de Lourdes Andrade Sales uma remanescente da Comunidade do Caldeirão . Quais as memórias que sua mãe contava dessa comunidade?


Mazé Sales – Tudo o que minha mãe falava sobre o Caldeirão está ali, contado em forma de teatro. Ela contava que havia abundância de tudo, muita fartura. Tudo era de todos. O que me impressiona é saber que havia no sítio Caldeirão muitas fruteiras: bananeiras, laranjeiras, etc. E hoje, você chega lá e pensa que era fruto da imaginação das pessoas. Que naquele lugar não poderia produzir nada. Mas, voltando à realidade da época: havia uma comunidade, sob a liderança do Beato José Lourenço cujo lema era trabalho, disciplina e oração, então, podiam tirar leite das pedras e transformar um deserto em um pomar.

Alexandre Lucas – Você publicou o Auto do Caldeirão – dos calheiros da santa cruz do deserto e do Beato José Lourenço ( Teatro). Como foi essa experiência?

Mazé Sales – Tal como Padre Cícero: Filho do Crato, Pai do Juazeiro foi direcionado aos alunos com os quais eu trabalhava e como os colegas pediam fotocópias, resolvi publicá-los. Era como se estivesse prestando uma homenagem póstuma a todos os mortos no massacre do Caldeirão, bem como aos que sobreviveram e tiveram que calar como se nada tivesse acontecido. Ou falaram baixinho e eu fui juntando os sussuros e os medos e fiz deles uma teia onde a aranha conta a sua história.

Alexandre Lucas – Você escreveu outra peça de teatro em 1999: Padre Cícero: Filho do Crato Pai do Juazeiro. Essa obra levanta que discusão?

Mazé Sales – A prosposta era tão somente didática: contar a história de Juazeiro que se confunde com a do Padre Cícero para meus alunos de Educação Artística do Colégio Salesiano, na época. Revendo o texto, vejo que questionamos coisas que hoje são realidades: os romeiros visitarem também o Crato, Faculdades para Juazeiro, etc.

Alexandre Lucas – Como você define a sua poética?

Mazé Sales – Dizem que definir é limitar. Eu acho que não definir é não saber. E agora? Minha poética é tão minha que não encontra ressonância em nada, a não ser em mim mesma, sem ser original. Talvez em Manuel Bandeira eu tenha me inspirado, mas a minha leitura foi de cordel. Nunca conseguir fazer um soneto nem um cordel porque ambos tem que ser perfeitos. E a imperfeição é um traço forte no que faço, às vezes sem querer. E ainda acho belo, como toda mãe coruja.

Alexandre Lucas – Como você ver a relação entre arte e política?

Mazé Sales – Se “a vida imita a arte e a arte imita a vida” a política deveria administrar a vida em sociedade refletindo sobre as necessidades do povo, visto que os bens são do povo e a estes devem servir e os administradores são colocados pelo povo para cumprir com sua missão de bem administrar e não apenas para o bem estar dos políticos. Proporcionando bem estar a todos, visto que num país rico não poderia haver pobreza. E a arte critica, por mais comportada que seja, essa realidade. A arte é (o) a porta voz da sociedade.

Alexandre Lucas – Qual a contribuição social do seu trabalho?

Mazé Sales – Como somos produto do meio e sobre o meio atuamos, acredito que meu trabalho, mesmo pouco e pequeno, tenha contribuido para o esclarecimento, do ponto de vista didático, de acontecimentos da história regional ou para simples deleite para quem gosta de ler.

Alexandre Lucas – Quais seus proximos trabalhos?

Mazé Sales – Há quase dois anos está quase pronto: Santidade e Loucura à Beira do Rio Salgadinho. Aguardem! Estou também tentando escrever um infanto-juvenil com acontecimentos fantásticos baseado na Física Quântica. Ai! Será? Porque paranormal não é. Vamos ver! “Quem viver verá!” Quando eu me aposentar vou ter mais tempo para escrever. Será? Obrigada.