Arquivos mensais: novembro 2011

Aumento do diabetes – Emerson Monteiro

Segundo a Federação Internacional do Diabetes, uma organização guarda-chuva com mais de 200 associações de diabetes em torno de 160 países, o número de pessoas acometidas por essa doença irá crescer dos 366 milhões atuais para 552 milhões até o ano de 2030, isto apenas no período desses próximos 19 anos.

Nas Américas Central e do Sul, existem 25 milhões de pessoas acometidas pelo mal. Em face da urbanização e da mudança na idade da população, os números aumentarão em cerca de 60% até 2030. O Brasil dispõe da maior incidência, com 12,4 milhões de diabéticos, seguindo-se Colômbia, Venezuela e Argentina.

O problema clínico ora considerado se relaciona à insulina, um hormônio produzido pelo pâncreas para o transporte de glicose, por via sanguínea, até os tecidos do corpo humano. O excesso de açúcar no sangue é uma condição crônica, enquanto a produção deficiente de insulina, ou uma resistência excessiva à sua ação, ocasiona níveis elevados de glicose no sangue.

Dois tipos principais do diabetes ocupam o terrível escore. O tipo 1, de início prematuro, vinculado a problemas na produção de insulina; e o tipo 2, com início mais tardio e relacionado com fraca resposta do organismo à insulina.Dado importante nisso tudo: Medidas simples, como alimentação balanceada e atividades físicas previnem o diabetes tipo 2. O diabetes também pode ser ocasionado por carência de insulina, pela resistência a esse hormônio ou por ambas as razões.

O diabetes tipo 2, tipo mais comum da afecção, compreende a maioria dos casos. Ocorre geralmente em adultos, mas cada vez mais os jovens vêm sendo diagnosticados da doença. O pâncreas não produz a insulina suficiente para manter normais os níveis de glicose no sangue, de comum porque o corpo não responde bem à insulina. Muitas pessoas não sabem que estejam acometidos do diabetes tipo 2, mesmo sendo doença grave. Nisto, o tipo 2 do diabetes está se tornando corriqueiro devido o aumento de casos de obesidade e de ausência da prática de exercícios físicos.

Em face da gravidade deste assunto, aqui relacionei alguns itens médicos divulgados pela mídia, no propósito de avisar dos riscos severos das alimentações improvisadas e fora de controle, sobretudo quanto ao uso excessivo do açúcar e outros elementos portadores de glicose adotados indiscriminadamente nos dias de hoje.

GUERRILHEIROS DO CARIRI PUBLICAM MANIFESTO


Combatentes seguem conquistando o coração do grande público na mais ousada e legítima vitrine das artes cênicas produzidas no Cariri cearense.
  

A Guerrilha do Ato Dramático Caririense é um foco de resistência e afirmação cultural, tendo o teatro, a dança e o circo como linguagens centrais, e se realiza a partir da ação conjunta e gestão compartilhada entre grupos e companhias da região. Nossa terceira edição, que se estendeu de 3 a 27 de novembro de 2011, foi prestigiada por um público de mais de 5.000 pessoas durante sua vasta programação.


O Cariri tem um grande potencial artístico que, de certo modo, vem sendo desprestigiado por instituições promotoras de grandes eventos, seja privilegiando caça-níqueis ou produções do Sul e Sudeste, numa atitude deplorável de negação da arte e do artista local. Não somos contrários ao intercâmbio, mas defendemos que este deve ser concebido em via de mão dupla. Afinal, não podemos ser confinados à condição de meros espectadores, quando temos uma rica e diversificada produção a ser mostrada, apreciada e valorizada.


A Guerrilha foi criada, portanto, como uma espécie de insurreição contra o abandono e a negação praticados no seio de grandes mostras realizadas na região. Contra a excludência! É um pólo gerador de vivência e integração, provocador de oportunidades para os novos e de visibilidade para os que pelejam há mais tempo.


Somos companhias de teatro, dança e circo do rico universo Cariri, com linhas de pesquisa e comportamento estético muito peculiares, o que nos garante um quadro diversificado de espetáculos. A Guerrilha reuniu, em 2011, artistas-guerrilheiros das seguintes companhias: Cia. Cearense de Teatro Brincante, Cia. Wancylu’s Gat Produções, A2 Cia. de Dança, Cia. Fazendo Arte de Teatro, Cia. Mandacaru de Artes e Eventos, Comunidade Oitão, Grupo Ninho de Teatro, Cia. Teatral Curumins do Sertão, Cia. André de Andrade, Luciom Caeira e Cia., Grupo Tio G e sua trupe, Alysson Amâncio Cia. de Dança, Cia. Teatral Os Trapilhões, Circo-Escola Alegria, Cia. Yoko de Teatro, Cia. Desabafo de Teatro, Dakini Cia. de Dança e Teatro, Cia. Teatral Arriégua, Cia. Entremeios de Teatro, Grupo Centauro de Teatro, Grupo Máscaras da SCAC, Cia. kanoistravezdenovo, Grupo Cícera de Experimentos Cênicos, Cia. Elas de Teatro.


Neste dia em que celebramos o êxito do nosso movimento, aprovamos e publicamos o presente manifesto, que carrega nossa voz, nosso coração e nossa alma. 


Guerrilha permanente


Pleiteamos que todas as instituições que fomentam as artes cênicas no Cariri se irmanem no financiamento, difusão, formação, intercâmbio e circulação permanentes do que é produzido na região…


Vemos que vários bons espetáculos de outros estados e de diversos países são mostrados no Cariri, mas é revoltante perceber que as mesmas instituições que promovem essa oportunidade, negam-se a desenvolver ações que valorizem e mostrem nossos espetáculos em outros estados e países. 


Intercâmbio responsável e democrático


Somos defensores de um intercâmbio que propicie a verdadeira integração e vivência entre as mais diversificadas e distintas experimentações e realizações cênicas, respeitando as opções estéticas e abolindo o preconceito, o mercenarismo, a subserviência, o colonialismo. 


Dignidade nos cachês e no financiamento


Nossas companhias de teatro, dança, circo, música e folguedos são constituídas de respeitáveis e valorosos artistas, pesquisadores e mestres. E nossas criações são merecedoras da atenção e tratamento distinto por parte de agentes financiadores e órgãos promotores, sejam públicos ou privados.


Somos a expressão verdadeira da identidade deste valoroso pedaço do mundo. Por isso, combatemos a humilhação dos cachês irrisórios e financiamentos insuficientes praticados com as produções locais e reivindicamos a revisão das políticas desenvolvidas no Cariri por todas as instituições atuantes no setor.


Controle social dos investimentos


Propomos que BNB, CEF, BB, SESC, URCA, SEBRAE, SECULT do Estado e dos Municípios, MINC e Funarte, além de outros órgãos, possibilitem a participação dos setores organizados na concepção de programas e deliberação dos investimentos em arte e cultura. 


Dessa forma, teríamos justiça na definição de cachês, criação de intercâmbio verdadeiro e compromisso com o desenvolvimento e fortalecimento das artes e valorização dos artistas caririenses. 


Procedimento este, se extensivo a outras regiões do estado e do país, garantiria o respeito à diversidade e baniria grupos de mercenários que se instalaram no interior e na periferia de Organizações Governamentais (OG’s) e Organizações Sociais (OS’s), detentoras de imenso capital financeiro de origem pública.

O Cariri é universal


Não entendemos o Cariri como uma ilha isolada do resto do Brasil e do Mundo. Perderia o sentido a sua existência, se assim fosse. Compreendemos nossa região como resultante de uma grande e profunda fusão de culturas, caldeadas em séculos de peleja envolvendo principalmente o ameríndio, o ibérico e o africano. Somos universais!


Lutamos, portanto, para que nosso povo não seja movido a ignorar a si mesmo. Valorizar o Cariri não é negar outras regiões ou países, mas inseri-lo na dinâmica que tempera a existência e o espírito da humanidade.



Crato-Cariri-Ceará-Brasil, em 27 de novembro do ano 2011.


Os Guerrilheiros do Ato Dramático Caririense

Encerramento da terceira Guerrilha do Ato Dramático Caririense, noite iluminada!

Essa noite foi uma das mais lindas da música do Cariri, o evento foi o encerramento da maior mostra teatral do Cariri, idealizada pelo Comunista e Dramaturgo Cacá Araújo, esse guerreiro que luta não apenas pelo teatro regional, mas principalmente pela valorização da cultura e dos artistas caririenses.

Segundo Cacá Araújo: A Guerrilha é um movimento em favor da diversidade, respeito e afirmação da identidade cultural brasileira, especialmente por destacar a dramaturgia e a encenação produzidas no Cariri cearense como fortes elementos identitários do nosso povo. Foi, portanto, pensado a partir do debate com atores, diretores, dramaturgos e produtores, como forma de valorizar a produção dramatúrgica, a encenação e a realização de espetáculos na região, posto ser necessária intervenção de impacto que abra espaços de difusão da arte e do artista caririense, nordestino, brasileiro.

Lifanco é um nome consagrado na música cearense e brasileira, está lançando 3 cd’s, Compositor, músico e fundador do reisado Nação Cariri, foi o comandante da festa ontem, reunindo nomes grandiosos como Dihelson Mendonça, Abidoral Jamacaru, e participações graciosas, charmosas de cantoras já renomadas do Cariri, citando aqui: Helida Germano, Elisa Moura, Fatinha Gomes, Mônica Monteiro! Um desejo de todos os artistas é que essa Mostra se estenda à música, tão rica quanto o teatro regional, e que o Cariri seja um pólo cultural resgatando seus antigos valores, dando oportunidade aos talentos que brotam a cada dia naturalmente na nossa terra!

Grande Dihelson Mendonça

Parabéns Cacá Araújo, todos os atores, diretores, músicos e ao público que prestigiou esse evento, que é NOSSO!!!

Gabriela, Mônica, Elisa Moura, Fatinha Gomes, Helida Germano, Kelvia

Marcelo Randemarck, Fatinha Gomes, Lifanco, Pantera

Helida Germano brilhando


Lifanco, o comandante da festa!


Fatinha Gomes e a voz de fada!

Reportagem: Janinha Brito

Rodrigo Moura, Baterista Caririense!

Rodrigo Moura é um dos nomes mais conhecidos do cenário musical caririense, filho de um também grande baterista que fez história na famosa banda da década de oitenta: Ases do Ritmo, carinhosamente conhecido como “Neno”. Extrovertido, irreverente, eclético, sua trajetória começou por volta de 1998, em Teresina-PI, passando também por Brasília-DF, é o baterista da banda base do Festival Cariri da Canção, renomado e já consagrado festival  cearense, onde teve a oportunidade de acompanhar músicos como: Fernando Rosa, David Duarte, Mario Soul ,João do Crato e todos os talentos que abrilhantam o evento.
Faz parte do Pró-Jovem na cidade de Juazeiro do Norte, acompanha a orquestra Prisma, a banda de Dudé Casado, um dos mais promissores compositores da região e ex integrante da banda Dr. Raiz. Participa também da banda de Abidoral Jamacaru, o maior ícone da música caririense.
O novo projeto do Rodrigo Moura é a formação de uma banda, na qual ele será o diretor musical e fará um repertório voltado para a época do vinil: Secos e Molhados, Tim Maia, Jorge Ben, Novos Baianos, etc, onde contará com a parceria de Sidney “Cidinho”, no violão, Weskley na guitarra, Ricardo de Caldas no baixo, e Janinha Brito no vocal, ainda em fase de ensaio e escolha de repertório. Está também aberto à participação em projetos diversos de cantores da região em todos os segmentos.

Rodrigo Moura, Ibertson Nobre e David Duarte na premiação do Festival da canção!

Há luta na saúde

Dia 1º de Dezembro os profissinais de saúde do Cariri, enfermeiros, Acadêmicos,tecnicos de enfermagem, ACS,s, ACE,s saírão numa grande manifestação pelas ruas de juazeiro do norte, reivindicando badeiras históricas dessas categorias de saúde, o evento é promovido pelas seguintes entidades, SIND SAÚDE,SEACONCE,C.A DE ENFERMAGEM URCA, CTB E PARTIDOS POLITICOS. A concentração da II PASSEATA DO JALECO ocorrerá, as 8h em frente o CIRÃO em Juazeiro do Norte, estão sendo convocados todos os profissionais de saúde, de CRATO, BARBALHA ENFIM DE TODO CARIRI, para que vestidos de jaleco possam ir as ruas mostrar suas disposição a luta.

As lutas em defesa da valorização dos trabalhadores em saúde vem ganhando a cada dia novos contornos e alavancado ainda mais o reconhecimento por parte da população dos valiosos serviços prestados por esses profissionais, notadamente Enfermeiros, técnicos de Enfermagem, Agentes Comunitários de Saúde, e Agentes de Endemias.

Contudo é preciso que todas as categorias de trabalhadores em saúde, engrossem a luta em defesa desses profissionais, lutas históricas, travadas no campo político para salvaguardar direitos tanto antigos como os mais recentes a exemplo da redução da carga horária dos profissionais de enfermagem para 30 horas semanais, conforme reza o projeto de lei que tramita no Congresso Nacional de n º 2295/00; fortalecendo o debate da criação de mecanismos que emperrem a mercantilização da enfermagem, zelando pela qualidade dos cursos como a criação do exame de ordem para os profissionais de saúde, ademais não podemos esquecer da grande bandeira de luta dos enfermeiros que trata do projeto de lei no 4.924 de 2009 que cria o piso nacional da categoria, bem como o PLS 196/09 que estabelece a lei do piso aos ACS e ACe do Brasil.

O movimento sanitarista da década de 80 que acabou por culminar na criação do SUS- Sistema Único de Saúde, maior patrimônio do povo brasileiro, copiado por grandes potências internacionais, foi e ainda o é com todas as suas limitações uma das grande provas históricas do poder de mobilização da categoria ligadas a saúde.

Todas essas conquistas, tiveram e tem a participação direta dos profissionais de saúde que contribuiu sobremaneira e ainda contribui pela melhoria na qualidade da prestação do serviço de saúde. É preciso reconhecer esses profissionais de nível superior e médio como os grandes trabalhadores do cuidar, responsáveis pela reabilitação e prevenção de agravos a saúde da população Brasileira.

Para tanto, é preciso avançar nas conquistas históricas, garantindo cada vez mais o empoderamento dos profissionais de enfermagem, agentes comunitários de saúde, agente de endemias com a consolidação de políticas publicas sólidas e que representem verdadeiramente os anseios desses profissionais e de uma sistema de saúde mais forte e que atenda a todos os seus princípios.

O Plano de Cargos e Carreira- PCCR dos servidores públicos da saúde do estado do Ceará deve ser uma luta permanente, exigindo do governo estadual a sua efetivação. Além do mais, é preciso estarmos cada vez mais convencidos que só a luta muda as coisas, essas mudanças serão cada vez mais profundas assim seja o tamanho de nossa disposição em transformá-la.

Prof. Samuel Duarte Siebra
Acadêmico de . Enfermagem – URCA

Pra que serve a poesia ?

Permitam-me começar esta cerimônia com um poema do “Four Quartets” de Thomas Stearnes Eliot . É que a literatura carrega consigo seus misteriosos ritos e se há muito de eucarístico na Poesia , os versos são uma Prece e nos conectam com o divino e o sagrado, fazendo pairar sobre todos nós os eflúvios das musas e deuses do Olimpo.


“Em meu Princípio está meu fim. Umas após outras

As casas se levantam e tombam, desmoronam, são ampliadas,

Removidas, destruídas, restauradas, ou em seu lugar

Surgem um campo aberto, uma usina ou um atalho.

Velhas pedras para novas construções, velhas lenhas para novas chamas,

Velhas chamas em cinza convertidas, e cinzas sobre a terra semeadas,

Terra agora feita carne, pedra, fezes,

Ossos de homens e bestas, trigais e folhas.

As casas vivem e morrem: há um tempo para construir

E um tempo para viver e conceber

E um tempo para o vento estilhaçar as trêmulas vidraças

E sacudir o lambril onde vagueia o rato silvestre

E sacudir as tapeçarias em farrapo tecidas com a silente legenda”

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“Aqui ou ali, não interessa

Devemos estar imóveis e contudo mover-nos

Rumo a outra intensidade

A uma união mais ampla, uma comunhão mais profunda

Através da escura frieza e da vazia desolação,

O grito da vaga, o grito do vento, as águas infinitas

Da procelária e do delfim. Em meu fim está meu princípio”

E a poesia, amigos, parece louco dizê-lo , está no princípio de tudo neste universo. O Gênesis e o Apocalipse que mais são além de um orgasmo poético das superiores e insondáveis forças que com seus cadarços invisíveis movem a amplidão ? A flor fosforescente que, em botão, desabrocha no campo; a pétala que adiante cai e alimenta o solo; a semente que se abre e reinicia o ciclo; o pólen aspergido pelo vento que amplia o universo da fertilização; o corpo desfalecido que sucumbe – são todos capítulos de uma mesma história, ramalhetes de um mesmo bouquet.

Pareceria , então, perfeitamente plausível que aqui estivéssemos em comunhão , para uma celebração sagrada: o lançamento de um livro de poesias. No entanto, diante de um mundo tão pouco poético, tão tecnicista, tão pouco glamoroso, esta solenidade pode parecer totalmente obsoleta e grita-nos a pergunta inevitável : Prá que diabos serve Poesia no mundo de hoje ? Um mundo onde não mais se conversa: se tecla; não mais há encontros em praças, mas em chats; onde o olho-a-olho, o toque, o sorriso foram substituídos pelos e-mails. Um mundo líquido, tão bem caracterizado por Baumman , onde a fluidez estonteante leva de roldão não só as modas, os costumes, mas os sentimentos mais profundos que serviram um dia de amálgama contra a inevitabilidade da morte e o cupim inexorável do tempo. Numa sociedade tão pragmática como a que nos tornamos, onde tudo no planeta se tenta representar numa planilha do Excel; onde o Código de Barras foi se tornando mais importante que o Código de Ética; onde o grande dilema de Hamlet hoje se resume a “Ter ou não ter: eis a questão”… Prá que diabos serve a Poesia ? Se já não nos interessa o mistério das coisas porque tudo pode ser encontrado facilmente no Google; se escancaramos todas as barreiras da intimidade ; se amigo é definido como aquele que faz parte da mesma comunidade no Facebook; se a Ciência tudo pode e tudo permite; se só existe um Deus : O consumo e uma só Igreja verdadeira: o Shopping Center… Prá que diabos se lança um livro de poesias ?

Antecipei, amigos, estas questões porque percebo, claramente, que muitos dos que vieram já se viram diante de iguais inquirições e boa parte daqueles que convidados não compareceram, com certeza, assim o fizeram, acicatados por dúvidas semelhantes. A Poesia ? Tem alguma serventia ?

Pois bem, amigos, tentarei decifrar o enigma da Esfinge. A poesia não possui qualquer utilidade prática, como dizia Leminsky : é um objeto perfeitamente inutilitário. Com ela você não desconta cheque em Banco, não compra bolacha em supermercado, não cura tísica de menino catarrento. Mas a nossa Sociedade, amigos, só compra objetos perfeitamente úteis? Observem a casa de vocês num dia de mudança: quanto traste adquirido desnecessariamente ! O taco de beisebol trazido como lembrança de Miami; as roupas incontáveis que caíram de moda de repente; o sapateiro repleto de sapatos que fariam inveja a um imbuá… Hoje, amigos, mais que nunca, as coisas todas são perfeita e intencionalmente descartáveis , até nós! Mas não proponho que vocês comprem poemas por simples compulsão, que juntem os livros às outras tantas coisas imprestáveis da casa de vocês. Não !

Observem mais um pouco e percebam que na nossa casa existem objetos valiosíssimos, inegociáveis e que, por outro lado, não teriam qualquer valor de mercado. A foto da primeira namorada que entocamos no fundo da gaveta; o primeiro caderno de caligrafia ; a primeira boneca de porcelana; uma pedrinha que trouxemos da Chapada Diamantina num Réveillon inesquecível… ninguém daria um vintém por qualquer um desses itens e por outro lado muitos não os venderiam por qualquer dinheiro desse mundo. Eles têm um valor intrínseco que é impossível de mensurar. Não existem balanças aferidas para pesar o sonho e os mais estranhos objetos do nosso desejo. Há assim valores que sobrepassam as simples tabelas contábeis do Deve-Haver. E eu ousaria afirmar que – imunes aos bolores do tempo e à ferrugem das horas – esta é a única bagagem que nos será permitida conduzir na derradeira viagem quando o Princípio de tudo tocará a sua outra extremidade : o Fim.

A Poesia, amigos, faz parte dessa aresta imaterial da nossa existência. Sem ela é-nos impossível atingir a essência íntima das coisas. Ela possibilita enxergar além da fronteira do aparentemente real. Olhos embotados pela dura realidade cotidiana , uma normalidade perigosa nos solapará pouco a pouco a alma: a violência, a desigualdade, a injustiça, o preconceito, a fome irão se tornando para nós perfeitamente normais e imutáveis. A Poesia nos mostrará outros caminhos a trilhar, antepondo-nos um filtro diante das retinas poderemos perceber nuances até então inexploradas do universo à nossa volta. A percepção dessa dimensão multi-sensorial nos faz compreender o planeta além do nosso pomar e do nosso quintal. Seria impossível a um poeta acender o estopim do Enola Gay ou incendiar Roma, mesmo sob o pretexto de compor uma Sinfonia perfeita. É que Ética e Estética são o verso e o anverso de uma mesma moeda, amigos. Se alguém pretende ensinar Ética para as gerações futuras, conduza as crianças pelas veredas da Arte. Qualquer pessoa que consiga se emocionar diante do Não-Figurativismo de Iberê Camargo , tem no seu âmago uma profunda comunhão com os mistérios da Vida. E a Poesia , amigos, é o amálgama básico de qualquer forma de Arte, uma poderosa forma de alumbramento.

E aqui estamos nós, em meio a tantas digressões, para o lançamento do sétimo livro do nosso Wellington Alves: “Inventário de Poesias”. Mais conhecido por todos pelo afetuoso apelido de TON-TON. Ele, em verdade, seguindo o epíteto quase que premonitório, sempre executou a sinfonia da Vida em muitos tons : Médico psiquiatra, cidadão do mundo, alma de boêmio, militante político ,compulsivo tecedor de amizades; a poesia de Ton-Ton é uma extensão da sua vida. Apesar do que possa parecer o título desse livro, não se trata de um poeta burocrático, Ton-Ton deixa fluir dos seus versos, o encantamento de um vate maduro frente ao mundo com seus mistérios, suas complexidades e sua finitude. Sabiamente, o poeta faz o inventário, em vida, para muitos amigos e muitos leitores, da riqueza que foi auferindo durante a existência. Não de bens materiais perfeitamente expostos ao caruncho e às traças e que fazem a canibalesca festa dos inventários tradicionais, onde se partilham quinquilharias , se destroem laços familiares e se criam inimigos figadais. Ton-Ton deixa como herança sentimentos impalpáveis mas perceptíveis fragmentos de toda uma existência: seu amor incondicional por Fátima e pelos filhos, sua proximidade ao sagrado e sua aversão ao ritual, a estrada que se alonga às costas e parece se estreitar à frente.

Sintam-se assim, todos, seus herdeiros universais. A cada um de vocês caberá : uma nesga da lua de agosto, um crepúsculo na duna de Jeriquaquara, um sopro do orvalho da Chapada, um alvorecer no Vale do Loire. Este é o tempo de viver e conceber, da ampla comunhão com a vida, antes que o Tempo venha estilhaçar as trêmulas vidraças que separam o Príncipio do Fim.

P.S. – Apresentação do livro “Inventário de Poesias” de Wellington Alves, em 24/11/11 no SESC /Crato, com inesquecível Performance de Luiz Carlos Salatiel.


J. Flávio Vieira


“Monólogos das Flores Violadas”, do dramaturgo brasileiro Cacá Araújo, estreia hoje em Portugal

Rita Machado, Paula Carvalho, Kate Camilo e Ana Paula Almeida, atrizes
Baseado numa série de reportagens sobre histórias de exploração sexual de crianças e adolescentes nas rodovias federais do Ceará (Brasil), Monólogos das Flores Violadas, do ator, encenador e dramaturgo brasileiro Cacá Araújo, é um drama de fundo social.
Cacá Araújo, dramaturgo
 
Ele revela que os casos são narrados como se cada uma das moças fosse parte de uma única vida, provada e reprovada pelo trágico destino de viver à margem da dignidade. É denso e atormentado o percurso psicológico das personagens: ouvem e repetem as vozes, sentem e repelem as agressões e os odores da violência. É a vida que se arrasta ferindo e manchando a inocência… É morte que, mesmo vindo cedo, demorou demais…
Uma peça para combater a violência contra as mulheres
João Pinho, encenador
João Pinho, ator e encenador português que dirige o espetáculo, informa que, “segundo dados da Anistia Internacional, pelo menos, uma em cada três mulheres já foi vítima de violência. Assim, um grupo de atores do Intervalo Grupo de Teatro, de Oeiras-Portugal, com o apoio da APAV, decidiu levar à cena a peça Monólogos das Flores Violadas, que conta quatro histórias verdadeiras, passadas no interior do Brasil, mas que acontecem por todo o mundo. Em Portugal, a APAV conta cerca de seis mulheres, por semana, que são vítimas de crimes contra a vida. Esta peça alerta para uma dura realidade, através da dor de quatro mulheres violentadas, abusadas e quebradas por um destino, que em nada se assemelha a um conto de fadas. Decidi ter um papel ativo na luta contra este tipo de violência e esse é o principal intuito deste trabalho – despertar consciências para ajudar a travar este flagelo”, enfatiza.
Quatro atrizes dão voz, corpo e alma às estórias de outras tantas mulheres, que sofreram numa qualquer idade e, no dia-a-dia, os abusos monstruosos daqueles que estavam perto, ou até mesmo de estranhos. Mulheres que deixam o seu testemunho, para captar a atenção de uma sociedade global que teima em não ver, e vira as costas a valores morais e Direitos Humanos.
Com o apoio e presença da APAV, a estreia de Monólogos das Flores Violadas será hoje, 25 de novembro, Dia Internacional de Combate à Violência Contra as Mulheres, no Auditório Municipal Lourdes Norberto, Oeiras-Portugal.
SERVIÇO:
“MONÓLOGOS DAS FLORES VIOLADAS”, original de Cacá Araújo (Crato/Ceará/Brasil), adaptado e encenado por João Pinho, com o Intervalo Grupo de Teatro
Interpretação: Ana Paula Almeida, Kate Camilo, Paula Carvalho e Rita Machado
Assistente de Encenação: João José de Castro
Cenografia: João Pinho
Músicas Originais: Luís Macêdo
Desenho e Execução de Luz: Miguel de Almeida
Projeto e Execução de Som: Fernando Dias
Projeção Audiovisual e Fotografias: Luís Herlânder Carvalho
Ilustração do Cartaz: João Macêdo
Datas das apresentações:
25 e 26 de novembro, e 01, 02, 08, 09, 10, 16 e 17 de dezembro de 2011
06, 07, 13 e 14 de janeiro de 2012
Local:
Auditório Municipal Lourdes Norberto, Linda-a-Velha, Oeiras-Portugal
(Fonte: Produção do Espetáculo)

Krakatoa


Primeiro ano da Residência Médica. Recém saídos do Internato, os médicos carregavam consigo toda a ansiedade e insegurança do início da profissão, mas , por outro lado, a certeza de que era possível dar um cangapé na falida estrutura da Medicina brasileira e construir um mundo melhor que o proporcionado pela geração anterior. Sem utopia, não se vive! Hospital Público de referência, na capital, sobrevivia em meio aos inúmeros contrastes. De um lado, um Corpo Clínico da mais refinada qualificação, do outro as deformidades típicas dos países de terceiro mundo : a falta quase contínua dos mais elementares insumos. Os residentes, uns 30, com aquele ofuscante brilho nos olhos de início de carreira, se subdividiam nas inúmeras especialidades: Clínica Médica, Cirurgia, Ortopedia e Oftalmologia. Os homens, naquele ano, eram feios de fazer dó : pareciam uns papangus. As mulheres, mais jeitosas, com exceção de uma ou outra mais fraquinha de feição, como comentavam os meninos. Havia, no entanto, uma Residente da Oftalmo que era lindíssima: uns dois metros, olhos azuis, curvas que lembravam a estrada de Petrópolis. Os residentes a comparavam ao Krakatoa : alta, linda, em plena erupção, mas perfeitamente inacessível à maioria dos mortais. Nada mais congruente que um colírio daquele naipe escolhesse a área de oftalmologia, pensava a tropa !

Com o desenrolar dos dias, os meninos se foram apaixonando alternada e seguidamente por Ludmilla – assim se chamava e o nome sensual já lhe fora colocado quase como uma premonição. Aceravam, faziam o cerca-lourenço, soltavam a lábia que não era suficiente para derrubar um Airbus daquela envergadura e , depois, diante na negativa, caiam num estado de desolação de fazer pena. Aos poucos, os rapazes desconfiaram que Ludmilla se fazia de gostosa e difícil por uma causa muito pragmática. Devia ser muito interesseira, conhecia perfeitamente o farto e rico material que possuía e não pretendia queimar as fichas com qualquer pé rapado. O grande problema ali é que a Residência parecia laje de rio : era uma liseira generalizada! Os carros da galera eram geralmente populares e com largos anos de estrada, muitos já nem pagavam IPVA.

Pois bem, um belo dia, Ludmilla comentou, em tom de deboche, a Getúlio, um residente de cirurgia, que inclusive já tinha sido preterido por ela, que não lhe faltava mais nada. Pois , no último fim de semana, o Crizélido, o mais feioso da turma, residente da Ortopedia, depois de umas cervejinhas, não lhe dera uma cantada? Era só o que me faltava! Um chaverinho daqueles ! Feio que só briga de foice no escuro ! O Getúlio se indignou junto com ela ( meio por ciúme, meio prá encompridar conversa) e pinicou o oratório do colega:

— Mas menino, num falta mais nada mesmo! Um sapo às avessas daqueles ! Ludmilla, e o pior : eu conheço aquilo desde menino! Ele nasceu lá no Mato Grosso, em Dourados, na minha cidade. O pai é podre de rico, tem fazenda prá tudo quanto é canto. Ele mesmo tem uma BMW lá! Mas aqui o sovina passa por pobrezinho, por miserável. Tem um Gol velho caindo aos pedaços, divide tudo quanto é conta com a gente. Diz que é para não dar na vista, pois tem medo de ser seqüestrado, o salafrário !

Ninguém compreendeu bem o desenrolar dos fatos. Após a descasca de Getúlio, estranhamente, já no outro final de semana, Crizélido e Ludmilla estavam aos beijos e abraços. O namoro pegou fogo e já no final do primeiro ano da Residência, ela apareceu grávida: parece que esqueceu de tomar os comprimidos. Casaram logo depois. Terminaram e voltaram para Dourados onde um Hospital montado pelo pai de Crizélido já os aguardava. Vivem felicíssimos: é “mor” prá cá, “mor” prá lá !

Mais uma vez parece ter se confirmado a máxima rodrigueana: Dinheiro compra tudo, até Amor Verdadeiro ! Quanto a Getúlio, além da Cirurgia, ganhou uma nova profissão: o de Conselheiro às Avessas ! Dizem que foi ele quem deu cordas para Kadaffi não abdicar e, a pedido de Lula, foi ele quem convenceu o Zé Serra que era ele( bonito e simpático) o candidato ideal do PSDB a Presidência da República.

J. Flávio Vieira