Arquivos mensais: Janeiro 2011

A primeira poesia

Escondo-me na clareza
Dos teus olhos
Adoro o doce amargo da tua boca
Sem nunca ter sentido

Tocando e beijando meu ombro
Por debaixo da minha trança
Mim refugio com os teus abraços
Só assim estou em sintonia com minha alma
Minha intensa e pura alma

Então fico a observar os lados
Da vontade de fugir
Como um pássaro dentro de uma gaiola
E ao mesmo tempo
Da vontade de beijá-lo
E senti-lo como se fosse meu
Só meu
Mas sei que é proibido
Sei que não posso

Saio correndo pelas escadas
Sem me despedir
E pego a pensar,
A imaginar
No que fiz.

Janaina Félix

O espelho deste mundo – Emerson Monteiro


Quem quer saber o que seja o mundo, olhe lá dentro de si e verá apenas o reflexo do que queremos para as ações diárias. Ninguém espere resultado diferente do que aquilo que produz. Por isto, nada de esperar seriedade na política sem participar do processo político na altura certa das oportunidades oferecidas todo tempo através das democracias.
Postular segurança pública e correr léguas do convívio da própria comunidade em que vive demonstra contradição. Reclamar da sorte refugiado por trás de muralhas invioláveis, enquanto drogas e armas correm soltas nas madrugadas, destoa do dever. Falar em união de todos e eximir-se do mínimo em aproximação com os demais do grupo social, animais solitários, engana a si quem age desse modo.
A realidade possui a nossa cara, a minha, a sua, o DNA coletivo. Nada muda se a pessoa não mudar, dizem doutrinadores, todo tempo, porquanto assim é se nos parece. Seja a mudança que quer para o mundo, afirmava com autoridade o líder indiano Mahatma Gandhi, revolucionário de uma nação que acreditou nos ensinos de paz da sua mensagem e reverteu séculos de colonialismo.
Quantas e tantas vezes reclamamos coerência e honestidade dos nossos representantes, e, durante os turnos eleitorais, agimos qual eles agirão depois que os elegemos, bolsos cheios dos cheques em branco dos nossos votos. Nem tudo só desespera, nesses tempos distorcidos que pedem luzes. Há provas incontestes de amor ao bem público nas providências dos responsáveis sérios que ainda existem nos postos-chave, desde que os levemos até esses lugares da mais importante valia. Diz a sabedoria popular que quando virmos um jabuti em cima de uma estaca de certeza alguém o botou na posição, porquanto jabuti não sobe estaca. Quando um político preenche o mandato significa que os cidadãos o levaram ao lugar.
Filtro dessas representações políticas são os eleitores. Caso reclamemos dos mandatários, eles mostram a cara da sociedade, a nossa cara, também. Esta a equação mais simples do que acontece desde que o homem é homem, na história.
Por isso, perante a república em que vivemos, nós e nossas famílias, as mudanças principiam no dia das eleições, ao preço do suor das pessoas que sofrem; dos inocentes que padecem fome; das mães que vendem filhos; crianças que se prostituem pela ausência do respeito das orientações corretas; jovens desencantados e marginais; ruas esburacadas, sujas, abandonadas; padrões conturbados de horas críticas e contradições, e erros sem alternativas; desmandos e servidão.
Receita simples esta, a quem queira rever os equívocos acumulados: Abra os olhos e veja no espelho da consciência; interprete os meios conquistados nas existências; limpe o espelho dentro de si e trabalhe para descobrir e reavivar as esperanças perdidas pelos que esqueceram das chances de melhorar este mundo.

Hamurabi Batista – Um artista ponteiro



Os pontos de cultura é uma invenção que deu certo. Um dos exemplos vem de Juazeiro do Norte trata-se do Ponto de Cultura Mestre Noza que é gerido pelo ponteiro Hamurábi Batista. Neste Ponto de Cultura, os artistas agora tem a possibilidade de ter acesso gratuito a rede mundial de computadores, além de puderem fazer o registro dos seus trabalhos e isso é conseqüência do trabalho dedicado que vem sendo desenvolvido pelo artista visual e poeta Hamurábi, que recentemente ingressou no Partido Comunista do Brasil – PCdoB.


Alexandre Lucas – Quem é Hamurabi Batista?


Hamurábi Batista – Poeta, xilógrafo, bicho do mato, fruto da década mentirosa, pós ditadura, punk da década de 80 em Juazeiro do Norte.


Alexandre Lucas – Quando teve inicio seu trabalho artístico?


Hamurábi Batista – 1980, imprimindo as xilos gravadas pelo pai, em seu ateliê no fundo do quintal. No mesmo ano passou a escrever poesias nas capas dos cadernos, motivado pelas aulas de português e literatura do ginásio. Também passou a modelar com argila.


Alexandre Lucas – Quais as influências do seu trabalho?


Hamurábi Batista O dia-a-dia, o rock’n roll, o jazz, o blues, os telejornais, a cultura popular, Augusto dos Anjos, Drummond, Bandeira, Abraão Batista, Mestre Noza, Chico Buarque de Holanda… Tom Zé, revolução.

Alexandre Lucas – Como você ver a relação entre arte e política?


Hamurábi Batista – A arte é livre, e penetra como o vento em todos os lugares que dêem passagem. Todas as coisas são boas, ruim é quem usa. A arte como instrumento formador de opinião, gerador da revolução. Tudo é política, a arte está em tudo. Reprovável podem ser as atitudes das pessoas, sejam na política, na arte, no convívio, no trabalho…

Alexandre Lucas – Seu trabalho é uma mistura do contemporâneo com o popular?


Hamurábi Batista – Exatamente, tudo que faço é resultado disso. Nasci em 1971, um dos piores anos da ditadura, fui adolescente na transição pra a “democracia”, então, acho estar ali o início da fusão. Não posso deixar de lado a tradição popular. Aquilo que mais quis provar era a liberdade de ser uma pessoa íntegra sem a necessidade de seguir padrão forjado pela ditadura, ou por preconceitos. As pessoas mais legais, são as mais simples… não dá para largar isso: o simples e o complexo, o antigo e o moderno. Uma coisa só existe em oposição a outra. Só existe o “sim” por causa da existência do “não”…


Alexandre Lucas – O que representa para você estar no comando do Centro de Cultura Mestre Noza?


Hamurábi Batista – Poxa, muito massa, sou um cara que dá maior valor para as coisas feitas das formas mais rudimentares, sem obrigação de utilizar os recursos modernos. A Associação dos Artesãos de Juazeiro do Norte, da qual sou presidente eleito pela assembléia geral, é exatamente isso, a auto gestão. Procuro integrar meu conhecimento, e minha escolaridade ao movimento, posso ajudar bastante, já conquistamos boas coisas juntos. O Centro Cultural Mestre Noza, gerido pela associação é esplêndido, magnífico, pua que palavras quando podemos constatar pessoalmente? Visite-nos: rua s. Luis, 96 (antigo quartel) centro.

Alexandre Lucas – Quais os desafios do Centro de Cultura Mestre Noza?

Hamurábi Batista – Todos os desafios estão ligados a um: o escoamento da produção. Este é o foco. Não adianta nada se não superarmos a dificuldade de comercialização dos nossos produtos, não dá nem pra pensar com fome, com dívidas, com planos adiados, frustrações…

Alexandre Lucas – Qual a importância do Centro de Cultura Mestre Noza ser Ponto de Cultura?

Hamurábi Batista – INTEGRAÇÃO, E INTERAÇÃO COM OS DIVERSOS SETORES, LINGUAGENS, E TIPOLOGIAS DA CULTURA E DA ARTE, POR MEIO DA REDE ESTADUAL E/OU NACIONAL DOS PONTOS DE CULTURA, O RECONHECIMENTO POR PARTE DOS GOVERNOS ESTADUAL E FEDERAL, AS OPORTUNIDADES E PERSPECTIVAS QUE SURGIRAM, E PODERÃO SURGIR A CURTO E MÉDIO PRAZOS, INCLUSÃO SOCIAL.



Alexandre Lucas – O Brasil vive um novo momento de caráter progressista na área das políticas públicas para a cultura. Como você percebe essa nova conjuntura?


Hamurábi Batista – Importante demais o fato dos recursos públicos para a cultura estarem passando pelas mãos das comunidades culturais, e dos artistas, através dos editais. Há muitas críticas sobre essa política. Vamos avançar sim, lógico. Vejo que antes não tínhamos nada além do abandono e da indiferença. Vamos em frente aprimorar isso conquistado. Buscar formas mais viáveis, eficazes, inclusivas. Há muita gente ainda sem saber escrever projetos, há muitos compatriotas ainda movidos pelo rancor, pelas seqüelas, vamos incluí-los, vamos libertá-los, já!…


Alexandre Lucas – Qual a contribuição social do seu trabalho, enquanto artista?


Hamurábi Batista – Procuro fazer com que as pessoas tenham a liberdade de utilizar o recurso proibido à minha geração: o pensamento, a libertação do preconceito, o rompimento das amarras. Busco a pitada, apimentada, o tempero para tornar mais quente, mais penetrante, mais perigoso aos decreptos.


Alexandre Lucas – Você agora é comunista?


Hamurábi Batista Vou responder com uma poesia:

O QUAISQUERES

Qualquer coisa eu sou um monossílabo

Dividido em qualquer rima

Desigual

Qualquer ISTA que eu não seja

Natural

Sou um EIRO

Qualquer e impossível

Um talvez

Um tampouco

Ou um total

Numa medida qualquer

Que for possível.

Hamurábi

O velho punk com tendências anarquistas dos anos 80, recém filiado ao PC do B, simpatizante de Trotsky, puto da vida com Stalin, apaixonado por Dilma.

É isso aí, é isto aqui: artesanato é meio comunista, é auto gestão, é Canudos, é Caldeirão.


Alexandre Lucas – Como você ver a atuação do Coletivo Camaradas?


Hamurábi Batista – Poxa, tenho o Coletivo Camaradas como referência. Adquiri quando estudava na Urca, Letras. Do pouco que se salva naquela bodega. Com todo respeito aos colegas professores, e aos companheiros estudantes. O Coletivo Camaradas sempre será pra mim uma grande referência daquilo que há de bom.

Um texto bem brasileiro

Estamos publicando esse do Rosemberg Cariry pela importância reflexiva e bem humorada na qual ele analsa a conjuntura, mesmo tendo sido um documento produzido ainda quando o Ministro da Cultura era o Juca Ferreira.

II CONFERÊNCIA DE CULTURA – ANOTAÇÕES DE UM “OBSERVADOR”

Exmo. Sr. Ministro da Cultura, Juca Ferreira,

Agradeço o convite que me foi feito, na qualidade de “observador”, para participar do II Conferência Nacional de Cultura, ocorrida de 11 a 14 de março de 2010, nas instalações high tech do Centro de Convenções Brasil 21, em Brasília. Cumpro aqui minha função e dou conta de tudo quanto observei, fazendo uso dos cinco sentidos, da razão cartesiana, de um punhado de intuição e de muita boa vontade.
Não vou contar aqui dos atropelos iniciais, dos funcionários do Brasil 21, seguranças bem nutridos e bem jeitosas moças, todas vestidas de preto, como se tratasse de uma funerária. Tratava-se de uma festa mais alegre e cheia de diversidade, conforme nos coube observar.
O que mais me chamou a atenção foram as cores, os suores, as texturas e os matizes de peles, a “muvuca” dos sons e os sabores escondidos em farnéis e bolsas. Vi um Brasil que nunca vira antes, de gente que habita todos os confins, do pantanal aos pampas, das florestas amazônicas às caatingas nordestinas, dos cerrados do planalto central aos litorais atlânticos, das serras aos chapadões, das dunas do Saara-Ceará aos manguezais do Maranhão. Vi um Brasil plural e multiétnico, feito de negras de perfis helênicos, de sararás de lábios grossos e narizes chatos, de índios-índios, de índios de olhos azuis, de índios indo-europeus, de brancas de cabelos negros como a asa da graúna e lábios doces como o mel da jati, de japonesinhas com cocares multicoloridos que mais pareciam índias, de cafuzos assumindo a nova condição cigana, de “afro-descendentes” quilombolas de cabelos pintados de louro, como os “afro-americanos” do Harlem, de morenos desabusados e mulatas de traiçoeiros olhos verdes. Tudo estava em trânsito. E o que era cantador de viola virou griô, e o que era mulato virou quilombola, e o que era caboclo virou índio, e o que era índio virou branco, e o que era “afro-descendente” virou loiro, e o que era loiro vestia-se como “afro-descendente” dos afoxés da Bahia e trazia no pescoço os cordões de patuás. E Deus salve todos nós!
Como se não bastasse essa mistura capaz de acabar de vez com o juízo de Deus, percebi um fluxo de migrações inter-étnicas e interculturais de tal forma que fui logo me identificando com as propostas de algumas nações indígenas do Amazonas e do Nordeste. Liguei-me a um grupo de Pankaruru do Pernambuco e me anunciei como descendente dos Cariri. Minha avó Perpétua foi uma cabocla Cariús, descendente da guerreira nação. Fui aceito, comprei um cocar e realizei meu sonho de infância. Desde pequeno, lá na cidadezinha de Farias Brito-Ce, quando eu via os filmes de caubóis, sonhava em ser índio… Apache, se possível. Eu queria ser Apache, como Jerônimo. Aqui peço desculpas, é que eu ainda não conhecia a saga de Raoni, de Juruna, de Anhamun, de Sapé e de Macunaíma, heróis da nossa gente. Agora que conheço, quero mesmo é ser índio brasileiro. Neste encontro com muitas tribos, terminei sendo identificado como um Urubu-Caapor, pelas cores da penas do cocar que eu acabara de comprar, o que muito me orgulhou (também). O nosso líder, aquele que falava em nome dos índios tinha um perfil de imigrante ucraniano e falava Nheengatu, com pesado sotaque alemão. Insisto, o que vale no homem são as ideias e o caráter. O homem defendeu nossas bandeiras muito bem, e nós tocamos nossas flautas. Depois, fizemos soar as nossas caixas de guerra. Somos todos contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte, na Amazônia brasileira.
Outra coisa que achei interessante, senhor Ministro, foi o movimento do griôs brasileiros. Responsáveis pela transmissão das tradições orais das tribos na África do Norte, os griôs iam de aldeia em aldeia, contando e cantando as linhagens dos reis, guerras antepassadas e visões do futuro. No Brasil, as manifestações mais próximas dos griôs africanos seriam um mistura de contadores de história com os violeiros, os cantadores ambulantes e os cegos de feira do Nordeste brasileiro. Eu ouvi falar em griô, pela primeira vez, na Europa, reinventado pelo multiculturalismo francês. Lembro-me deste conceito estrangeiro, quando, novidadeiros, lançamos o projeto “Mestres e Guardiões dos Saberes Populares”, em 1996, no Crato-Ce, e realizamos o “Festival Internacional de Repentistas e Trovadores”, em 2002, no sertão central do Ceará. Na apresentação deste evento escrevi:
“Nos sertões do Nordeste brasileiro deu-se um encontro de mundos -nações, povos e culturas se enfrentaram, misturaram-se e geraram a cal que alicerçou o que hoje poderíamos chamar de cultura nacional. Os sertões são herdeiros das principais vertentes culturais do Ocidente, notadamente das culturas ibéricas, magrebinas, mediterrâneas, africanas, afro-brasileiras e ameríndias. Nos sertões, através dos século em que foram construídos destinos e história, surgiram os gênios das raças, as antenas do inconsciente coletivo – os primeiros trovadores, cantadores e violeiros; herdeiros dos bardos gregos, dos regueifeiros galegos, dos trovadores portugueses, dos poetas provençais, dos aboiadores árabes, dos griôs africanos, dos improvisadores tapuias. O universo fascinante e mágico dos cantadores e repentistas fecundou todas as artes do Brasil, e não houve um só movimento musical, do baião à tropicália, da MPB à música erudita, do rock ao hip-hop, que não tenha bebido na inesgotável fonte da cantoria,da viola sertaneja, do pandeiro e do ganzá”.
O que não sabíamos (naquela época) é que o conceito endógeno de griô, antropofagicamente digerido, se ampliaria tanto como uma espécie de guarda-chuva que tudo abriga: de recitadores de versos de feira a pai de santo, de mestre de cacumbi a tocadores de zambê, de condutores de mirações da Ayuasca a filha de santo dos terreiros de negros de Minas. Testemunhei um “botador de bonecos” do interior do Ceará com sua nova carteirinha de griô, orgulhoso que tava danado de sua condição e pertencimento a um grupo identitário. Em todo o evento, ninguém cantou mais canções do que os griôs, ninguém protestou mais do que os griôs, ninguém articulou mais do que os griôs, com suas reivindicações de leis específicas e possível adaptação da Constituição brasileira aos ideais griôs. Ave! Digo, Axé! Roupas de griôs, diretamente importadas do Quênia e do Mali, custavam cinquenta reais, mas tínhamos também as de trinta e vinte e cinco reais para os griôs mais pobres. Pensei em comprar uma de 15 reais, mais fraquinha, menos colorida, mas de maior possibilidade para as minhas poupanças de poeta cordelista e cineasta figural. Terminei comprando (fiquei liso) para presentear o meu amigo Oswald Barroso, teatrólogo, poeta, pesquisador da cultura popular e, de agora em diante, verdadeiro griô. Para ele, comprei também um turbante afro-muçulmano-brasileiro, baratinho, apenas oito reais. Cor de ouro, ficará bem com os seus cabelos brancos. Espero que ele faça, a partir de agora, em suas aulas espetáculos (ao modo de Ariano Suassuna), explicações tão convincentes como a que ouvi de um legítimo griô baiano, afro-descendente quase 100% puro, que explicou toda a linhagem dos griôs baianos desde o século XVI até a primeira década do século XXI, onde se encontra com a pós-modernidade e se reinventa nos blocos e nos trios elétricos da Bahia, com a bênção de Gilberto Gil. Fiquei convencido e comovido, gosto do visual dos griôs, embora goste também do visual afro-tarzan da Timbalada de Carlinhos Brown.
Deixando de lado a complexidade étnica brasileira, capaz de acabar de vez com o juízo de Deus, abri os meus ouvidos e entrei em transe com a multissinfonia de sons e de ritmos. A bem da verdade, achei que o jovem e “bronzeado” carioca, que tentava improvisar ao som de um pandeiro, não se saiu muito bem e quase nunca conseguia rimar. Um dia, ele chega lá e vira Manezinho de Araújo ou um Jackson do Pandeiro, questão de tempo e de dedicação. Deus ajuda, e meu Padim Ciço dá um empurrãozinho, já que se trata de coisas do Nordeste. Seu Zé do Pife, brasiliense de São José do Egito, tocava um baião apimentado, e seus olhos se divertiam com os corpos bem desenhados de duas loiras cariocas (bem malhadas) que sambavam e se requebravam para alegria de negros (perdão, digo: “afro-descendentes”), brancos, mulatos, morenos, amarelos, mestiços e sararás. O reinado das cariocas foi logo derrotado por sete baianas que, requebrando as cadeiras, deixaram os mesmos “afro-descendentes”, brancos, mulatos, morenos, amarelos, mestiços e sararás, cheios de desejos inconfessáveis, em uma reunião de caráter eminentemente cultural como esta. Um desassossego que me levou à conclusão de que, nesses assuntos mais profundos, o que menos importa é a cor da pele. Se um atacava de berimbau, outro arranhava uma viola. Enquanto um chorava um amor perdido no realejo, outro arriscava uma curraleira ou mesmo um bolero de Waldick Soriano. Dois ou três paulistas, estudantes da USP, ensinavam Bossa Nova a três brincantes do guerreiro alagoano. O canto triste de um índio, acompanhado pelo maracá, tocou o coração de uma alemãzinha romântica, de Santa Catarina, que, deixando de lado todos os preconceitos, resolveu “ficar” com o jovem mancebo Xavante, que insistia em soprar a tristeza da canção na sua flauta de bambu. Se tudo isto tinha, muito mais coisas nós vimos: tambor de crioula, grupo de carimbó, banda cabaçal, roda de coco, fandango gaúcho, samba de cumbuca, roda de Nau Catarineta, caretas de Potengi, ponto de macumba e linha de caboclo de catimbó, entre centenas de outros costumes, ritmos, danças e modas de viola.
A tudo vi. De tudo ouvi. Até mesmo um tango, senhor Ministro, durante a plenária. Casais de jovens brasilienses, vestidos em paletós de gangsteres portenhos e meninas fatais de vestidos longos, lascados na lateral, deram um aparente tom de tragédia ao que era festa e brincadeira. Fica bem dançar tango em Brasília, depois de tantos escândalos e republicanas tragédias. O mesmo tango serviu para que uns dançassem hip-hop, que outros atacassem de xaxado e dois ou três ensaiaram danças pouco definidas, mas que me pareceram uma mistura de rituais zulus com o rock da década de cinquenta. Já no último dia, enquanto se votavam as propostas prioritárias para comemorar vitórias, alguém entoou um aboio tão belo e profundo que é como se os oitocentos anos de dominação árabe na península ibérica se fizessem ali presentes pela voz deste vaqueiro nordestino, nomeado delegado da Associação dos Vaqueiros Nordestinos para as coisas da cultura e assuntos exteriores. A cada proposta aprovada, os gritos tribais reinventados na urbanidade tardia, as vozes profundas das almas ancestrais, entrecortadas com vaias, palmas, urras ecoavam no grande salão, e os sorrisos que se desprendiam da boca iam se arranchar nas almas, feito anjinhos barrocos.
Não pense que essas cores e essas raças, essas profusões de ritmos e esses sons não tinham cheiro. Pois tinham sim, de suores da floresta a securas dos sertões, de hálitos perfumados de morenas aos “bafos-de-onça” de quem fugira para tomar uma pinga (garrafa escondida na mochila ou mesmo para queimar um baseado, na intimidade do banheiro). Do meu lado, tinha uma cabocla do Pará, tão bela e tão perfumada com as essências da floresta, que eu fiquei para sempre com este perfume na alma e com as promessas dos seus olhos se balançando na rede na varanda dos meus olhos. Pensei logo em Iracema, a virgem dos lábios de mel e confesso, senhor Ministro, que fui politicamente incorreto e pensei um monte de safadezas. Que Deus, me perdoe, pagarei todos os pecados, não por obras, mas por imaginação. Na próxima romaria que farei para o Juazeiro do Norte, em cima de um caminhão Pau-de-arara, com promessas a serem pagas a meu Santo Padim Ciço, que tudo vê. Santo bom, porque do povo, que as fraquezas dos homens compreende e perdoa.
No almoço, tinha aquelas comidas esquisitas, feitas de venenos e isopor, com um copo de coca-cola ou de uma tinta amarela que dizia ser laranja. Isto não é motivo para pensar que o povo brasileiro não resiste. O povo resiste, sim. Sempre aparecia, como por milagre, tirado de dentro de alforjes, mochilas e malas, um pedaço de rapadura com um punhado de farinha, um guisado de carne do sol com cebola e macaxeira, um doce de casca de laranja da terra, pão de mucunã com geléia de pimenta, um tijolo de buriti, um suco de cupuaçu dentro de garrafas de plástico e a embriaguez do cauim, encantada dentro de uma cabeça, que ainda guardava o doce aroma do mel.
Ao final, foram aprovadas 32 propostas prioritárias, 132 propostas secundárias, 368 propostas essenciais e 175 propostas importantes. Houve algum ruído, logo superado, pois a festa democrática tudo redime. Explico melhor o que houve: ao ser lido o documento final, com a vossa presença, senhor Ministro, os descendentes indígenas vislumbraram o anúncio da Terra Sem Mal, os caboclos nordestinos o Reino do Juremá, o seguidores das religiões orientais o Nirvana, os católicos e os muçulmanos o Paraíso e os yahuasqueiros as Mirações do Bem-Virá. Não importa essa aparente multiplicidade de visões, tudo isto no conduz ao País de São Saruê, versão cabocla do país de Cocanha, onde no leito dos rios corre leite e cujas beiradas são de cuscuz de milho verde, salpicado com coco ralado e pedacinhos de queijo, onde o dinheiro se colhe nas árvores, menino já nasce aprendido no ler, contar e medir, em tudo sabido demais. E o sertão vai virar mar.
Um antropólogo francês naturalizado brasileiro gritava: “vamos preservar os tesouros vivos da cultura popular como quem preserva uma relíquia em um sacrário, defendo-a das influências estrangeiras”. Com a fala daquele homem, pensei logo numa santa cruzada, numa espécie de guerra santa, no Al Qaeda e na luta contra o terrorismo que o presidente Obama, prêmio Nobel da Paz, continua alimentando, contra todas as expectativas do mundo. Mas não, o tal antropólogo francês ou francês naturalizado não falava deste tipo de guerra contra o terrorismo, conclamava o povo a preservar sua cultura – o que todos os dias se transforma, o que, por natureza, está sempre em trânsito, o que nunca tem fim porque nunca foi concluído. Missão impossível. Lembrei de Paulo Emílio Salles Gomes, quando afirmou “Não somos nem europeus, nem americanos do norte, mas privados de cultura original, nada para nós é estrangeiro, pois tudo o é”. Tive vontade de dizer ao “sabichão” francês: “Aqui tudo se contamina, se interpenetra e se transforma. Espelhos quebrados, somos reflexos das nossas sete mil caras e das nossas setenta mil almas”. Talvez esse antropólogo francês-brasileiro não tivesse ainda compreendido bem a ideia brasileiríssima da antropofagia, não no sentido dado pelo tardio modernismo paulista, mas no sentido mais profundo dado pelos Cariris, índios tapuias do Nordeste, que devoravam seus mortos para não mais sentirem nem tristezas nem saudades. Com os mortos comungados, como fazem os cristãos devorando a carne do seu Deus, em forma de pão, e bebendo o seu sangue, transubstanciado em vinho, os Cariris guardavam os seus parentes e entes queridos dentro dos seus corpos e das suas almas, podendo assim reatiçar o sentido da festa e da continuidade da vida, “sem tristezas e sem saudades”.
A II Conferência Nacional da Cultura, neste sentido, foi uma festa de comunhão, de ritual devorador de tradições e de culturas em trânsito, das memórias do futuro e de previsões do passado, de carnavalização do inconsciente coletivo e de desmontes da razão, de estado permanente de devir dos brincantes em busca do paraíso. Somos todos tripulantes das naus dos loucos medievais navegando em mares contemporâneos, dos cavalos dos orixás em transe, dos Zumbis imaginários que povoam a nossa negritude, do Pajé Seta Branca e suas falanges astrais baixando no grande circo do Vale do Amanhecer. Parafraseando Arquimedes, eu diria: “Dai-me um povo como o brasileiro, e eu reinvento o mundo”.
Os paulistas, associados à imagem dos bandeirantes predadores de civilizações, sofreram, de início, certa resistência por parte do Brasil profundo, ou seja, das outras regiões, que os identificaram pelos narizes empinados etc. Conversa vai e conversa vem, terminaram por se convencer de que São Paulo é a maior Capital Nordestina do Brasil e de que não existe paulista, o que existe é brasileiro que faz a vida em São Paulo e o “ser paulistano” reinventa. Foi um alívio chegarem a esta conclusão. Ouviu-se em uníssono: “Ah! Bom!…”. Os paulistas foram aceitos na comunidade brasileira e agora se orgulham de também serem nordestinos.
Enquanto isto, Chico César, de Catolé do Rocha, dava autógrafos para duas chinesas, dois acreanos, quatro bolivianos, três lituanos, sete gaúchos, quatorze armênios, quatro Xocó-Cariri e 42 coreanos, negociantes da Feira do Paraguai (a Feira dos Importados), aqui mesmo em Brasília. Zeca Baleiro fez um discurso semi-erudito e depois rodou a baiana junto com um boi de orquestra que serpenteava pelos labirintos do centro de convenções. Boi de sotaque zabumba com uma toada que fazia as dançarinas se desfazerem em movimentos sensuais. Mais bonito e sensual só o mesmo o Cacuriá de Dona Tetê, com seu ritmo quente, com seu erotismo equatorial, e dengos de coxas e seios de moças brincantes que mexem com o juízo das gentes, nestes tempos de pan e de transexualidade.
Por falar em sexualidade, senhor Ministro, outro aspecto importante, dentro da conferência, foi a organização dos homossexuais, lésbicas, simpatizantes e outras tendências contemporâneas. Unidos em blocos, belos e belas, na verdade radiantes, eles reivindicavam emendas parlamentares que assegurassem o desenvolvimento das culturas pansexuais, intersexuais, megassexuais e suprassexuais. Vi um jovem intelectual, homossexual assumido e politicamente correto, lépido e faceiro, candidato a cineasta, assíduo leitor de Foucault e de Deleuze, tentar convencer um cantador de viola de São José do Egito, tipo sertanejo, forte, moreno e de exótica beleza, a assumir o seu lado gay. Depois de ouvir o bem articulado discurso, o cantador perguntou: “o senhor está querendo que eu seja baitola, é?!”. O jovem intelectual insistiu, corrigindo aquela expressão politicamente incorreta: “Não, estou falando de cultura gay, algo muito mais complexo e profundo”. O cantador de viola se interessou pela conversa e, deixando de lado as questões de fundo semântico, antropológico e psicanalítico, perguntou: “E é bom?”. O jovem intelectual também abandonou o discurso acadêmico e, pegando a “deixa”, deu o veredito final: “É ótimo”. Não sei no que aquele colóquio resultou. Vai ver que o cantador abandonou a família, a mulher, dona Genoveva e os dez filhos (Francisco, Francinaldo, Francélia, Francir, Francimar, Fátima, Frazé, Franluz, Francorli e Francivan), e fugiu com o jovem intelectual para o Rio de janeiro, onde hoje compõe a trilha sonora minimalista de um curta-metragem, cheio de metalinguagens e influências de Wong Kar-Wa, viabilizado por um edital da Secretaria do Audiovisual do MinC. Estamos evoluindo.
Este lado, vamos dizer assim, mais sexualizado da cultura brasileira, fluiu bonito, sem preconceitos e sem barreiras raciais, ideológicas e religiosas. Vi mesmo muitos militantes do PT, do PC do B, PSOL e do PV, erguerem as bandeiras da pansexualidade tropical. Os índios ensinaram para os antigos marinheiros, exilados, padres, poetas, seresteiros que não existe pecado abaixo da linha do Equador e que a “culpa” é uma doença cristã. Essa liberação da libido atravessa todas as artes e todas as manifestações da cultura. Arte é sexo condensado, já dizia Freud. Se não disse, deveria ter dito, mesmo que isto tivesse antecipado o seu o rompimento traumático com Gustav Jung.
Teve especial destaque, nesta pós-moderna conferência, as manifestações da moda e dos seus elegantes delegados. Um estilista conterrâneo meu, de Quixeramobim, terra de nascimento de Antonio Conselheiro, contou-me a sua original carreira profissional. Depois de ter estagiado em Paris, trabalhado em Berlim, Praga, São Petersburgo e São Paulo, voltou para Quixeramobim e abriu uma butique de roupas pós-contemporânea chamada Samarkand. Arrasou. Um sucesso entre a pequena burguesia local e as meninas que têm avós aposentados pelo FUNRURAL. Pois bem, para demonstrar a sua criatividade este talentoso estilista do sertão do Ceará improvisou uma roupa com cartazes, folders, panfletos e outros pedaços de florestas salpicados de tinta gráfica. Na boca, colocou um pedaço de papel, ao modo de uma mordaça. Estaria ele protestando contra o abandono da moda no sertão central do Ceará? É bem possível, por vias das dúvidas, fui logo fazer lobby com alguns grupos de macumbeiros, de congadeiros, de violeiros, de dançarinas da dança do ventre e de professores da USP, para que fosse aprovada como prioritária a proposta de lei “Luxo para todos”, a ser enviada ao Congresso Nacional. A ideia é bem generosa e propõe que todos os grupos de tradições, aldeamentos indígenas e comunidades quilombolas, caiçaras e ciganas, tenham os seus estilistas e que sejam contratados, com preferência, aqueles que fizeram estágio em Paris. O estilista cearense argumentava, com muita propriedade: “Se os índios de José de Alencar tinham medo de morrer sem ver Paris e se comportavam com verdadeiros cavalheiros da Belle Époque, porque é que os brincantes de folias não podem ter roupas tão bonitas e ousadas de fazer inveja a Gabrielle Coco Chanel, Hubert de Givenchy, Christian Dior, Yves Saint Laurent, Pierre Cardin, Giorgio Armani e Gianni Versace?”. Sei que toda unanimidade é burra, mas fomos unânimes e apoiamos o encaminhamento da reivindicação. Concordei com o conterrâneo cearense e também com Maiakovsky, quando diz: “Gente é para brilhar!”. É justo que os brincantes possam brilhar, ainda mais. “Quem gosta de pobreza é intelectual”, já filosofara Joãozinho Trinta, maranhense de São Luiz – a Atenas Brasileira, que se fez guru do carnaval carioca. Aqui somos todos reis: reis do reisado de congo, reis da panelada, reis das autopeças, reis da boca do Lixo, reis do futebol, reis do caldo de cana… Basta olhar as placas dos comércios populares nas periferias dos grandes centros urbanos. Somos republicanos, mas gostamos mesmo é da monarquia que tem mais brilho, tem mais festa, aluá e atabaques.
Tudo que aqui conto, senhor Ministro, foi apenas um pouco do que observei do muito que aconteceu, cumprindo fielmente a minha nomeação como “observador de eventos”, nova, honrosa e republicana função. Agradeço a V. Sª, pelo convite, pela oportunidade desta convivência continental e cósmica com aos povos do mundo que se reinventam no Brasil (mil povos, mil culturas e mil e uma heranças de humanidades). Com vossa permissão, faço uma confissão íntima, como fez Santo Agostinho: “Emocionei-me várias vezes. Em alguns momentos, disfarcei as lágrimas. Sou mesmo sentimental. Não vou mais esconder: gosto das guarânias de Cascatinha e Inhaha, dos boleros de Evaldo Gouveia e das baladas de Roberto Carlos”.
Ser índio por dois dias e ser delegado com direito a voz no grupo das grandes nações indígenas brasileiras, onde, juntos com os morubixabas, defendi a multiculturalidade e a preservação das 184 línguas indígenas vivas ainda existentes no País foi para mim uma felicidade. Em toda minha história, do alto dos meus 57 anos, 35 deles de militância artística, talvez tenha sido esta a minha maior vitória. Estou orgulhoso que estou danado. Não me tenha como abusado, mas vou logo avisando, só aceito o convite para ser novamente “observador”, na III Conferência Nacional da Cultura, com uma condição: dessa vez, quero voltar como “afro-descendente” e, se possível, com diploma de griô. A meu favor, senhor Ministro, para dar maior credibilidade a minha reivindicação, confesso um segredo de família: minha tataravó, judia que se fez cristã nova, casada com um libanês, encantou-se com um “afro-descendente”, um talentoso e robusto cantador de coco de embolada, que passou pelos sertões dos Inhamuns, lá por meados de 1835-38. Os anais das memórias familiares não precisam bem o ano exato.
Pois bem, este “afro-descendente’ de nome Cosme Bento, ex-escravo, carregou minha tataravó e, no Maranhão, aliou-se às armas e à revolta do vaqueiro Raimundo Gomes, dando início à Revolta da Balaiada, de tão gloriosa memória, onde foi portador do honroso título de Imperador das Liberdades Bem-Te-Vis. Na mesma época, para lutar com o povo em armas, foi nomeado Comandante das Armas da Província o coronel Luiz Alves de Lima e Silva, que terminou vencendo os revoltosos, tratando-os a ferro e fogo, ganhando, por este feito, o título de nobreza de Duque de Caixas e a alcunha de “o pacificador”. O Imperador Cosme Bento, responsável pela leve morenice da minha família, foi enforcado, e minha avó ficou sozinha, em um quilombo, no interior do Maranhão, até que seu pai, o coronel Alexandre de Moura, homem de fortuna, mas muito temente a Deus, mandou buscá-la e ajudou-a a criar o bonito “mulatinho”, pois teve que cumprir promessa que a sua esposa, Dona Fideralina de Gusmão Feitosa de Moura, fizera ao italiano Frei Vital de Frescarolo, que já neste tempo andava fazendo milagres pelo sertão. Depois o “mulatinho” cresceu, fez-se um garboso mancebo e deixou vasta “afro-descendência” entre brancas, índias, negras, mulatas e caboclas da região, aumentando em muito o patrimônio da família, até que chegou a grande seca de 1888, que deixou sua vasta família na penúria, e muitos foram os que migraram para as florestas da Amazônia, onde se fizeram seringueiros, garimpeiros, comerciantes e vendedores de escravos índios e migrantes nordestinos. Alguns entraram no cangaço, outros na política, alguns foram ser padres, e alguns poucos, por falta de opção, entraram no exército e terminaram na Guerra do Paraguai, participando daquela desgraceira toda. Que Deus tenha piedade das suas almas.
Desculpe a prosa espichada, senhor Ministro, mas foi tudo para dizer que tenho, assim, esse pé na senzala, o que me dá o direito de ser griô, quilombola, mestre de congada, cantador de pagode ou presidente da Fundação Palmares. Como sou modesto, quero apenas ser “afro-descendente” e colocar em um quadro emoldurado, bem na sala de visitas, próximo do retrato do Coração de Jesus, o meu diploma de griô. Se não aceitarem a minha leve morenice, eu pinto o meu rosto, com fuligem de lamparina misturada com óleo de linhaça, como fazem os sararás, caboclos e branquelos desenxabidos que se cobrem de falso negrume para brincarem no Maracatu do Ceará. Quero fazer inveja ao mestre Sebastião Revardière, do Reisado de Congo de Missão Velha, que nunca passou de branco, um mero cara pálida, descendente da nobreza europeia, cujos antepassados na Revolução Francesa caíram em desgraça com os jacobinos, foi exilado para o Brasil e se estabeleceram como vendedores de pão de coco com refresco de Bacuri, em São Luiz do Maranhão. O mestre Sebastião Revardière só tem mesmo para ostentar e alimentar o seu orgulho de nobreza decadente o seu diploma de “tesouro cultural”, dado pela Secretaria de Cultura do Ceará. Antigamente, ele era “mestre”, mas agora virou “tesouro vivo”. A sua mulher, Dona Isabel, uma “afro-descendente” de corpo roliço e espírito desabusado, abandonou o reisado, com medo de ser nomeada “tesoura”, o que só serviria mesmo de mangação para o povo. Quem sabe, o Américo Córdula, secretário da Diversidade Cultural e Cidadania, possa lhe oferecer o título de “grioa”. É mesmo bonito, talvez ela aceite. Da minha parte, já aceitei, estou aprendendo línguas africanas e vou fazer meu discurso de agradecimento em iorubá ou, se preferirem, em francês, que é língua que, apesar de não estar na moda, ainda guarda algum charme e é de onde vem o multicultural nome “griot”. Au Revoir, senhor Ministro.

Assina: Rosemberg Cariry – o observador de eventos do MinC
Brasília, 15 de março de 2010

POR UMA POLÍTICA CULTURAL IDÔNEA

Texto de Luiz Monteiro

Joseany Oliveira, Carla Hemanuela, Cacá Araújo e Luiz Monteiro, em 20 de setembro de 2010, quando de uma das apresentações do espetáculo A COMÉDIA DA MALDIÇÃO, da Cia. Cearense de Teatro Brincante, no Teatro Rachel de Queiroz (Crato-CE)

Dias atrás, chegou ao meu conhecimento a insatisfação dos artistas teatrais do Ceará, para com o ilustríssimo governador do Estado, alegando que ele destinou uma verba de um milhão e oitocentos mil reais, para o pagamento de um cachê para as “Dionisíacas”, espetáculos do Teatro Oficina, de São Paulo, concebidos pelo diretor José Celso Martinez Correa.
Em princípio, ameacei ficar indignado. Porém, antes, me passou pela cabeça a possibilidade da notícia não ser verdadeira. Acalmei a indignação e consultei um amigo do Crato, que é um daqueles guerrilheiros, entrincheirado na luta pela cultura e pelo teatro do seu estado. E ele me confirmou: a tal verba fora sim destinada para tal finalidade, em comemoração ao centenário do Teatro José de Alencar.
Já ia me indignando novamente, quando parei para pensar na tremenda ironia do destino: em vida, o nosso querido e cearense José de Alencar, que foi também um aguerrido defensor do nosso teatro, lutando, na época, não somente pela criação de uma escola de artes dramáticas, pelo poder público, como também para que o nosso imperador voltasse os olhos e apoiasse o teatro nacional; no que não foi atendido. Morreu, sem ver seus anseios realizados e não levou um centavo dos cofres públicos, sendo o seu teatro menosprezado na época e desqualificado contemporaneamente por alguns de nossos prestigiados acadêmicos, defensores intransigentes de nossa colonização teatral. E, no entanto, hoje, em homenagem ao teatro que leva o seu nome, parece que o senhor governador resolveu reparar a injustiça cometida no passado, destinando tamanha verba para as comemorações.
Assim sendo, pela terceira vez, ameacei indignar-me, mas constatei que já estava esgotada a minha cota de indignação, pois já me indignei outras tantas vezes com notícias deste tipo, e também com relação às leis de incentivos fiscais à Cultura e ao Teatro, em nosso país.
Devo dizer que não tenho nada contra o Zé Celso e muito menos contra o seu teatro. No entanto, pudera todos os artistas teatrais cearenses desfrutarem do mesmo benefício, e porque não dizer, do mesmo privilégio, sobretudo, em se tratando de um país como o nosso, tendo em vista os míseros recursos destinados ao teatro! Mas, sei que vivemos num tempo estranho, onde já não se abrem mais conflitos, onde não se promovem mais os diálogos acerca de certas questões e onde os inimigos são tantos e nenhum, dependendo apenas “do lugar de onde se vê”.
No entanto, não posso deixar de falar da falta de contrapartida social no uso do dinheiro público e das leis de incentivo à Cultutra. Como bem questiona um dos artistas cearenses: “quantas montagens poderiam ser realizadas no Ceará com esta verba?” “Quantos grupos seriam favorecidos, se esta verba fosse dividida?” Quantas pessoas teriam acesso ao teatro, com o bom senso e uso equilibrado deste dinheiro?” E pergunto ainda mais: estas apresentações foram oferecidas gratuitamente à população? Quem estava dentro do teatro e quem assistiu a estes espetáculos? Qual a contrapartida social que ofereceu este dinheiro, que saiu do bolso de cada cidadão cearense? E me lembrando de Brecht… “Para tantas perguntas… tão poucas respostas!”
Mas, parece que tudo faz parte de um chamado “processo democrático”. Eu diria que isso tem outro nome: democraritarismo! Ou, a ditadura de uma elite cultural, eurocêntrica, que nega ou não reconhece os valores locais e também aqueles que lutam, dia-a-dia, para construir e reafirmar a identidade um teatro regional de qualidade. É como diz o ditado: “santo de casa não faz milagres!” E eu diria: “Não faz milagres… e ainda incomoda!”
Entretanto, gostaria de dizer aos artistas e irmãos cearenses que o que acontece por aí, não é diferente do que acontece por aqui, uma vez que a perversidade por aqui é ainda maior. Por aqui, o dinheiro vai pra mais gente, com verba igual ou superior, passando por uma verdadeira “indústria da lei”, em cujas panelas são triturados e consumidos milhões de reais, saídos dos suados bolsos dos cidadãos contribuintes. E aqui não vai nenhum ressentimento de quem nunca recebeu nada do poder público, pois acredito que, uma vez que este dinheiro existe para tal finalidade, ele deve ser destinado àqueles cujos projetos, ao passar pelo crivo da avaliação pública, tenha o maior alcance social possível.
Mas, que isso não deva servir de consolo, nem a vocês e nem a ninguém com um mínimo senso de justiça e brasilidade. Pode-se dizer que, num passado recente, assistimos ao surgimento de um grande monstro que se apossou, usufruiu e continua usufruindo do dinheiro público destinado à Cultura. E como diz a canção: “O monstro é grande e pisa forte!”
Diante disso, resta a todos nós, artistas de todo o Brasil, comprometidos com o nosso povo, com o nosso teatro e com a nossa Cultura, lutarmos, tornando pública a precária política cultural que rege todas as instâncias de poder em nosso país. E esta luta se traduz num ato de resistência pela preservação de nossa identidade cultural e de nossos valores artísticos, bem como pela criação de uma política cultural idônea, que leve em consideração o direito de toda a população, ao acesso aos bens culturais, preservando, estimulando e valorizando a produção cultural regional e de todo o nosso país.

Luiz de Assis Monteiro
Confraria da Paixão
Teatro de Raízes Populares
São Paulo

Huberto Cabral – Emerson Monteiro


Desde que me entendo de gente que, atento, observo a participação constante de Huberto Cabral nas movimentações sociais, culturais e patrióticas do Crato. Possuidor de um civismo a toda prova, Cabral faz do rádio sua praia de predileção, sem, no entanto, esquecer permanências pelos jornais, revistas, livros, cerimônias coletivas, etc. Organiza com maestria eventos públicos, dentro da absoluta correção. Incentiva e participa de reuniões destinadas aos interesses da municipalidade, em todos os âmbitos possíveis e imagináveis, sempre visando ampliação dos recursos progressistas e abertura das vias de transformação comunitária. Presta homenagens a personalidades destacadas do lugar e evidencia datas memoráveis deste núcleo urbano. Recebe visitantes ilustres, orienta pesquisas de estudiosos, repassa informações do seu rico acervo e de suas vivências; enfim, um homem talhado a preservar valores históricos e a memória social do Crato e de todo o Cariri como raros outros. Alimenta um acervo de gama incalculável no que tange aos dados relativos a esta parte de mundo e é considerado por muitos um testemunho vivo dos acontecimentos principais caririenses desde o início da segunda metade do século que passou.
Nas minhas primeiras incursões a eventos públicos, recém chegado ao Crato, avistava a presença de Huberto Cabral, o que se seguiu todo tempo até hoje. Radialista emérito, lançado ainda nos primórdios da radiofonia caririense, nas primitivas amplificadoras, associa-se à evolução desse meio de comunicação, exercendo funções de liderança em programas esportivos, noticiosos, reportagens inolvidáveis e solenidades importantes para o desenvolvimento econômico regional. Assessor do Executivo cratense em repetidas administrações, vem, à frente da sua época, convocando os cidadãos a segui-lo na altiva caminhada que exercita como rotina de existência. Nas campanhas fundamentais para a construção do Cariri nos moldes contemporâneos, ali está Huberto Cabral; desde a vinda triunfal da energia de Paulo Afonso à instalação definitiva da Universidade Regional do Cariri, por exemplo. Lembro das suas participações nas transmissões radiofônicas dos jogos do antigo campo do Sport, através da Rádio Educadora; depois, na quadra Bicentenário, em noites esportivas magnânimas; vejo suas ações audaciosas e vanguardeiras na cobertura jornalística da visita do presidente Castelo Branco, aos idos de 1964; sua determinação para, juntos, continuarmos a publicação do jornal A Ação, também na década de 60; suas providências na continuidade do Instituto Cultural do Cariri, inclusive na construção da sede própria; seu denodo para trazer valiosas instituições que ora estabelecem as características da nossa Região, em todo tempo de sua história; seu ativismo nas manutenções benfazejas desta civilização caririense, sendo ele também um descendente direto dos primeiros colonizadores aqui instados nas primeiras expedições.
O acendrado zelo que Huberto Cabral manifesta na profícua missão de ativador social ultrapassa as raias da paixão, digo sem arriscar uso de termos excessivos, porquanto os resultados das suas atitudes falam dos frutos essenciais no que desempenha e promove ao ímpeto do seu amor vocacional às nossas queridas tradições.

Sonhos possíveis, sonhos bons – Emerson Monteiro


Quando veremos o mundo de olhos abertos aos bons sentimentos que passeiam faceiros nas trilhas molhadas de impactos, os quais que apenas nós indivíduos um dia conheceremos de água na boca. Viver com prazer os momentos uniformes da harmonia sem culpa ou ressentimentos, e acatar as decisões do destino de espírito desarmado; aquiescer, nos gestos imprevistos das marés, as tais criaturas obedientes a um Criador que move as parelhas dos cavalos à frente do Sol, nas charretes aceleradas das horas incansáveis, dentro da natureza mãe dadivosa. Aceitar, enfim, os balanços dos barcos enquanto o rio segue nas suas águas impetuosas, filhas equilibradas da feliz companhia dos outros irmãos, no bojo de naves luminosas que afeitas riscam os céus, nas madrugadas frias.
Porquanto pretendam discordar, os protagonistas do drama questionam os roteiros apresentados dos operários na peça. Erguem assustadas vozes de protesto, perante, no entanto, o desfilar das conveniências mais pessoais. Reclamam de barriga cheia, às vezes de mágoa, de fastio, ou pressa, mas reclamam de barriga cheia disso tão só. Levantam os braços num sinal de descaso face as contradições aparentes do sistema que eles, nós, vós, mesmos criaram nos instantes de dúvidas atrozes, no fingimento da espécie insatisfeita com o itinerário do vôo em velocidades extremas. Querem, a qualquer preço, impor condições aos limites imprevistos, desde o começo, postulando propósitos de causas iniciais perdidas, alarmistas repórteres policiais.
Andar nesse ritmo alimenta de pânico o gosto de tantos que a visão conturbada mistura, entre o desejo e o desespero, impetuosa estupidez de eras atrozes. Marcam, assim, aonde querem chegar multidões famintas, caravanas sequiosas de empedernidos seres, afoitos pássaros noctívagos.
Todavia acontecem os quadros seguintes e o palco estremece no pulo dos atores, impulsos febris de cores e formas, providências inevitáveis que persistem ao infinito da fé, em corredores escuros dos paranóicos filmes, até surgir para sempre. Valentes cavaleiros calmos tangem os seus rebanhos pacíficos nas caladas da noite, forças operantes apesar das dores que invadiram o instinto explosivo de todas as pessoas, fase de crescimento que atravessam de águas no peito.
Vislumbrar, pois, novos meios de construir as igrejas dos corações impacientes significa mistérios, doces aspectos das provas do período nefasto que lá abandonou suas vítimas aos portões da alvorada em festa que já se aproximava, e morrem nas praias, o que representa a correta imagem do que quiseram dizer os livros fechados nas bancas.

A nova cara do grafite do Cariri

A nova cara do grafite do Cariri

Vtória Régia

De atenções disputadas por todas as linguagens, é no Rio de Janeiro que o grafite do Cariri ganha corpo. Acontece que como diversos trabalhos de todas as áreas, um status vem junto com a participação no maior evento de arte e cultura da America Latina, a bienal da UNE, que nessa edição tem um toque pouco mais forte do Cariri. O Coletivo Camaradas e o Oco são uma das trupes que marcaram presença.
O grafiteiro Marlon Torres que faz parte do coletivo, conta que sente dificuldade de produzir no interior cearense. Faltam referências, coisa que na bienal tem de sobra. Preocupados nas mudanças, no porvir, documentar e mesmo incentivar novas produções, as idéias da bienal se encaixam nos percalços enfrentados por Marlon. “Estamos todos interagindo aqui. Tenho certeza de que meu trabalho vai ser diferente depois de ter conhecido tanta gente e tantos trabalhos”, diz.
Ele explica que o grafite varia bastante, são muitos os materiais e os conceitos por trás de cada muro pintado. Uns procuram o trabalho estético investindo pesado no jogo de cores e formas, outros conceitual, tentando tocar os que vêem com a reflexão. O artista plástico Renato Jesus que dividiu tintas e idéias com ele, explica que grafite se não estiver a mostra, se resume a linguagem ou técnica. “Grafite é pra estar na rua, com o povo, tocando neles”, fazendo o trabalho deles na UNE uma arte íntegra. Não aquela um tanto cega produzida por Marlon que se diz carente de mais contatos e discussão na área, mais a arte que transforma e liberta.

As flores feridas – Emerson Monteiro

No palco dos sonhos das lindas canções,
Vivendo nos braços de ilusões passageiras,
Artistas em festa alimentam o destino
Dos pássaros ligeiros lançados aos céus.

Quanta dor reunida num vento que passa:
Laços fortes e presas são mãos invisíveis
A dominar suas vidas de moços cantantes,
Produzidos, ligeiros, bonitos e frágeis.

Assim acontece aos que se esquecem
Das possibilidades dos trilhos da vida,
Caminhos desertos e inocentes vítimas
Da garra amolada nos shows dessa lida.

Há também outras lutas em vários sentidos,
De sorrisos e luzes, nos ritmos e planos
Das ricas histórias dos grandes artistas,
Os Senhores da fama e bonecos das fitas.

Ninguém acredite em desejo arriscado
De subir as escadas de um jeito afoito
Que persegue talentos e planta ilusões
Na carreira animada dos astros da mídia.

Melhor bem será crescer consciente,
Saber ser humilde e estudar com prazer
Na escola dos dias; e amar bem os livros,
Para erguer seus castelos nos solos seguros.

E depois disso tudo vem vir o sucesso
Das fases amenas, no palco dos sonhos,
Nas horas benditas dos mundos melhores,
Ao pouso tranquilo dos campos dourados.

200111.

FÉRIAS DO CARIRI NO PINK FLOYD BAR

Horário: 22 janeiro 2011 às 17:00 a 23 janeiro 2011 às 1:00
Local: Pink Floyd Bar
Organizado por: Kaika Luiz

Descrição do evento:
A Sertão Pop Produções e o Pink Floyd Bar estão realizando nesse próximo sábado, dia 22, a partir das 17h, um evento com as duas bandas rock-pop e blues de maior expressividade da região do Cariri. A Nightlife e a Los The Os, bandas que imprimem a sua marca pessoal às canções das décadas de 70/80 e 90 e que tem levado um público jovem e de muito bom gosto do triângulo CRAJUBAR.

ServiçoFÉRIAS DO CARIRI – No Pink Floyd Bar com as banda Nightlife e Los The OSDia 22 de janeiro, a partir das 17h.Sítio Romualdo – há 9 km do centro do Crato (Entre Crato e Arajara)
INGRESSOS: Inteira: R$ 10,00 e meia R$ 5,00 (com apresentação da carteira de estudante)Informações: 088 – 9931.2138 ou 8819.2950.

Agradecemos aos nossos patrocinadores por tornar possível este evento. São eles:
– O Boticário
– Cevema
– Cajuina São Geraldo
– 1000 peças
– CP Pneus
– Fort Vigas Juazeiro do Norte
– Martins Representações Empresariais

Ver mais detalhes e RSVP em CULTURA & HUMANISMO:

http://culturahumana.ning.com/events/event/show?id=2165208%3AEvent%3A94244&xgi=5PisyEuB4HFPIj&xg_source=msg_invite_event