Arquivos mensais: dezembro 2010

Aldo Rebelo: Monteiro Lobato no tribunal literário

O parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) de que o livro “Caçadas de Pedrinho” deve ser proibido nas escolas públicas, ou ao menos estigmatizado com o ferrão do racismo, instala no Brasil um tribunal literário.

 
A obra de Monteiro Lobato, publicada em 1933, virou ré por denúncia -é esta a palavra do processo legal-de um cidadão de Brasília, e a Câmara de Educação Básica do Conselho opinou por sua exclusão do Programa Nacional Biblioteca na Escola.

Na melhor das hipóteses, a editora deverá incluir uma “nota explicativa” nas passagens incriminadas de “preconceitos, estereótipos ou doutrinações”. O Conselho recomenda que entrem no índex “todas as obras literárias que se encontrem em situação semelhante”.

Se o disparate prosperar, nenhuma grande obra será lida por nossos estudantes, a não ser que aguilhoada pela restrição da “nota explicativa” -a começar da Bíblia, com suas numerosas passagens acerca da “submissão da mulher”, e dos livros de José de Alencar, Machado de Assis e Graciliano Ramos; dos de Nelson Rodrigues, nem se fale. Em todos cintilam trechos politicamente incorretos.

Incapaz de perceber a camada imaginária que se interpõe entre autor e personagem, o Conselho vê em “Caçadas de Pedrinho” preconceito de cor na passagem em que Tia Nastácia, construída por Lobato como topo da bondade humana e da sabedoria popular, é supostamente discriminada pela desbocada boneca Emília, “torneirinha de asneiras”, nas palavras do próprio autor: “É guerra, e guerra das boas”.

Não vai escapar ninguém – nem Tia Nastácia, “que tem carne negra”. Escapou aos censores que, ao final do livro, exatamente no fecho de ouro, Tia Nastácia se adianta e impede Dona Benta de se alojar no carrinho puxado pelo rinoceronte: “Tenha paciência – dizia a boa criatura. Agora chegou minha vez. Negro também é gente, sinhá…”.

Não seria difícil a um intérprete minimamente atento observar que a personagem projeta a igualdade do ser humano a partir da consciência de sua cor. A maior extravagância literária de Monteiro Lobato foi o Jeca Tatu, pincelado no livro “Urupês”, de 1918, como infamante retrato do brasileiro. Mereceria uma “nota explicativa”?

Disso encarregou-se, já em 1919, o jurista Rui Barbosa, na plataforma eleitoral “A Questão Social e Política no Brasil”, ao interpretar o Jeca de Lobato, “símbolo de preguiça e fatalismo”, como a visão que a oligarquia tinha do povo, “a síntese da concepção que têm, da nossa nacionalidade, os homens que a exploram”.

Ou seja, é assim que se faz uma “nota explicativa”: iluminando o texto com estudo, reflexão, debate, confronto de ideias, não com censuras de rodapé.
O caráter pernicioso dessas iniciativas não se esgota no campo literário. Decorre do erro do multiculturalismo, que reivindica a intervenção do Estado para autonomizar culturas, como se fossem minorias oprimidas em pé de guerra com a sociedade nacional.

Não tem sequer a graça da originalidade, pois é imitação servil dos Estados Unidos, país por séculos institucionalmente racista que hoje procura maquiar sua bipolaridade étnica com ações ditas afirmativas.

A distorção vem de lá, onde a obra de Mark Twain, abolicionista e anti-imperialista, é vítima dessas revisões ditas politicamente corretas. País mestiço por excelência, o Brasil dispensa a patacoada a que recorrem os que renunciam às lutas transformadoras da sociedade para tomar atalhos retóricos.

Com conselheiros desse nível, não admira que a educação esteja em situação tão difícil. Ressalvado o heroísmo dos professores, a escola pública se degrada e corre o risco de se tornar uma fonte de obscurantismo sob a orientação desses “guardiões” da cultura.

Fonte: Folha de S. Paulo

Filme expõe porões da tortura no Brasil

Quarenta anos depois, contundentes imagens de como se dava a tortura aplicada pela ditadura e desconhecidas no Brasil chegam timidamente ao país. No documentário “Brazil, a report on torture” (“Brasil, o relato de uma tortura”), parte do grupo de 70 ativistas da luta armada que foram trocados pelo embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher, em 1971, relata e encena práticas como pau de arara, choque elétrico, espancamento e afogamento.

O objetivo era denunciar no exterior o que ocorria nos porões da ditadura brasileira.

O filme foi realizado em 1971, em Santiago, no Chile, para onde os brasileiros foram banidos. O documentário foi uma iniciativa dos cineastas americanos Haskel Wexler e Saul Landau, que estavam no Chile para produzir material sobre o presidente Salvador Allende e souberam da presença dos brasileiros.

Quase todos os guerrilheiros que deram depoimentos não assistiram ao filme até hoje. Dois deles se suicidaram alguns anos depois: Frei Tito e Maria Auxiliadora Lara Barcelos, uma das mais próximas amigas da presidente eleita, Dilma Rousseff, no período da Var-Palmares, no início da década de 70.

Nas imagens, os ativistas simulam vários tipos de tortura, como uma pessoa tendo seu corpo esticado, com pés e mãos amarrados entre dois carros. Simulam a “mesa de operação”: sem roupa, ou só de cueca, o torturado deita na mesa, tem os braços e pernas amarrados nas extremidades e sofre pressão na espinha. Uma barra de ferro, no alto, tem um barbante amarrado aos testículos. A pessoa era obrigada a ficar por duas ou três horas na posição, suportando o peso do corpo com as mãos e braços.

O jornal O Globo enviou cópia a alguns dos protagonistas, que somente agora tiveram acesso ao documentário e relembraram o depoimento. Jean Marc Van der Weid, hoje diretor de uma ONG de agricultura alternativa, defendeu a luta armada no filme como única maneira de o povo chegar ao poder no Brasil ditatorial:

“Nunca tinha visto. Era um filme de denúncia contra a ditadura e produto de um momento inteiramente diferente de hoje. Não me lembrava nem do que falei. A ideia da luta armada era generalizada em quase todas as organizações de esquerda”, disse Jean Marc, que era presidente da UNE quando foi preso e atuou na Ação Popular (AP).

Militante do PCBR, Elinor Mendes Brito aparece no documentário contando detalhes das técnicas de tortura, demonstrando no corpo de sua companheira de organização Vera Rocha Pereira em que partes eram aplicados os choques elétricos.

“Me sinto até mal assistindo hoje a essas imagens, fazendo isso com companheiros. ‘Torturar’ uma amiga, na demonstração, foi um horror. É um filme muito realista, e o objetivo era mostrar exatamente como eram as técnicas. Não era forçação de barra. Era emocional”, disse Elinor Brito, que foi torturado em quatro instalações militares distintas. Hoje, Brito é funcionário da Comlurb, no Rio.

Fonte: O Globo

Ainda os sebastianistas

Por Marco Albertim

As cerimônias de casamento no Reino da Pedra Bonita terminavam com preces, cânticos e rezas. Todos deviam se retirar, com exceção da noiva, cuja virgindade seria removida pelo líder da comunidade, autoproclamado Rei. Na Pedra dos Sacrifícios, João Ferreira dos Santos presidia o sacrifício de homens, crianças e cães. O sangue, segundo o próprio, serviria para regar as pedras e os campos próximos. O propósito maior, porém, seria o resgate da alma de D. Sebastião, bem como a ressurreição de moços e o embranquecimento dos negros, tornando-os ricos, imortais e poderosos. Vê-se, aqui, a conotação racista de braços dados com aspirações de ascensão social.

Outro líder, João Antônio dos Santos, usava uma coroa de cipós de japecanga, fazia predições e exigindo que seus pés fossem beijados. Dizia ele que os cães imolados retornariam como dragões protetores da comunidade; já os sebastianistas sacrificados, ressuscitariam jovens, belos e ricos. O crescimento da comunidade assusta fazendeiros e autoridades. Os informes  dando conta dos sacrifícios chegam ao município de Serra Talhada. O padre Francisco Correia, missionário idoso, de muito prestígio, é enviado ao local; consegue, então, demover João Antônio de seus propósitos messiânicos. Mas João Ferreira, cunhado de João Antônio dos Santos, retoma o apostolado, tomando para si sete mulheres, vez que a poligamia era consentida.

Do alto do Trono ou Púlpito, diz que D. Sebastião lhe aparecera, mostrando-se descontente com a fraqueza e incredulidade dos fiéis. Intensifica a pregação de sacrifícios humanos e de cães. Conforme a historiadora Maria Isaura Pereira de Queiroz – O messianismo no Brasil e no mundo -, grupos se deslocavam diariamente, “arrebanhando homens, mulheres, meninos e cães para o acampamento.” Estimulados pela bebida à base de jurema, exaltados, esperavam “o grande acontecimento.” Só os que gozavam da extrema confiança do rei, tinham permissão para esmolar nas fazendas, trazendo o sustento dos acampados.

Pregando a necessidade de aplacar a cólera de D. Sebastião, João Ferreira dirige, em 14 de maio de 1838, o mais conhecido dos sacrifícios. “Calcula-se que foram sacrificados 12 homens, 30 crianças e onze mulheres, inclusive Isabel, uma das mulheres de João Ferreira.”* A matança durou três dias. Três dias depois, Pedro Antônio dos Santos, irmão do fundador da Pedra Bonita, sobe ao Púlpito e anuncia que D. Sebastião se mostrara a ele na noite anterior, reclamando a presença do rei, única vítima que faltava para ocorrer o desencantamento. João Ferreira protesta, inda que arrastado e sacrificado. Pedro Antônio dos Santos considerava-se o verdadeiro herdeiro do Reino, e tivera duas irmãs sacrificadas na matança.

A notícia chega ao conhecimento de Manoel Pereira da Silva, dono da fazenda Belém e comissário de polícia em Serra Talhada. Da varanda de sua casa, ouve o relato apavorado do vaqueiro José Gomes Vieira. Diz primeiro que fora iludido pelo seu tio, José Joaquim Vieira, ao conduzi-lo para a Serra Formosa “para ver muitas coisas bonitas e ajudá-lo na defesa dos tesouros e do Reino descoberto…”** Acrescenta que, depois de beber muito vizinha, dissera que “El-Rei Dom Sebastião estava muito desgostoso e triste com seu povo.” Arrematando: “Porque são incrédulos! Porque são fracos! Porque são falsos! (…) E finalmente porque o perseguem, não regando o Campo Encantado e não lavando as duas torres da catedral de seu Reino com o sangue necessário para quebrar de uma vez este cruel Encantamento!” **

Àquela altura, o comissário já recebera missiva de Manoel Ledo de Lima, rico fazendeiro da região, informando-o da ocorrência. Era o temor de que a matança atingisse seus domínios.

Conduzido por José Gomes Vieira, sebastianista arrependido, o comissário põe-se à frente de um grupo armado. No dia 18 do mesmo mês, deparam-se com Pedro Antônio dos Santos. O Rei está acompanhado por um séquito de mulheres, meninos e homens armados de facas, facões e cacetes. “Não os tememos! Acudam-nos as tropas do nosso Reino! Viva El-Rei Dom Sebastião”***, grita Pedro Antônio, agitando a sua coroa e atirando-se furioso ao grupo invasor. Outros sebastianistas são dizimados por homens chefiados por Simplício Pereira da Silva, fazendeiro e um dos nove irmãos do comissário. Os sebastianistas que não morrem são levados para a cadeia do município de Flores. As mulheres são soltas, as crianças entregues a famílias dispostas a criá-las.

João Antônio dos Santos, fundador da comunidade e primeiro Rei, é localizado em Minas Novas do Suruá, Minas Gerais. Vivia com a família. Na viagem para Serra Talhada, é morto. Suas orelhas são arrancadas como prova de sua morte. Para a tranquilidade dos proprietários.

*Rubim Santos Leal de Aquino, Francisco Roberval Mendes e André Dutra Boucinhas – Pernambuco em chamas – revoltas e revoluções em Pernambuco

**Antonio Attico de Sousa Leite – Memória sobre a Pedra Bonita ou Reino Encantado, na comarca de Vila Bela, província de Pernambuco

***Ariano Suassuna – Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai e volta

Fonte: http://www.vermelho.org.br/

Ouvi de Lysâneas – Emerson Monteiro

Ao ler notícia publicada pelo jornal O Povo, nesta terça-feira (21/12/2010), a respeito da recusa do bispo cearense Dom Manuel Edmilson Cruz de uma comenda do Senado Federal, justificando a atitude como protesto pelo aumento dos subsídios dos parlamentares, votado pelo Congresso em dias da semana passada, lembrei de um texto que escrevi há duas ou três décadas e que agora apresento, a saber:
No ano de 1975, em Salvador, assisti inflamada palestra do então deputado federal Lysâneas Maciel, numa cruzada que empreendeu por vários estados para denunciar o clima de repressão que constrangia o povo brasileiro. Sabia-se mesmo sujeito à cassação de que seria vítima logo no ano seguinte, atingindo também outro corajoso parlamentar, o cearense Alencar Furtado.
De verbo fluente, destemido, sensibilizou com profundidade todos os presentes no auditório superlotado, a interpretar de forma contundente o momento de transição que enfrentávamos sob o clima rígido da força totalitária no comando das instituições políticas nacionais.
Dentre os recursos adotados na ocasião, bem aos moldes da melhor oratória evangélica, pastor que era, Lysâneas narrou episódio verificado com um pastor protestante, na Alemanha durante o regime nazista.
Zelava reverente pela sua comunidade religiosa, quando ocorreram as primeiras detenções do período negro que antecedeu a Segunda Guerra Mundial, a prenderem primeiro os líderes comunistas. Ele pensou consigo: – Não sou comunista, portanto nada tenho com isso. E omitiu-se de reagir em face da violência cruel encetada contra seres humanos.
Os senhores da ditadura de Hitler seguiram na escalada dolorosa de terror, vindo deter também os socialistas, motivando no religioso idêntico comportamento de descompromisso. Por não ser socialista, indiferente permaneceu, aceitando as manobras policiais da Gestapo.
Depois, seriam levados os homossexuais, as prostitutas, os ciganos e outras minorias perseguidas. O raciocínio se repetia, de ficar quieto diante de tudo o que observava, sem, no mínimo, falar ou demonstrar qualquer atitude contrária, perante as pessoas de sua comunidade.
Mais adiante, também prenderiam os judeus, os católicos, enquanto nada alterava das relações com as forças do poder, pois achava fora do enquadramento nos grupos perseguidos. Nem de longe avaliava possuir qualquer responsabilidade pelas vítimas das arbitrariedades.
Até que, dias depois, bateram na porta da sua igreja para levá-lo preso, e nessa hora ninguém havia que mobilizasse forças em seu auxílio e levantasse a voz pela sua liberdade, pelos seus direitos, sua cidadania democrática.
Eis, assim, exemplo de ocasiões quando os nossos rostos vêm à mostra, por conta dessa atitude sincera e verdadeira de Dom Edmilson Cruz, oportuna e atualizada, de um valor inestimável, para que não nos acomodemos aos vícios da política desvirtuada, como não sendo conosco a crua responsabilidade que a todos compete todo tempo. Admiro, pois, a coerência de pessoas deste tipo.

LÁGRIMA

Foto de Stálin Araújo

Por que não chega
A raiva, o ódio e a rebeldia
Deste amor profano?
E eu beberei até o sol sair
Me tostar as faces

Por que não chega
A fome e a falsa coragem
de gritar, subir, pular
Cair d’um edifício?
E acabarei co’a dor
Morrendo em teu louvor

Por que tu não não vens de noiva?
Pra me afogar na cama
Pra me acender o corpo
E amar, correr, suar
Melar, gemer, urrar
E só sair de dentro
Quando o amor se destruir
Se o amor se destruir
Fugir, morrer, saltar
Pela janela

Por que não chega
A decisão, o sim, o não
A flor, a faca?
Pra me mostrar o brilho, se for
Ou a escuridão


Cacá Araújo

Crato-Cariri-Ceará-Brasil

Decretos de Natal

Frei Betto

1. Fica decretado que, neste Natal, em vez de dar presentes,
nos faremos presentes junto aos famintos, carentes e excluídos.
Papai Noel será malhado como Judas e,
lacradas as chaminés, abriremos corações e portas à
chegada salvífica do Menino Jesus.

2. Por trazer a muitos mais constrangimentos que alegrias,
fica decretado que o Natal não mais nos travestirá no que não somos:
neste verão escaldante, arrancaremos da árvore de Natal todos os algodões de falsas neves; trocaremos nozes e castanhas por frutas tropicais;
renas e trenós por carroças repletas de alimentos não perecíveis;
e se algum Papai Noel sobrar por aí, que apareça de bermuda e chinelas.

3. Fica decretado que cartas de crianças só as endereçadas ao Menino Jesus,
como a do Lucas, que escreveu convencido de que Caim e Abel não teriam brigado se dormissem em quartos separados; propôs ao Criador ninguém mais
nascer nem morrer, e todos nós vivermos para sempre; e, ao ver o presépio,
prometeu enviar seu agasalho ao filho desnudo de Maria e José.

4. Fica decretado que as crianças, em vez de brinquedos e bolas,
pedirão bênçãos e graças, abrindo seus corações para destinar aos pobres todo o
supérfluo que entulha armários e gavetas. A sobra de um é anecessidade de outro, e quem reparte bens partilha Deus.

5. Fica decretado que, pelo menos um dia, desligaremos toda a parafernália
eletrônica, inclusive o telefone e, recolhidos à solidão, faremos uma viagem ao interior de nosso espírito, lá onde habita Aquele que, distinto de nós, funda a
nossa verdadeira identidade. Entregues à meditação, fecharemos os olhos para ver melhor.

6. Fica decretado que, despidas de pudores, as famílias farão ao menos um
momento de oração, lerão um texto bíblico, agradecendo ao Pai de Amor
o dom da vida, as alegrias do ano que finda, e até dores que exacerbam a emoção sem que se possa entender com a razão.
Finita, a vida é um rio que sabe ter o mar como destino, mas jamais quantas curvas, cachoeiras e pedras haverá de encontrar em seu percurso.

7. Fica decretado que arrancaremos a espada das mãos de Herodes e nenhuma criança será mais condenada ao trabalho precoce, violentada, surrada ou humilhada. Todas terão direito à ternura e à alegria, à saúde e à
escola, ao pão e à paz, ao sonho e à beleza.

8. Fica decretado que, nos locais de trabalho, as festas de fim de ano terão o dobro de seus custos convertido em cestas básicas a famílias carentes. E será considerado grave pecado abrir uma bebida de valor superior ao salário mensal do empregado que a serve.

9. Como Deus não tem religião, fica decretado que nenhum fiel considerará a sua mais perfeita que a do outro, nem fará rastejar a sua língua, qual serpente venenosa, nas trilhas da injúria e da perfídia. O Menino do presépio veio para todos, indistintamente, e não há como professar o “Pai Nosso” se o pão também não for nosso, mas privilégio da minoria abastada.

10. Fica decretado que toda dieta se reverterá em benefício do prato vazio de quem tem fome, e que ninguém dará ao outro um presente embrulhado em bajulação ou escusas intenções. O tempo gasto em fazer laços seja muito inferior ao dedicado a dar abraços.

11. Fica decretado que as mesas de Natal estarão cobertas de afeto e, dispostos a renascer com o Menino, trataremos de sepultar iras e invejas, amarguras e ambições desmedidas, para que o nosso coração seja acolhedor como a manjedoura de Belém.

12. Fica decretado que, como os reis magos, todos daremos um voto de confiança à estrela, para que ela conduza este país a dias melhores. Não buscaremos o nosso próprio interesse, mas o da maioria, sobretudo dos que, à semelhança de José e Maria, foram excluídos da cidade e, como uma família sem-terra, obrigados a ocupar um pasto, onde brilhou a esperança.

Seguem abertas as inscrições para o II Edital Mecenas do Ceará

A Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult) recebe até o dia 21 de janeiro de 2011 as inscrições para o II Edital Mecenas do Ceará. O processo de seleção objetiva regulamentar o procedimento de inscrição, avaliação e julgamento dos projetos culturais apresentados à captação de recursos através do Mecenato Estadual em consonância com os preceitos da legislação estadual de incentivo à cultura. O edital terá recursos na ordem de R$ 4.788.000,00 (quatro milhões setecentos e oitenta e oito mil reais), que se dará através do repasse de até 2% do ICMS oriundos da arrecadação das empresas do Estado do Ceará.

O edital apoiará programas, ações e projetos artístico-culturais apresentados por pessoas físicas ou jurídicas e que tenham por objetivo o fortalecimento do setor cultural cearense e a promoção do desenvolvimento social e econômico do Estado do Ceará, cuja execução esteja prevista para iniciar entre o período de janeiro a abril de 2011. As propostas devem abranger as áreas de artes visuais e fotografia, audiovisual, teatro, dança, circo, música, arte digital, literatura, livro e leitura, patrimônio material e imaterial, artes integradas (projetos, ações e programas que contemplem mais de uma linguagem artística).

Os projetos serão avaliados pela Comissão Estadual de Incentivo à Cultura – CEIC, passando por etapa de análise dos documentos; avaliação técnica dos projetos; e análise de mérito. Além de democratizar o acesso aos investimentos em cultura no Estado, o edital também facilita a vida dos investidores da cultura cearense, pois eles têm acesso a lista única de projetos aptos a captação – que será publicada no Diário Oficial – podendo assim optar, em uma única vez, pelos projetos que mais condizem com sua política corporativa.

Categorias – Os proponentes podem se enquadrar nas categorias de doação (onde 100% do valor fornecido pela empresa será deduzido do ICMS), patrocínio (80% é deduzido do ICMS da empresa) e investimento (50%). Os proponentes pessoas jurídicas de direito privado, com fins econômicos, entretanto, somente poderão captar nas modalidades patrocínio e investimento.

Aos candidatos – Neste edital, um mesmo proponente poderá inscrever até duas propostas. No entanto, somente  uma poderá ser contemplada, cabendo ao CEIC optar entre os projetos eventualmente selecionados. A ficha de inscrição está disponível no site da Secretaria da Cultura (www.secult.ce.gov.br), no link Editais, e deve ser preenchida e enviada ao Setor de Protocolo da Secult (Centro Administrativo Governador Virgílio Távora (CAMBEBA) – Av. Gal. Afonso Albuquerque Lima, S/N) até o dia 21 de janeiro de 2011, no horário de 08h às 12h e das 13h às 17h, ou encaminhado por meio dos serviços de postagem de correspondência da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos – ECT, na modalidade SEDEX, de acordo com as normas do edital.

SIEC – Através da Lei nº 13.811, de 16 de agosto de 2006, o Ceará passou a ser regulado pelo Sistema Estadual da Cultura (SIEC), que permite a conjugação de esforços, recursos e estratégias dos poderes públicos e das empresas e organizações privadas para o fomento efetivo, democrático e continuado das atividades culturais do Ceará.

Assim, aos contribuintes do Imposto sobre Operações Relativas à Circulação de Mercadorias – ICMS, é permitido depositar recursos financeiros em favor do Fundo Estadual da Cultura e apoiar financeiramente projetos culturais encaminhados ao Mecenato Estadual, podendo deduzir o valor em até 2% (dois por cento) do ICMS a ser recolhido mensalmente, na forma e nos limites estabelecidos da Lei 13.811.

II EDITAL MECENAS DO CEARÁ
Secretaria da Cultura do Estado do Ceará
Sistema Estadual de Cultura – Secretaria Executiva (SIEC)
Centro Administrativo Governador Virgílio Távora (CAMBEBA)
Av. Gal. Afonso Albuquerque Lima, S/N
CEP: 60.893-900 – Fortaleza- Ceará

Fonte: http://www.secult.ce.gov.br/

Culturas Indígenas

Guarani é oficializado como segunda língua em município do Mato Grosso do Sul

O guarani é a segunda língua oficial do município de Tacuru, no Mato Grosso do Sul. O município é o segundo do país a adotar um idioma indígena como língua oficial, depois da sanção, pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, no dia 24 de maio, do Projeto de lei que oficializa a língua guarani em Tacuru. Com a nova lei, os serviços públicos básicos na área de saúde e as campanhas de prevenção de doenças neste município devem, a partir de agora, prestar informações em guarani e em português.
O primeiro município do Brasil a adotar idioma indígena como língua oficial, além do português, foi São Gabriel da Cachoeira, localizado no extremo norte do Amazonas. Além do português, São Gabriel tem três línguas indígenas oficiais: o Nheengatu, o Tukano e o Baniwa.
Em Tacuru, pequeno município no cone sul do estado do Mato Grosso do Sul, próximo ao Paraguai formado por uma população de 9.554 habitantes, segundo estimativa do IBGE de 2009, 30% de seus habitantes são guarani residentes na aldeia de Jaguapiré, situada no município. A maioria dos 3.245 indígenas de Tacuru não é bilíngue, ou seja, fala somente o Guarani o que dificulta o acesso aos serviços públicos mais essenciais.
Com a nova lei, a Prefeitura de Tacuru se compromete a apoiar e a incentivar o ensino da língua guarani nas escolas e nos meios de comunicação do município. A lei estabelece também que nenhuma pessoa poderá ser discriminada em razão da língua oficial falada, devendo ser respeitada e valorizada as variedades da língua guarani, como o kaiowá, o ñandeva e o mbya.
O Ministério Público Federal do Mato Grosso do Sul (MPF-MS) elogiou a aprovação da medida e argumentou que o Brasil é multiétnico e que o português não pode ser considerado a única língua utilizada no país.  O MPF lembrou que o Brasil é signatário do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, que determina que, nos Estados onde haja minorias étnicas ou linguísticas, pessoas pertencentes a esses grupos não poderão ser privadas de usar sua própria língua.
A Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre os Povos Indígenas e Tribais determina, dentre outras coisas, que deverão ser adotadas medidas para garantir que os membros das minorias étnicas possam compreender e se fazer compreender em procedimentos legais, facilitando para eles, se for necessário, intérpretes ou outros meios eficazes.
Em Paranhos, também no Mato Grosso do Sul, tramita um projeto de lei semelhante ao aprovado em Tacuru, que propõe a oficialização do idioma guarani como segunda língua do município. Em Paranhos existem 4.250 indígenas guarani. Em todo o estado do Mato Grosso do Sul são 68.824 indígenas, divididos em 75 aldeias.
Para o secretário da Identidade e Diversidade Cultural/MinC, Américo Córdula, a oficialização da língua guarani em mais um município brasileiro vai ao encontro das políticas culturais desenvolvidas pelo Ministério da Cultura de proteção e promoção dos saberes tradicionais dos povos indígenas.
No mês de fevereiro (de 2 a 5), a SID/MinC realizou, juntamente com a Itaipu Binacional, o Encontro dos Povos Guarani da América do Sul – Aty Guasu Ñande Reko Resakã Yvy Rupa que reuniu cerca de 800 índios da etnia do Brasil, Bolívia, Paraguai e Argentina, em Diamante D”Oeste, no Paraná, para discutir formas de fortalecer o intercâmbio cultural entre as comunidades dos quatro países.
“Temos no Brasil uma comunidade de aproximadamente um milhão de indígenas, formada por 270 povos diferentes, falantes de mais de 180 línguas”, informa Córdula. Segundo ele, a população indígena brasileira é detentora de uma grande diversidade cultural, que deve ser protegida por seu caráter formador da nacionalidade brasileira. Com esse objetivo, a SID/MinC já realizou dois prêmios culturais (2006 e 2007) voltados para as comunidades tradicionais indígenas. Foram investidos R$ 3,6 milhões para a premiação de 182 projetos em todo o Brasil.
Este ano, no mês de março, foi criado o primeiro Colegiado de Culturas Indígenas, formado por 15 titulares e 15 suplentes representantes do segmento. No último dia 1º, foi eleito o conselheiro do Colegiado para o Plenário do Conselho Nacional de Políticas Culturais (CNPC).
Maria das Dores do Prado, da etnia Pankararu, foi escolhida para defender, junto ao CNPC, as políticas públicas voltadas para a valorização da cultura de todas as comunidades indígenas brasileiras. Um das reivindicações defendidas pelo segmento durante a Conferência Nacional de Cultural, realizada em março, quando se deu a eleição do Colegiado, é a manutenção de todas as línguas nativas.
(Heli Espíndola-Comunicação/SID)
Publicado por Karina Miranda no site do MINC.
Fonte: http://revistaraiz.uol.com.br

Nascimento do Menino Deus é teatro vivo nas lapinhas

Lapinha de Mãe Celina (Crato-CE-Brasil)

Por mais antiga que seja, a tradição natalina de montar lapinhas continua presente nas famílias cearenses
 
Crato. Universal, abrangente, calorosa. Assim é a festa de Natal, uma das mais coloridas celebrações da humanidade, é também a maior festa da cristandade, da civilização surgida do cristianismo no Ocidente. Não há quem consiga ignorar a data por mais que a sociedade de consumo insista em transformar o evento num banquete profano, no qual a figura importada do Papai Noel procura assumir o lugar do Menino Jesus.

O Natal trás de volta a lapinha, uma das mais expressivas manifestações da cultura popular do Cariri, carregando consigo o mais puro sentimento cristão do povo simples. É o caso da Lapinha Viva de “Mãe Celina” , do Bairro Muriti, representada por personagens do presépio, que são vividos por jovens da comunidade, a maioria da mesma família, que trazem no sangue a arte de reisado do Mestre Dedé de Luna e a religiosidade de dona Celina Luna que, há mais de 50 anos, arma sua lapinha na sala da frente de sua casa num ato, segundo afirma, de devoção.

Este ano, a Lapinha “Mãe Celina” vai se apresentar na cidade de Aurora e no Centro Cultural do Banco do Nordeste, em Fortaleza. No Crato, a apresentação será no dia 6 de janeiro. Dia de Reis que, segundo a tradição cristã, seria aquele em que Jesus Cristo recém-nascido recebera a visita dos três Reis Magos: Melchior, Gaspar e Baltazar. Nesta data, encerram-se para os católicos os festejos natalícios – sendo o dia em que são desarmados os presépios e, por conseguinte, são retirados todos os enfeites natalícios.

“A influência ancestral dos três principais mundos formadores da alma brasileira permanece pulsante na vida do sertanejo simples, cuja religiosidade se manifesta à flor de seus atos e ditos”, diz o folclorista e dramaturgo Cacá Araújo, lembrando que “é na efervescência dessa estética universal que nascem e se fortalecem as tradições culturais populares. Em nosso caso, resultantes do caldeamento cultural ocorrido entre os indígenas donos da terra, os brancos ibéricos invasores e os negros de várias nações para cá trazidos como escravos”.

Longe dos grandes gastos feitos por algumas pessoas durante o período natalino para ornamentar suas residências, comércios e ruas, as irmãs Mazé e Penha Luna revivem o Natal, usando como principal matéria-prima o amor pela festa do nascimento do menino Jesus e a união familiar, que é o exemplo maior da família sagrada formada por Jesus, Maria e José.

A casa de mãe Celina, no Muriti, é um verdadeiro ateliê, onde as irmãs Mazé e Penha Luna fabricam artesanalmente a indumentária dos grupos folclóricos (lapinha, reisado e pastoril) que fazem do Crato a “Capital da Cultura” do Cariri. O património cultural e artístico de uma comunidade constitui o maior legado que se pode deixar às novas gerações. O conhecimento, a recriação e a divulgação da sua cultura popular contribuem decisivamente para o fortalecimento dos laços sociais, para o enriquecimento humano das suas gentes e para a dinamização econômica local e regional. A lapinha, portanto, é mais do que um auto de Natal. É a expressão de uma arte popular que está enraizada na alma de pessoas simples que ajudam a conquistar o futuro cada vez mais globalizado, fortalecendo os alicerces da identidade e os valores ancestrais que caracterizam esta comunidade.

Para a mestre da Cultura Mazé Luna, a dramatização do tema, além de manter uma tradição familiar, surgiu como necessidade de mais fácil compreensão do episódio da Natividade. A cena parada, embora de sentido evocativo, do nascimento de Jesus, movimenta-se, ganha vida, sai do seu mutismo, com a incorporação de recursos, não apenas visuais, também sonoros. “É uma forma simples de interpretação do texto sagrado”, justifica Mazé.

História
Conta a Bíblia que um anjo anunciou para Maria que ela daria a luz a Jesus, o filho de Deus. Na véspera do nascimento, o casal viajou de Nazaré para Belém, chegando à noite de Natal. Como não encontraram lugar para dormir, eles tiveram de ficar no estábulo de uma estalagem. E ali mesmo, entre bois e cabras, Jesus nasceu sendo enrolado com panos e deitado em uma manjedoura. Pastores que estavam próximos com seus rebanhos foram avisados por um anjo e visitaram o bebê. Três Reis Magos que viajavam há dias, seguindo a estrela guia igualmente, encontraram o lugar e ofereceram presentes ao Menino: ouro, mirra e incenso. No retorno, espalharam a notícia de que havia nascido o filho de Deus. A Lapinha assume, neste contexto, uma espécie de demonstração da prevalência do Cristianismo sobre as crenças e religiões dos outros povos. Entretanto, não escapa à aculturação decorrente dessa convivência O presépio, em sua forma original, fiel à dignidade da homenagem que pretende prestar ao nascimento de Jesus, é tipicamente hierático: dramático, na sequência das cenas e sacramental no modo de ser cristão. Caracteristicamente piedoso na maneira humilde e respeitosa de ser religioso, explica Maria da Penha Luna, irmã de Mazé, esclarecendo que a lapinha é a reconstituição dramática popular da visita dos três Reis Magos ao recém-nascido Jesus, com o fim de lhe ofertarem presentes.

Representação
Sua significação é inspirada na representação quase que ainda medieval, com pessoas interpretando santos, bichos e coisas da natureza como simples e profunda louvação ao Deus-Menino, até a complexa peça de antropologia cultural que traz em si grande parte da história da humanidade. A professora Veridiana Pedrosa diz que lá estão não só símbolos de culto cristão, católico, “mas fortes traços que nos remetem aos primitivos tempos em que o homem vivia em diálogo e harmonia com a natureza”. Lembra que a lapinha está na alma da criança. É como protesto inconsciente a mercantilização do Natal que pretende transformar Papai Noel no herói do momento.

Tradição

“A lapinha é tradição familiar e uma forma simples de interpretar o texto sagrado”Mazé de LunaMestra da cultura

“A lapinha é ainda a reconstituição da visita dos três Reis Magos ao menino Jesus”Maria da Penha Luna,
Folclorista

“Na lapinha estão fortes traços que nos remetem aos primitivos tempos”Veriadiana Pedroza
Professora

FESTEJOS

Apresentação termina no Dia de Reis

Crato. Desde sua origem, o Natal é carregado de magia. Gritos, cantigas, forma rudimentar do culto, um rito de cunho teatral, o drama litúrgico ou religioso medieval ganha modificações no decorrer dos séculos. Dos templos, a teatralização ganha praças, largos, ruas e vielas, carros ambulantes, autos sacramentais e natalinos.

O folclorista e dramaturgo, Cacá Araújo, destaca que, no Cariri, as lapinhas vivas apresentam praticamente as mesmas características dramáticas de outrora, sendo acrescidas quase sempre da louvação de um grupo de Reisado, que também representa a peregrinação dos Reis Magos a Belém, pertencendo ambos ao ciclo natalino, e, às vezes, de uma Banda Cabaçal. Quando se juntam os três folguedos, multiplica-se a beleza estética, o brilho dramático, o riso brincante, o alcance histórico. O folclorista acrescenta que “o fortalecimento e a difusão do folclore e das manifestações tradicionais populares, a exemplo das lapinhas, devem servir principalmente à causa do (re) descobrimento de nossa identidade cultural, pois que oferecem uma farta leitura do mundo em variadas dimensões e diferentes tempos. É a história se doando generosamente à elaboração de um novo pensamento, que dê vazão a sinceras atitudes libertárias, que restabeleça o espírito e a festa da dignidade humana, da democracia, do respeito à natureza, da felicidade, do amor”, complementa.

Diz o folclorista Câmara Cascudo, ainda, que a lapinha é a denominação popular do pastoril, com a diferença de que era representada a série de pequeninos autos, diante do presépio, sem interferência de cenas alheias ao devocionário.

Por lapinha, segundo Cascudo, seria denominado o pastoril que se apresentava diante dos presépios, ou seja, o grupo de pastoras que faziam as suas louvações na noite de Natal, cantando e dançando diante do presépio, divididas por dois cordões – o azul e o encarnado, as cores votivas de Nossa Senhora e de Nosso Senhor. Em outras palavras, tratava-se de uma ação teatral de tema sacro.

Enquanto o presépio representa uma das tradições natalinas, assim como a árvore de Natal, a lapinha ainda se encontra bem conservada, particularmente no Nordeste do Brasil. O folclorista Câmara Cascudo ressalta, em seu Dicionário do Folclore Brasileiro, que, por tradição, a Sagrada Família se recolheu a uma caverna (uma lapa ou gruta), onde nasceu Jesus. Vem, daí, o termo lapinha.

Antônio Vicelmo, Repórter do DN



Fonte: Diário do Nordeste, Caderno Regional, em 19/12/2010.

J. Lindemberg de Aquino – Emerson Monteiro

Queremos tecer aqui, em algumas e poucas palavras, um comentário a propósito de personalidade a quem o Cariri deve boa parte da evidência que hoje detém neste mundão imenso de Meu Deus; falar a respeito do João Lindemberg de Aquino, jornalista inteligente, possuidor de talento inquestionável já reconhecido nas letras nordestinas, e autor emérito do livro Roteiro Biográfico das Ruas do Crato, trabalho permanente para os estudos da história desta Região.
Durante décadas, anos 50, 60 e 70, pelos menos, os principais registros da movimentação social, economia e política do interior cearense da região sul ganharam notoriedade, sobretudo nas páginas dos jornais de Fortaleza, através das matérias que ele encaminhava para publicação.
Nos seus escritos, Lindemberg mostrou especial dedicação à vida social caririense, aos acontecimentos e lideranças que nortearam o progresso deste vale onde habitamos, conquanto agora mesmo apenas usufrua de uma vida recolhida e afastada deste meio que, com carinho e trabalho, ajudou a construir e onde estabeleceu numeroso círculo de amizades.
Quando, em 1953, o Instituto Cultural do Cariri encetava caminhada, dentre os seus fundadores ele ali se encontrava na função de Secretário da primeira diretoria, ao lado dos nomes expressivos de Figueiredo Filho, Irineu Pinheiro, Padre Antônio Gomes, Huberto Cabral e outros.
Desde cedo que busquei assisto de perto a trajetória intelectual deste cidadão cratense integrado ao meio, ainda de quando exercia um cargo no atendimento do INPS, em Crato, assessorava diversas administrações municipais cratenses e escrevia crônicas diárias para as Rádios Araripe e Educadora, além de testemunhar os principais acontecimentos sociais também das comunas próximas, divulgando-os na grande imprensa do Estado e do País. Nisto aplicou-se durante décadas inteiras, favorecendo o encaminhamento de temas progressista e atualizando as influências políticas e educacionais, o que marcaria bases no nosso crescimento histórico.
Dotado, pois, de paixão verdadeira pelo que realizou em termos de jornalismo sociocomunitário, Lindemberg de Aquino chamou a si a preservação da autoestima deste povo caririense, anotando para as gerações futuras efemérides e valores que eternizou com a sua pena.
Perante tais aspectos que caracterizam existência de tantos préstimos, cabe-nos reconhecer o êxito das ações que empreendeu e dedicar o melhor tributo de reconhecimento a João Lindemberg de Aquino por tudo que fez valer em prol da gente deste lugar.