Arquivos mensais: setembro 2010

Claro-escuro

Recostado numa preguiçosa, abaixo de uma velha jaqueira, o velho Sinfrônio Arnaud contemplava os canaviais do Cotovelo, com vista privilegiada. Um sol já meio bemol, de quatro da tarde, parece envernizar as folhas das canas que brilham e tremeluzem tangidas por um renitente vento de agosto. Arnaud punha-se a pensar nos destinos de Matozinho que vira crescer quase que de dentro da sua fazenda e hoje, varadas mais de oito décadas, empinava o umbigo e criava ares de gente lorde. Certo que ,como todo novo rico, ainda mesclava costumes matutos com atitudes grã-finas: a meio caminho entre a buchada e o caviar. Uma conversa, pela manhã, com um político neófito da vila, o pôs a matutar sobre o tempo que tudo vai engolindo com sua bocarra de Jaraguá. As verdades monolíticas de ontem dissolvem-se ,como por encanto, sob a ação inexorável das horas e do amálgama gelatinoso resultante esculpem-se novos costumes, novos paradigmas aparentemente sólidos e indissolúveis.
Metido tantos anos na política da cidade, construíra quase que uma nova constituição de leis populares, de limites e fronteiras intransponíveis nas campanhas eleitorais. Naqueles idos — lembra-se com um sorriso mal disfarçado, nosso Sinfrônio – político não roubava. Primeiro, porque não havia sequer dinheiro em caixa: as verbas da prefeitura dependiam da arrecadação municipal de impostos cobrados a pessoas paupérrimas, a comerciantes pequenos. Tantas e tantas vezes precisou tirar do próprio bolso para cobrir as obrigações de final de mês. A palavra “ladrão”, assim, era termo proibitivo em qualquer circunstância e redundava, inevitavelmente, em faca no vazio , tapa no pé-do-ouvido, tiro de papo amarelo nos peitos do insultador. Qualquer alusão, também, a possíveis desvios sexuais padrões de candidatos ou parentes destes, resolvia-se nos campos de batalha e não nos tribunais. Sinfrônio mesmo comentava, com orgulho , que sua terra não possuía veados e nem mulher metida a homem : “ isso é putaria da capital e de Bertioga” , costumava dizer. Permitiam-se, apenas, fofocas atinentes a teúdas & manteúdas, mijos fora do caco , gambiarras dos candidatos do sexo masculino, até porque isso, se não acrescia, também não tirava voto de ninguém. O adultério masculino via-se como uma atividade normal e comum, já o feminino tinha leis específicas não muito diferentes das islâmicas.
Debaixo da jaqueira, Arnaud pensava na conversa que tivera pela manhã com Seginaldo Trancoso, um vereador em ascensão em Matozinho e só então percebeu como, definitivamente, aqueles bons tempos tinham sido mastigados pela engolideira do tempo. Trancoso contou que resolvera se candidatar pela primeira vez a vereador e, pouco conhecido, ninguém botou fé na sua candidatura. Tinha apenas uma bodeguinha na Vila e muitos conhecidos. De maneiras que ele, correndo nas laterais do campo, sem que ninguém percebesse bem, terminou sendo eleito. No pleito seguinte, no entanto, os adversários, já acordados, caíram de pau. Espalharam logo a notícia que ele era veado. A princípio Seginaldo disse ter ficado um pouco chateado, mas sustentou o dedo no apito: estava na chuva era prá se molhar. Pois, segundo ele, o tiro saiu pela culatra, aconteceu que perseguido, virou vítima , as florzinhas da cidade votaram todas nele que terminou como um dos mais bem votados na cidade. No último pleito, relatou Seginaldo, candidatei-me novamente e , aí, eles mudaram a tática: espalharam a fofoca que eu era corno. Aguentei calado novamente, embora sob protestos da minha santa esposa . Pois bem, desta vez é que a vitória foi arrasadora: todos os cornos de Matozinho votaram em mim e terminei como o mais votado e ainda presidente da Câmara. Na próxima eleição — falou com franqueza Seginaldo para Sinfrônio — estou achando que vão espalhar por aí que sou ladrão, pois é , vou sair logo candidato a Senador, não vai ter urna para suportar tanto voto !
No horizonte, Sinfrônio observou o sol desaparecer pro trás dos morros da Serra da Jurumenha . A noite invadia de sombra o Cotovelo. O mundo e a vida fluíam em meio à luz e à treva, num jogo eterno de claro-escuro.

J. Flávio Vieira

BAILA COMIGO – Festa temática

E enfim estamos fazendo a festa que mais gostaríamos de fazer. O projeto “BAILA COMIGO” está iniciando-se muito ao gosto de pessoas que sofrem por um espaço para o seu entretenimento. Para a realização da festa, a produtora Sertão Pop, em parceria com a OK Produções, Mônica Vitoriano Produções e o Crato Tênis Clube, uniram-se com um único propósito: o de proporcionar a alegria, o encontro, o saudosismo e o encantamento da boa festa, da boa música e de tudo o que envolve nesse momento de descontração e de revitalização da curtição. Aliás, curtição, um termo muito usado por quem já tem acima de 30 anos, e é o que não vai faltar na festa. Pretendemos inicialmente fazer um evento que tenha a nossa cara, com bandas locais e dentro do espaço mais tradicional do Cariri, o majestoso Crato Tênis Clube. O nosso desejo é continuar e intensificar essa parceria, e nas próximas edições, quem sabe, mesclar os nossos artistas com outras bandas do Brasil, que se identifiquem com a nossa proposta. Somos muito gratos aos nossos importantíssimos patrocinadores que sentem junto conosco a necessidade de acontecerem eventos de valorização da boa música, do bom convívio entre as pessoas e de proporcionar espaços e festas de alto nível na nossa região. A preservação da nossa história, música, moda, gírias, modo de conviver, dança, etc, será o grande diferencial da festa “BAILA COMIGO”. Será através desse evento que, para as outras edições, pretendemos nos inspirar na constante busca de melhorar e de tornar a festa tão tradicional quanto são o já conhecido “CARNAVAL DA SAUDADE”, o baile do “PRETO E BRANCO”, em Juazeiro do Norte, e tantas outras festas que tínhamos por aqui. O “BAILA COMIGO” é um evento de fantasia, momento para extravasar as nossas alegrias e ao mesmo tempo de mostrar que temos sim como fazer acontecer eventos que não sejam como a mídia atual quer. Sabemos o que é bom, sabemos apreciar o belo e somos da paz, da alegria e gostamos de viver bem.

Assim, convidamos às pessoas que querem viver esses momentos, a chegar junto com todos da produção, do Crato Tênis Clube e principalmente valorizando os nossos patrocinadores que são realmente os verdadeiros mantenedores da nossa alegria. Venha, traga sua fantasia e energia. Venha com trajes de época (não obrigatório), assim certamente a festa será mais bonita.
Queremos agradecer, de coração às seguintes empresas: (e aos seus proprietários, claro)
– CITROEN – do nosso companheiro Junior.
– G7 CONSTRUÇÕES – do prezado empresário Guedes.
– ACPP – do nosso amigo Josean
– CANUTO IMÓVEIS – de Juazeiro, agradecendo ao amigo Fagner Canuto
– CARTÓRIO DO 5º OFÍCIO, do incansável amigo Teófilo.
– CARIRI MOTOS – nossa querida companheira Alciony
– LABORATÓRIO PAULO CARTAXO do estimado André Barreto
– DROGARIA CARIRI E CARIRI MEDICAMENTOS – dos grandes empresários Freire e Socorrinha
– PROGRAMA MULTIMÍDIA do prestigiado Marcelo Fraga
– SORVETERIA BAKANAS do casal bacana Candice e Fábio
– CP PNEUS do parceiro Ramon
– LOJA PEGADAS do empresário Beto Coelho
– PREFEITURA MUNICIPAL DO CRATO, com o Prefeito Samuel Araripe sempre nos apoiando
– SESC CRATO – na pessoa fantástica que é a Carla Vanessa.
– CRATO TÊNIS CLUBE – obrigado ao companheiro Danja, sempre parceiro das nossas produtoras.

O voto limpo – Emerson Monteiro

Diante das intransponíveis dificuldades para validar a lei da Ficha Limpa, só resta agora aos eleitores a responsabilidade direta pelo assunto e cuidar de limpar todas as impurezas do seu precioso voto já nas eleições do corrente ano.
Os pressupostos da chamada Ficha Limpa mexeram com previsões de antecipar em um ano a matéria de cunho eleitoral, gerando questionamentos desde os tribunais regionais até chegar ao Supremo.
Por essas e outras razões, porém, o escore apertado de 5 a 5, na votação dos ministros, bem demonstra o quanto custa reverter hábitos numa política dominada por caciques tradicionais aferrados ao comando.
Quando as forças em jogo dispuserem de energia suficiente para reformar as instituições políticas envelhecidas, só então haverá esperança de evoluir no voto com as mudanças para realizar o sonho da verdadeira democracia.
Enquanto não ocorrer, no entanto, caberá, mais do que nunca, aos eleitores escolher os candidatos dignos, bem preparados, honestos e trabalhadores.
Instrumentos básicos dos destinos nacionais, eles irão definir o futuro, nos vários setores da vida pública. Os escolhidos mandarão chuva durante quatro longos anos da paciência do povo. Chegarão ao trono cobertos das grandes oportunidades e dos maiores direitos. Achar-se-ão investidos na autoridade com imunidades, foros especiais e proventos generosos, à custa de uma nação pobre e cofres esvaziados.
Em qualquer outra situação, o mais modesto do eleitor estudaria com rigor, mediria, pesaria, examinaria, avaliaria como gosto suas preferências. No comércio, nas compras dos mercados, butiques, nos sacolões e freiras, restaurantes, bancas de revistas, locadoras, etc.
Nas cabines eleitorais, todavia, a situação ganha conotação de quem quer elevar alguém ao sétimo céu da política, ofertar cheques em branco, depositar noutras mãos valores morais e bons costumes, família, segurança, educação, alimentação, e muito mais.
Por isso, trate de exercitar a seleção dos seus candidatos com a vista descoberta, olhos de bom senso, no fiel cumprimento do dever e das leis da consciência, no justo do possível. Porquanto, seremos responsabilizados pelo bom andamento dos negócios democráticos conquistados ao preço das lutas heróicas das gerações que nos antecederam e nos confiaram à continuação dessa história de imensos valores positivos.

A COMÉDIA DA MALDIÇÃO NO DRAGÃO DO MAR

A MAIOR COMÉDIA DE TODOS OS TEMPOS!!!
5 ANOS EM CARTAZ!!!

DIA 29 (QUARTA) DE SETEMBRO DE 2010, 20h
TEATRO DRAGÃO DO MAR (FORTALEZA-CE)
ENTRADA: 1KG DE ALIMENTO NÃO PERECÍVEL

Cia. Cearense de Teatro Brincante
Texto e Direção de Cacá Araújo

Mais de 10.000 pessoas já viram o espetáculo que traz a fantástica história de Ana Expedita, uma bela jovem que se amanceba com o vigário e é condenada à terrível maldição de virar mula-sem-cabeça!

O espetáculo teatral A COMÉDIA DA MALDIÇÃO, de Cacá Araújo, encenado pela Cia. Cearense de Teatro Brincante, da cidade de Crato-CE, conseguiu um feito inédito no Ceará: durante três dias seguidos (sábado, dia 18, domingo, 19, e segunda, dia 20 de setembro) lotou o Teatro Rachel de Queiroz em duas sessões por noite. “Platéias maravilhosas se revesavam prestigiando os artistas, foi inesquecível, uma grande página de nossa história. A segunda sessão começava depois das 10 da noite e o público esperava disputando espaço, afirmou o cenógrafo França Soares.”

As próximas apresentações da peça serão no Teatro Dragão do Mar, em Fortaleza-CE, dia 29 de setembro de 2010 (quarta-feira), inserida na programação do 1º Festival SATED das Artes; em 15 de outubro, no XXI Festival de Teatro de Acopiara-CE; e no dia 30, também de outubro, no Teatro Marquise Branca, em Juazeiro do Norte-CE, convidada para as comemorações alusivas aos 25 anos da Cia. de Teatro Livremente.

A Cia. Cearense de Teatro Brincante completará 5 anos de existência no dia 11 de novembro de 2010, mantendo em cartaz, desde então, o espetáculo A COMÉDIA DA MALDIÇÃO, que já circulou por diversos lugares além do Crato: Araripe-CE, Nova Olinda-CE, Juazeiro do Norte-CE e Sousa-PB.


















ELENCO:
Cacá Araújo: Tandô / Carla Hemanuela: Mãe Luzia / Charline Moura: Irmã Francilina / Jardas Araújo: Cantador / Edival Dias: Padre Sebastião / Joênio Alves: Dono da Bodega / Jonyzia Fernandes: Ana Expedita / Joseany Oliveira: Leide Zefa / Josernany Oliveira: Brincante da Mula / Lifanco: Violeiro / Lílian Carvalho: Beata Carmélia / Lorenna Gonçalves: Cibita / Márcio Silvestre: Vigário Felizberto / Orleyna Moura: Viúva Fantina / Paula Amorim: Ladra / Paulo Henrique Macêdo: Fotógrafo Jorjão / Samara Neres: Cantadora

TÉCNICA:
Texto e Direção Geral: Cacá Araújo / Assistência de Direção: Orleyna Moura / Cenografia: França Soares e Cacá Araújo / Sonoplastia: Cacá Araújo / Iluminação: Danilo Brito / Maquiagem: Carla Hemanuela e Joênio Alves / Figurino: Orleyna Moura, Joênio Alves e Carla Hemanuela / Guarda-Roupa: Luciana Ferreira / Operação de Som: Emerson Rodrigues / Operação de Luz: Danilo Brito / Música: Lifanco e Cacá Araújo / Designer: Felipe Tavares / Produção Executiva: Mônica Batista / Produção Geral: Sociedade Cariri das Artes

(RE) CONSTRUINDO A IDENTIDADE CARIRI

Brevemente, podemos dizer que identidade é aquilo que se é: “sou índio”, “sou branco”, “sou negro”. Dessa forma identidade parece ser algo positivo, (“aquilo que sou”), uma característica particular um fato autônomo. Esta, por sua vez, também, possui uma relação de dependência da diferença quando digo: “sou índio” estou diferenciando, negando; “não sou negro”, sob esse aspecto identidade é o ponto de origem que define a diferença; dizer o que sou implica dizer o que não sou.Podemos ainda, dizer que é o resultado de atos de criação, não são elementos da natureza, não são essências, ela é ativamente produzida, é uma produção cultural e social da cultura e dos sistemas simbólicos que a compõem.

A identidade “ser índio”, não pode ser vista, compreendida fora de um processo de produção simbólica, ela, só possui sentido em relação com uma cadeia de significados formados por outras identidades étnicas. A afirmação da identidade dos grupos sociais traduz o desejo desses grupos sociais, garantirem o acesso privilegiado aos bens sociais. A identidade está sempre ligada ao poder; incluir, excluir (esse pertence, esse não pertence), demarcar fronteiras (nós e eles), desenvolvidos e primitivos o que mostra a utilização de uma forma de classificação estruturada em torno de oposições binárias.

Há sempre nos grupos a busca de uma identidade como norma, a identidade normal é natural, desejável, única, essa possui tal força que nem é vista como uma identidade e, sim, como a identidade, por exemplo; numa sociedade de supremacia indígena “ser índio” não é considerado uma identidade.

No caso dos processos de reconstrução de identidades étnicas é comum o uso de mitos fundadores, a construção de símbolos étnicos: a língua e os mitos são elementos centrais nos processos de reconstrução identitária, pois, a memória coletiva é um fenômeno importante construído coletivamente e submetido a flutuações, transformações, mudanças constantes que muito contribuem com o sentimento de identidade, ou seja, o sentido da imagem de si, pra si e para os outros.

No processo de reconstrução de identidades étnicas há três elementos essências a serem observados: a unidade física, (fronteira de pertencimento ao grupo), a continuidade dentro do tempo, o sentimento de coerência (os diferentes elementos que formam um indivíduo são efetivamente unificados).A reconstrução da identidade coletiva dos remanescentes Cariris é, então, todos os esforços que o grupo tem feito longo do tempo, todo o trabalho necessário para dar a cada membro do grupo o sentimento de unidade, de continuidade e de coerência.

Após essa breve abordagem do resgate da identidade étnica Cariri, podemos dizer que; essa retomada esse resgate, se situa no campo da identidade coletiva resgatada uma vez que esta é percebida pelo contraste de um grupo ante outro grupo.

Contudo, é suficiente para entendermos o processo de retomada da identidade Cariri na comunidade de Monte Alverne em Crato, nos situarmos no campo da identidade considerando-a como um sistema de representações e símbolos que estão contidos em estórias, memórias, e imagens que servem de referência para esse grupo.

Francisco Filemon Souza Lopes
Aluno de Graduação do Curso de Ciências Sociais – URCA
Atuante na Pesquisa sobre Identidade Étnica Cariri