Arquivos mensais: abril 2010

O risco das generalizações – Emerson Monteiro

Onda recente de notícias trouxe aos meios de comunicação ocorrências de pedofilia no seio da Igreja Católica, revelando as marcas humanas no seio da milenar instituição e sua longa história. Pessoas, sobre as quais pesavam responsabilidades extremas para o encaminhamento moral das novas gerações, no momento seguinte se veem no foco de acontecimentos ilícitos, a permitir o crivo da civilização que explora ao máximo o sensacionalismo e tende a precipitar conclusões, numa época fértil em denominações religiosas.
Defronte do quadro das mazelas verificadas no interior da maior e mais tradicional condutora de fiéis do Ocidente cabem algumas interpretações que signifiquem algo complementar aos libelos acusatórios impiedosos levantados.
A boa ciência reclama serenidade, invés de precipitação, nos sérios julgamentos. Porquanto há caldo volumoso, ainda a ser considerado, de serviços validos creditados aos quantos conduzem a Barca de São Pedro, como se costuma chamar a Igreja.
E no andar dos conceitos, desponta na memória o trecho da vida de Jesus quando lhe foi trazida ao exame uma mulher adúltera, que entre os judeus sofreria execução pública por causa do crime praticado, no império da lei vigente.
Perguntado qual sua posição ante a sentença, o Divino Mestre devolveu aos maiorais daquele povo, prontos exercer a pena e matar a mulher, as célebres palavras evangélicas: “Quem estiver sem pecados, atire a primeira pedra” (João 8, 1-11).
É isso que vem ao pensamento, na sede justicialista dos que reclamam justiça fria e cruenta aos delitos identificados nos grupamentos católicos, de algumas localidades do mundo, a esquecer aspectos valiosos de sensatez do conjunto católico, nas eras da sua história, evidenciando a exclusiva falibilidade humana dos níveis individuais de cada crime, o outro nome da generalização preconceituosa.
Igualmente, quase sempre os autores das severas condenações esquecem dos débitos da humanidade para com os sucessos multiformes da Igreja Católica em lances benfazejos. Apontar, de modo único e fatal, ordenar a pronta lapidação da instituição como responsável exclusiva pelos defeitos da raça composta de muitos indivíduos, que deve também ao espírito da justiça cristã sua vasta formação de mentalidade civilizadora, sujeita impor aos bons dores fruto de pecados particulares de uma parte desse todo, a denotar parcialidade e ingratidão.
Nisso a História prescreve um exame consciencioso dos casos indesejáveis e suas imediatas reparações, rumo aonde o joio nunca seja o trigo, sem pretender generalizar motivos parciais, coerência esta que ensina a Verdade, nas promessas do eterno Amor.

O Político & O Correto

É fácil perceber, em nós brasileiros, a tendência inequívoca à catalogação. Parecemos um funcionário de supermercado com sua maquineta, pronto a etiquetar todos que nos cercam. Tendemos a não observar a individualidade das pessoas e as separamos por grupos de forma segregatória e preconceituosa. Os judeus são pães-duros, os portugueses burros, as louras debilóides, os árabes desonestos, os homossexuais safados, os africanos pobres, os índios preguiçosos, os paulistas trabalhadores, os cariocas malandros… e por aí vai. Estes critérios são reiteradamente explorados em piadas de toda espécie e amplificados, de língua em língua, nas rodinhas de praça, nas mesas de bar, nas barracas da praia. Superficialmente até parece engraçado e, apreciado por indivíduos fora dos grupos atacados, a coisa é tida como uma brincadeira carinhosa. Para todos efeitos, não existe nenhum preconceito no Brasil. O caldeirão étnico que fundiu a terra brasilis traz no seu bojo a franca idéia de que aqui todos convivem harmoniosamente, que todos respeitam galhardamente as diferenças várias : de cor, de raça, de gênero, de religião, de condição financeira, de opção sexual. No dia a dia, no entanto, virada a primeira página do nosso livro de história,a beleza da capa se esfuma : o Brasil tem uma cultura profundamente discriminatória. Rico nunca vai preso; a mulher tem um salário bem menor que o do homem; a homofobia é uma realidade do nosso cotidiano; o tráfico de influência é uma moeda fortíssima; a cor da pele influencia em muito na seleção de Recursos Humanos.
Gilberto Freyre foi visionário quando vislumbrou que a fortaleza da cultura brasileira se encontrava justamente nessa diversidade . As arestas existentes vão se aplainando, caminhamos para uma lindíssima confluência cultural e étnica. Só que o Brasil ainda é uma criança, brincando de esconde-esconde nos seus tenros quinhentos anos. Muitos grilhões ainda precisam ser quebrados. Há menos de duzentos anos deixamos de ser colônia portuguesa; há somente cento e vinte anos enxotamos a monarquia e a escravidão. Há pouco mais de cem anos, também, abrandamos a Inquisição. Tantas chagas não cicatrizam rapidamente e, mesmo quando fecham, permanecem cicatrizes que só o tempo ajuda a amenizar.
Certamente terá sido pensando nisso tudo que a Secretaria Especial de Direitos Humanos criou, em 2004, uma “Cartilha Politicamente Correto & Direitos Humanos”. Num governo popular, cujo presidente vindo das classes mais desfavorecidas certamente terá sentido na pele uma enxurrada de preconceitos os mais variados, a cartilha pretendia, ao menos oficialmente, cortar do uso cotidiano palavras tidas e sabidas como preconceituosas. Já tínhamos leis anteriores que combatiam a prática do preconceito: a 3688 ainda de 1941 e 7716, mais recente, de 1989. Acreditamos que é indiscutível o poder que estas leis tiveram em balizar as relações dos brasileiros na convivência com suas diferenças. A possibilidade de abertura de processos educa de maneira drástica os indivíduos. As mudanças, no entanto, se importantes , são quase sempre de superfície. As transformações culturais demandam tempo. No fundo, o preconceito apenas se mimetiza e muda suas formas. O empresário já não chama o funcionário de negro, pois isso pode dar cadeia, mas o boicota de todas as formas possíveis pois ainda o considera inferior , apesar do discurso. Ele já o havia etiquetado previamente, às vezes até inconscientemente, e o colocado na prateleira dos inferiores, por conta da coloração da pele.
Pois bem, a Cartilha carrega consigo dificuldades parecidas. A intenção parece ótima , mas de bem intencionados até o Democratas está cheio. Reflitamos sobre algumas dessas incongruências. O primeiro ponto é que a palavra ou a expressão não existem isoladas do discurso. Se eu digo, por exemplo: — Caboclo velho, o emprego é seu, você sempre foi um grande amigo da família! O “Caboclo velho” parece ser uma forma carinhosa de tratar uma pessoa, e pode não ter qualquer viés de preconceito. Por outro lado, se se diz : — Isso só podia ter sido feito mesmo por um afro-descendente! Temos uma discriminação visível, independente da palavra politicamente correta.
O segundo ponto é que , em algumas situações, o uso da cartilha ajuda afastar as pessoas. A indicação , por exemplo, de sempre tratar as pessoas como “eles e elas”, “senhores e senhoras”, evitando o plural no masculino que, historicamente, incluía todos, parece criar barreiras entre as pessoas. Seria melhor, por exemplo, que para compensar, nos próximos mil anos se utilizasse a forma feminina no plural para se referir a todos. Uma outra questão importante é que as palavras são muito parecidas com as pessoas. Elas envelhecem e, frequentemente, saem de moda. Vejam, por exemplo tertúlia , baile, flerte, película… hoje são termos totalmente obsoletos. Não bastasse isso, no seu dinamismo, a língua muda com o tempo, os costumes, as gerações. O termo politicamente correto nesse momento pode já não ser amanhã. “Bárbaro”, por exemplo, nos últimos tempos pode denominar uma coisa bem legal, já não é o adjetivo repugnante que aparece em “crime bárbaro”. Muitos verbetes, inclusive , tomam outros significados e dimensões. O verbo “denegrir”, lembrem, advém etimologicamente de negro e, na sua origem, é preconceituoso, mas hoje, já não tem nenhum resquício dessa conotação. Chamar um motorista de “barbeiro”, hoje, já não tem ligação direta com o cabeleireiro. Chamar uma moça de mulata é bem diferente o significado que se depreendia disso no Século XIX; mais frequentemente se trata de um elogio. Comunista hoje já não come criancinhas. Há que se falar ainda das sérias dificuldades que teremos em tornar de uso corriqueiro algumas definições politicamente corretas. Trocaremos : surdo, cego, mudo por “portadores de necessidades especiais”. A língua no seu dia a dia busca rapidamente a Lei do Menor Esforço. Vai ser complicado a fixação do termo fora da língua culta, em pouco eles poderão ser chamados de “pornes”.
A intenção da Cartilha é ótima mas é bom lembrar que não será por conta dela que os apenados terão celas mais dignas; os afro-descendentes conseguirão iguais condições de trabalho; os homossexuais e as mulheres sofrerão menos violência; os portadores de necessidades especiais conseguirão melhor acessibilidade. A luta está apenas começando. Só caminharemos quando o país deixar de se engalfinhar tentando descobrir qual é a cor mais bonita da aquarela e chegar à conclusão que o multicolorido do arco-iris pátrio é que nos dá a individualidade e a beleza inigualáveis. O politicamente correto tem sérias limitações até nome: no Brasil o político e o correto, historicamente, não se homogeneízam muito bem.

J. Flávio Vieira

Pontos de Solidariedade


No último sábado (24) o Fórum dos Pontos de Cultura do Rio de Janeiro realizou o Pontos de Solidariedade – Uma ação político cultural contra a criminalização da pobreza e por direito a políticas públicas para o conjunto da sociedade. O evento, que aconteceu no Centro do Teatro do Oprimido, na Lapa, contou com apresentações artísticas dos Pontos de Cultura, exibição de vídeos e arrecadação de doações para desabrigados pelas chuvas.

O encontro estava marcado para 16h e aos poucos as pessoas foram chegando e ajudando na arrumação do espaço: organizar arquibancadas, fazer as faixas, selecionar os videos, montar o som gentilmente cedido pelo ponto de cultura do Museu da Maré. Trabalho não faltava – vale lembrar, sempre coletivo.

O Ponto de Cultura América no Coração da Baixada abriu as apresentações da noite com Dona Dalma, do grupo de terceira idade do projeto, que também levou as apresentações de Carmem Miranda (por Nathalia Januzzi) e Ney Matogrosso (por Kleber Moreyra), que colocaram a platéia toda para dançar. O evento contou também com a roda de samba do Ponto de Cultura O Som das Comunidades, trazendo o melhor do samba para a atividade, que encerrou ao som de “Aquarela Brasileira”, de Silas de Oliveira, fazendo-nos sempre lembrar da bela diversidade cultural do país.

Além das apresentações, os participantes assistiram também ao vídeo do prêmio Interações Estéticas (outra ação ligada ao Programa Cultura Viva), ao registro feito pelo Me Vê na TV da 1ª Teia dos Pontos de Cultura RJ/ES realizada em Nova Iguaçu em 2007, e a vinheta de lançamento da 7ª Bienal da UNE Cordel Digital: Imaginário Popular em rede.

Na ocasião, também foi lida a carta “Catástrofes e descaso do poder público na gestão urbana: onde está o problema?”, uma resposta do Fórum dos Pontos de Cultura aos estragos causados pelas fortes chuvas que atingiram o estado nas últimas semanas.

Foram arrecadados materiais de higiene, alimentos não perecíveis, roupas e agasalhos, entregues à comunidade do Borel, atingida pelas enchentes.

Do encontro, realizado durante o Viradão Carioca, saiu a idéia de fazer um circuito de apresentações artísticas dos Pontos de Cultura. Para Firmino, do Centro de Cultura e Educação Lúdica da Rocinha, “poderia ter um palco de dez da manhã às dez da noite que ainda iria faltar espaço pra todo mundo se apresentar”.

Em uma avaliação feita pelos presentes, poderia ter havido maior participação do Fórum dos Pontos de Cultura no evento. Mas, de uma forma geral, conclui-se que foi importante a realização da atividade, que arrecadou doações em uma ação que além de cultural, também teve caráter político. Para Carla Daniel, do Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Infância (Ciespi), uma das participantes do Fórum, “estes são momentos importantes de construção coletiva que nos fazem caminhar, rememorar e até questionar o que queremos e, sobretudo, o que podemos”.

Mais informações sobre o Fórum dos Pontos de Cultura do RJ: http://forumdospontos.pontaodaeco.org/pontosdecultura

Confira abaixo a carta lida no encontro:


Catástrofes e descaso do poder público na gestão urbana: onde está o problema?


Aos que tiveram a vida ceifada nas ultimas semanas em função da catástrofe do início de abril, e as familias que estão convivendo com esta tragédia, os nossos profundos sentimentos!

O fórum dos pontos de cultura do estado do rio solidariza-se com todas e todos que moram em morros; encostas; beira de valas, valões, próximos a rios, periferias e baixadas.

Setores elitistas da nossa sociedade sempre discriminaram e culparam os pobres, por morarem em lugares impróprios, como divulgado por representantes públicos nos meios de comunicação. A política publica sempre foi a de remoção!!!

“Se moramos onde moramos não é simplesmente porque queremos, mas, pelo que restou do que nos foi negado historicamente, pela ausência de políticas habitacionais, desde a abolição da escravidão neste país.”

Não é opção. É falta de opção.

As prefeituras e o governo estadual deveriam garantir prevenção básica nos morros, como poda de arvores, coleta seletiva de lixo, muros de contenção de encostas, fechamento de valas e etc. como ocorre no “asfalto”. Alem de planos de emergência de defesa civil para a população e a oferta de moradias dignas.
O governo federal ter um planejamento urbano de médio e longo prazo. Dentre outras ações que poderiam evitar tanto sofrimento.

A falta de políticas públicas contribuiu para um grande déficit habitacional no Brasil, segundo o movimento de luta por moradia. Há centenas de imóveis públicos fechados pelo estado do rio afora e que poderiam servir de moradia, assim como dezenas de fábricas que se encontram fechadas na Avenida Brasil e via Dutra, por exemplo.

O Fórum dos Pontos de Cultura do Estado do Rio exige políticas públicas sociais na área da habitação e gestão urbana, sobretudo, respeitando os aspectos culturais locais, parte importante dos direitos básicos de todo cidadão.

Importante frisar que fora da política não há solução. Somente através de uma ação política articulada e democrática com a participação dos moradores teremos alternativas para a questão.

Abaixo o crime do esquecimento e do descaso de tantas outras tragédias.

Não as remoções unilaterais e autoritárias sem a participação das comunidades.

Urbanização e serviços básicos da cidade nos morros já!!!

Cumpra-se o estatuto das cidades.

Fórum dos Pontos de Cultura, 24 de abril de 2010.


Estudantes do Polivalente se preparam para espetáculo “Nós, o estopim”

O espetáculo pretende interagir com o público e fazer uma grande brincadeira popular no dia 27 de maio no Sesc Crato.

Preparação do Espetáculo “Nós, o estopim” movimenta os estudantes da Escola de Ensino Fundamental e Médio Polivalente Gov. Adauto Bezerra no Crato. O Espetáculo reúne diversas linguagens artísticas, como teatro, dança, performance, música, poesia e audiovisual.

O espetáculo será apresentado no dia 27 de maio no Teatro do Sesc Crato e faz parte do projeto desenvolvido pela instituição chamado “Performance Poética e Armazém do Som”.

“Nós, o Estopim” é composto de fragmentos de cenas e acontecimentos em que o público a todo instante é instigado a participar. As poesias engajadas de Rosemberg Cariry, Salete Maria, Patativa do Assaré, Cacá Araujo e Alexandre Lucas narrará o discurso do espetáculo numa mistura entre a linguagem contemporânea, a cultura de massa e as manifestações da tradição popular.

Cerca de 50 estudantes deverão participar da apresentação. A idéia é aproveitar as habilidades dos estudantes. Para participar do espetáculo, os alunos passarão por oficinas de teatro, malabares, dança e produção de máscaras.

O espetáculo conta com a parceria da Companhia Cearense de Teatro Brincante, Coletivo Camaradas, Projeto Nova Vida, EEFM Polivalente Governador Adauto Bezerra Crato, Projeto Nova Vida.

Escola de Artes Paralisada…

UMA VERGONHA!

Mais uma vez nos deparamos com uma situação vergonhosa e que vem tornando-se constante na ensino superior caririense: GREVE.

A Escola de Artes Violeta Arraes Gervaiseau da Universidade Regional do Cariri enfrenta mais uma vez uma situação lamentável em relação ao inicio das aulas devido à carência de professores.

O Semestre 2010.1 deveria ter iniciado dia 22 de abril, mas, na Escola de Artes não iniciou.

Nós alunos de Artes Visuais e Teatro nos reunimos no último dia 26 de abril e conversamos sobre a atual situação, onde chegamos a conclusão que os cursos não poderiam continuar com toda essa problemática, pois o quadro que atualmente se encontra são: 8 turmas, 4 do curso de Artes Visuais e 4 do curso de Teatro, nestas 8 turmas há um total de 19 disciplinas sem professores o que inviabiliza o inicio deste semestre e de futuros semestres.

Essa situação lastimável representa o cenário atual da formação superior em Artes tão sonhada para a região do cariri e só vem confirmar o descaso do Governo estadual em relação ás necessidades dos alunos dos cursos de Artes Visuais e Teatro que serão os futuros formadores das gerações que estão por vir.

O Governador do Estado do Ceará Cid Ferreira Gomes autorizou o concurso público para reposição de professores efetivos onde houvesse vacância, tendo em vista 60 vagas para professores onde 7 estariam destinados para Escola de Artes 4 em Artes Visuais e 3 em Teatro, o que não soluciona o preenchimento das vagas necessárias para o fechamento da nossa grade curricular, pois para iniciarmos pelo menos 2 semestres contínuos precisaríamos no mínimo de 10 professores para o funcionamento dos cursos.

Vimos por meio desta solicitar que o Governo tome medidas que atendam á real necessidade dos cursos esforçando-se para GARANTIR o seu funcionamento e que a população da região junte-se a nós nessa luta e cobre do governo uma atitude correta.

Franklin Lacerda

Artista Visual e aluno

do 5ª semestre do curso de Artes Visuais

Comentário sobre o trabalho de Geraldo Junior

Música: Geraldo Junior

April 23rd, 2010
 
Sexta-feira é dia de relaxar, deitar numa boa rede e uma boa música escutar.
A partir de hoje, a sexta-feira será o dia de trazer  aqui para o blog o que estamos escutando em nossa agência. Compartilharemos com vocês colegas, clientes e parceiros, um pouco do som que rola por aqui e nos trás a inspiração de cada dia.
Geraldo Junior
Geraldo Junior – Foto: Junior Panela
Começaremos com o CD – Calendário – O Tempo e o Vento, do músico Cearense Geraldo Junior, que, no momento, é o som mais “ouçado” na agência.

E para aqueles que gostam da boa música e do verdadeiro forró, aproveitem para saber um pouco mais sobre a história do Geraldo, assistir vídeos, ver fotos e até mesmo fazer o download do cd, através do seu site www.geraldojunior.com.br
Aproveitamos para parabenizar este cabra da peste que representa a nossa região à altura e desejarmos todo sucesso do mundo.

Vejam a matéria original no blog Leriado:

http://vf2.com.br/leriado/2010/04/musica-geraldo-junior/

As cidades atuais – Emerson Monteiro

Nas suas origens, a cidade surgia como solução dos problemas de uma humanidade solitária, assuntada em face das intempéries naturais. Quando os seres humanos notaram que a ordem individual das pessoas precisava encontrar alternativas comuns para seus problemas, naquele momento decidiram abrir mão dos valores da paz pessoal em nome da formação dos aglomerados coletivos e seguros.
E agora, transcorridos milênios de experiências, o que vemos são essas cidades lotadas de interrogações quanto a um futuro melhor, onde os dramas de que as pessoas fugiram ao deixar a selva apresentam face talvez tão pavorosa quanto no início da grande aventura social.
Às portas das residências urbanas batem hoje demandas de tão difíceis respostas que agoniam o espírito moderno como garras afiadas a pescoços descobertos. Em velocidade estúpida, o crescimento desordenado das populações já invade áreas de risco inadequadas e inóspitas; a construção de moradias anda a passos lentos em relação ao número de habitantes; as distâncias impõem milhões de transportes que abarrotam vias de circulação e tornam lentos os percursos entre a casa e o trabalho; a sobrevivência reduz conceitos morais em níveis jamais suportados de perversão, ocasionando guerra de classes e desconfiança mútua entre as pessoas, num somatório desordenado de vícios e violência, na coletivização da insegurança e da promiscuidade, tudo levando de roldão o sonho dourado da paz às raias de pesadelos e desencantos avassaladores.
Diante disso, os caminhos da política, velha reserva das respostas negociadas na praça pública, tornam-se tortuosos e ineficazes para oferecer frutos doces de honestidade a que se propunham nos primórdios.
As cidades, em consequência disso, acordam, dia após dia, na longa fila de espera dos novos meios promissores, e a natureza humana apenas amargura pela vida o descumprindo de seu papel de aprimoramento em grupo na força da paciência e da esperança.
Sob este impacto de mais desafios do que de satisfação segue o barco da história, a repassar às outras gerações aquilo que caberia aos contemporâneos resolver com habilidade, concluímos a título de um diagnóstico antes das soluções urgentes necessárias.

Golf X Yacht

Matozinho estava em festa. Envergara roupa de gala para a solenidade. Cordas de bandeirolas cortavam diagonalmente as ruas , amarradas em palmas de coqueiros, fincadas espaçadamente ao chão, bordeando a rua em toda sua extensão. . A banda cabaçal do maestro Bizarria , periodicamente, cruzava as calçadas, acompanhada de um bando de meninos, entoando cocos e marchas. Fogos ribombavam nos céus, como em noite de São João. A praça da matriz estava atapetada de barracas que vendiam passa-raivas, filhoses , roletes de cana, bolo de puba e outras iguarias em meio ao exército de garrafas de aguardente nas prateleiras. O esboço de um parque de diversões se estendia para as ruas laterais com canoas, carrossel, roda gigante, gangorra. Era o início das comemorações dos vinte e cinco anos da emancipação política da cidade. A programação preparada pela prefeitura era diversificada e caótica. O sacro e o profano faziam-se o verso e o anverso da mesma medalha. Missas, bingos, novenas, sambas, água benta, corrida de bicicleta, pau de sebo, discursos oficiais.
Fechando as festividades que se iniciaram na quinta feira, o domingo prometia : um jogo de futebol sensacional, uma espécie de FLa-FLu da região que envolvia as equipes do Milionários Golf Clube de Bertioga e o valoroso e querido Juventus Yacht Ckub de Matozinho. O clássico que ficou conhecido popularmente como MI-JU . Um embate histórico de antecedentes trágicos preocupantes. Nos últimos vinte anos, sempre que as duas equipes se encontravam, o saldo de feridos , mortos e desaparecidos terminaram por tornar o evento quase que inviável. Fato furado, tripa arrastando pelo chão, canela trincada, pescoção, unha arrancada, de um tudo já se tinha visto nos jogos entre os dois times. A coisa ficou tão feia que até se pensou em mudar a modalidade para vale-tudo, ao invés de futebol. Coisa de deixar um Hooligan indignado.
Pois bem, mas Matozinho é no Brasil e aqui o esporte preferido é o futebol. Até porque a infra-estrutura é simples: uma bola que pode ser confeccionada até com meia, umas traves improvisadas, um terreno baldio… A organização do evento cuidou para que os riscos pudessem ser minimizados. Mandou que se limpasse o campo cuidadosamente, roçando e arrancando as pedras mais pontudas; remodelou as traves com madeira nova e gastou mais de três quilos de cal para demarcar os pontos básicos: grande e pequena áreas, meio do campo, marcas dos pênaltis, perímetro total do campo. Cuidou ainda para que os atletas do Juventus tivessem a melhor alimentação, se concentrando na fazenda do Coronel Serapião Garrido, chefe político local. Simplesmente porque o time não poderia perder, já que se comemorava uma data festiva de Matozinho e um resultado desfavorável seria uma desonra irreparável para a história gloriosa da vila. A primeira grande enrascada veio rápido. Quem seria o juiz de uma partida tão disputada e de tantos e previsíveis riscos? Foram aventados vários nomes, Serapião, no entanto, deu a palavra final. O melhor seria convocar Dr. Irineu Carrera. Não era só por causa do sobrenome do homem , não! Dr. Irineu era o primeiro médico daquelas brenhas, atendia toda a região — pobres, remediados e ricos — , além de tudo todos o admiravam pela simplicidade. O esculápio contava incontáveis compadres e comadres nas cidades vizinhas. E mais, frisou Serapião, tem autoridade! Quem diabos vai querer brigar com ele ? E se adoecer no outro dia, meus amigos, de quem vai se valer?
Procuraram um Carrera ocupadíssimo nos seus afazeres e que relutou na missão. Não entendia muito de futebol, não tinha preparo físico para agüentar, apesar do sobrenome, correr campo acima, campo abaixo por noventa minutos. Serapião, no entanto, fincou pé, não era homem de levar um não para casa e o doutor não teve outro jeito a não ser enfronhar-se no campo minado. Quando a comissão deixou o consultório ele ainda pensou com sua bata: era mais fácil tentar resolver aquela pendenga lá na Faixa de Gaza!
O nome do juiz foi aceito com entusiasmo lado a lado. Sabia-se da sua autoridade indiscutível, além de tudo, teriam o médico ali perto, em pleno campo de batalha, pronto a encanar os braços quebrados, pontear as cabeças lascadas, atender os traumas múltiplos e esperados.
No domingo, o estádio improvisado fervilhava de gente. Todas as árvores ao redor curvavam-se ao peso dos torcedores, como se fora uma espécie de cadeiras numeradas. Convencionou-se que o time da casa jogaria de camisa e o Milionários, apesar do nome, nu de cintura para cima, para facilitar a identificação dos jogadores. Às três da tarde as equipes já estavam em campo, prontas a começar o embate. Um estrado mais alto foi posto de um dos lados para acomodar as autoridades locais : o delegado, o juiz, o padre; Sindé Bandeira, o prefeito e o velho Serapião Garrido. Após a execução do hino Nacional pela bandinha, Juvenal fogueteiro atiçou o estopim de umas dez dúzias de fogos. De repente, percebeu-se uma falha: Cadê o Dr. Irineu? Nada do juiz adentrar em campo. A organização , rápido, soltou meia cento de vaqueiros atrás do homem. Corre prá lá, pergunta de cá, terminaram encontrando o cabra, meio capotado, da farra do dia anterior. Estava com uma ressaca de matar, na casa de uma teúda e manteúda sua ali na rua do Caneco Amassado. Avisaram da urgência : só estava faltando ele, todas as autoridades esperavam impacientes. Carrera informou que estava impossibilitado de apitar por conta da ressaca, não tinha nem condições de se mexer na rede, como diabos é que ia correr noventa minutos no sol e ainda soprar apito? No campo, a galera já se agitava e as autoridades num calor digno de Terezina, já se coçavam. Convocaram, então, Serapião que teve que usar técnicas dignas da NASA. Botou um chapéu grande na cabeça do doutor , montou-o num burro e levou-o ao campo. Convocou um menino para puxar a alimária . Carrera, então , montado no burro, puxado pelo menino, de chapéu na cabeça e apito no beiço, passou a cumprir suas funções legais. O time atacava , o menino puxava o burro no sentido da trave adversária; a defesa desarmava, o menino dava meia volta e puxava o burro, com o juiz, no sentido contrário. Um sobe e desce infernal.
O pau comeu solto. No começo do segundo tempo, já haviam sido expulsos nove jogadores da Juventus e oito do Milionários, isso sem falar nos outros sete que saíram contundidos. O resultado, para desespero de Matozinho, continuava 0 X 0. Os matozenses ansiosos percebiam que aquele placar terminaria por anuviar a beleza da Festa de Bodas de Prata da cidade. O que se esperava terminar com Chave de Ouro, corria o risco de escorregar para flandres ou latão. De repente, a tragédia. O Center-ralf, “Zé Bigorna” da Juventus, derrubou, na pequena área, o Center-forward do Milionários: “Tiziu”. Faltavam exatamente dois minutos para o fim da partida. Irineu , o menino e o burro, estavam em cima do lance e o juiz não teve dúvida: apitou a penalidade máxima contra o time de Matozinho. O estádio manteve um silêncio sepulcral, parecia o Maracanã em 50, após o gol de Giglia.
Num átimo a população percebeu o tamanho do holocausto: a festa se acabava, a honra da cidade maculava-se definitivamente e, perdendo dentro do terreiro, serviriam de magofa para todo o sempre na região. Ninguém nunca imaginou que o MI-JU terminasse numa hecatombe daquelas.
No camarote, o Coronel Serapião demorou a entender o que se estava passando. Percebeu, no entanto, que existia alguma coisa errada. Não entendia nada de futebol, mas pela cara da torcida, pressentiu tudo. Chamou “Marreco”, seu assessor direto, e perguntou o que estava acontecendo. “Marreco” com voz entrecortada tentou explicar, inconformado:
— Tamo lascado, Coronel, o juiz marcou um pênalti contra a gente e o jogo já tá quase acabando…
Garrido, pediu mais detalhes:
— E que diabo é que é pênalti, homem de Deus ?
“Marreco” sussurrou aclarando a questão:
— É uma falta contra nós. Eles vão botar a bola naquela marquinha ali perto do gol e vão chutar contra nossa trave !
O Coronel insistiu em mais detalhes:
— E nós vamos botar quantos cabras na barreira pra ataiar a bola, seu “Marreco” ?
“Marreco” , então, o pôs a par do tamanho da bronca:
— Num tem barreira não, Coronel, bate é direto… É difícil não ser gol… Vamos perder dos Milionários, será possível ? o Senhor vai deixar bater esse pênalti, coronel ?
Serapião respirou fundo, meio capiongo e falou:
— Direto… pois a coisa é feia, seu “Marreco” ! Mas juiz é juiz, autoridade é autoridade, nós temos que respeitar, num tem jeito… Vai ter que bater o tal do pênalti sim !
“Marreco” aflito, perdeu as esperanças:
— Tamo fudido então! Vamos perder! Mas como é que pode, coronel? Um desaforo desses dentro da casa da gente !
Neste momento, Garrido levantou-se de garrucha na mão e fechou questão:
— Não! O juiz apitou vai ter que bater! Não desfaço autoridade de ninguém. Agora vai bater o pênalti do outro lado, contra o “Milionários”! Do lado de cá não tem fila da puta nesse mundo que bata pênalti, ou eu não me chamo Serapião Garrido! Joviu, seu Marreco ?

J. Flávio Vieira