Arquivos mensais: dezembro 2009

O ovo do sonho

Por um momento ainda tentou acreditar , enquanto cantarolava: “Eu sou o bom, sou o bom, sou o bom….”, tentou acreditar que a imagem refletida no espelho do banheiro era a sua . Era sim aquele ali era o “Negro Gato de Arrepiar” , o tremendão espedaçador de corações; não havia nenhuma dúvida. Há pouco recebera o convite de um Cara, convidando-o para uma Tertúlia, uma reunião jamais imaginada: os mais importantes Conjuntos musicais do país: The Fevers, Os Pholhas, Os Golden Boys , ali estariam num encontro inimaginável e histórico. Ensaiando os passos ziguezagueantes do Twist, arrancou do Guarda-roupa a velha Calça Lee , boca de sino; o empoeirado sapato cavalo de aço; a Camisa Volta ao Mundo e o negro blusão de couro. Com habilidade arqueológica, exumou da gaveta o colarzão metálico e o pôs cuidadosamente no pescoço, após vestir toda aquela indumentária em feitio de armadura medieval que, não entendia bem porque, ainda ontem tão perfeita, hoje mal cabia no modelo. Aplacou um pouco o cheiro de mofo das vestes com o inconfundível : “Topaze” da Avon. No momento exato em que banhava a vasta e negra cabeleira com a insuperável Brilhantina Glostora , é que lhe veio o primeiro sobressalto: havia algo de errado com a lâmina do espelho( Ah essa tecnologia moderna!): a juba refletia-se estranhamente rala , teimando em não fazer topete e em não cair nos ombros, e, possivelmente por conta do reflexo da florescente, os cabelos mostravam-se grisalhos, como se alguém (quem sabe, o tempo?), numa daquelas freqüentes gozações, lhe tivesse atirado Maizena. Rapidamente desviou o olhar para as costeletas : duas botinas de cano largo, que ali estavam tal e qual um elmo : de fazer inveja ao próprio Elvis. Solfejando: “Vejam só que Festa de Arromba, noutro Dia eu fui parar”… folheou desordenadamente a velha agenda, até encontrar o telefone da Mariazinha : Será que ela ia para a Tertúlia? Tantas vezes me rejeitou “só porque sou pobre demais”, pensou. Quem sabe ,hoje, a lábia tradicional, a cantada tantas vezes insulsa não faria efeito? Tentou discar várias vezes. Não entendia por que , sempre atendia uma voz chata e monocórdica pedindo para verificar novamente o número, que não tinha 07 dígitos, dizendo ser de uma tal de Telemar . Nem sequer falava na SERTESA.
–Encontro com ela, por lá!
Na rua buscou com os olhos o famoso “Mustang Cor de Sangue”. Como só avistasse um fusquinha estranhamente familiar, entrou cantando “Meu Calhambeque, bibite…” Ah! Mas o carango não quis pegar na chave, pois aí pegou no tranco mesmo : “With a Little Help From My Friends”. Saiu em disparada, como que derrapando nas tortuosas curvas da estrada de Santos e ia matutando com seus colares: “Existem mil garotas atrás de mim .
Entrou no Clube. Aos poucos, na penumbra, foi reunindo a velha patota. Estavam lá , alegres todos , mas um pouco distantes , como se atônitos se mostrassem sobreviventes de alguma catástrofe longínqua e impalpável. O Rum com Cola foi desanuviando os semblantes e , em pouco, estavam todos no ponto, morou? No palco, os Fevers apareceram quentes como nunca. Enquanto os Pholhas tocavam, alguém se lembrou, discretamente, de algum outro tipo de folha bem mais inflamável e que rolou incandescente de mão em mão , levando, magicamente, os jovialíssimos Golden Boys a brilharem em feitio de cometa, como certamente nunca tinham resplandecido até então.
–“Bicho, olha quem tá ali!”
Não soube nunca ao certo quem teve, na rodinha, aquela iniciativa. Olhou do lado e ali estava, a paixão da sua vida; aquele broto a que mais amou . E dela, até aquela data, sequer ao menos tinha ganho um beijo, um toque mínimo que fosse… ou seria por isso mesmo que tanto ainda a amava? Algum louco já dissera ela tinha se casado e separara há pouco tempo, mas agora, não tinha nenhuma sombra de dúvida: tinha sido, ao certo, um simples namoro, uma volátil chuva de verão. Mariazinha era a mesma menina na sua saia plissada, nos seus olhos negros, profundos e expressivos ; no seu sorriso sensual, leve e enigmático. Tentou balbuciar alguma coisa, algo assim como: “Você é o tijolinho que faltava na minha construção”… mas percebeu que todas as palavras pareciam supérfluas e desnecessárias: a orquestra atacava de “And I Love Her “. Simplesmente tomou-a nos braços e começaram a dançar num espaço infinito, etéreo e atemporal, como se passado e presente houvessem se fundido: como se a vida tivesse se iniciado naquele exato momento, rompendo com estardalhaço o ovo do sonho que havia hibernado por tantos e tantos anos…

J. Flávio Vieira

A filha de Jefté – Por Emerson Monteiro

Primeiro, Jefté fora discriminado pelos herdeiros de seu pai, Galaad, em face de nascer de uma prostituta, ainda que considerado um valente guerreiro. Afastou-se do meio dos irmãos filhos legítimos do mesmo pai e viveu na terra de Tod, quando, então, se viu cercado de pessoas menos consideradas, vindo a formar e capitanear um exército de miseráveis.
Passado algum tempo, os parentes que o abandonaram sofreram ataques de povo vizinho, os amonitas. Diante da constante insegurança que se instalara, acharam por bem recorrer à coragem já reconhecida de Jefté, instando-o a liderar a antiga nação, recebendo proposta dos anciões de chefiar as tropas da família e, em seguida, ocupar o trono da tribo.
Na expectativa do que a oportunidade representava, Jefté indicou para si que aceitaria a missão caso obtivesse o êxito nas armas, concordando, pois, em seguir à frente de batalha. Nessa hora, prometeu ao Senhor que, retornando vitorioso ao lar, sacrificaria em holocausto quem primeiro viesse ao seu encontro.
Transcorridos os feitos da guerra, coberto de todas as glórias contra os filhos de Amon, Jefté se aproximava de sua casa em Masfa, onde vivia com a família, quando a pessoa a quem coube lhe recepcionar, em festa de animação, tamborins e danças, ninguém mais seria senão a filha única e adorada, envolta na mais intensa das alegrias.
Por isso, o pai, numa total prostração, exclamou contrafeito:
– Ah, tu me acabrunhas de dor, e estás no rol daqueles que causam a minha infelicidade! – para em seguida confessar a causa das duras palavras: – Fiz ao Senhor um voto que não posso revogar.
Daí, a filha tomou conhecimento de tudo, e resigna-se ao compromisso paterno para com Deus.
Porquanto até ali permanecesse virgem, o que representava razão de infelicidade a não procriação, a filha apenas solicitou um período ausente durante o qual pudesse cumprir, junto de suas amigas, turno de dois meses nas colinas, para, nesse período, chorar a contrariedade de sua virgindade.
Conta a história que deste modo ocorreu. Vencido o prazo concedido, a filha veio a ser ofertada em holocausto, de acordo com o livro bíblico de Juízes, restando ao povo daquele tempo o costume, a cada ano, de os jovens prantearem por quatro dias seguidos a morte da filha de Jefté, o galaadita, raro exemplo de sacrifício humano registrado entre os judeus.

LAPINHAS VIVAS

A influência ancestral dos três principais mundos formadores da alma brasileira permanece pulsante na vida do sertanejo simples, cuja religiosidade se manifesta à flor de seus atos e ditos. E é na efervescência dessa estética universal que nascem e se fortalecem as tradições culturais populares; em nosso caso, resultantes do caldeamento cultural havido entre os indígenas donos da terra, os brancos ibéricos invasores e os negros de várias nações para cá trazidos como escravos.

Lapinha Mãe Celina (Crato-CE)

A Lapinha assume, neste contexto, uma espécie de demonstração da prevalência do cristianismo sobre as crenças e religiões dos outros povos. Entretanto não escapa à aculturação decorrente dessa convivência, sabida por nós nada pacífica ou cordial. J. de Figueiredo Filho, em seu O Folclore no Cariri (1960: p. 32) nos afirma que à Lapinha, “de procedência lusitana, foi acrescentada muita cousa de fonte indígena ou africana, como os caboclos, a canção da formosa tapuia, ou temas inteiramente abrasileirados.” Na mesma obra (pp. 33-39), ilustra seu caráter multicultural verificando a presença do anjo, índios, do sol, da lua, baianas, beija-flor, pastores, vaqueiros… além dos três Reis Magos.

É a Lapinha Viva, pois, a reconstituição dramática popular da visita dos três Reis Magos ao recém-nascido Jesus, com o fim de lhe ofertarem presentes. Sua significação transita da representação quase que ainda medieval, com pessoas interpretando santos, bichos e coisas da natureza como simples e profunda louvação ao Deus-Menino, até a complexa peça de antropologia cultural que traz em si grande parte da história da humanidade. Lá estão não somente símbolos de culto cristão, católico, mas fortes traços que nos remetem aos primitivos tempos em que o homem vivia em diálogo e harmonia com a natureza, assim como elementos que podem “contar” os processos de formação cultural e social da nação brasileira, sem descuidar de nos remeter aos povos ancestrais de antes do encontro em nossas terras.

Hoje, no Cariri, as nossas Lapinhas Vivas apresentam praticamente as mesmas características dramáticas de outrora, sendo acrescidas quase sempre da louvação de um grupo de Reisado, que também representa a peregrinação dos Reis Magos a Belém, pertencendo ambos ao ciclo natalino, e, às vezes, de uma Banda Cabaçal. Quando se juntam os três folguedos, multiplicam-se a beleza estética, o brilho dramático, o riso brincante, o alcance histórico.

O fortalecimento e a difusão do folclore e das manifestações tradicionais populares, a exemplo das Lapinhas, devem servir principalmente à causa do (re)descobrimento de nossa identidade cultural, pois que oferecem uma farta leitura do mundo em variadas dimensões e diferentes tempos. É a história se doando generosamente à elaboração de um novo pensamento, que dê vazão a sinceras atitudes libertárias, que restabeleça o espírito e a festa da dignidade humana, da democracia, do respeito à natureza, da felicidade, do amor.

Cacá Araújo
Professor, dramaturgo e folclorista
Diretor da Cia. Cearense de Teatro Brincante

Teia Brasil 2010: seminário sobre o Programa Cultura Viva recebe inscrições a partir de janeiro

A Secretaria de Cidadania Cultural (SCC/MinC), o setor de Estudos de Política Cultural da Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB/MinC) e a Escola de Comunicação da UFRJ recebem propostas para apresentação de trabalhos no Seminário O Programa Cultura Viva e suas ações como objetos de estudo”, entre os dias 4 e 31 de janeiro de 2010.
O encontro ocorrerá durante a Teia Brasil 2010 – Encontro Nacional de Pontos de Cultura – que terá lugar em fortaleza (CE) entre os dias 25 e 31 de março de 2010.
Serão aceitos trabalhos que tenham como foco de estudo o Programa Cultura Viva (SCC/MinC) e suas ações. O objetivo é apresentação e discussão de estudos que promovam a reflexão e o debate entre estudantes, pesquisadores, professores, integrantes de Pontos de Cultura, gestores culturais e demais profissionais e entusiastas da área de políticas culturais.
Poderão submeter trabalhos pesquisadores, integrantes de Pontos de Cultura, estudantes e estudiosos em geral, desde que respeitados os objetivos e tema do encontro, ou seja, que colaborem para a reflexão, análise e crítica sobre a atuação do Programa Cultura Viva, podendo o mesmo ser focado em uma das ações específica do programa ou em seu conjunto.
As inscrições serão feitas mediante o envio do texto completo, que deverá ter entre 08 e 10 laudas (incluindo as referências biliográficas), Times New Roman 12, espaço 1,5. Na primeira página do trabalho, devem constar os seguintes itens: título do artigo centralizado, em caixa alta e em negrito; nome completo do(s) autor(es) alinhado(s) à direita, indicando em nota de rodapé o(s) vínculo institucional e e-mail do(s) mesmo(s) e resumo de 5 (cinco) a 08 (dez) linhas, com espaçamento simples.
Serão selecionados 20 trabalhos. A comissão de seleção será composta por pesquisadores, professores e técnicos do Ministério da Cultura, do IPEA e da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
O envio do trabalho, assim como outras informações referentes ao seminário, deverá ser feito exclusivamente por e-mail para o endereço politica.cu[email protected], constando em “assunto”: Submissão de Artigo.
Fonte: Divulgação Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB/MinC)

Peru de Natal

Dr. Túlio Montenegro parou por um momento, no pequeno ambulatório de Cirurgia, observando aquela senhora atarracada e gorducha.Ela entrava para a revisão , com um enorme sorriso estampado no rosto. Em meio àquela simpatia explícita, ele disfarçou um pouco o cansaço e sequer percebeu a enorme caixa que ela trazia nas mãos, amarrada desajeitadamente com cordões. Por um buraco ,no topo, em feitio de periscópio, emergia a cabeça negra e o bico vermelho daquilo que demorou muito a perceber se tratar de um peru.”Taqui queu trouxe pro Senhor, Dr. Túlio” — foi logo gritando a velha bonachona, desfiando um rosário de agradecimentos, pelo tratamento recebido e pela cura. Dr. Túlio já se acostumara àquilo e agradeceu do fundo do coração pelo presente. Paciente rico sequer retribui o favor, acha que foi tudo obrigação e reclama das mínimas coisas . Aprendera, no entanto, que os pobres mostram-se assim: agradecidos, despojados e são eles que acabam fazendo ou destruindo famas. É que existem tantos e tantos no país e fazem-se tão solidários entre si, que funcionam como uma grande agência publicitária :levam suas mágoas ou agradecimentos de língua em língua, de casa em casa : vox populi, vox dei .Pensou , enquanto a examinava, após um muito obrigado efusivo, na tarefa , digna de Indiana Jones, para transportar aquele presente do interior do estado até à capital. Primeiro a cuidadosa engorda do bicho, forçando milho de goela abaixo, por alguns meses. E o tratamento dos gogos eventuais? Depois a difícil embalagem da ave tão grande, contida dentro de uma caixa de papelão. Sem falar nas dificuldades do transporte do peru, dentro do ônibus, sob protesto do cobrador de dos outros passageiros. Depois ela ainda teve que empreender a caminhada da rodoviária até o hospital , com o peso da penosa grande e gorda e dos anos da carregadora.Aquilo sim, pensou Dr. Túlio com os botões da bata branca, aquilo sim senhor é que era uma retribuição, um reconhecimento pelo trabalho prestado e que gratificava sua alma bem mais que muitos pagamentos de cirurgias de novos ricos.
Depois que a encorpada paciente por fim deixou o consultório, Dr. Túlio acordou para o problema que agora tinha às mãos. Faltavam ainda uns dois meses para o Natal, morava num apartamento confortável e amplo, mas num apartamento ! Não tinha chácaras. Onde diabos iria hospedar aquele bípede por tanto tempo ? Colocou-o na mala do carro e partiu para casa, após o expediente. Ao chegar, já levou uma bronca da mulher pela aquisição de um novo e incômodo hóspede. “Vai melar tudo, não tem lugar para botar este bicho aqui, é melhor dar para o vigia”.Dr. Túlio, pacientemente, explicou à esposa o esforço da senhora para trazer o presente , não parecia justo e cristão livrar-se da lembrança. Finalmente acordaram que o peru ficaria amarrado na área de serviço , esperando para nutrir a ceia de natal dos Montenegro. O bicho acomodou-se por lá. Manteve aquele ar meio passivo, aquele olhar vívido e atravessado e só soltava sua salva de gluglus quando a filha menor de Dr. Túlio, punha-se a incentivar a ave com assovios.A menina, aos poucos foi se afeiçoando ao peru. Sua cachorrinha poodle, Filó, com o passar dos dias, criou uma amizade estreita com o bicho, a tal ponto que só dormia com a cabeça recostada nas suas asas. O afeto da criança terminou por contagiar a babá , a cozinheira e, por fim, a mãe que descobriu a importância da amizade natural que brotou dentro de sua casa e que de alguma maneira contagiou a todos.
Semana antes do Natal, Dr. Túlio Montenegro lembrou-se de um outro desafio. Diferentemente dos perus da Sadia, era preciso matar aquele animal enorme, de véspera. Quem diabos sabia mais fazer isto ? Depois do galeto congelado, do chester temperado, todo mundo desaprendera o ritual macabro : embebedar o peru com aguardente, sangrá-lo friamente , quando já estivesse grogue, pôr na água fervente, despelar e tirar os canhões… Desesperou-se quando descobriu que já não existiam, nesta geração, carrascos de peru! Alguém no hospital informou de uma atendente de enfermagem que era metida em magia negra e que possivelmente ainda devia manter a frieza necessária para tamanho assassinato. Procurou-a e combinou com ela, quase que clandestinamente, como se premeditasse um crime, a possibilidade de realizar este trabalho sujo. Um pouco a contragosto a empreita foi acertada.
Véspera de Natal, a calamidade! Dirigiu-se à área e pediu à cozinheira que colocasse o peru na caixa pois ia levá-lo ao sacrifício. Aí veio a avalanche: a filha começou a chorar e a gritar, a cozinheira e a babá , emburradas adiantaram que não preparariam o peru abatido e a esposa, berrando , avisou logo que se ele inventasse de matar o bichinho, simplesmente não haveria clima nenhum para se fazer a ceia de natal.Até Filó latia sem parar como se acuasse tatu. Dr. Túlio, diante de tantos advogados peruanos, não teve outro jeito, senão recuar. No outro dia, iluminou-se com a certeza de que nunca tinham feito uma ceia mais imersa no espírito natalino. Na área o peru e Filó como que reconstituíam a majestosa cena da manjedoura . Aos amigos e colegas que a partir daí, cientes da história, o perguntavam quando ia matar o peru, ele respondia com o sorriso que havia roubado daquela humilde senhora do interior :
— O peru, meus amigos, vai morrer de velho, agora ele já é Montenegro !

J. Flávio Vieira

Um projeto de referência para o Ceará


A Cerâmica Gomes de Mattos (CGM), localizada no Crato, faturou R$ 1,324 milhão ao se tornar credora do Banco Mundial que adquiriu em outubro deste ano 114 mil créditos de carbono da CGM

Há quatro anos, o geólogo e empresário Ronaldo Gomes de Mattos ouviu pela primeira vez que podia ganhar dinheiro ao reduzir a poluição proveniente dos fornos de sua empresa cerâmica. Com faro empresarial, apostou todas as suas fichas no ainda pouco conhecido mercado de crédito de carbono. Depois de muitos investimentos e anos de incertezas, a sua empresa, a Cerâmica Gomes de Mattos (CGM), no Crato, vem ganhando grande visibilidade nacional e internacional ao se tornar um dos credores ambientais do Banco Mundial.

A instituição internacional adquiriu em outubro deste ano 114 mil créditos de carbono de sua empresa, referentes a 2007 e 2008 deste projeto. Uma transação financeira que rendeu R$ 1,324 milhão à indústria cearense. Considerando que um crédito de carbono equivale a uma tonelada de de dióxido de carbono (CO2) evitado, a cerâmica do Crato evitou a emissão de 114 mil toneladas de CO2 para a atmosfera através de projeto de substituição do combustível dos fornos e melhoria da logística de transporte.

O Banco Mundial comprou esses créditos para neutralizar suas próprias emissões de poluentes geradas no dia-a-dia de seus escritórios. Ou seja, ao comprar os créditos da CGM, o Banco compensa voluntariamente suas cotas de poluição incentivando financeiramente uma empresa para que a mesma continue a investir em projetos de cunho socioeconômicos e ambiental.

Ronaldo relembra que o interesse dos empresários do setor no assunto era pequeno anos atrás, tanto que ele ficou praticamente sozinho em uma palestra sobre mercado de crédito de carbono, em São Paulo, durante um importante congresso da atividade ceramista em 2005. Na época, ele já administrava junto com o irmão Everardo a empresa que leva o nome da família.

Contatos
O seu interesse naquela palestra rendeu bons contatos com administradores de uma empresa europeia com escritório no Brasil, a Carbono Social Serviços Ambientais, cujo trabalho é focado no desenvolvimento de projetos para o mercado de crédito de carbono. Disposto a apostar neste mercado, Ronaldo passou um ano agregando conhecimento deste novo nicho econômico e discutindo com os consultores as diretrizes ecológicas para seu empreendimento.

“Tratava-se de um desafio, já que as ceramistas sempre estiveram na lista dos grandes vilões do meio ambiente no País“, avalia. Afinal, as matérias-primas para produção de tijolos e telhas não são consideradas as mais ecologicamente corretas. A má fama vem, especialmente, pela utilização em escala de carvão e lenha de desmatamento como alimentador dos fornos que realizam a queima das cerâmicas. (Sandra Nagano)

FOTO: Igor de Melo.

Inscrições para Mostra de Tecnologias Sustentáveis vão até 31/01/2010

Estão abertas as inscrições para a Mostra de Tecnologias Sustentáveis 2010, promovida pelo Instituto Ethos paralelamente à Conferência Internacional – Empresas e Responsabilidade Social, que acontecerá entre 11 e 14 de maio de 2010, no Hotel Transamérica, em São Paulo.

Organizada anualmente desde 2008, a Mostra reúne tecnologias sustentáveis com alto potencial e viabilidade de implantação e tem despertado enorme interesse nos visitantes de todas as partes do país.

Qualquer pessoa ou organização pode inscrever gratuitamente quantas tecnologias desejar. A exigência é que a tecnologia inscrita ofereça solução para desafios à sustentabilidade e esteja classificada em uma ou mais das seguintes categorias:

– Tecnologias Verdes – que se concentram no uso racional de recursos naturais, água e energia, na valorização da biodiversidade, na redução ou reaproveitamento de resíduos e na mitigação das emissões de carbono;
– Tecnologias Inclusivas – que privilegiam a inclusão econômica, a valorização da equidade, a acessibilidade, a sociodiversidade, o combate à pobreza, a valorização do conhecimento tradicional e o acesso e garantia aos direitos e políticas públicas;
– Tecnologias Responsáveis – que focalizam a integridade, o combate à corrupção e a transparência, bem como o controle social dos agentes públicos e econômicos e o trabalho decente.

Inscrições e informações pelo site www.ethos.org.br/mostra2010, até 31 de janeiro de 2010. Outras informações podem ser obtidas pelo e-mail [email protected]

É a Treva: Rumo ao Desastre


Leonardo Boff
Teólogo

Uma jovem e talentosa atriz de uma novela muito popular, Beatriz Drumond, sempre que fracassam seus planos, usa o bordão:”É a treva”. Não me vem à mente outra expressão ao assistir o melancólico desfecho da COP 15 sobre as mudanças climáticas em Copenhague: é a treva! Sim, a humanidade penetrou numa zona de treva e de horror. Estamos indo ao encontro do desastre. Anos de preparação, dez dias de discussão, a presença dos principais líderes políticos do mundo não foram suficientes para espancar a treva mediante um acordo consensuado de redução de gases de efeito estufa que impedisse chegar a dois graus Celsius. Ultrapassado esse nível e beirando os três graus, o clima não seria mais controlável e estaríamos entregues à lógica do caos destrutivo, ameaçando a biodiversidade e dizimando milhões e milhões de pessoas.

O Presidente Lula, em sua intervenção no dia mesmo do encerramento, 18 de dezembro, foi a único a dizer a verdade:”faltou-nos inteligência” porque os poderosos preferiram barganhar vantagens a salvar a vida da Terra e os seres humanos.

Duas lições se podem tirar do fracasso em Copenhague: a primeira é a consciência coletiva de que o aquecimento é um fato irreversível, do qual todos somos responsáveis, mas principalmente os paises ricos. E que agora somos também responsáveis, cada um em sua medida, do controle do aquecimento para que não seja catastrófico para a natureza e para a humanidade. A consciência da humanidade nunca mais será a mesma depois de Copenhague. Se houve essa consciência coletiva, por que não se chegou a nenhum consenso acerca das medidas de controle das mudanças climáticas?

Aqui surge a segunda lição que importa tirar da COP 15 de Copenhague: o grande vilão é o sistema do capital com sua correspondente cultura consumista. Enquanto mantivermos o sistema capitalista mundialmente articulado será impossível um consenso que coloque no centro a vida, a humanidade e a Terra e se tomar medidas para preservá-las. Para ele centralidade possui o lucro, a acumulação privada e o aumento de poder de competição. Há muito tempo que distorceu a natureza da economia como técnica e arte de produção dos bens necessários à vida. Ele a transformou numa brutal técnica de criação de riqueza por si mesma sem qualquer outra consideração. Essa riqueza nem sequer é para ser desfrutada mas para produzir mais riqueza ainda, numa lógica obsessiva e sem freios.

Por isso que ecologia e capitalismo se negam frontalmente. Não há acordo possível.O discurso ecológico procura o equilíbrio de todos os fatores, a sinergia com a natureza e o espírito de cooperação. O capitalismo rompe com o equilíbrio ao sobrepor-se à natureza, estabelece uma competição feroz entre todos e pretende tirar tudo da Terra, até que ela não consiga se reproduzir. Se ele assume o discurso ecológico é para ter ganhos com ele.

Ademais, o capitalismo é incompatível com a vida. A vida pede cuidado e cooperação. O capitalismo sacrifica vidas, cria trabalhadores que são verdadeiros escravos “pro tempore” e pratica trabalho infantil em vários países.

Os negociadores e os líderes políticos em Copenhague ficaram reféns deste sistema. Esse barganha, quer ter lucros, não hesita em pôr em risco o futuro da vida. Sua tendência é autosuicidária. Que acordo poderá haver entre os lobos e os cordeiros, quer dizer, entre a natureza que grita por respeito e os que a devastam sem piedade?

Por isso, quem entende a lógica do capital, não se surpreende com o fracasso da COP 15 em Copenhague. O único que ergueu a voz, solitária, como um “louco” numa sociedade de “sábios”, foi o presidente Evo Morales: “Ou superamos o capitalismo ou ele destruirá a Mãe Terra”.

Gostemos ou não gostemos, esta é a pura verdade. Copenhague tirou a máscara do capitalismo, incapaz de fazer consensos porque pouco lhe importa a vida e a Terra mas antes as vantagens e os lucros materiais.

Idéias sobre uma política cultural para o século XXI

Por Alexandre Barbalho
Professor de História da UECE

Este texto, como o título indica, não trata da gestão cultural propriamente dita. Por gestão cultural entendo um conjunto de técnicas, de instrumentos, oriundo dos saberes administrativos, gerenciais, e aplicado ao setor da cultura. Em outras palavras, a gestão cultural pode ser definida como um conjunto de táticas, ou melhor dizendo, um conjunto tático de ações administrativas. Tático, em seu sentido etimológico, takticós, que significa “capaz de pôr em ordem”, capaz de ordenar.

Em vez de pensar já na ordenação do fazer cultural, gostaria de refletir mais estrategicamente. Ou seja, sobre algo que é anterior à gestão cultural; sobre algo que lhe de dá ânimo, alma. Gostaria de falar, portanto, de política cultural.
Ou mais especificamente, gostaria de levantar algumas idéias que eu considero estratégicas para uma política pública de cultura adequada a este nosso século.
Aqui cabe definir o que entendo por política cultural. Não se trata, por exemplo, da definição encontrada no Dicionário crítico de política cultural, organizado por Teixeira Coelho. Segundo o verbete do dicionário, política cultural seria uma “ciência da organização das estruturas culturais”.
Entendida assim, ela estaria mais próxima do conceito de gestão cultural do qual falava há pouco. Algo próximo de um saber instrumental, para usarmos um termo adorniano.
Para mim, política cultural significa atuar na criação, circulação e fruição de bens simbólicos. Esta atuação implica reconhecer que esse sistema processual, que é a cultura, se organiza como um campo, o campo cultural, que possui valores, capital e poder específicos.
Neste campo cultural, atuam diferentes atores ou agentes, que podem ser indivíduos (como, por exemplo, os artistas, os produtores, os gestores culturais) ou instituições (como os museus, os centros de cultura, as bibliotecas, as secretarias e as fundações de cultura, sindicatos de artistas etc.).
Por sua vez, todos estes atores possuem forças com níveis diferenciados de poder que, constantemente, entram em conflitos, mas também em combinações e alianças.
Partindo desta concepção de campo cultural e de sua política, a questão que se coloca é: Qual o papel do Estado na cultura? Ou de outra forma: Como pensar uma política pública de cultura? E ressalto a palavra pública, pois ela tem uma conotação estratégica ao se contrapor explicitamente, por um lado, à idéia de privado.
Por outro, ao incluir não só o Estado, mas também a sociedade civil como um todo. O que Gramsci denominaria de concepção ampliada de Estado. E isto é o que devemos esperar de uma democracia, de uma re-pública.
Pois bem, acredito que há várias possibilidades de políticas públicas de cultura. Possibilidades pautadas pelas condições econômicas, políticas, sociais e culturais de cada local específico. Fica difícil assim pensar em uma ou várias fórmulas aplicáveis sem discriminação. Se assim fizesse, estaria recorrendo àquele saber instrumental do qual quero me afastar.
Daí porque o título de minha intervenção trata de “uma política cultural” – artigo indefinido e singular – e não de “a política cultural”.
No entanto, o artigo indefinido não significa que algumas coisas não possam ser definidas como ponto de partida. Ao contrário, precisamos fazer previamente uma análise de conjuntura para traçarmos uma política de cultura, qualquer que seja ela.
Aqui gostaria de ser o mais amplo possível. O que implica em não me deter nas esferas local, municipal, estadual, regional ou mesmo nacional. Mas pensar a conjuntura de um mundo globalizado que engloba todas estas esferas, ao mesmo tempo em que as mantém conectadas em uma mesma rede.
E como nomear esta rede? Podemos chamá-la, segundo alguns autores contemporâneos, de “capitalismo mundial integrado” ou de “Império”. Sendo que ambos os termos remetem a um mesmo estado de coisas.
Em um livro recente, Michael Hardt e Toni Negri procuraram definir o Império contemporâneo. Este pode ser entendido como a realização plena do capitalismo em todo o mundo; como a implicação de todas as forças sociais pelo capital globalizado.
No Império atual, já não vivemos sob as ordens de uma sociedade disciplinar moderna, como a definida por Foucault. Mas em uma exarcebação desta, quando a disciplina salta os muros das instituições (como as escolas, as prisões, os asilos etc.) e envolve todo o corpo social. Na atual sociedade pós-moderna vivemos sob as ordens de uma sociedade de controle.
Nas palavras de Hardt e Negri, “a sociedade, agrupada dentro de um poder que vai até os gânglios da estrutura social e seus processos de desenvolvimento, reage como um só corpo. O poder é, dessa forma, expresso como um controle que se estende pelas profundezas da consciência e dos corpos da população – e ao mesmo tempo, através da totalidade das relações sociais”.
Portanto, a força maior do Império contemporâneo está em seu poder sobre a esfera dos afetos; na interiorização dos valores imperiais por parte dos indivíduos; na colonização de suas subjetividades pelo poder imperial. Assim ficamos todos desejando as mesmas palavras, as mesmas coisas. E se instaura a vitória do sentimento e do pensamento únicos.
Outros nomes poderiam ser dados a essa plenipotência capitalista; a essa onipresença do mercado. Como, p. ex., “sociedade do espetáculo”, como nomeou Guy Debord; ou “ordem do simulacro”, como defende Jean Baudrillard.
Mas penso que Hardt, Negri e outros autores afins, não caem no niilismo vigente e apontam os limites do Império e a possibilidade de forças contra-imperiais. Estas residem principalmente na biopolítica, ou seja, em uma política que afirma as potências da vida. O que se dá por meio da capacidade criativa dos homens, de seu trabalho imaterial e afetivo.
Por trabalho imaterial devemos entender aquele que produz um bem imaterial, como um produto cultural, um conhecimento, uma comunicação. É um trabalho profundamente afetivo, comunitário, cooperativo, pois implica sempre na relação entre subjetividades.
Como podemos deduzir, a cultura, campo privilegiado do trabalho imaterial, é um lugar estratégico para nos opormos à sociedade de controle; ao imperativo da mercadoria.
O que não implica desconhecer que também a cultura foi invadida pela lógica mercadológica. Basta consultarmos os números que apontam o lugar de destaque na economia da indústria cultural, ou indústria do entretenimento, como preferem sintomaticamente os norte-americanos.
Mas também ocorre um movimento contrário. Ou seja, a mercadoria agrega cada vez mais um valor simbólico. O que se dá de duas formas. Uma, com a valorização cada vez maior do design na fabricação de objetos os mais diversos: da geladeira ao avião; do liqüidificador à televisão. E outra, com a construção das marcas destes objetos, por meio da publicidade, do marketing.
Ambas as formas são tentativas de destacar os produtos imersos no lugar-comum que é o mercado consumidor. Ao mesmo tempo, a renovação constante do design e da marca, marcada pelo ritmo alucinante da moda, imprimem aos objetos um caráter efêmero, descartável. Assim é criado, ao lado do valor de uso e do valor de troca, o seu valor-signo, como diria Baudrillard.
Diante dessa perspectiva, volto à nossa questão e ao nosso local específico – a de pensar uma política pública de cultura para Fortaleza, para o Ceará, para o Brasil.
Se optarmos por responder a este desafio da biopolítica, que é o que proponho, que é a minha possibilidade de resposta, devemos lutar por uma política cultural que promova, favoreça, intensifique, a invenção e a diferenciação.
Paradoxalmente, para dar conta dos significados que as palavras invenção e diferenciação devem adquirir neste século XXI, recorrerei a um autor de fins do séc. XIX, o sociólogo francês Gabriel Tarde.
Tarde pode ser considerado como um dos fundadores da Sociologia, mesmo não constando, geralmente, nos manuais de introdução sociológica. Isso porque a disciplina, em sua ânsia cientificista, positivista, em busca de um pensamento macro, objetivo, relegou ao esquecimento os pensadores que observavam a sociedade em suas dimensões micro, subjetivas, como Tarde ou Georg Simmel.
Pois agora, faz-se necessário observar o que ocorre nas nossas vizinhanças para podermos dar conta do global. Glocalize-se, um neologismo resultado da junção entre localizar e globalizar, é a palavra de ordem da estratégia contemporânea.
Pois bem, contra as forças hegemônicas e de homogeneização do capitalismo mundial integrado, volto a dizer, devemos promover em nosso espaço de atuação a invenção e a diferenciação.
Por invenção, e aí seguindo as idéias de Tarde, não devemos entender apenas as criações que revolucionam; que transformam radicalmente um estado de coisas; que promovem um salto de qualidade. Mas também são invenções aquelas descobertas mais simples; que ocorrem em nosso dia-a-dia; que afetam quem está próximo a nós, ao nosso lado, em nossa vizinhança.
Por invenção, Tarde entende “todas as iniciativas individuais, não somente sem ter em conta o seu grau de consciência – porque muitas vezes o indivíduo inova no seu íntimo, e para dizer a verdade, o mais imitador dos homens é inovador por qualquer lado – mas ainda sem reparar absolutamente nada na maior ou menor dificuldade e no mérito da inovação”.
Podemos, portanto, qualificar de inovações, de descobertas, as criações mais simples, “tanto mais que as mais fáceis nem sempre são as menos fecundas, nem as mais difíceis são as menos inúteis”. Assim, é preciso valorizar estas idéias imperceptíveis em seu nascimento, acidentais, anônimas, tênues, pois elas engrossam o caldo de criação que é a vida humana.
Por sua vez, esta dimensão imediata não impede que surja uma grande corrente de afetação e que ganhe um alcance social cada vez mais amplo, talvez mesmo global. Em todo caso, como afirma Tarde, é preciso partir daqui, das iniciativas renovadoras que trazem ao mundo, “ao mesmo tempo necessidades novas e novas satisfações”.
Uma idéia assim potencializa uma política cultural. Esta deixa de separar os artistas geniais dos consumidores passivos e vê a todos como possíveis criadores. Ela afeta a todos, não como públicos de uma sociedade do espetáculo, mas como inventores.
Dessacralizando a criação, dessacraliza também a circulação e a fruição. Os museus, os centros de cultura, os teatros, os cinemas deixam de ser locais sagrados, herméticos, e acabam incorporados, apropriados pela multidão. Também não precisa mais que estes locais da cultura sejam imponentes, grandiosos, sofisticados, higienizados.
Assim a criação, a circulação e a fruição da cultura se dão em qualquer local, pois todo local tem o seu saber, a sua inventividade. Temos então uma política cultural inclusiva e não exclusiva; democrática e não autoritária; geradora e não reprodutora.
Por sua vez, promover a invenção é promover a diferença, a diferenciação. O que significa ir contra as linhas de força dominantes do mercado cultural com suas ofertas controladas. Mas também ir contra os movimentos delimitadores das identidades.
Diferir é aumentar a riqueza do corpo social. Identificar é traçar fronteiras, limites, a este movimento. Para Tarde, se há alguma substância definidora do ser é a substância da diferença, da heterogeneidade. O ser é o ser da diferença e não o ser da identidade: “Existir é diferir, e, de certa forma, a diferença é a dimensão substancial das coisas, aquilo que elas têm de mais próprio e mais comum”.
As representações sociais são, antes de tudo, invenções de indivíduos em processos de interação e, ao mesmo tempo, de diferenciação. A qualquer momento pode surgir uma nova idéia. Uma bifurcação ocasionando uma série divergente. Portanto, a invenção renova, faz variar o social, produz diferenças. É a diferença a força inventora do social.
E as identidades, como situá-las nesse processo de diferenciação? Se é possível alguma identidade a partir de semelhanças entre subjetividades diferenciadas, ela se dá por meio da imitação e da repetição. Não há, portanto, identidade pré-existente. Qualquer uma é antes criação de subjetividades permeadas por um mesmo fluxo.
Um indivíduo não se assemelha a outro naturalmente. Eles se tornam semelhantes na medida que um exerce uma ação sobre o outro. Na medida que a diferença de um afeta a do outro e passa a constituí-lo. A identidade, diz Tarde, “é apenas um mínimo, não passando de uma espécie, e espécie infinitamente rara, de diferença…”.
No corpo social, onde a identidade e a diferença se alternam repetidas vezes, “o termo inicial e o termo final são a diferença”. O que vale são as diferenças em si, em suas alteridades. As diferenças podem até ser integradas em uma identidade. Mas esta possível síntese não esgota jamais a força de diferenciação criadora interna a cada subjetividade.
Estabelecer uma identidade como elemento heurístico é definir um território, não o mapa completo do indivíduo, pois todo indivíduo é perpassado por vários fluxos diferenciados e diferenciantes.
Quando uma política pública de cultura promove o discurso identitário ela corre um grande risco de, no fim das contas, colocar em ordem, gerenciar, o processo de diferenciação, que é um movimento de instabilidade, de dispersão. Ela pode acabar instaurar o Idêntico lá onde pulsam as diferenças.
“Todo déspota ama a simetria”, afirmou Tarde. O autoritarismo não aceita a diferença, a oposição. Assim podemos entender porque no Brasil os regimes autoritários de Getúlio Vagas e dos militares tinham tanta obsessão por definir uma identidade nacional, o Ser nacional.
Em um movimento contrário, creio que uma política pública de cultura deva promover o lugar da diferença na sociedade contemporânea. Sociedade marcada por movimentos contraditórios de homogeneização global (certamente a linha de força maior) e de ratificação das diferenças microscópicas. Lugar este que, na tradição egocêntrica e etnocêntrica do pensamento ocidental, foi sufocado pelo peso da Identidade (individual e social).
Pensar a diferença como o personagem de Jorge Luis Borges, Ts’ui Pen, pensava o tempo no seu romance-labirinto O jardim de veredas que se bifurcam. Tal como não há uma Identidade essencial, não existe um Tempo uniforme, absoluto, universal. Mas “infinitas séries de tempos, numa rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos. Essa trama de tempos que se aproximam, se bifurcam, se cortam ou que secularmente se ignoram, abrange todas as possibilidades”. Um tempo, tal como as diferenças, em constante diferenciação.
Para finalizar, gostaria de trazer uma definição de política proposta por Michael de Certeau. Certeau coordenou nos anos 70 uma longa pesquisa para o Ministério da Cultura da França, pesquisa da qual resultaram os livros A invenção do cotidiano e A cultura no plural. Livros que, como os títulos indicam, têm tudo a ver com o que acabamos de falar.
Pois bem, Certeau disse que “a política não garante a felicidade nem confere significado às coisas. Ela cria ou recusa condições de possibilidades. Ela proíbe ou permite: torna possível ou impossível”.
Assim, gostaria de propor uma política pública de cultura que criasse as condições de possibilidades, que permitisse, que tornasse possível. Enfim, uma política cultural que não sucumbisse aos imperativos mercadológicos; que inventasse; que se diferenciasse. Mesmo que errasse mais e acertasse menos, os acertos valerão o investimento.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ADORNO, Theodor W. Cultura y Administración. In: ADORNO, T. W., HORKHEIMER, M. Sociologica. Madri, Taurus, 1986a. p. 53-73.
BAUDRILLARD, Jean. Para uma crítica da economia política do signo. Lisboa, Edições 70, 1995a.
_____. Simulacros e simulações. Lisboa, Relógio d’Água, 1991.
BORGES, Jorge Luis. Obras completas. Vol I. São Paulo, Globo, 1999.
CERTEAU, Michel de. A cultura no plural. Campinas, Papirus, 1995.
COELHO, Teixeira. Dicionário crítico de política cultural. Cultura e imaginário. São Paulo, Iluminuras, 1997.
DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro, Contraponto, 1997.
GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1985.
HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Império. Rio de Janeiro, Record, 2001.
TARDE, Gabriel. Monadologia e sociologia. Petrópolis, Vozes, 2003.
_____. As leis da imitação. Porto, Rés, 1976.

Copiando tudo e pirateando sempre

Por Alexandre Lucas*

O direito a liberdade, a diversidade e ao conhecimento da produção cultural e cientifica da humanidade é furtado pela lógica do mercado capitalista. Um punhado de empresários que formam a grande industrial cultural monopolizam os gostos, os hábitos e impõem a ideologia dominante, como ferramenta para desarmar as camadas populares de uma concepção ampla e critica da realidade. O Artigo XIX da Declaração Universal dos Direitos Humanos é negligenciado a todo vapor, ou será que gozamos do artigo que diz “Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras”.
Uma cultura feita em laboratório e produzida em escala maciça sinaliza para o que Karl Marx apontava “A produção cria o consumidor…A produção produz não só um objeto para o sujeito, mas também um sujeito para o objeto” é neste contexto que é determinado os bens de consumo da alma, como afirma Edgar Morin ao referir-se a industria cultural “A produção cultural é determinada pelo próprio mercado”.
A grande barreira é de ordem econômica. O segmento da indústria cultural, que inclui o mercado editorial, musical, audiovisual, os veículos de comunicação, dentre outros são beneficiado com impostos diferenciados, ou seja, impostos menores, comparadas a outros segmentos da economia. Entretanto, o grande público, não é beneficiado com essa diferenciação, ficando a mercê desta perversa façanha burguesa, tendo em vista que os diversos aparatos jurídicos e a visão mercantilista são avessos a acessibilidade e a democratização da produção cientifica e cultural como componentes para emancipação humana.
O acesso aos bens culturais, ainda continua sendo um grande privilégio para poucos. As camadas populares não tem acesso as salas de cinema, ao livro, ao CD, ao DVD, a internet, a pluralidade e diversidade das linguagens artísticas, as descobertas e aos benefícios da ciência e da tecnologia, pois o acesso é escasso e caro. Vale destacar que existem de fato diversas conexões que sustentam essa exclusão, dentre elas, a legislação do direito autoral, a de concessão para funcionamento das Rádios e TV, a lei que dispõe sobre patentes e o financiamento público para uso privado, a exemplo dos recursos destinados as universidades para pesquisa cientifica e que posteriormente beneficia os grupelhos de empresários ou os recursos públicos que são destinados a produção cinematográfica, que após os filmes prontos, a sua circulação ocorre nas arquibancadas dos Shoppings Centers da vida capitalista.
Por outro lado cria-se o dissenso popular e a alternativa contra o mercado e a favor da democratização da produção cultural e cientifica, notoriamente multiplicam-se as formas de possibilitar que o livro possa ser barateado, através da fotocópia, que a música e o cinema possa ser adquirido por valores acessíveis em qualquer calçada e a internet tornou-se a grande hospedeira de baixo custo que disponibiliza instantaneamente um vasto e infinito acervo bibliográfico, cinematográfico, musical, pictórico, fotográfico, etc. A quem defenda que isso seja uma ilegalidade e criem obstáculos e mecanismos de repressão para impedir esses avanços. Esses são certamente os que estão do lado oposto da emancipação humana e concretamente afinados com os interesses homem/mulher mercadoria.
Concomitantemente, a defesa desta suposta ilegalidade devemos travar uma batalhar pela modificação da legislação atual para que aponte e que reconheça a produção cientifica e cultural como patrimônio da humanidade e que para ela esteja a serviço. É preciso subverter a infame mentalidade privada/capital, impondo uma luta contra a ilegalidade social que é legitimada pela lei mercadológica.
Se a lógica é outra, a nossa também tem que ser outra. Por isso na conjuntura atual só podemos concluir que copia e pirataria é difusão cultural.
*Coordenador do Coletivo Camaradas, pedagogo e artista/educador.